Alma minha, gentil…
Por Helder Sanches • 29 Ago, 2008 • Categoria: OpiniãoAo contrário do poeta, não me irei referir neste artigo a nenhuma alma que esteja de partida. Muito pelo contrário, o meu interesse tem a ver com a chegada de uma alma muito particular: a primeira. Mas, já lá iremos.
Antes de mais, quero deixar claro que as questões que colocarei no ar ao longo deste artigo não têm uma importância directa para a minha interpretação do fenómeno religioso mas, de uma forma indirecta, considerarei relevantes as respostas que alguns crentes poderão dar às mesmas. Convém, talvez, definir o universo de crentes a quem eu acho que as questões deverão interessar; digamos que as questões farão sentido para os menos ortodoxos, para os que não fazem uma interpretação literal da Bíblia e, especialmente, os que aceitam a teoria da evolução genericamente como uma teoria de base cientifica. Para todos os outros crentes este artigo não terá interesse absolutamente nenhum. Assim como não terá para os crentes não cristãos - e mesmo para alguns destes -, uma vez que a definição de alma a que me irei referir será a da tradicional definição da Igreja Católica Apostólica Romana que define alma como a característica essencial do Homem, o seu princípio espiritual e que o aproxima da imagem de Deus e que está para além da vida física, sobrevivendo à morte (este resumo exagerado pode ser controverso mesmo quando excluídos todos os outros crentes, mas as variantes são tantas que irei tentar aproximar-me o mais possível do conceito mais comum no nosso país).
Posto isto, gostaria de saber - porque ignoro se existe alguma “opinião” nesse sentido - a quem é que terá sido atribuída a primeira alma; quando é que, do ponto de vista religioso, um determinado ser passou a merecer da parte de Deus o “estatuto de Homem” no processo evolutivo. Se eu professasse a religião Católica e defendesse a teoria da evolução, não tendo, portanto, uma perspectiva criacionista, esta seria uma questão fundamental para mim. Reparem, do ponto de vista de um ateu, esta é uma questão irrelevante uma vez que o conceito de alma é, à partida, descredibilizado. Contudo, penso tratar-se de uma questão filosófica (ou até teológica, se preferirem) de elevada importância.
A alma enquanto atributo que qualifica o Homem “à imagem de Deus” terá que ter tido um primeiro hóspede. Quem foi o/a felizardo/a?
Nota: Espero que pôr a hipótese na questão final de se ter tratado de um individuo do sexo feminino não seja considerado blasfémia por ninguém.
AHAHAH Gostei muito da última frase!
Uma questão pertinente, ou não.
Mas já que estamos numa de questões, algum crente me poderia dizer de onde vem essa alma? Se a alma, depois do nosso corpo morrer, vai para um universo metafísico (ou o que quer que seja), de onde vem ela antes do nosso corpo estar formado? Ah e outra: se foi um ser omnipotente, vulgo Deus, que criou o universo e o ser humano, quem criou esse deus?
Cumprimentos
Caro Renato,
A abordagen do tema da alma na teologia cristã tem evoluído nas últimas décadas. A ideia da alma como ‘algo’ ou ‘alguma coisa’ que entra e sai do corpo é uma herança da filosofia grega. O conceito de alma foi recebido pela teologia cristã porque permitia explicar por que razão um corpo biológico pode ter uma existência que vai para além de um aglomerado de células. O que é que estrutura as células? Pensava-se que era necessário algo de extrabiológico. Hoje, sabemos que isso não é verdade. Por outro lado, atribuindo à alma uma natureza imortal, parecia estar salvaguardada a imortalidade do ser humano.
O actual Papa explica na sua obra ‘Introdução ao Cristinaismo’ afirma a este respeito o seguinte:
1. “A conceoção grega parte do princípio de que o ser humano é formado por duas substâncias originalmnte estranhas entre si, sendo uma (o corpo) perecível e a outra (a alma) imperecível, de modo que esta última continua a existir independentemente de qualquer outro ser. … O raciocínio bíblico, pelo contrário, pressupõe a unidade indivisa do ser humano, tanto assim que a Bíblia nem tem uma palavra para designar apenas o corpo (separado e distinto da alma); por outro lado, o termo ‘alma’ refere-se, na grande maioria dos casos, ao ser humano inteiro, tal como ele existe com a sua corporalidade.” (p. 255 da edição portuguesa)
2. ” ‘Ter alma espiritual’ quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno e que, por isso, é capaz , por sua vez, de conhecer Deus e de Lhe responder. Aquilo a que, numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar, numa linguagem mais histórica e actual, ’ser interlocutor de Deus’. ” (p. 259 na edição portuguesa)
3. Sobre a ideia de imortalidade e de ressurreição: “o seu conteúdo essencial não é a ideia de uma devolução dos corpos às almas depois de um longo período intermédio; o seu sentido é dizer aos seres humanos que eles continuarão a viver, não devido ao seu próprio poder, mas porque são de tal modo conhecidos e amados por Deus que Ele não permite que eles pereçam.” (p. 258 da edição portuguesa)
Finalmente, se ninguém criou o universo, entao ele crou-se a si mesmo, ou é eterno . Porque não se pode aplicar este mesmo raciocínio a Deus?
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Caro Alfredo Dinis,
Julgo que você tem a nocão que não respondeu à pergunta - muito directa e concreta - do Helder. Ou será que a resposta me escapou nas entrelinhas do ‘mumbo jumbo’ teológico habitual do Sr. Ratzinger?
cumprimentos,
Caro Ernesto (ou Renato),
O texto do Ricardo pressupõe que a alma é algo que entra e sai do corpo, e que portanto entrou num primeiro corpo no decurso da evolução. Mas não é essa HOJE a concepção católica, embora seja a tradicional. Contrariamente ao que se pensa, os conceitos religiosos não se mantêm imutáveis. A concepção de Ratzinger é que a alma não é algo que se ‘tem’. Poderá dizer-me que isto vai contra a crença popular nas ‘almas penadas’, por exemplo, que andam por aí depois de terem saído dos corpos mortos. Mas não é essa a concepção do actual Papa, que é considerado um teólogo cujas opiniões são represenativas do catolicismo.
O conceito de ‘alma’ é da família do verbo ‘animar’, isto é, dar vida. Os gregos pensavam que ‘algo’ tinha que estar ‘a mais’ no corpo biológico para que este tivesse vida. O mesmo pensaram os filósofos e teólogos medievais. Mas hoje sabemos que o corpo tem em si mesmo a explicação biológica da vida. Quando os cristãos falam de vida humana não se referem à vida puramente biológica, mas à vida de relação com os demais seres humanos e com Deus. É o carácter relacional do ser humano que lhe dá a vida especificamente humana. A relação que Deus estabelece com cada ser humano é eterna, não porque esse ser tenha em si ‘algo’ de eterno, mas porque Deus, que é eterno, assegura a eternidade da relação.
Cordiais saudações,
Alfedo Dinis
Caro Alfredo,
Sendo assim a questão levantada pelo Helder Sanches pode ser reformulada de seguinte maneira:
A partir de que momento na história evolutiva da espécie humana é que passamos a “ser queridos, conhecidos e amados de modo especial por Deus”? Depois da ramificação do Australopithecus ou antes? Em que fase exactamente da evolução da espécie e porquê? (se me disser que essa qualidade esteve sempre connosco, então os restantes animais estão em pé de igualdade com o ser humano e a nossa relação com deus não é especial).
Mais algumas notas:
Pelo que percebi essa concepção do Sr. Ratzinger é algo revolucionária. Tão revolucionária que os crentes deviam ser avisados - estou convencido de que 95% ou mais ainda está convencido que o conceito actual de alma defendido pela igreja é ainda a tal coisa extrabiológica que se separa do corpo no momento da morte.
Outro aspecto que não se consegue deixar de reparar é que o conceito tradicional de alma foi abandonado dado que se tornou insustentável em face de descobertas cientificas. Penso que só isto diz muito sobre a forma como a teologia funciona. E depois em que é que o Papa se baseia para avançar assim com novos conceitos religiosos?
Não consigo deixar de pensar que a ideia central dos conceitos teológicos é serem pensados e expostos de uma maneira que transcenda a dura análise racional da ciência. E se essa resistência ao escrutinio cientifico por algum motivo falhar, não há problema: inventa-se um conceito ainda mais rebuscado - que ninguém entende - que resista por mais umas décadas.
“A relação que Deus estabelece com cada ser humano é eterna, não porque esse ser tenha em si ‘algo’ de eterno, mas porque Deus, que é eterno, assegura a eternidade da relação.”
Por outras palavras, quando o ser humano morre, nada resta (dado que nada tem de eterno). Se não resta NADA do ser humano como é que este (que já não existe) pode manter uma relação eterna com deus?
(é por estas e por outras que, para mim, teologia = mumbo jumbo!…
cumprimentos,
Caro Ernesto,
Acredito que Deus mantém uma relação com todos os seres do universo, segundo a capacidade que cada um tem em responder-lhe. Como sabe, o homo sapiens resultou de um processo evolutivo longo e complexo. Não creio quie faça sentido dizer-se qualquer coisa como ‘o primeiro homem com alma começou a existir às meia noite de há dez mil anos”. Isso seria entrar na concepção de uma alma que ou se ‘tem’ ou ñão se ‘tem’. A questão deve ser colocada ao nível da qualidade da relação entre os seres vivos e Deus, e é provável que haja apenas diversos níveis qualitativos entre as várias espécies de seres vivos. Digo´’é provável’ porque isto é apenas uma conjectura. A resposta tradicional à pergunat do início temporal dos primeiros seres humanos capazes de uma relação eterna com Deus é simplesmente que não sabemos.
Quanto à natureza da teologia, há a ideia de que se trata de um discurso que ‘cai do céu’, numa linguagem neutra, sem nada a ver com a cultura humana, incluindo a ciência. Mas essa não é a única concepção de teologia e dos conceitos teológicos, e duvido que algum teólogo a assuma. O discurso teológico tem que acompanhar o desenvolvimento cultural da sociedade em que é produzido, sendo por isso mesmo necessariamente afectado pelas categorias culturais. O contrário é que seria de admirar. Embora o núcleo da fé se mantenha, a sua expressão muda necessariamente. Que Jesus Cristo foi uma manifestação de Deus, por exemplo, faz parte do núcleo da fé. A compreensão deste elemento está sujeita a mudanças. Se para si isto significa que a teologia é um discurso vazio, para mim significa que é um discurso situado.
Diz-me que quando uma pessoa morre nada resta, por isso não pode haver relação. Esta perspectiva parte do pressuposto de que a relação que liga o ser humano a Deus é algo que é exterior a ambos, e que tanto Deus como o ser humano têm uma existência independente um do outro, de modo que um pode desaparewcer e o outro continuar a viver. Mas esta não é a única forma de pensar a relação que une as pessoas. O filósofo Martin Buber disse que a relação é representada por uma só palavra ‘Eu-Tu’, não por duas palavras relacionadas por um traço de união. Os cristãos acreditam que Deus é um só em três pessoas. Não são três deuses porque a identidade de cada um não depende da relação com os outros, ‘é’ essa relação. Nós ’somos relação’, somos tanto mais maduros humanamente quanto maior for a maturidade da nossa relacionalidade.
Se quer que eu lhe explique com maior pormenor como é que tudo se passa quando o ser h~umano morre fisicamente, não espere uma resposta, proque eu ainda não morri. Ratzinger diz que nós sobrevivemos na memória de Deus, o que é um modo metafórico de se exprimir. Actualmente, alguns autores da área da inteligência artificial acrteditam que é possível fazer o download dos conteúdos mentais para o cérebro de silício de uma máquina, na qual continuará a viver a pessoa que entretanto poderá ter morrido biológicamente. Se considerarmos que a vida do ser humano pode dizer-se que é ‘informação’, então mesmo sem corpo nem alma ele pode subsistir desde que haja um suporte adequado. Tudo isto são conjecturas que têm contudo a virtude de nos darem uma perspectiva do ser humano que não desaparece quando o corpo se desfaz, nem pressupõe a existência de uma alma que sai do corpo. Se existe esta perspectiva poderão existir outras. Quando leio nos cemitérios frases como esta: ‘tu não morrerás, viverás para sempre nos nossos corações’, creio que as pessoas têm a intuição de que é possível um existência sem fim. Pelo menos desejam-na. Deverão os cristãos ser considerados insensatos por acreditarem nisso?
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis