Indigestões
Por Ricardo Silvestre • 11 Ago, 2008 • Categoria: Nacionais, Notícias“Descobrir a Bíblia através de cores, texturas e sabores. Um apelo ao sentido do paladar é a proposta que o Pe. Tolentino Mendonça lançou ao chefe de cozinha Albano Lourenço. O resultado, «A Bíblia contada pelos sabores», são 40 receitas que mostram bem que a Bíblia também se come.
O biblista, Pe. Telentino Mendonça, acredita que a Bíblia pode ser lida de muitas formas e é, porque não, um livro para se comer. “A Bíblia é para comer, no sentido em que o texto utiliza essa imagem de Deus que oferece a palavra”.
O livro está dividido pelas secções de entradas, sopas, peixes, carnes e sobremesas, num total de 40 receitas. Albano Lourenço, chefe na cozinha da Quinta das Lágrimas, dá conta do “muito trabalho de pesquisa, muitas noites a trabalhar, para saber como juntar os ingredientes sem retratar coisas actuais. Fiz combinações, que no fundo é a minha profissão”.
Ao longo das 40 receitas, todas elas fáceis de confeccionar e com ingredientes comuns aos dias de hoje, a Bíblia ganha uma outra vida e a mesa revela-se mais uma vez um lugar central de encontro.
«A Bíblia contada pelos sabores» conta já com duas edições esgotadas. Esta é uma outra forma de ler, ver e saborear a Bíblia.”
Ver aqui.
Os nossos leitores já devem ter notado que existem duas coisas onde eu sou particularmente virulento nas minhas criticas às religiões cristãs: a evangelização forçada, e a defesa da bíblia.
Neste caso, esta iniciativa não só é ofensiva, como ainda por cima odiosa. A “bíblia também se come”??! Com certeza. Alias, deixo aqui mais algumas sugestões para acrescentar às 40 receitas que mostram os “sabores da bíblia”.
1. O cozinhado da filha de Jefté de Guilead (Juízes 11)
2. O churrasco dos ossos dos sacerdotes pagãos nos seus próprios altares por parte de Josias (2 Reis 23)
3. Hímens por desflorar à força, petisco muito apreciado pelos exércitos de deus na bíblia (Juízes 21, Números 31, Deuteronomio 20, Êxodos 21)
4. Sangue nas areias da Palestina da Idade do Bronze (basicamente toda a bíblia)
5. Canibalismo e vampirismo como gostos alimentares no novo testamento (Lucas 22).
Continuarei a expor esta hipocrisia e falta de honestidade dos “líderes espirituais” em apresentar a bíblia como um “livro de valores e morais”, e agora com “cores, texturas e sabores”.
Uma pitada de violência, umas fatias de prepotência e uns pedacinhos de ilusão e temos uma bela receita bíblico…
Nas evangelizações nas Áfricas também se pratica a solidariedade cristã, crianças a morrer à fome e dão-lhes bíblias e igrejas em pedra, afinal já podem comer bíblias, mais uns tempos e as pedras também, sem grandes devaneios culinários que eles não me parecem muito picuinhas.
Olá Ricardo,
Uma dúvida:
Dizes: “Os nossos leitores já devem ter notado que existem duas coisas onde eu sou particularmente virulento nas minhas criticas às religiões cristãs: a evangelização forçada, e a defesa da bíblia”; mas a bíblia lida literalmente ou literáriamente ou simbolicamente???
Saudações cordiais,
Caro Domingos.
É um prazer responder às suas “dúvidas” (e não estou a ser irónico, eu aprecio os seus comentários).
Quanto à sua pergunta: critico as três coisas.
Permita-me explicar porque.
Se um crente (e principalmente um “líder espiritual”) interpreta a bíblia de uma forma literal, é doido varrido. Ponto final.
Se for literáriamente, realmente não vejo qual o interesse: como literatura de que? De uma época da nossa existência onde éramos umas tribos supersticiosas, primitivas e irracionais? Não existe muito melhor literatura nos clássicos? Se tivesse de escolher entre as histórias da bíblia e da Ilíada, haveria alguma dúvida de quais são as mais enriquecedoras de ler?
Como simbólica, tudo se torna relativo, e logo, tudo se torna subjectivo e falível A sua interpretação pode ser diferente de todos os outros, e isso não é um bom princípio para se utilizar a bíblia como “a palavra de deus” e como o “livro sagrado” tal como é apresentado pelas igrejas cristãs, e como um “guia” para milhões de pessoas neste mundo.
Mas o mais importante nesta questão (e o que causa o meu desconforto) é a bíblia ser apresentada pelos “líderes espirituais”, mesmo que seja de uma forma simbólica, como um documento “à la carte”, onde se retira aquilo que se acha vantajoso para passar a mensagem do cristianismo actual, e se deita tudo o resto que não interessa para “debaixo do tapete” com a explicação de que “não pode ser levado literalmente”.
Porque não, e faço esse desafio a todos os crentes que nos lêem, um movimento católico para que o Vaticano repudie publicamente certas passagens (e porque não, certos livros) da bíblia?
Qualquer texto literário têm a sua importância, seja de que época for. Por alguma razão na escola se lêem e analisam textos das variadas épocas da história. Além do mais a Bíblia tem textos muito diferentes que se pode ler apenas pelo prazer de ler.