Mitos e lendas - Exorcismos

Por Manuel Lopes • 1 Ago, 2008 • Categoria: Opinião

Ontem de manhã, estando eu de férias, liguei a televisão na TVI. Estava a ser exibido o programa “Você na TV!”, apresentado por Manuel Luís Goucha e por Cristina Ferreira. Normalmente não me detenho muito tempo neste tipo de canais, uma vez que normalmente são pobres de conteúdo e destinam-se a um público-alvo muito específico, privilegiando-se os temas “sensação”, típicos de um qualquer tablóide nacional.

No entanto, o tema que iria ser apresentado prendeu-me a atenção. Tratava-se dos “exorcismos e possessões espirituais” (presumo que se quisessem referir ao fenómeno dado a conhecer ao mundo através do filme “O Exorcista”, em que o “espírito” de alguém ou de uma entidade maligna, tal como um demónio, se apoderavam do corpo e mente de uma qualquer pessoa, sendo necessária a presença de um entendido da matéria – curiosamente pertencente à ICAR – que expulsava o espírito do tal ser humano).

Acontece que, ao ver o que se sucedeu, não sabia se havia de me rir ou de estar indignado. Presentes no programa estavam um senhor Bispo da Igreja Católica Ortodoxa, um tal de Dom Armando, (do Santuário da Nossa Senhora das Lágrimas, onde pretensamente aconteceram “milagres” em 1992 no decorrer de uma missa) e um tal de Fernando Nogueira, também conhecido como o “bruxo de Fafe”. O espectáculo era digno da arena de um circo.

De um lado, o Sr. Bispo argumentava que interessava, antes de se proceder ao exorcismo propriamente dito, distinguir os casos passíveis de se enquadrarem clinicamente, nomeadamente no campo da psicologia. Depois, sim, através do “poder” que era concedido aos bispos – dizia ele que era através da ordem sacramental – somente eles poderiam resolver uma possessão espiritual. No entanto, não possuía formação em psicologia para estilizar os casos. Curioso…

Do outro lado, estava um indivíduo que mal sabia falar português, o tal “bruxo de Fafe”. Dizia ele que detectava os casos de espíritos que possuíam pessoas “pegando-lhes nas mãos e fazendo umas cruzes e dizendo umas certas rezas dos antigos”. Em cada frase que proferia, encontravam-se sempre contradições, num discurso de venda da “banha da cobra” que só no mais incauto, desprotegido e vulnerável cidadão poderiam surtir algum tipo de efeitos.

No seu cerne, a discussão entre os dois girou à volta da problemática da detenção do “poder” para exorcizar. Cá para mim, quem tem o “poder” é o He-Man, figura emblemática da cena dos desenhos animados infantis de há cerca de duas décadas atrás, pois era ele que gritava “I have the Power!!!”.

Seguidamente, foi apresentado um vídeo amador contendo uma cena de exorcismo. Nesta, um senhor de cerca de 60 anos (o exorcista) agitava-se freneticamente, dando um ar de possuído, passo a expressão, abanando as mãos tal qual um doente de Parkinson a tocar maracas no México e proferindo uma série de impropérios e palavras menos dignas de um senhor daquela idade. Como se adiantasse para alguma coisa, o Sr. Goucha acrescentou que não se podia apurar a autenticidade do fenómeno mostrado.

O programa terminou com os dois convidados a puxar o “poder” para si de forma estapafúrdia.
É necessário desmistificar e esclarecer as populações. Isso faz-se educando-as, dando-lhes informação e conteúdos que as elucidem e as tornem mais cultas. Já todos sabemos que os charlatães e burlões abundam no nosso país e que pessoas mais fragilizadas em vários aspectos (no campo da saúde, das finanças, da realização pessoal, entre outros) são induzidas em erro e convidadas a largar grandes quantias de dinheiro em prol de curas milagrosas e carentes da única prova admissível: a prova científica.

As televisões portuguesas têm uma tendência para fazer exactamente o contrário do que deviam. Em vez de fornecerem boas notícias, informações, programas didácticos e pedagógicos e de debate livre e esclarecido, tendem, a um ritmo assustador, a vender qualquer peixe em prol das audiências. Como sabem que uma parte significatica da população portuguesa não tem um grau de cultura e de educação suficiente para compreender determinadas matérias, enchem os espaços televisivos deste “lixo” com um único propósito: aumentar o visionamento dos seus programas.

Podem ter estranhado a utilização de aspas de forma abusiva neste artigo, mas teve um propósito: nunca conseguiria de forma consciente utilizar alguns termos que aqui utilizei sem as aspas. Fenómenos imaginários e míticos têm que ser identificados de alguma forma.

Mais uma vez, sem querer mostrar tendência para uma qualquer teoria da conspiração, parece que as religiões encontram todos os dias novos estratagemas – mas utilizados por burlões há muito tempo - para prender a atenção cada vez mais ténue dos seus crentes. Desta vez é através do medo - da possessão demoníaca.

Pergunto-me, no entanto, se não seria possível aos responsáveis pelo programa em causa convidar alguém neutro, nomeadamente alguém ligado à área científica ou, e uma vez que já temos a Associação Ateísta Portuguesa, alguém não crente para expressar a sua opinião (mais sóbria, certamente) e servir de contraponto…enfim.

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Uma Resposta »

  1. alguem sabe a morada do local onde dá consultas o bruxo de fafe? e as consultas sao por marcação?
    se alguem souber por favor envie um e-mail para:

    ana-martins93@hotmail.com

    obrigada

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