A opinião de Johann Hari (parte 2)
Por Ricardo Silvestre • 10 Ago, 2008 • Categoria: OpiniãoDepois da primeira parte (ver aqui), deixo aqui uma segunda “frente de combate” contra o extremismo muçulmano, tal como proposto por Johann Hari, um jornalista vencedor de vários prémios de jornalismo.
“O relatório da “Ameaça Terrorista” da última quinta-feira continha uma ameaça de um grupo de quatro jovens muçulmanos de Leeds, Yorkshire e Aylesbury. Suicídio bombista é algo que normalmente é associado com campos de refugiados em Gaza, ou com os mercados de Bagdad (…). Mas neste caso, esta história está repleta de clichés e “postais Ingleses”: jovens que gostam de ver cricket, que trabalham em lojas de fish and chips, amigos que os descrevem como “de confiança”, e com ideias de fazer rebentar um autocarro de dois andares em Londres.
Estes homens não são pobres, nem perseguidos, não são pessoas que sofrem humilhações pessoais. Para encontrar a explicação do porque estas pessoas que vivem nestes meios suburbanos, pensarem e agirem desta maneira, temos de entender o poder extraordinário e tóxico de ideias políticas. Para encontrar soluções eficazes temos de entender que esta luta contra os muçulmanos extremistas não pode ser ganha simplesmente com meios militares ou policiais. Parte da batalha passa por fazer desacreditar uma ideologia.”
Parte 2
“É necessário igualmente deixar de entregar aos jihadistas os presentes que lhes entregamos desde os últimos 60 anos. Muito do que fazemos em relação ao islão está condicionado pelo que aconteceu num dia de 1945, a bordo do USS Quincy no Canal do Suez. Nesse dia, o Presidente dos USA, Franklin Roosevelt fez um acordo com os tiranos da Arábia Saudita: dêem-nos acesso seguro ao vosso petróleo e nos não faremos qualquer questões obre o que vão fazer com o dinheiro. Vocês vão assassinar dissidentes? Impedir a criação de uma democracia? Disseminar o extremismo islâmico? Aquilo que quiserem, desde que mantenham o petróleo a correr. Outros negócios similares foram feitos por outros países.
Eu acredito que, enquanto nos mantivermos dependentes do petróleo do Médio Oriente, não existirá pressão suficiente que os nossos governos possam fazer para criar sistemas democráticos ou implementar os direitos das mulheres naquela região. O risco de haver outro “choque de preços de petróleo” como aconteceu em 1973 faz com que haja sempre um “apoio à estabilidade” no lugar de haver uma tomada de decisão de forçar esses países a criarem verdadeiras democracias.
Enquanto continuarmos a ser “viciados” em petróleo e no status quo do Médio Oriente, seremos parte do problema, e não parte da solução.”
Escolher os aliados possíveis
Ruminar o que se passou em 1945 é tão util como ruminar sobre o que se teria passado se o islão não tivesse sido expulso da península ibérica. Interessante para historiadores.
Claro que o petróleo (e o gás) são a principal arma que o Islão tem sobre o Ocidente. Sem ele o islão seria mais um culto que não se adaptou aos tempos modernos e que continuaria a ser a religião de muita gente, mas sem poder excessivo. Isso poderia levar ao aparecimento de sociadades modernas e razoavelmente leicas, como a nossa.
Seria óptimo se nos podessemos livar dessa arma, mas não acredito que isso seja possível, pelo menos pensando a 20 ou 30 anos. A não ser quer aceitemos a morte de milhões de pessoas.
Poém a enorme quantidade de dinheiro ganha desde a década de 70 pelos produtores de petróleo (que ainda por cima não tinha ainda projectos para o gastar) teve os seus efeitos. Muito dinheiro correu para os fundamentalistas, não directamente, mas a partir e escolas religiosas e das “organizações de apoio social”.
Provavelmente fizeram isso pelas melhores intensões do mundo, afinal é pio ajudar escolas e caridades. Digo que fizeram isso com boas intensões porque percebiam pouco de história e afinal agora a Arábia Saudita teme tanto as armas núcleares iranianas como Israel.
Mas as escolas e as caridades, em todo o mundo, acabam sempre por ser controladas por extremistas que, pensando ser guiados por ideias superiores, sentem legitimidade para expulsar qualquer oposiição (que não sinta que tenha um destino superior). Só um controlo democrata e laico pode travar isso, mas as escolas e as caridades não têm estruturas democráticas.
Sem esse dinheiro, que lhes permita principalmente fazer lavagens ao cérebro, abater a oposição e comprar armas, nunca o Islão representaria qualquer ameaça para a elevada tecnologia e ciência (e arte) que o ocidente possui, mas que o Islão, na fase actual, sempre rejeitou (como fizeram os católicos à centenas de anos, quando a Europa estava ainda no feudalismo).
A Arábia Saudita é retrógada e mediaval ? Sim. O único país na área que não o é, é Israel, que está num estágio superior - o capitalismo.
No entanto em cada ponto temos de escolher aliados, mesmo que incómodos. A deficiencia em não aceitar que temos de escolher aliadas, é o primeiro passo para a derota.
José Simões