O Fórum da Fé, Parte 1
Por Rui Janeiro • 24 Ago, 2008 • Categoria: Ciência & Educação, Departamentos, Discriminação Religiosa, Informação Jurídica, Internacionais, Notícias, Psicologia & SociologiaDepois do debate-entrevista do Pastor Rick Warren (Saddleback Valley Community Church ) a John McCain e Barak Obama na passada semana, já aqui abordado, passo a mostrar uma tradução do que mais se destacou, entre vários temas como a liberdade religiosa, aborto, investigação em células estaminais e casamento. A versão integral das entrevistas pode ser encontrada aqui (em inglês).
A fé e a religião são imprescindíveis a quem quer ser candidato à Presidência dos EUA. Esta transcrição procura mostrar as ideias e opiniões de cada um (ou as ideias que procuraram mostrar) dos candidatos em relação a temas polémicos na sociedade de hoje. Outros temas importantes foram abordados, mas procurei restringir este post aos assuntos mais “relacionados com a fé”.
Warren entrevistou Obama durante uma hora. Depois foi a vez de McCain subir ao palco, tendo havido tempo para um aperto de mãos entre os dois candidatos. Enquanto o primeiro era entrevistado, o candidato republicano não pode ouvir as perguntas e respostas que eram sendo feitas.
Começo por Barak Obama.
«Rick Warren: Acreditamos na separação entre Igreja e Estado mas não acreditamos na separação entre fé e política pois a fé é apenas uma visão do mundo e toda a gente tem a sua e é importante saber qual é.
(…)
Rick Warren: Toda a gente tem a sua visão do mundo. Um budista, um baptista, um secular, um ateu. (…) Convidei muita gente para fazer questões e chegaram 200.000 (…) Tenho cerca de 500 nesta secção (…) Como responde a estas questões da visão do mundo? Nem toda a gente vai gostar, mas toda a gente quer saber a sua. (…) Não há dúvidas da sua fé em Jesus Cristo. O que significa para si? O que significa confiar em Cristo numa base diária?
Obama: Acredito que JC morreu pelos meus pecados e que me redimo por ele. É uma fonte diária de força e de sustentação. Sei que não caminho sozinho. Se me afastar do Caminho, sei que posso retomá-lo por onde Ele entender. Significa que os pecados que cometo regularmente possam ser perdoados. Tenho obrigação de não usar apenas palavras mas também actos. Actuando com justiça e misericórdia, caminhando humildemente com o nosso Deus. Penso que, tentando aplicar este comportamento no dia-a-dia posso melhorar um pouco as coisas que faço menos bem ou que não correm como pretendo. Deu-me a confiança para tentar coisas como concorrer à presidência.
Rick Warren: Vamos para o tema do Aborto. 40 milhões desde Roe V. Wade (o caso do Supremo Tribunal que fez jurisprudência em relação ao aborto, declarando anti-constitucionais muitas leis de Estados com base no princípio do Direito à Privacidade). Como pastor tenho que lidar com isto a toda a hora. (…) Até a que ponto é que um bebé ganha direitos humanos, segundo o seu ponto de vista?
Obama: Creio que responder a essa questão com algum detalhe está acima das minhas capacidades, seja por uma perspectiva teológica ou científica. (…) Estou absolutamente convencido que a questão tem uma moral e ética. Por isso penso que quem tente negar a polémica moral e a gravidade do aborto não está dentro do assunto. Mas sou pela escolha. Acredito na Roe V. Wade e cheguei a esta conclusão não porque sou pró-aborto mas porque acho que as mulheres não tomam estas decisões casualmente. (…) O nosso objectivo comum prende-se em como reduzir o número de abortos. Tivemos um presidente durante os últimos oito anos que se opôs ao aborto mas mesmo assim o número não desceu.
Rick Warren: Já votou para se limitar (em relação tempo de gravidez) ou reduzir os abortos?
Obama: Sou a favor, por exemplo, de uma extensão do limite quando há risco da saúde da mãe. Mas, numa perspectiva dos que são pró-vida, tal seria considerado inadequado. Se se acredita que a vida começa na concepção tal não é passível de discussão, pois é um assunto central na fé dessas pessoas. (…) Uma das coisas a fazer é garantir os recursos e ajuda necessária às mulheres que pretendem ter a criança. Demos-lhes os cuidados de saúde, opções para adopção e outras condições necessárias?
Rick Warren: Defina casamento.
Obama: É uma união entre um homem e uma mulher. Para mim, como cristão, é uma união sagrada, Deus está nessa união.
Rick Warren: Apoiaria uma emenda constitucional com essa definição?
Obama: Não.
Rick Warren: Porquê?
Obama: Historicamente o casamento não teve definição dentro da nossa constituição. Foi assunto dentro das leis de cada Estado. Mas vamos directos ao assunto. Uma emenda como essa vai ao encontro das intenções de algumas pessoas relativamente aos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Não promovo esses casamentos mas acredito nas uniões civis. (…) A minha fé e casamento são fortes o suficiente para que possa apoiar alguns direitos civis dos outros que não partilham a minha perspectiva.
Rick Warren: E acerca das células estaminais?
Obama: Agora que conseguimos criar células estaminais a partir de células adultas, para que precisamos de fundos federais para a investigação?
Rick Warren: Apoiaria essa medida para as células estaminais embrionárias?
Obama: Tenha em conta a maneira de como a legislação sobre células estaminais, que foi vetada pelo Presidente, foi estruturada. Só se podem usar embriões que iam ser destruídos, excedentes de tentativas de fertilização in vitro. (…) Creio que é um bom uso para esses embriões pois possibilita o avanço de técnicas para o curo da doença de Alzheimer ou da de Lou Gehrig. (…) As pessoas que são a favor da investigação com células estaminais não andam por aí numa de destruir embriões. (…) Não se ia tolerar uma situação de incentivo à clonagem humana ou qualquer tentativa de restrição à dignidade da vida humana, mas apenas em circunstâncias específicas de modo a possibilitar o avanço científico de modo a descobrir curas.
Rick Warren: O mal existe? Se sim, ignoramo-lo, negociamos com ele, contemo-lo ou derrotamo-lo?
Obama: O mal não existe, quer dizer, vemo-lo a toda a hora… No Darfur, nas ruas das nossas cidades, em pais que abusam dos seus filhos. Tal tem de ser combatido. Nós, como indivíduos, não vamos conseguir expulsá-lo do mundo. Esse papel é o de Deus, mas podemos ser soldados nesse processo. (…)
Rick Warren: Em nome do Bem?
Obama: Na direcção do Bem. E há que ter a humildade em reconhecer que, independentemente das intenções serem boas, tal não significa que as acções sejam boas.
Rick Warren: Oitenta por centro dos americanos acredita que as organizações de cariz religioso fazem um melhor trabalho para a comunidade do que o Governo. (…) Ainda acha que essas organizações devem abdicar do direito em aceder a fundos federais?
Obama: Deve estar a par de um discurso meu deste Verão onde promovi campanhas de cariz religioso. Devemos ter todas as ajudas possíveis no combate à pobreza e à droga. (…) Primeiro que tudo, no financiamento dessas organizações, elas são livres para contratarem quem bem entenderem. (…) Quando há decisões a tomar dentro da atribuição de fundos federais, temos de ter cuidado em não discriminar as pessoas. Tal aconteceu nas administrações Clinton e Bush. (…) Em cinco por cento dos casos há gente que quer contratar gente da sua igreja dentro de um programa financiado a 100% por fundos federais e onde se prestam serviços ao público.
Rick Warren: Por exemplo, durante a crise do Katrina, se quisesse contratar gente extra e usasse fundos federais para esse efeito eu não estaria disposto a pedir só gente que acreditasse no que eu acredito?
Obama: Apenas acho que essas organizações não devem ser beneficiadas nem prejudicadas no acesso a fundos federais pelo simples facto de serem religiosas. (…) E acima de tudo garantir que não se usam os fundos para financiar projectos fora do programa delineado pelo Governo.
(…)
Rick Warren: Em relação à perseguição religiosa, o que é que acha que podemos fazer para acabar com ela em países como a China, Iraque e em outros dos nossos aliados? E não falo só da perseguição ao Cristianismo.
Obama: (…) A nossa relação com a China é complicada. Somos parceiros económicos e eles são, infelizmente, nossos credores, pois não temos tido muito cuidado com a nossa economia. Ninguém por cá quer um conflito militar com a China, por isso queremos gerir este nosso relacionamento com eles de modo a inseri-los por inteiro na comunidade mundial. Mas não se pode ignorar a perseguição que ocorre por lá. É necessário apontar os abusos e a ausência de liberdade religiosa, que penso que é crítica, criando novas normas e um princípio universal de que fé e as crenças de cada um de nós devem ser protegidas. Não somos todos cristãos e há que dar o exemplo. É importante para nós que haja tolerância religiosa aqui nos EUA, o que nos dá vantagem quando criticamos a ausência dela noutros países, engrenando pela lei, direitos e Habeas Corpus e não pela tortura.»
Me contaram ke vários empresários cristãos ocidentais tem excelentes negócios com a China.
[...] seguimento do artigo escrito pelo Rui Janeiro sobre “o Fórum da Fé” deixo aqui (e para terminar da minha parte) um [...]
[...] fica a segunda parte, com John [...]