Ainda sobre a Jóia de Medina
Por Ricardo Silvestre • 15 Ago, 2008 • Categoria: OpiniãoDeixo neste espaço mais um artigo de opinião de Johann Hari, que continua a mostrar o porque de ser um cronista de grande qualidade.
O Bruno Resende já tinha colocado esta notícia, sobre o cancelamento da publicação de um romance chamado “A Jóia de Medina”. Mais uma vez, com receio da reacção extrema dos muçulmanos em todas as coisas que tenham a ver com os seus preciosos dogmas, o livro foi considerado como sendo “perigoso” e foi “colocado na gaveta”. Mais uma vez, a sociedade ocidental reprimiu a livre expressão e a liberdade criativa com receio do que podia acontecer.
E mais uma vez também, colocamo-nos, no Ocidente, imediatamente de joelhos e com o pescoço à vista para sermos decapitados pela ignorância e ignomínia dos fanáticos religiosos. Mais uma vez, levantámos a bandeira branca sem qualquer esboço de resistência ou de desafio. Mais uma vez mostramos que choramos copiosamente ainda antes do primeiro golpe ser desferido.
Johann expressa a mesma opinião, e tal como aqui e aqui, vou novamente ajudar os nossos leitores que não lêem tão bem o Inglês com a tradução de alguns dos seus pensamentos. Quem está á vontade com a língua de Shakespeare, o artigo original pode ser encontrado aqui.
De Johann Hari:
“O romance “A Jóia de Medina” é um romance que não vai poder ler. Foi escrito pela jornalista Sherry Jones e é sobre a vida de Aisha, uma menina que com a idade de seis anos casou com um homem de 50 anos de idade chamado Mohamed ibn Abdallah. No dia do seu casamento, Aisha estava no exterior da casa onde se consumava essa união a brincar num baloiço. Quando tinha 9 anos, ela foi levada para casa do seu marido. Nesse dia, ibn Abdallah teve sexo com Aisha. Quando ela tinha 14 anos de idade, foi acusada de adultério com a um jovem quase da mesma idade. Depois disso, foi decretado por esse homem que as suas mulheres deviam cobrir o rosto e o corpo.
Mas você não vai poder ler esta história. A não ser que a leia no Corão ou no Hadith. Esse homem tornou-se o “Profeta Maomé”, e por causa disso a nossa capacidade de explorar a história do seu casamento está limitada. Os direitos de publicação da “Jóia de Medina” foram adquiridos pela editora Random House e tinha tudo para se tornar num best seller. No entanto, no meio de receios de haver uma crise igual a do livro “Os versículos satânicos”, ou os cartoons Dinamarqueses, a editora renunciou a publicação do livro.
Muitas pessoas perguntam: porque criticar a religião se é uma tarefa tão díficil. A resposta é: reparem na nossa história. Como é que foi que o Cristianismo perdeu a capacidade de aterrorizar pessoas com fantasmas de pecado e de Inferno? Como é que aconteceu essa religião ter perdido a capacidade de intimidar as pessoas relativamente à partes da sua natureza: sexualidade sendo uma delas? Porque os críticos desses dogmas começaram a mostrar as falhas nessas histórias em questões de moralidade e de lógica.
Se se colocar questões pertinentes sobre religião, a fé é inevitavelmente empurrada para trás, para as esferas do misticismo e da metáfora, para sítios onde se torna mais difícil matar ou morrer por ela.
Mas no que se trata do Islão, muçulmanos cépticos, e os ateístas que os apoiam não podem usar o mesmo método. Eles não podem, perguntar: qual é a moral de uma história onde um homem de 50 anos casou com uma criança, ou que esse mesmo homem massacrou uma vila de Judeus que recusaram ser seus seguidores.
Temos que entender que isolar uma religião de criticismo – com uma vedação electrificada – faz essa religião se manter num estado infantil e fundamentalista. A maioria muçulmana que é inteligente e capaz de colocar estes dogmas em questão, é no entanto mantida em silêncio, ou é intimidada a o fazer (e isso, na melhor das hipóteses). O que seria do Cristianismo hoje se não tivessem existido homens como George Elliot, Mark Twain e Bertrand Russel.
A história de Aisha também leva a uma discussão capaz de romper com outros fundamentalismos. Não podemos dizer que a decisão de Maomé tem de ser avaliada pelos padrões dessa altura. Independente da cultura onde se vive, ou do tempo dessa cultura, ter sexo quando o corpo ainda não se encontra desenvolvido o suficiente para isso pode ser uma experiência dolorosa e traumatizante. Se o exemplo é um mau exemplo, deve ser tratado como tal, e não apresentado de forma a que seja um exemplo de moral. Discutir estas contradições injecta dúvidas: o inimigo mortal do fanatismo.
Existe um movimento para silenciar os críticos do Islão. De um lado, os fanáticos que ameaçam matar a todos os que critiquem, e por outro lado, os críticos que criticam os críticos do Islão, chamando aos primeiros de Islamofóbicos”. Mas ateísmo consistente não é racismo. Pelo contrário: o ateísmo trata todas as pessoas como adultos que são capazes de lidar com questões racionais. Quando sonegamos livros com medo do fundamentalismo, estamos a decapitar uma das mais preciosas liberdades que temos.”
“Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” Heinrich Heine