Memória e Testemunho de Aparições

Com base no artigo que o Ricardo Silvestre escreveu”abusos infantis”, vou dar-vos outro ponto de vista que ainda não foi aqui debatido.

Defendo desde já a minha posição, acerca do fenómeno de Fátima, dizendo que foi uma construção e manipulação dessa instituição política que é a igreja. E reparem que utilizaram crianças, que à época eram tidas como inocentes e verdadeiras, não se punha em causa um testemunho duma criança, Hoje sabemos que as crianças mentem, e bem.

Mas vou-vos falar então de testemunho e memória.

Até fins do século XIX, idealizavamos o Homem como portador de uma tendência natural para acreditar no que lhe era dito e no que via, ou seja, acreditava-se na fiabilidade da memória humana, desde que esta não fosse influenciada pelas emoções.

Identificações erradas no século XIX, foram uma das principais razões para que alguns autores se tenham debruçado sobre questões da veracidade do testemunho.

Ainda nos finais do século XIX, organizou-se uma experiência num seminário de Criminologia na Universidade de Berlim por Stern, com vista à análise das declarações das testemunhas, os resultados foram impressionantes do ponto de vista da sua fidelidade, provando a falibilidade da memória.

No geral, supomos que a memória é uma espécie de câmara de vídeo, que grava as imagens que lhe chegam tal como aconteceram na realidade. Quando é necessária a recuperação dessa informação, a projecção é feita sem qualquer distorção, e só quando há um interesse particular é que se falseia os acontecimentos ocorridos. Esta teoria sobre a memória é absolutamente falsa. Uma vez que a memória de um acontecimento é sempre uma impressão e que, embora inconscientemente, a manipulamos para poder armazená-la na nossa memória, fazendo muitas vezes juízos de valor baseados na intuição

Além do carácter pontual das recordações, que se reconstroem a cada evocação, a informação não é memorizada de forma estática e ao evocá-la surge transformada.

Outro dos factores que possivelmente influência este mecanismo são as características emocionais da pessoa e os estados emocionais. Sendo a memória tão plástica e moldável permitindo que cada recordação seja, também, uma reconstrução, é de admitir que as memórias guardadas possam ser alteradas por acontecimentos que ocorreram antes e depois do registo de um facto.

Ora parece-me que já temos aqui alguma informação relevante para a discussão, então manipulamos muitas vezes a informação para poder armazená-la, então a cada evocação, transformamos o acontecimento, sabemos que todas as nossas recordações são influenciadas pelas nossas vivências e pelos nossos traços de personalidade, em suma sabemos que a nossa memória falha e que existem distorções cognitivas e mnésicas.

Sabemos isto tudo e não pomos em causa os relatos dos nossos pastorinhos?

Ainda acrescento, em estado de tensão a nossa memória é influenciada, dado as alterações emocionais e os nossos pastorinhos lembrar-se-iam de tudo ao pormenor, quase se lembravam das virgulas e exclamações da nossa senhora da azinheira…

Sabemos hoje, que quanto mais elaborados são os relatos dum acontecimento, mais manipulado ele está.

Por fim, já ouviram falar de memórias falsas e memórias implantadas? Aos interessados procurar Elisabeth Loftus.

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