Coisas vis (parte 2)

Por Ricardo Silvestre • 20 Jul, 2008 • Categoria: Cultura, Opinião

Como apresentado aqui, esta coisa do “milagre da transubstanciação” tem muito que se lhe diga, e pelos vistos com coisas muito estranhas e difíceis de entender.

Mas de onde vêm a ideia que este ritual católico é sagrado, e “violar” uma eucaristia é um pecado mortal, e um “crime” e uma “coisa vil”.

Na Idade Média na Europa acreditava-se que os Judeus eram os responsáveis pela morte de Jesus Cristo. Era também afirmado que os Judeus roubavam hóstias consagradas e as utilizavam para repetir a crucifixação de Cristo. Isto era conseguido através de facadas na hóstia (neste momento já o corpo de Cristo), ou através de imolação da eucaristia ou outras “atitudes vis”. Estas acusações por parte dos Cristãos vinham no seguimento da crença que os Judeus consideravam literalmente a eucaristia como o actual corpo de Cristo, e assim podia crucificar Jesus repetidas vezes.

Em algumas variações destas acusações, era garantido que cada vez que um Judeu apunhalava uma eucaristia, esta derramava sangue. Esta ideia pode ter tido origem no facto de colónias de cor avermelhada de um organismo chamado Seeratia maercescens pode se formar em comida podre que esteja num lugar seco.

As penalidades para Judeus acusados de andarem a violar eucaristias eram severas. Falas confissões eram conseguidas através de tortura e consequentemente os Judeus eram queimados na fogueira, muitas vezes com outros membros da comunidade judaica que era considerados “cúmplices”. Algumas destas acusações estão registadas como aconteceu em Berlitz em 1243 ou em Praga em 1389. De acordo com William Nichol no seu livro Christian Antisemitism, “mais do 100 vezes esta acusação foi descrita nos livros da altura, o muitos destes casos acabaram em massacres de Judeus”.

Felizmente os tempos mudaram, mas não muito as mentalidades. Se dependesse de Bill Donohue, estes heréticos iam todos para a fogueira.

Como não pode exigir isso, pede para alunos da Universidade sejam expulsos, ou então que Professores Universitários sejam despedidos… e tudo por causa de uma bolacha que é tanto um produto de um mal-entendido histórico, como de um dogma irracional.

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17 Respostas »

  1. Ricardo,

    Misturar a questão do libelo de sangue com a protecção que é devida à Eucaristia não faz sentido.

    As acusações de que fala, feitas contra os judeus, há muito que foram consideradas injustas e desadequadas.
    A teologia cristã ensina que o povo judeu, ao condenar Cristo à morte, representa toda a humanidade, que é a culpada pela morte de Cristo. Teologicamente, eu sou tão culpado pela morte de Cristo como foi Pilatos. Pois eu não estou imune do pecado, e Cristo morreu para lavar os pecados de todos.

    No entanto, à parte da história negra dos libelos de sangue, permanece válida a respeitabilidade à hóstia consagrada, e é por isso que eu não compreendo a sua argumentação. Invocar o libelo de sangue não me parece que fortaleça o seu argumento, ou sequer que o ajude. Profanar a Eucaristia é um acto gravíssimo.

    Face ao Antigo Testamento, que refere castigos duríssimos para quem se aproximava da Arca da Aliança, ou para quem entrava no Santo dos Santos sem estar devidamente preparado para tal, a grande diferença neste caso está na misericórdia imensa de Cristo. Um raio não cai do céu para fulminar o incauto que profana a Eucaristia. No entanto, a gravidade do acto persiste.

    Não me parece que seja muito importante discutir que castigo terreno se aplicaria a tal crime. O crime de profanação da Eucaristia é hediondo, mas como o alvo é o próprio Cristo, não vejo como é que um castigo terreno irá alterar a situação. Ou seja, de que interessa pensar em castigos para tal acto, se o alvo desse acto é o próprio Deus?

    O tarado que comete tal insanidade expõe-se à justiça e à misericórdia divina. Se há arrependimento, Deus é todo Ele perdão. Se a pessoa comete tal insanidade e ainda se ri dessa bestialidade, a coisa fica negra para ele…

    Sinceramente, quando leio sobre histórias de pessoas que, por brincadeira, profanam hóstias consagradas, só me parece existir uma coisa a fazer: rezar, e muito, por elas. É um acto de insanidade e de perfeita loucura, profanar o corpo do próprio Deus.

    Mas, como em tudo na vida, o Homem é perfeitamente capaz de cometer os piores crimes, contra outro ser humano ou contra Deus, sem se dar conta da gravidade da questão.

    Um abraço,

    Bernardo

  2. «Teologicamente, eu sou tão culpado pela morte de Cristo como foi Pilatos.»

    Mau exemplo o que eu usei, pois Pilatos, obviamente, não era judeu, e até é considerado por vezes, erradamente, como inocente, por ter “lavado as mãos”. A ideia central e verdadeira é a de que todo o Homem é considerado culpado pela morte de Cristo, seja ele judeu, gentio, cristão ou não cristão. A morte de Cristo foi voluntária para limpar o pecado do Mundo. Só estará inocente da morte de Cristo quem não tem pecado, e tal pessoa não existe. A única excepção humana conhecida é Nossa Senhora, que nasceu sem pecado e viveu sem pecado. Fora a Santa Mãe de Deus, não há mais ninguém isento do pecado.

    Aquela teologia mázinha de que os judeus eram deicidas há muito que está ultrapassada.

    Um abraço

  3. “Sinceramente, quando leio sobre histórias de pessoas que, por brincadeira, profanam hóstias consagradas, só me parece existir uma coisa a fazer: rezar, e muito, por elas. É um acto de insanidade e de perfeita loucura, profanar o corpo do próprio Deus.”

    Caro Bernardo não surpreendentemente a mim parece-me insanidade e perfeita loucura achar que uma hóstia é o corpo do próprio deus!
    Acho essa toda superstição ridicula e este episódio está ao nivel das caricaturas de maomé! Demonstra intolerância dos crentes para quem não aceita as crenças católicas, as acha ridiculas e consequentemente não as respeita!
    Cpmts

  4. Caro Nuno,

    a) em primeiro lugar, a sua opinião é sua, e tem todo o direito de a ter; mas é presunção a mais o Nuno achar que, ao dar-me a sua opinião, sem usar qualquer argumento racional, me vai fazer mudar de ideias; eu sou sensível à lógica, a argumentação racional, a pensamento estruturado; não sou muito sensível a explosões emotivas, como sucede com o seu uso de palavras como “insanidade”, “loucura”, “superstição, “ridícula”, etc… essas palavras são fogo de artifício; é um espectáculo, mas quando caem as canas, o espectáculo acaba e fica o vazio;

    b) queria tentar entender o que é que vê de intolerância naquilo que escrevi.

    Obrigado

  5. Uma nota final: o Nuno pode pensar que o meu último comentário se aplica a mim, e que não existe argumentação racional por detrás do meu uso das palavras “insanidade” e “loucura” ao referir-me aos profanadores de hóstias.

    Note que há: a minha argumentação está estruturada na tese que defendo: a existência de Deus e a Sua presença na Eucaristia. Com base nessa argumentação, eu tenho que considerar, por razões de força lógica, que é uma insanidade e uma loucura profanar o corpo do próprio Deus. Ora, se é a Deus que, segundo a minha crença, se deve a existência do meu ser, é ontologicamente suicida insultar Aquele que é a razão principal do meu ser. Lógico, não é?

    Já o Nuno usa os termos “insanidade” e “loucura” para descrever a minha posição, mas ao fazê-lo não usa qualquer encadeamento lógico.

    Se calhar, o Nuno não aceita as minhas premissas, de que Deus existe, e de que Ele está presente em Corpo na Eucaristia. É normal, porque eu não as expliquei nem as fundamentei. Eu limitei-me a tecer um raciocínio lógico partindo dessas premissas, que não demonstrei.

    O Nuno, da sua parte, não apresentou as suas premissas e não fez qualquer dedução lógica. Assim, debater é complicado.

    Cumprimentos,

  6. Caro Bernardo agradeço a sua resposta!
    Eu não estou interessado em debater, nem em fazer outros mudarem de opinião, mas antes em dar a minha opinião/visão, simplesmente!
    Eu não acredito nas fábulas q o Bernardo acredita, nas fábulas do cristianismo ou de qq outra religião organizada! Tão só! Para mim elas são mentiras dos homens, desprovidas de racionalidade, de prova, são fantasias e nelas acredita quem quer. Mas acredita sem provas, há quem lhe chame fé, mas é acreditar sem provas! Acredita pq sim!
    Não deixa de ter a sua piada o Bernardo escrever sobre argumentos racionais e lógica e acreditar que uma bolacha é o corpo de cristo! Calculo que não veja contradição nisto!
    A intolerância não é do q o Bernardo escreveu, mas sim das pessoas que acham que os outros têm de respeitar uma qq crença! Eu respeito as pessoas, não as crenças delas! Essas na sua maioria eu acho ridiculas! A sua não foge à regra!

  7. Caro Nuno,

    «Caro Bernardo agradeço a sua resposta!»

    E eu a sua! ;=)

    «Eu não estou interessado em debater, nem em fazer outros mudarem de opinião, mas antes em dar a minha opinião/visão, simplesmente!»

    Ok, isso é perfeitamente legítimo. E as opiniões são como as cuecas: cada qual tem o direito a ter a sua!

    «Eu não acredito nas fábulas q o Bernardo acredita, nas fábulas do cristianismo ou de qq outra religião organizada! Tão só! Para mim elas são mentiras dos homens, desprovidas de racionalidade, de prova, são fantasias e nelas acredita quem quer. Mas acredita sem provas, há quem lhe chame fé, mas é acreditar sem provas! Acredita pq sim!»

    Tudo bem. Eu só gostava de tentar compreender como é que chegou a essas conclusões tão definitivas. Eu tenho dado as minhas razões, mas gostava de conhecer as suas. Mas se as quiser guardar só para si, tudo bem.

    «Não deixa de ter a sua piada o Bernardo escrever sobre argumentos racionais e lógica e acreditar que uma bolacha é o corpo de cristo! Calculo que não veja contradição nisto!»

    É precisamente pelo facto de que, tendo estudado a questão, não encontrei contradições, é que o afirmo!
    Quando encontro contradições numa ideia, rejeito-a… Senão, seria perda de tempo, não!?

    «A intolerância não é do q o Bernardo escreveu, mas sim das pessoas que acham que os outros têm de respeitar uma qq crença! Eu respeito as pessoas, não as crenças delas! Essas na sua maioria eu acho ridiculas! A sua não foge à regra!»

    Tem todo o direito!
    Cumprimentos,

    Bernardo

  8. Continuo a considerar que quem acha ridiculas e absurdas as crenças que o Bernardo tão bem defende e as quais eu partilho, tem uma visão bastante limitada e reducionista do Universo que o envolve. São demostrações de como a sociedade hoje em dia se encontra num estado em que tudo o que nao é cientificamente provado é rotulado de fábulo e quem o defende rotulado de fanático e/ou louco… Parece-me que há quem até, no fundo admita e acredita mas tem vergonha de o demonstrar com medo de ser rotulado de “ignorante, hoje em dia já não se acredita nestas coisas, uma sociedade avançada e evoluída não precisa de religiões nem de Deus…”. Quando é neste preciso momento que o mundo mais d’Ele precisa…

  9. Caro Bernardo,
    «Ora, se é a Deus que, segundo a minha crença, se deve a existência do meu ser, é ontologicamente suicida insultar Aquele que é a razão principal do meu ser. Lógico, não é?».
    Certo. Mas, existo um problema. Deus nunca se manifesta directamente, mas é sempre mediado. Se Deus se manifestasse directamente nunca o poderíamos negar, pois tínhamos a evidencia. Ora, Deus como é absolutamente amor, deu-nos também liberdade para o amar ou insultar. A nossa missão consiste em reconhecer no outro o verdadeiro ícone de transcendência. Foi isto que cristo nos ensinou: “ama o outro”. E aí estamos a amar a Deus.

  10. Caro João

    Quem disse que a ciência é absolutamente certa?
    LOL
    Isso é um grande perconceito… pois, a ciência está cheia de revoluções, e mudanças de paradigma. E a formação de um ciêntista por vezes chega a ser mais dogmática que a formação de um teologo… LOL

  11. mingos,

    O que a ciência tem de belo é exactamente essa honestidade intrínseca que torna inevitável a mudança de opiniões sempre que novas evidências refutam teorias vigentes e apontam para novas explicações. Sendo assim como é que a formação dos cientistas pode ser dogmática?
    Os crentes, por outro lado, não arredam pé nunca dos seus dogmas, nem que surja uma montanha de evidências que os contradiga!

    cumprimentos,

  12. LOL……..veja o dogma da Evoluçao. Ja viu o expelled? Sabia que ha cientistas que perdem os empregos por duvidar do darwinismo?

    Voce tambem e dogmatico quanto ao seu ateismo…. e nao misture ateismo/religiao com ciencia porque nao tem nada a haver.

  13. Caro Bernardo
    As evidências, aliás a falta delas levam-me a concluir dessa forma! No entanto as minhas posições nunca são definitivas, estão sujeitas a revisão caso apareça uma evidência ou prova da existência de uma qq divindade, ente superior, esxtraterrestres, qq coisa!
    Eu tenho poucas certezas, no entanto as minhas dúvidas, as minhas questões, a minha vivência tudo isto aponta para a não existência de um ou de vários deuses!
    Se deus aparecesse de vez em qdo ajudava à sua credibilidade, como calcula, caso contrário não passa de uma vontade de acreditar!
    Cpmts

  14. Caro Zé,

    Se você fizer um mínimo de pesquisa descobrirá que essa acusação do documentário “Expelled” é falsa. Os cientistas “perseguidos” perderam os seus lugares por razões bem mais prosaicas. Pode começar por ler o post “Fraudes e mentiras (parte 2)” do Ricardo Silvestre, publicado neste portal.
    Já agora leia também o post “Ironia das ironias” que dá conta da expulsão duma professora americana por se ter recusado a leccionar uma idiotice chamada desenho inteligente (ID).

    A evolução é uma teoria ciêntifica e por isso não cabe na categoria dos dogmas. Se você conseguir descobrir fósseis de coelho no pré-câmbrico (para citar num exemplo famoso) deita por terra a teoria da evolução.
    Usando raciocinio idêntico, o meu ateísmo não é dogmático pois eu sei exactamente o que preciso para deixar de ser ateu.

  15. É pena você cair nessas cantorias…há imensa documentação a qual eu terei todo o gosto em fornecer-lhe, comprovando que o único motivo de terem sido despedidos foi questionarem a teoria da evolução.
    Qual é a sua formação científica, para dizer se o ID é idiotice ou não? Sabia que foi encontrado ADN extraterrestre? Sabia que o ADN que se pensava ser lixo, tem funções muito importantes?

    Se o ser humano foi capaz de criar a Dolly com engenharia genética, o que é que há de idiota na hipótese de nós termos sido criados também?

  16. Saudações cordiais*

  17. Caro Zé,

    Penso que não me fiz entender. O ID não reúne as características de uma teoria cientifica, por isso é uma idiotice quando colocado no contexto do ensino público oficial que referi.

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