Ratzinger e a dinâmica da imutabilidade

Erros repetidos durante séculos tendem a tornar-se eternos, do prisma interno o erro é repetido até saturação ou perda de contacto com a realidade, as ausências de factores de comparação aceleram a avalanche, e a contaminação pela ignorância de massas produz o restante, e na imutabilidade reside o poder de controlo, imutabilidade que requer extremas dinâmicas de luta contra o evolucionismo para que o equilíbrio seja atingido, artificialmente, apenas as moscas mudam…

Do império fascista vaticanista se encontram tais manobras, centralizando-se os poderes se controlam perfeitamente os tentáculos, se no âmago da putrefacção católica se censurar o diálogo e o mínimo pensamento autónomo se consegue a ordem social perfeita, o fascismo máximo e o individualismo mínimo, a troco da deificação da imagem papal se submetem os cordeiros de deus, papolatria no caso específico, ou se revoltam os minimamente iluminados pelo Humanismo, as inquisições surgem…

Josef Ratzinger teve a ascêndencia normal nas normais lides fascistas, as eleições democráticas o são, liberdade total em tudo, apenas as consequências serão diferentes, em 1981 ascende o déspota a líder das inquisições, pomposamente chamadas de Doutrinas da Fé, em forma de Congregação, as mudanças de nome não escondem o mesmo esterco, aos menos atentos talvez… Inquisidor por nomeação papal, Wojtyla sempre se manifestou pela intenssidade do seu fascismo de raposa, nas lides internas as hipocrisias são desnecessárias, os Direitos Humanos não entram nas terras do deus, Secularismo nem pensar, filtro fascista que pode ser emanado em contornos de democracia, é totalmente livre obedecer cega e fanaticamente ao detentor das saias mais foleiras e da maior quantidade de ourevisarias pendulares no pescoço, vulgo papa.

Se nos murmúrios vaticanistas se congeminavam rebeliões, nos urros papais se elaboraram inquisições, Ratzinger deveras habituado às lides nazis, não foi novidade a nova tarefa, perfeitamente se desenrolou o que se tinha de desenrolar, radicalização do dogmatismo, proibição de toda e qualquer teologia de libertação, e sempre assim foi, porque mudar se tudo sempre foi perfeito para o império das sotainas? Aos pés da inquisição caíram Paulo Evaristo, Uta Ranke-Heineman, Pedro Casaldáliga, Gustavo Gutiérrez, Benjamín Forcano, María Catarina Jacobelli, e a lista continua em nomes, que são apenas mais nomes, de salientar aqueles cuja rebeldia mais se salientou, Hans Kung e Leonardo Boff, quem sabe um dia sonharam com uma mínima humanização da seita católica, falha de percepção do contexto pois com certeza.

Entre as inúmeras inquisições católicas ao rebeldes, hereges, infiéis, o que quer que se queira chamar aos acusados de práticas de pensamento, se exemplificará as técnicas das novas fogueiras, não com corpos desta feita, com pensamentos que passa mais despercebido. Desde demissões de cátedras a manipulações de ideologias, se extrai um exemplo simples e típico da inquisição do pensamento, a condenação a “silêncio voluntário”, uma mera contradição dos termos, em lides fascistas a lógica é absoluta, noutras é demencialidade. Assim Boff foi condenado após comparecer no tribunal da inquisição, Sagrada Congregação para a Doutrina Católica se se preferir os floreados e a cabeça bem enterrada na areia, obrigação do silêncio voluntário, anos em lutas desiguais, em perdas de tempo com imutabilidades, e Boff conta a quem quiser ouvir como funcionam as lides internas da seita católica, “Antigamente a repressão da Igreja chamava-se Inquisição e queimava pessoas na fogueira. Depois sentiram alguma vergonha e chamaram-lhe Santo Ofício; de novo se envergonharam e chamaram-lhe Sagrada Congregação para a doutrina da Fé. Hoje a tortura já não é física mas psíquica e com todo um mecanismo de denúncia e informação semelhante aos corpos de segurança do Estado.”.

Hans Kung também demonstrou o que é dedutível, pelo bom-senso e pela História, desprovido da licença de docente eclesiástico, o teólogo suíço sumarizou o contexto vaticanista, “Cada dia se vê mais como o sistema romano se desenvolve como uma ditadura espiritual.”, aludindo às práticas fascistas pelos seguintes temos: “Preservam-se critérios acerca do divórcio e do controlo da natalidade que não são humanos.”.

Da extensa panóplia de inquisições do déspota Ratzinger, saliente-se ainda a acusação ao Vaticano de infantilização pela teóloga Uta Ranke-Heineman, onde as simples mas sempre eficazes alusões a virgindades estúpidas solidificam tal afirmação, “Com a sua mania da virgindade de Maria, o papa levou a cabo um programa de infantilização à escala mundial.”, nada que seja inovador, nada que seja novidade, apenas interessante pela voz de alguém que partilha, ou partilhou, todo um conjunto de afinidades religiosas, o erro foi e é, nascimentos apoteoticamente tortos não endireitam com o tempo, no caso se entortam mais, e a falha de percepção evidente sana-se, e a lucidez brota de um abismo negro de onde não seria suposto um pestanejar de luz. As mudanças são impossíveis no fascismo vaticanista, mudança destruiria o império pelas bases, a única luta é a externa, a conquista de terreno pelo Secularismo até abafar a demencialidade das papolatrias. Séculos de dinâmicas exacerbadas da imutabilidade não caem com lufadas, apenas com rajadas…

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