Causas fracturantes ou insularidade aberrante?

No seu discurso das comemorações dos 500 anos da Cidade do Funchal, Alberto João Jardim, qual evangelista do Atlântico Norte, considerou um desperdício a preocupação do Estado com aquilo a que chama “causas fracturantes”. Sem nunca ter referido quais as causas fracturantes que o preocupam – nem precisava, todos sabemos de quais se tratam (lei da despenalização do aborto, nova lei do divórcio e a mais que necessária lei que confira aos homossexuais o direito ao casamento, como os demais cidadãos) -, disse que estas “traduzem uma vontade exótica e agressiva de quebrar o articulado lógico dos valores pátrios”. E, pergunto eu, quais são esses valores pátrios? Alberto João Jardim responde peremptoriamente: “foi a doutrina social da Igreja Católica a grande base doutrinal para os novos tempos”.

Sem nunca os referir directamente, todos sabemos a que causas fracturantes se referia Jardim: lei da despenalização do aborto, nova lei do divórcio e a mais que necessária lei que confira aos homossexuais o direito ao casamento, como os demais cidadãos.

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Através de João Jardim ficamos ainda a saber que a própria globalização é também um dom de Deus! Bravo, encontrámos, portanto, pelo menos um responsável a quem apontar o dedo pelo fosso cada vez maior entre os países ricos e os do Terceiro Mundo.

Claro que, para Alberto João Jardim, o direito que o povo madeirense tem à sua autonomía não choca em nada com a dependência dos subsídios vindos do Continente…

Gostaria de deixar uma sugestão: uma vez que parece que para Alberto João Jardim e para o PSD-Madeira há leis da República que não são aplicáveis naquele arquipélago, quiçá para defesa do tais valores pátrios e da doutrina social da Igreja Católica, deveria passar a pedir os subsídios à ICAR ou directamente ao Vaticano. Penso que este último estaria disposto a investir num novo Estado confessional.

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5 Comentários

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  1. Ah, o “padrinho” João… impagável.
    Como não consegue ser primeiro-ministro em Portugal, deve estar a fazer “olhinhos” a ser Presidente… da Comissão Episcopal.

  2. Olá,
    Tudo correcto, ao que parece neste texto, menos uma incorrecção muito comum, mas falsa. A Madeira não vive à custa de subsídios do continente. A Madeira tem um of shore fiscal devidamente colonizado por gordos do continente que aqui enriquecem. E existe um interesse generalizado neste of shore, que é o que mais garantias financeiras tem dado à Região Autónoma da Madeira. Sou continental e vivo há uns anos na RAM e continuo sem perceber por que se diz gratuitamente que a Madeira vive à custa de subsídios do continente. Isso seria o mesmo que dizer que Portugal vive à custa de subsídios da europa, ora que catano!!! Ou que Lisboa vive à custa de subsídios que lhe dá a possibilidade de obrar com buracos financeiros monstruosos. Este ponto não é central para o vosso texto, mas a fica a correcção dessa irritante falsidade que de tanto se dizer é tomada como verdade. Estas informações do of shore estão na net.
    abraço e bom work :-)

  3. Hoje é dia do folclore no Brasil.
    http://educacao.uol.com.br/datas-comemorativas/ult1688u12.jhtm

    não vejo diferença entre folclore e religião, afinal ambos lidam com seres imaginários…
    ex: sereia, deus….

  4. Alguém tem que vir em defesa dos valores tradicionais. E quando AJJ fala de “amar o próximo” (coisa que só por si já soa a surreal) não me parece que inclua nesses”próximos” esquerdistas e comunistas, ateus e não crentes em geral, homossexuais, pró-aborto, chineses e quem não seja do PSD Madeira ou que simplesmente não concorde com ele.

  5. Caro Helder,

    em primeiro lugar, estará o novo ateísmo numa cruzada com tudo o que se diz relacionado com a Igreja Católica? Não poderemos fazer da Globalização uma que seja solidária?
    Cumprimentos.

    Ricardo Silvestre, porque razão um ateu gostaria de ser presidente de uma Conferência Episcopal?

    Realista, a que deus como ser imaginário se refere?

    Rui Janeiro, já experimentou perguntar isso a Alberto João Jardim com um email? Quem sabe não obterá resposta para essa dúvida …

    Se expressasse a minha opinição por (causa/fractura):
    - lei da despenalização do aborto/relação mãe-filho(a);
    - nova lei do divórcio/família como célula constitutiva do tecido social
    - lei que confira aos homossexuais o direito ao casamento/casamento como valor fundamental da família

    A fundamentação da Igreja Católica relativa a estes aspectos provém da unidade transdisciplinar do saber científico, epistemológico, antropológico, ético, filosófico e teológico. É uma reflexão que tem sido desenvolvida ao longo de séculos, tem evoluido, o que pode torná-la menos acessível do que devia, ou mais incompreensível do que seria desejado. Infelizmente este não é o espaço adequado para a discutir com seriedade, mas sugiro algumas linhas que têm vindo a evidenciar-se: Deus-Trindade constituído no seu modo como relação (Catherine LaCugna, Denis Edwards, Ted Peters, John McMurray, Walter Kasper); Natureza familial do mundo natural onde a beleza se encontra na harmonia dos contrastes (Alfred N. Whitehead); Teologia do Corpo de João Paulo II (ler e.g. Sexualidade segundo João Paulo II da Principia). Apesar destas linhas poderem entrar em desacordo com pessoas de convicções não religiosas, existem uma série de aspectos que delas emerge que convergem com convicções humanitárias.

    Entre pessoas com convicções religiosas e não religiosas, valerá a pena desenvolver argumentos onde se procura aquilo que nos une e o diálogo naquilo que nos distingue? Acho que este é, certamente, um dos grandes desafios do século XXI.

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