Coisas vis (parte 1)

Por Ricardo Silvestre • 18 Jul, 2008 • Categoria: Opinião, Psicologia & Sociologia

Ainda no seguimento de toda a histeria provocada pelo Presidente da Liga Católica Americana, um tal de Bill Donohue, um parvalhão intolerante e intragável (e um mal educado incapaz de ter uma conversa adulta), que disse que “não vejo coisa mais vil do que violar uma Eucaristia”, eu fiz uma pequena pesquisa nesta coisa do “milagre da transubstanciação”.

Uma hóstia é suposto se transformar no corpo de Cristo quando abençoada por um padre. Para além da incompreensão que é ter um ritual canibalistico associado a uma cerimónia religiosa, ficam algumas perguntas que parece ninguém saber como responder.

Quando a hóstia se transforma, transforma-se em que? Parte do corpo? E se for parte, que parte é que é? É se se transforma no corpo todo? Está-se a comer Jesus no seu todo cada vez que haver uma eucaristia? Isso faz Jesus ser eterno e renovável, o que não parece nada de muito extraordinário para um ser que é divino, mas se se tiver a oferecer apenas uma parte do corpo de Cristo, qual é o processo de regeneração? Ou é distribuído em iguais partes cada vez que é consagrada uma eucaristia?

E se se não se engolir a hóstia. Qual é o “crime”? Para um filho de deus que é invulnerável e eterno, o que interessa que uma parte do seu corpo ande a passear por onde quer que seja. Ou se for mesmo Jesus Cristo na sua totalidade, transubstanciado numa bolacha, não seria capaz Jesus de se materializar e exigir ser comido (sem sarcasmo aqui, por favor), para se completar aquele que é o desígnio da eucaristia. Se o caso é assim tão grave, e Jesus pode ser mesmo “raptado” (como disse Donohue) não seria capaz Jesus, com toda a sua omnipotência de se libertar do cativeiro?

Mas o mais importante é a ideia que não pode existir nada mais “vil” do que não comer um pedaço de bolacha que é suposto ser o corpo de Jesus Cristo. Eu não quero ser gratuito nas acusações, e ainda por cima porque alguns dos que nos visitam são crentes e não se enquadram nada neste estilo de insanidade religiosa, mas o atrasado mental do Bill Donohue devia era ter vergonha na cara, e ver o que andam a fazer alguns católicos Americanos, que são coisas bem piores do que andar a passear bolachas no bolso.

No Domingo (dia de eucaristias) a segunda parte deste artigo de opinião.

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31 Respostas »

  1. [...] apresentado aqui, esta coisa do “milagre da transubstanciação” tem muito que se lhe diga, e pelos vistos com [...]

  2. Ricardo,

    Antes de começar a debitar para aqui palavras, como é hábito meu, fazia apenas uma pergunta, um pouco provocatória, mas no bom sentido:

    P: O Ricardo está mesmo interessado em compreender esta questão?

    Se estiver, aconselho a leitura atenta deste artigo, já com cem anos de idade, mas ainda perfeitamente actual:

    http://www.newadvent.org/cathen/05573a.htm

    Cristo está, de facto, presente na totalidade da hóstia consagrada, bem como está também em qualquer minúscula parte dela. Isto pode parecer estranho, mas não é mais estranho do que a definição matemática perfeitamente correcta, devida a Cantor, de que há tantos números no intervalo de números reais [0;1] como há em todo o conjunto dos números reais.

    «Está-se a comer Jesus no seu todo cada vez que haver uma eucaristia?»

    Sim, cada vez que se toma a hóstia consagrada, ou apenas uma parte dela (o tamanho não importa), está-se a comer o corpo de Cristo na sua totalidade. Daí a preocupação, bastante sensata, em ter patenas por debaixo da boca dos comungantes, para evitar que caia ao chão qualquer pequena partícula que seja. E também daí advém a normal preocupação e obrigação sacerdotal de consumir totalmente todas as partículas consagradas.

    A explicação filosófica deste milagre é bastante racional, e está acessível a quem a quiser compreender, usando regras elementares da lógica, juntamente com algumas noções filosóficas básicas.

    Como em tudo o que diz respeito ao divino, visto que o intelecto humano é finito, e o objecto é infinito, o nosso intelecto nunca poderá abarcar a totalidade do que sucede na transubstanciação. Mas é certo que pode tecer raciocínios para tentar obter uma compreensão básica do fenómeno.

    É o que poderá ler no link que lhe enviei. Tudo gira em torno das noções filosóficas de substância (o que uma coisa é), e acidente (o aspecto “acidental” que uma coisa pode apresentar em determinadas situações). Por exemplo, o meu peso é um acidente meu. Eu continuaria a ser o Bernardo se pesasse mais ou menos.

    No caso da eucaristia, os acidentes permanecem (o aspecto, o cheiro, a cor, o formato, etc.), mas a substância muda radicalmente. Toda a substância da hóstia é transformada em substância divina, no Corpo de Cristo.

    Aliás, na Última Ceia, Cristo não podia ter sido mais explícito, ao dizer “Isto é o Meu Corpo”. Ele não disse: “Isto faz as vezes do Meu Corpo”, nem disse “Isto simboliza o Meu Corpo”.

    Um abraço,

    Bernardo

  3. Já aqui foram abordadas as questões teológicas, matemáticas e filosóficas. O que dizer da questão fisiológica? Chegando à parte final do processo de digestão, o que fazer com a parte da hóstia não absorvida pelo corpo humano? Deveremos entregá-la novamente ao sacerdote para que tal não constitua um pecado vil?

  4. O Bernardo está a colocar o problema filosofico desatualizado. Actualmente já não tem muito sentido falar de substância e acidentes, ou matéria e forma, ou acto e potência… toda uma terminologia de aristóteles, e penso eu adaptada indevidamente pelo cristianismo.

    Do ponto de vista filosofico penso que a hóstia consagrada é mt melhor compreendida numa perspectiva relacional do que numa perpectiva de substância e acidente.

    Ao conceber a filosofia da substância e acidente pode levar a problemas como o que o Helder levantou. E outros problemas como a separação da alma do corpo (uma filosofia totalmente incompatível com o cristianismo)…

  5. Caro Bernardo,

    Como também me interesso por estas coisas foi com curiosidade que tentei ler o artigo que indicou (http://www.newadvent.org/cathen/05573a.htm). E digo ‘tentei’ pois não consegui ir além da primeira meia dúzia de paragrafos, de tão impenetrável que é o discurso. Garanto que já li textos científicos e filosóficos algo intrincados mas aqui bloqueei perante semelhante retórica contorcionista que em lugar de iluminar ainda escurece mais o assunto. Agora, o que me intriga neste texto onde impera sobretudo a dissertação demagógica, é que alguém considere honestamente que contribui para a compreensão de que Cristo está presente na hóstia? Como?
    Como é possível que alguém se sinta intelectualmente satisfeito com a pseudo-argumentação aqui presente?

    Para quem não o leu aqui fica o resumo de uma das poucas secções do artigo que eu consegui descodificar, para que possam apreciar o teor desta pérola de raciocinio. É exactamente sobre a Transubstanciação.
    O autor começa por dizer que “Antes de provar dogmaticamente o facto da transformação da substância…” Provar dogmaticamente?! Ou seja, provar com recurso a dogmas? Poderá isso ser considerado ‘provar’? Se isso é ‘provar’ então muitas outras fantasias podem ser igualmente ‘provadas’ desta maneira.
    Adiante. Logo a seguir: “O desenvolvimento científico do conceito de transubstanciação…” O quê? Desenvolvimento científico aplicado a algo como a transubstanciação? Não seria mais apropriado dizer antes ‘desenvolvimento alquímico’?
    E a seguir vem então a tal ‘prova’ sobre a qual a secção se debruça:

    i) Primeiro chama-se a atenção para uma noção fundamental à transubstanciação, a conversão: a transição de uma coisa noutra de aspecto diferente;
    ii) Depois é dito que conversão é mais do que uma simples mutação: exige dois extremos positivos relacionados entre si;
    iii) Para além dos dois extremos a conversão exige um terceiro elemento que os une, mesmo após a efectuada a conversão;
    iv) Faz-se notar em seguida que a conversão de A em B não implica que A deixe de existir e que B seja criado (basicamente porque o desaparecimento de A não poderia ser atribuído a uma propriedade designada de aniquilação, e por conseguinte não é necessário postular a criação de B);
    v) A transubstanciação, no entanto, não é uma simples conversão, mas uma conversão substancial (ou conversão de substancia). Por exemplo, se um pedaço de madeira fosse convertido miraculosamente em ferro segundo este processo de conversão substancial, o resultado final manteria a aparência de madeira (o tal aspecto ‘acidental’), mas seria ferro em substância;
    vi) Segue-se que a aplicação do acima exposto à eucaristia é trivial - os extremos envolvidos na conversão são agora, dum lado o pão e o vinho, e do outro o corpo e o sangue de Cristo, sendo que a substância do primeiro desaparece para dar lugar à substância do segundo.

    Basicamente é esta a ‘prova’ apresentada para o ‘facto’ da transubstanciação - nada mais portanto do que um mero jogo de palavras, de afirmações demasiado evidentes ou de asserções apresentadas sem qualquer fundamentação racional. Você no entanto acha que tudo isto é bastante racional e que faz uso de regras elementares de lógica. Não consigo ver onde. Com ‘raciocinios’ deste tipo você pode demonstrar o que lhe apetecer.

    cumprimentos,

  6. Caro Helder,

    «Já aqui foram abordadas as questões teológicas, matemáticas e filosóficas. O que dizer da questão fisiológica? Chegando à parte final do processo de digestão, o que fazer com a parte da hóstia não absorvida pelo corpo humano? Deveremos entregá-la novamente ao sacerdote para que tal não constitua um pecado vil?»

    É engraçado que coloque esta questão. Normalmente, as pessoas que a colocam dão sinais de que, de facto, estão a pensar a sério no problema. Uma coisa que eu queria deixar perfeitamente clara é esta: não existe cristianismo válido sem a presença real e concreta do Corpo de Cristo na hóstia consagrada. Se deitamos isso fora, mais vale deitar fora todo o cristianismo. Eu sei que era algo que agradaria a todo o bom ateu, mas convenhamos que se devem chamar as coisas pelos nomes, e eu queria deixar isto bem claro. Do mesmo modo que não é cristão que não acredita na ressurreição do corpo de Cristo, também não o é quem não acredita na presença real e concreta de Cristo, em Corpo e Sangue, na eucaristia.

    Posto isto, vamos ao seu “problema” fisiológico. O que eu lhe pergunto é isto: tudo o que o Helder consome tem um destino escatológico? Tudo o que consome vai pelos sanitários abaixo?

    Penso que esta pergunta, fundamental para saber se o Helder se está a alimentar bem, explica porque razão se deve ter os pés bem assentes na terra para compreender as coisas do Céu.

    A hóstia, depois de digerida, entra totalmente na constituição do nosso corpo. Cristo, em seu próprio corpo, passa a fazer parte do nosso corpo. O cristianismo é uma religião muito concreta, muito respeitadora da materialidade e da corporeidade. Se a hóstia consagrada, enquanto Corpo de Cristo, não entrasse verdadeiramente, e fisiologicamente, no nosso organismo, porque razão é que comungaríamos? Só para fingir?

    Um abraço,

    Bernardo

  7. Caro Mingos,

    «O Bernardo está a colocar o problema filosofico desatualizado. Actualmente já não tem muito sentido falar de substância e acidentes, ou matéria e forma, ou acto e potência… toda uma terminologia de aristóteles, e penso eu adaptada indevidamente pelo cristianismo.»

    Parece-me que é arriscado apontar algo como inválido só com base na sua idade. Uma ideia não é boa por ser nova nem é má por ser velha. Acho que é importante sustentar essa afirmação de forma argumentada.

    «Do ponto de vista filosofico penso que a hóstia consagrada é mt melhor compreendida numa perspectiva relacional do que numa perpectiva de substância e acidente.»

    Em que é que essa perspectiva relacional ajuda à questão? De que forma é que essa perspectiva explica a transubstanciação?

    «Ao conceber a filosofia da substância e acidente pode levar a problemas como o que o Helder levantou.»

    O Helder não levantou um problema real. São apenas dúvidas normais de quem se debate com ideias novas.

    «E outros problemas como a separação da alma do corpo (uma filosofia totalmente incompatível com o cristianismo)…»

    Já em tempos o disse noutros comentários: no ser humano, de facto, não faz qualquer sentido estabelecer uma separação entre alma e corpo porque a alma é a forma substancial do corpo humano: estã ligadas de forma umbilical e existencial. Mas já faz sentido estabelecer uma distinção entre o que é matéria e o que não é matéria. Sem essa distinção, por exemplo, cai por terra a imortalidade da alma enquanto entidade que subsiste mesmo na ausência de um corpo.

    Um abraço,

    Bernardo

  8. A transubstanciação não é fácil de perceber para quem não tem Fé. No entanto, há quem consiga entender mas por escárnio e ironia continua a “bater na mesma tecla”. Sinceramente considero infantis e até absurdas e insultuosas as dúvidas que se nos colocam acerca do Corpo e Sangue de Cristo. Mas pelo menos que sirvam para instruir os que erram.

    Certo que hoje em dia dá-se mais valor ao símbolo, talvez a maioria de pessoas olhe para a Sagrada Hóstia como que para um símbolo da Ceia de Jesus, uma memória da Sua Ceia, ou mesmo uma memória da Sua morte. Infelizmente, na catequese já pouco se fala no valor sacrificial da Missa, em que Jesus, presente em Corpo, Alma e Divindade tal como está no Céu, se sacrifica não com dor ou sangue, mas renova o mesmo sacrificio da Cruz de ha 2000 anos, oferecendo-o ao Pai pela salvação das almas.

    Nos dias de hoje tudo é relativo (no dizer de S.S. Bento XVI, “vivemos na ditadura do relativismo”), já não há Verdade, é tudo simbólico, a prórpia Missa é um SIMBOLO da Ceia e da Paixão. Não é ensinada a Verdade Divina nas catequeses, dando-se mais importancia às verdades do mundo, às leis, educação, civismo…quando isso deveria ser primeiramente ensinado no seio da família.

  9. Caro Ernesto,

    Antes de mais, obrigado pela sua mensagem cuidada. Procurarei responder com o mesmo cuidado.

    «Como também me interesso por estas coisas foi com curiosidade que tentei ler o artigo que indicou (http://www.newadvent.org/cathen/05573a.htm). E digo ‘tentei’ pois não consegui ir além da primeira meia dúzia de paragrafos, de tão impenetrável que é o discurso. Garanto que já li textos científicos e filosóficos algo intrincados mas aqui bloqueei perante semelhante retórica contorcionista que em lugar de iluminar ainda escurece mais o assunto.»

    Compreendo-o. Eu sinto-me também assim, perdido, quando tenho que ler, ocasionalmente, o Código de Direito Comercial, ou outras obras de Direito, porque apesar de ser empresário e precisar de vez em quando de ler essas coisas, a minha formação é em engenharia, e portanto, não possuo as bases mínimas de direito para saber ler com à vontade tais obras.

    Do mesmo modo, é certo que a consulta de um manual complexo de catolicismo como é a Catholic Encyclopedia, escrita pelas mais eruditas figuras das várias matérias, é uma tarefa exigente, que obriga à posse prévia de conhecimentos rudimentares para que a leitura seja mais fácil. Eu tenho feito progressos nessa matéria, e hoje em dia, não dispenso a Catholic Encyclopedia para esclarecer dúvidas. E garanto-lhe que costumo encontrar quase sempre o que procuro, e por isso a recomendo. Mas não é material de “divulgação”. É mesmo material complexo e erudito.

    «Agora, o que me intriga neste texto onde impera sobretudo a dissertação demagógica»

    Permita-me discordar. Não se trata de “dissertações”. Os autores estabelecem bem as suas fontes, partem o problema em partes, como é suposto, analisam cada parte ao detalhe, confrontam-se com as suas fontes, colocam ideias opostas em debate (mesmo ideias não cristãs) e chegam a conclusões fundamentadas.

    Não compreendo também que tenha usado o termo “demagógica”, uma vez que a obra em questão não é de divulgação, pelo que a Catholic Encyclopedia, mesmo que tivesse sido criada com o fim perverso de manipular demagogicamente as massas, não é lida por elas, pelo que o problema não se coloca.

    «é que alguém considere honestamente que contribui para a compreensão de que Cristo está presente na hóstia? Como?
    Como é possível que alguém se sinta intelectualmente satisfeito com a pseudo-argumentação aqui presente?»

    Eu remeteria para o que disse no início: se eu não procurar ajuda, ou outras referências, ficarei também frustrado diante do Código de Direito Comercial. No entanto, uma coisa separa a minha atitude da sua: eu tenho respeito pela erudição e pelo conhecimento dos outros. Não lhe vou dizer que o meu respeito pelo que os outros sabem seja uma atitude dogmática da minha parte: trata-se de experiência pessoal. Sou muito ignorante, mas se tenho vencido pequenas batalhas contra a minha ignorância, isso tem sucedido sempre que, com humildade, procurei aprender com quem sabe.

    A sua atitude parece-me um pouco arriscada, e passível de provocar situações más para si, como a de passar ao lado da compreensão de determinadas realidades concretas. Imagine que, em virtude da minha ignorância em matéria de Direito, eu fazia uma jura de nunca mais respeitar nem ler nenhuma obra dessas? Serviria à minha instrução, essa atitude agressiva e egocêntrica?

    «Para quem não o leu aqui fica o resumo de uma das poucas secções do artigo que eu consegui descodificar, para que possam apreciar o teor desta pérola de raciocinio. É exactamente sobre a Transubstanciação.
    O autor começa por dizer que “Antes de provar dogmaticamente o facto da transformação da substância…” Provar dogmaticamente?! Ou seja, provar com recurso a dogmas? Poderá isso ser considerado ‘provar’? Se isso é ‘provar’ então muitas outras fantasias podem ser igualmente ‘provadas’ desta maneira.»

    Neste passo, nota-se logo que o meu caro amigo não está dentro do contexto. O autor fala de provas filosóficas e de provas teológicas. São provas de teor diferente, que se baseiam em axiomas filosóficos (por um lado) e em axiomas teológicos (por outro lado). Por exemplo, para a Igreja, a Revelação é uma fonte indubitável de verdade, e isso é considerado axiomático (ou seja, para todos os efeitos, é considerado algo aceite como verdade). Poderá encontrar, no artigo sobre Revelação, a explicação desse axioma, que, por sua vez, recorre a outros axiomas. Para a Igreja, a Tradição também é aceite como fonte indubitável de verdade, e se for à procura do artigo respectivo, também encontrará as razões para tal.

    Um dogma, retirado o pavor que hoje em dia impõem à palavra, é simplesmente um decreto. E uma coisa que quase ninguém que não é católico é capaz de entender, por falta de formação católica, é que os decretos não vêm antes das verdades. Os decretos dogmáticos são o reconhecimento de determinadas realidades como verdades. Não é um dogma que faz a verdade, mas sim uma verdade que faz um dogma.

    Nada disto tem a ver com provas científicas, que se regem por leis empíricas. Como as matérias tratadas não são empíricas, o autor não está a usar o termo “proof” em sentido científico/empírico. Espero que saiba distinguir “prova científica” de “prova filosófica”, mesmo que não aceite qualquer “prova teológica”.

    Uma “prova”, falando em generalidades, é uma demonstração racional, dialética, que parte de pressupostos (axiomas) e através de silogismos (raciocínios encadeados de forma lógica), chega a conclusões (ou corolários).

    «Adiante. Logo a seguir: “O desenvolvimento científico do conceito de transubstanciação…” O quê? Desenvolvimento científico aplicado a algo como a transubstanciação? Não seria mais apropriado dizer antes ‘desenvolvimento alquímico’?»

    Não compreendo o que é que a Alquimia tem a ver com a questão.
    Entenda que a Alquimia versa sobre transmutações de corpos materiais. E na Eucaristia, não se trata de nada disso. Trata-se de transformar um corpo material numa substância imaterial que mantém os acidentes materiais.

    «v) A transubstanciação, no entanto, não é uma simples conversão, mas uma conversão substancial (ou conversão de substancia). Por exemplo, se um pedaço de madeira fosse convertido miraculosamente em ferro segundo este processo de conversão substancial, o resultado final manteria a aparência de madeira (o tal aspecto ‘acidental’), mas seria ferro em substância;»

    Por exemplo, se o meu amigo tivesse lido o ponto V com atenção, veria imediatamente que não se fala de alquimia, pois na Alquimia, procura-se a conversão de uma matéria inorgânica noutra matéria inorgânica.

    «vi) Segue-se que a aplicação do acima exposto à eucaristia é trivial - os extremos envolvidos na conversão são agora, dum lado o pão e o vinho, e do outro o corpo e o sangue de Cristo, sendo que a substância do primeiro desaparece para dar lugar à substância do segundo.»

    Esta definição está totalmente correcta. E é coerente com a afirmação de Cristo: “Isto é o Meu Corpo”, que é a frase que opera tal transformação substancial.

    «Basicamente é esta a ‘prova’ apresentada para o ‘facto’ da transubstanciação - nada mais portanto do que um mero jogo de palavras, de afirmações demasiado evidentes ou de asserções apresentadas sem qualquer fundamentação racional.»

    Vamos por partes:

    a) não é um “jogo de palavras”, pois as alíneas que apresentou representam um encadeamento válido de silogismos

    b) o que se passa é que o Ernesto não aceita certos axiomas que o autor usou como ponto de partida; e por isso é que está tão indignado: mas ao menos, indigne-se com as coisas certas: conteste os axiomas e não o encadeamento lógico; ou o meu caro amigo acha que todas as argumentações filosóficas são jogos de palavras?

    «Você no entanto acha que tudo isto é bastante racional e que faz uso de regras elementares de lógica. Não consigo ver onde. Com ‘raciocinios’ deste tipo você pode demonstrar o que lhe apetecer.»

    Como vê, no caso da Alquimia, isso não é bem assim. A alquimia é entendida como um rearranjo da matéria, logo, não há uma total transformação substancial, mas sim uma alteração de forma. Logo, eu não poderia usar este raciocínio para, por exemplo, processos alquímicos. Logo, como vê, não são jogos de palavras. As palavras têm significados, que o meu caro amigo deve conhecer.

    Por exemplo, conhece o significado escolástico de substância?
    É que a sua situação, como verá, é simples:

    a) se conhece o significado do termo, não entendo porque razão rejeita a linearidade do argumento

    b) se não conhece, como é que pretende contestar uma argumentação que faz uso de termos que o meu amigo desconhece?

    As palavras não valem só por si. Vêm agarradas a uma semântica. Se a semântica é boa, compreende-se o raciocínio composto pelas ditas palavras. Se a semântica é má, se é defeituosa, ou se não existe sequer, ou seja, se não se compreende o significado dado pelo autor do texto às palavras que ele usa, torna-se irrelevante discutir o sentido dos argumentos.

    Posto de outra forma: se eu não dominar um léxico mínimo de japonês, não tenho autoridade nem competência para rejeitar uma demonstração lógica escrita em japonês.

    Cumprimentos,

    Bernardo

  10. Caro João,

    Estou totalmente de acordo. Não quero, de forma alguma, dar a ideia de que a transubstanciação é algo que se compreende de forma necessária, sem a intervenção de uma graça divina, de uma operação do Espírito Santo sobre o nosso intelecto. E mesmo essa compreensão nunca é total, pois o fenómeno em si é de natureza tal que não cabe, literalmente, na nossa compreensão finita.

    No entanto, é também certo que temos uma boa capacidade racional, e que devemos fazer uso dela.
    Para os cristãos, há o gesto concreto de Cristo, e as Suas palavras, claras como água: “Isto é o Meu Corpo”, e “Isto é o Meu Sangue”.

    É verdade que há boas explicações filosóficas para o que sucede na Eucaristia. Pela natureza do fenómeno, tais explicações não são nunca completamente descritivas nem probatórias. E por isso é que, no texto citado, entram axiomas dogmáticos que são aceites pela Fé.

    A fé, na verdade, é o assentimento intelectual a uma verdade que é recebida de cima, e não deduzida a partir de baixo. Só o orgulho irracional, oriundo de uma mentalidade filosoficamente incoerente (por exemplo, de uma corrente materialista), é que pode justificar que alguém queira, para tudo, encontrar provas materiais de tudo.

    Por exemplo, quando um materialista se apaixona por alguém (espero que isso aconteça!), será que ele acredita que consegue provar tal paixão? Como pensa que tal será possível? E a outra parte, a paixão do materialista, a pessoa de quem o materialista gosta apaixonadamente? Como é que tal pessoa aceita a paixão do seu apaixonado sem ser por fé, por uma adesão da vontade livre do entendimento humano a algo que não se demonstra mas que se “intui” como verdadeiro, e se recebe como verdadeiro?

    Acreditar faz parte da natureza do ser humano. Quando se acredita com boas razões, nada há de mais humano e lógico do que acreditar. Acreditar sem razões é mau, mas eu acho bem pior não acreditar, mesmo quando há boas razões. O pior cego é o que se recusa a ver…

    Um abraço

  11. Olá Bernardo!

    Sim, acreditar faz parte do ser humano, mas quando se fala de quesões de Fé é necessário que esse dom nos venha do Alto. Pois o que acontece na Santa Missa sobrepõe-se de tal maneira ao limite da nossa compreensão que só com a ajuda da Fé poderemos participar netse mistério devidamente. Não uma Fé supresticiosa, mas sim racional, inteligente e humilde, onde como dizia São Tomás “onde falham os sentidos chega a esperança de quem reza”.

    Deveras verdade que o pior cego é o que não quer ver. Até os hereges e descrentes, que buscassem com boa vontade a Verdade e o dom da Fé este lhe seria concedido. Simplesmente para eles, é mais fácil não se dar a esse trabalho, pois isso implica bastante responsabilidade. Sim, porque ser cristão implica uma série de responsabilidades, muitas das quais vão contra as leis humanas. Esperam eles que as Leis de Deus se adaptam às do mundo, quando seriam as do mundo a adaptar-se às do Seu Criador.

    Um abraço!

  12. João,

    Esperando que não nos “chutem” daqui para fora, não fosse suceder que as nossas palavras colocassem em risco os credos materialistas e ateístas, há um paralelo interessante entre:

    a) por um lado, o facto, que nenhum cientista nega, de que a humildade intelectual de quem afirma saber pouco e a vontade de saber mais são os motores centrais do avanço do conhecimento humano, e isto desde sempre

    b) por outro lado, o ensinamento de Cristo, de que quem não se fizer pequeno como uma criança (isto é, intelectualmente humilde e moralmente inocente) não entrará no Reino dos Céus

    (não aceder ao Reino pode ser entendido como não aceder à graça da visão de Deus, que por sua vez não pode ser dissociada de uma compreensão intelectual muito profunda de nós mesmos, da Criação e de Deus)

    Parece-me algo universal: o apelo à humildade, que é vista como necessária por qualquer cientista (mesmo ateu), é um apelo universal, que está também na raiz do cristianismo. Ao negar a contingência (dependência) do Cosmos, ao recusar-se a aceitar verdades vindas do alto, ao afirmar a auto-suficiência de uma razão finita para compreender o infinito, o ateu entra em contradição com os princípios básicos da busca intelectual.

    Não há descoberta sem busca.
    Não há busca sem curiosidade.
    Não há curiosidade sem humildade.

    Por hoje já chega!

    Um abraço, João.

  13. Olá Bernardo!

    Sim, é exactamente isso que quis deixar claro, embora não usando um vocabulário tão rico… Decididamente a verdadeira ciência não pode considerar-se auto-suficiente para explicar o que a transcende. Como é que alguém ousa tentar explicar cientificamente o milagre da transubstanciação? Quando o que se verifica é a transformação da substância e não da matéria. a Hóstia Consagrada analisada ao microscópio iria manter os átomos que constiuem a farinha de que ela é feita e não DNA humano… Daí que só com os olhos da Fé (humilde e sincera) se pode contemplar ali realmente o Corpo e Sangue de Jesus. Invisível, mas presente.

    Só para terminar por hoje, seria uma pena que nos “chutassem” daqui para fora, pois pessoalmente penso que ainda terei muito a discuitir e aprender contigo e tu comigo e, juntos, defender a nossa Fé no meio de tantos “lobos” que uivam contra a Igreja e o seu Pastor.

  14. Caro Bernardo,
    Quando morremos o corpo perece e a alma subsiste?
    O homem não pode ser corpo mais alma (mesmo numa relação umbilical), pois, isso nunca provará veemente a imortalidade do ser humano. Já agora pode-me definir alma?

    Penso que é absurdo “encaixar a martelo” a filosofia de Aristóteles à realidade da presença real de Cristo na hóstia. A própria palavra transubstanciação é um termo muito equivoco e leva logo uma vertente aristotélica. Será que na realidade existe veemente substância e acidentes??? Se for assim, então a realidade não seria evolutiva, mas absolutamente fixista; pois, uma substância tinha que ser sempre acidentada para poder ser alguma coisa. Com esta questão nunca conseguiríamos resolver o problema do uno e do múltiplo. Como é que tudo permanece igual apesar das transformações por que passa? Esta perspectiva dá soluções incompletas…
    Face a uma perspectiva demasiado fixista, penso que o paradigma relacional e dinâmico resolve muito melhor os problemas. Neste paradigma o que interessa realmente é a relação. Basta olhar para a realidade e o que vemos é ser e ser em relação. Tudo está em relação, vivemos numa sinfonia ontológica, ninguém pode negar isso.
    Esta perspectiva também poderá explicar a presença real de cristo na hóstia consagrada. Vou dar uma alegoria: imaginemos dois namorados que estão um com o outro, mas eles não se amam verdadeiramente e só passam a objectualizar o outro; neste caso apesar da proximidade física não há presença real da outra pessoa como absolutamente outro e como ícone de transcendência. Imaginemos agora um segundo caso, temos uma par de namorados que se amam verdadeiramente, mas estão espacialmente distantes um do outro; neste ultimo caso apesar de estarem distantes existe uma presença real do outro quer no coração, mente, etc…
    Será que esta alegoria não dá para perceber melhor a presença real de cristo na hóstia consagrada? Pois, mesmo que uma pessoa comungue indevidamente (sem consciência de querer ser um com cristo e com a humanidade toda) não está realmente em verdadeira presença de cristo. Só comunga realmente, e só encontra cristo quem procura relacionar-se com ele e com o próximo…
    Bernardo não podemos reduzir a hóstia consagrada à substancia ou acidente, ou ao meramente biológico ou material. Cristo é um Ser-Absoluto trans-espacio-temporal…

  15. Caro João, é engraçado como nós cristão debatemos num portal ateu. Temos que evangelizar em todo o lado. LOL

    Eu sou catequista,
    Você disse: «na catequese já pouco se fala no valor sacrificial da Missa, em que Jesus, presente em Corpo, Alma e Divindade tal como está no Céu, se sacrifica não com dor ou sangue, mas renova o mesmo sacrificio da Cruz de ha 2000 anos, oferecendo-o ao Pai pela salvação das almas».

    Concordo com o seu comentário, mas não concordo com os termos que utilizou (até posso concordar dos termos que utilizou dependendo da definição que me apresentar).

    O que entende por ALMA?
    O que entende por CÉU?
    O que significa salvação das alma?
    A missa poderá não ser um símbolo, mas não poderá ser um ícone???

    Só não quero ver a filosofia de Platão presente nestes termos, até o grande Ratzinger nos alertou para isso no livro introdução ao cristianismo.

    Saudações cordiais,

  16. Caro Mingos

    Como catequista penso que deverá compreender até melhor que eu o valor Divino que é a Missa. Respondendo às suas perguntas, por alma entende-se a parte não material do ser humano, sendo este composto por corpo e alma. Como deve saber, na Criação do mundo, Deus distingui-nos dos restantes animais já que nos deu uma alma que anima o nosso corpo. De facto é alma que permanece mesmo depois da nossa morte (leia-se morte corporal) e que vai ser conduzida à Vida Eterna. Cumprindo os mandamentos de Deus e da Santa Igreja, depois da nossa morte seremos entao admitidos no Céu, ou seja teremos a visão beatífica de Deus, libertos do nosso corpo (que veio do mundo), poderemos contemplar Deus na Sua plenitude com a nossa alma (que veio de Deus). O Céu poderá definir-se então, para nós, como poder contemplar a Deus e , por outro lado como a própria Casa de Deus. Sendo Deus Puro Espírito, não se pode encarar o termo “casa” como material ou lugar, mas para ajudar a perceber que no Céu estamos na Sua companhia e dos Santos, contemplando-O tal como Ele é.

    Quanto à Salvação das almas, como catequista deve saber que essa é a finalidade da Igreja e nosso dever evangelizar para que esse mesmo fim seja atingido. Ou seja, foi pela nossa salvação que Jesus morreu na Cruz, para merecermos o Céu. Sendo a Missa a renovação desse sacrifício de uma maneira nao sangrenta, na Missa Ele oferece-se ao Pai pela Salvação dos homens que nele crêm. A Missa não poderá ser um símbolo, nem um ícone, já que a Missa (e pode confirmar pelo catecismo da Igreja Católica e segundo o Concílio de Trento que foi dogmático e portanto, infalível) é verdadeiramente o oferecimento de Jesus ao Pai, estando Ele presente no Altar, pela consagração tão real como está no Céu. Por isso, a Missa não é um simbolo, um ícone ou uma memória do que aconteceu ha 2000 anos. Essa é visão protestante. A Missa é assim, a renovação real do sacrifício da Cruz.

    Um abraço

  17. Caro Bernardo,

    “(…)Não existe cristianismo válido sem a presença real e concreta do Corpo de Cristo na hóstia consagrada. Se deitamos isso fora, mais vale deitar fora todo o cristianismo.”

    Surpreender-se-ia com a quantidade de correligionários seus que não acreditam na transubstanciação. Felizmente (para o clero) o catolicismo é uma religião de tradição, na qual não é preciso haver o mais leve conhecimento da Bíblia, nem dos dogmas católicos, por outro lado também não é necessário fazer parte das suas celebrações religiosas para ser mais um número a engrossar a já estiolante percentagem de católicos.

    Para compreendermos o presente é preciso compreender o passado e isto aplica-se também às religiões, vejamos.

    É consabido que as antigas religiões egípcias, gregas, persas, romanas, judaicas e outras realizavam ágapes ou ceias com base no trigo (pão) aliado à água ou vinho, ou a ambos, simbolizando fraternidade. Na antiga festa pagã, a deusa Ceres era adorada como sendo a “descobridora do trigo”. A mesma deusa era representada com uma espiga de trigo nas mãos, tendo o seu filho, o Deus Sol, se encarnado no trigo. Como se não bastasse, a Hóstia actual seja redonda e fabricada com trigo, na festa de Corpus Christi ainda é costume que o “Santíssimo Sacramento” seja levado às ruas em procissão, dentro de uma Patena de ouro, onde se representa o Sol. O Ostensório tem, ainda, um desenho com raios solares.

    Os judeus, na sua Páscoa (Pessah), ainda comem, ritualisticamente, o “matzot” (pão ázimo). Pessah significa, na língua hebraica: “passagem”. E comemora, na realidade, diversas passagens, mas sobretudo a passagem da escravidão no Egipto para a liberdade na Terra de Israel. Isto na vertente nacional da festividade. No ciclo anual, é a passagem do inverno para a primavera. O significado mais profundo do acto de Jesus naquela ceia, foi a transformação das orações tradicionais judaicas sobre o pão e o vinho, instituindo com elas a Eucaristia, como forma de agradecimento aos seus seguidores (acto simbólico, nada mais). Eucaristia veio-nos do grego, através do latim, e significa “gratidão” (eu, significa “bem”, e kharizesthai, mostrar favor; de eu deriva por exemplo, eucalipto – bem coberto – e de kharis, favor, graça, vem o carisma).

    Embora a “Ceia do Senhor” tenha sido celebrada na sua forma original por mais de 1000 anos. Em 1200, a ICAR (por conta própria e sem qualquer justificativa), substituiu a cerimónia do pão e a do vinho, pela da suposta “Hóstia sagrada”.
    O dogma da transubstanciação, foi aventado no concílio de Latrão (1215) e já em 1298, (ora não fosse para isto que os dogmas existem) devido a uma acusação de profanação da hóstia, toda a população judaica de Röttingen foi queimada. Os massacres dos judeus continuaram por toda a Alemanha e também na Áustria. De acordo com as estimativas, 100.000 pessoas foram assassinadas e cerca de 140 comunidades judaicas foram dizimadas, incluindo as comunidades de Wurzburgo, Ratisbona, Nuremberga, Augsburgo e Heilbronn. Este foi apenas um incidente entre muitos outros.

    A partir desse concílio, qualquer sacerdote católico, através da Eucaristia e num passe de mágica (qual David Copperfield qual quê!!), passou a transformar o trigo e a água existente na Hóstia: na carne, no sangue, na Alma e na suposta divindade de Jesus; com a imensa vantagem de tudo caber dentro de um minúsculo recipiente.

    Em 1415, no Concílio de Constança, o Papa João XXIII retirou o vinho das celebrações da Eucaristia, onde se fazia a cerimónia do sacrifício do corpo e do sangue de Jesus e as Igrejas passaram a servir aos fiéis somente as Hóstias.

    O dogma da transubstanciação só toma corpo no concílio de Trento (2º período - 1551-1552), presidido pelo Papa Júlio III, que era homossexual e pedófilo, sodomizava rapazes menores de idade e apaixonou-se por um rapaz de 15 anos, o qual adoptou como filho e mantinha relações sexuais com o mesmo (só um pequeno à parte). No ano de 1551, apesar de ter sido preciso florear as explicações para explicar o porquê do sacerdote dar apenas o pão ao fiel, o que é uma clara desobediência ao mandamento do mestre, pois Jesus foi taxativo ao dizer “BEBEI DELE TODOS “ e “quem não bebe o seu sangue não tem parte com ele e não terá a vida eterna…”.

    Sumarizando:
    As “raízes” da hóstia vêm de religiões pagãs, bastante mais antigas do que o cristianismo. Jesus pegou na tradição judaica Pessah e deu-lhe um contorno igualmente simbólico, acrescentando o carácter de agradecimento aos seus seguidores. Durante vários séculos, a celebração constituiu-se semelhante à de Jesus, porém a partir do Concílio de Latrão aflorou-se o dogma da transubstanciação o qual veio a ser oficializado uns séculos mais tarde no Concílio de Trento, o qual foi presidido por homens de índole questionável. Se a transubstanciação é realmente um evento real, não deveria a Igreja primitiva ter tido o cuidado de a instituir de imediato, visto que essa era a vontade do Senhor? Arriscaram-se assim a condenar vários milhões de pessoas ao fogo eterno (crime horrível).

    Um grande abraço,
    Helder

    P.s: Só uma pequena dúvida que me atormenta: Poder-se-á tomar a hóstia na sexta-feira Santa, visto que é carne?

  18. Caro João,

    Algumas dúvidas:

    - Se a essência da pessoa é corpo mais alma, e se com a morte se dá a destruição dessa essência (uma vez que a alma permanece apesar da morte do corpo), então com a morte perde-se a identidade, a essência da pessoa? Se eu sou corpo + alma, e com a morte só sou alma, então deixo de ser eu mesmo?
    - Como é que uma substância não material pode interagir com uma substância material, e vice-versa? Precisamos por acaso de uma alma para ter o nosso corpo animado e com vida?
    - Para que é que precisamos de alma? Eu não preciso, e você?
    - O que se entende por vida eterna? O que é o céu, o inferno, o purgatório?
    - Ah, eu disse-lhe para não me responder com filosofia platónica. Mas, infelizmente respondeu-me com essa filosofia… Ah, o próprio Ratzinger afirma claramente que a teoria do substancial do corpo e da alma é incompatível com o cristianismo…

  19. Caro joão,

    continua as minhas dúvidas

    - Será que poderemos pensar sem cérebro? Poderemos ver sem ter um cérebro? Se o nosso cérebro desaparece como continuaremos a ter consciência?
    - Só poderemos contemplar Deus depois da morte? Não será antes nas relações que estabelecemos todos os dias com o outro?
    - Como se pode contemplar Deus sem estar num determinado espaço?
    - tem a certeza que Jesus morreu na cruz para nossa salvação? Salvação de quê? Jesus morreu para pagar um resgate? A quem? Ao diabo? Face a um deus que exige a morte do filho só haveria uma atitude humanamente digna: tornar-se ateu. Não acha? Não será que Cristo morreu antes para testemunhar que Deus é amor?
    - o homem poderá dizer ou conceber alguma coisa infalível?
    - que quer dizer presença real de Cristo???

    Eu sou cristão, e catequista… não tenha medo das minhas questões! mas que são necessárias para purificarmos as nossas concepçoes…

  20. Caros,

    Sejamos um pouco mais pragmáticos please!…

    Vamos admitir que é possível de alguma forma guardar as memórias e vivências emocionais - aquilo de que é feito afinal a nossa “persistência da consciência” - em DVD ou num equivalente suporte físico.

    Gosto de Sci-Fi, mas:
    Passa pela cabeça de alguém que a nossa “consciência gravada” será alguma vez consciente per si?
    Passa pela cabeça de alguém que assim seria possível preservar a integridade da nossa consciência e podermos possuir uma vivência eterna num banco de memória num qualquer “sistema global de arquivo de consciências”?

    Como gosto mesmo de Sci-Fi, vamos tentar ir ainda um pouco mais longe:
    Sabendo-se o que se sabe hoje sobre a simples moldagem das redes neuroniais cerebrais em função do desenvolvimento da personalidade de cada um assim como do resultante do treino da capacidade de raciocínio e de abstracção – o pensamento molda a forma - , será alguma vez conceptível o transplante de cérebros mantendo-se a consciência e memórias de cada um?

    Na minha humilde opinião:
    Absolutely, no chance!!

    Descendo agora ao planeta Terra:
    A minha sogra foi atropelada e sofreu um traumatismo craniano.
    Perdeu completamente a capacidade de gestão, refinamento e de armazenamento da memória de curto e médio-prazo – aquilo que é efectuado durante as três a cinco fases de sono REM (Rapid Eyes Moviment) que experimentamos durante um sono normal e regenerador.
    Lembra-se de tudo perfeitamente até ao acidente, e a partir daí, as suas memórias são um mix de sonhos, imaginações, suposições e medos.
    A sua personalidade encontra-se completamente alterada e distorcida.
    Não é a mesma pessoa, embora mantenha uma postura aparentemente racional e consciente.
    (Quando for para o céu vai continuar assim?)

    O que quero dizer com isto tudo, é que aquilo que realmente somos, depende tão somente do suporte físico onde a nossa consciência bio-química de forma efémera sobrevive.
    Quando o suporte físico se vai… todo ou parcialmente… também “nós vamos”…

    E nada mais!…

    Lamento, mas não há mais nada!…

  21. [...] iniciado pelo Prof. Myers no seu blog Pharyngula, e sobre o qual já escrevi aqui e aqui, tivemos agora o “anticlimax” (palavras de PZ) desse assunto tão surreal como [...]

  22. Caro Helder,

    As minhas desculpas pela lentidão na resposta.
    Agora estou de férias e tenho mais tempo.

    «Surpreender-se-ia com a quantidade de correligionários seus que não acreditam na transubstanciação.»

    Não, não me surpreendo nada. Conheço bem a realidade católica.
    Só que, no que diz respeito às verdades, sejam elas científicas ou teológicas, isto não é decidido por voto. Suponha que, de repente, 99% dos cientistas de todo o mundo começavam a rejeitar uma série de teoremas matemáticos demonstrados. Essa atitude iria alterar a validade dos mesmos?

    «Para compreendermos o presente é preciso compreender o passado e isto aplica-se também às religiões, vejamos.
    É consabido que as antigas religiões egípcias, gregas, persas, romanas, judaicas e outras realizavam ágapes ou ceias com base no trigo (pão) aliado à água ou vinho, ou a ambos, simbolizando fraternidade. Na antiga festa pagã, a deusa Ceres era adorada como sendo a “descobridora do trigo”. A mesma deusa era representada com uma espiga de trigo nas mãos, tendo o seu filho, o Deus Sol, se encarnado no trigo. Como se não bastasse, a Hóstia actual seja redonda e fabricada com trigo, na festa de Corpus Christi ainda é costume que o “Santíssimo Sacramento” seja levado às ruas em procissão, dentro de uma Patena de ouro, onde se representa o Sol. O Ostensório tem, ainda, um desenho com raios solares.»

    Estamos a falar de símbolos universais. É evidente que o Sol sempre representou, não só a luz a um nível mais elementar, mas sobretudo a verdade e o conhecimento. Este seu parágrafo, Helder, não explica nada. O símbolo do Sol é muito rico, e é perfeitamente óbvio que ele seja usado para tudo. Até para, nalguns aparelhos electrónicos, indicar o botão “ON”.
    A diferença crucial, no cristianismo, está em que não estamos mais perante um politeísmo. Os politeísmos sofrem de um grave erro: pelo facto de multiplicarem a divindade em várias divindades, na prática, nenhuma delas é mesmo uma divindade, pois Deus é infinito. E para ser infinito, tem que ser uno.

    «Os judeus, na sua Páscoa (Pessah), ainda comem, ritualisticamente, o “matzot” (pão ázimo). Pessah significa, na língua hebraica: “passagem”. E comemora, na realidade, diversas passagens, mas sobretudo a passagem da escravidão no Egipto para a liberdade na Terra de Israel.»

    Exactamente. No cristianismo, tudo isto é mantido, mas exaltado. A hóstia representa agora a passagem da morte para a vida nova.

    «Isto na vertente nacional da festividade. No ciclo anual, é a passagem do inverno para a primavera. O significado mais profundo do acto de Jesus naquela ceia, foi a transformação das orações tradicionais judaicas sobre o pão e o vinho, instituindo com elas a Eucaristia, como forma de agradecimento aos seus seguidores (acto simbólico, nada mais).»

    De onde lhe vem a certeza de que o acto era apenas “simbólico”, e “nada mais”?
    Cristo disse de forma clara “Isto é o meu corpo”. E não algo como “Isto representa o meu corpo”.
    O símbolo é uma representação. Não nego que haja simbolismo na Eucaristia. A hóstia representa também o fruto do trabalho do homem, isto é, o pão. No entanto, esse é um símbolo secundário, que coexiste com a realidade transformada da hóstia em Corpo de Cristo.

    «Embora a “Ceia do Senhor” tenha sido celebrada na sua forma original por mais de 1000 anos. Em 1200, a ICAR (por conta própria e sem qualquer justificativa), substituiu a cerimónia do pão e a do vinho, pela da suposta “Hóstia sagrada”.»

    Não percebo de onde é que isto vem. Ainda hoje, nalgumas situações, faz-se a Eucaristia com pão ázimo, e tal não invalida em nada o ritual. Os únicos pré-requisitos, para uma eucaristia válida, está no uso de pão de trigo não fermentado e do pronunciar a fórmula correcta por parte de um sacerdote.

    «O dogma da transubstanciação, foi aventado no concílio de Latrão (1215) e já em 1298, (ora não fosse para isto que os dogmas existem) devido a uma acusação de profanação da hóstia, toda a população judaica de Röttingen foi queimada.»

    De novo, misturamos coisas, Helder.
    Não tenho os dados aqui à mão, mas não me seria complicado apresentar textos da patrística, datando dos primeiros séculos da nossa era, a defender a presença de Cristo na Eucaristia.

    O Helder vai agora buscar uma horrível história de massacre judaico. Não contesto esta história, nem outras, mas não vejo em que é que ajudam ao nosso debate.

    «Os massacres dos judeus continuaram por toda a Alemanha e também na Áustria. De acordo com as estimativas, 100.000 pessoas foram assassinadas e cerca de 140 comunidades judaicas foram dizimadas, incluindo as comunidades de Wurzburgo, Ratisbona, Nuremberga, Augsburgo e Heilbronn. Este foi apenas um incidente entre muitos outros.»

    De novo: o que é que isto tem a ver com a transubstanciação?

    «A partir desse concílio, qualquer sacerdote católico, através da Eucaristia e num passe de mágica (qual David Copperfield qual quê!!), passou a transformar o trigo e a água existente na Hóstia: na carne, no sangue, na Alma e na suposta divindade de Jesus; com a imensa vantagem de tudo caber dentro de um minúsculo recipiente.»

    Esta frase não reflecte a verdade. Com que bases é que diz “a partir desse concílio”? Está na raiz do cristianismo a crença na transubstanciação, mesmo que a terminologia específica e a explicação filosófica sejam posteriores a adopção desta crença.

    «Em 1415, no Concílio de Constança, o Papa João XXIII retirou o vinho das celebrações da Eucaristia, onde se fazia a cerimónia do sacrifício do corpo e do sangue de Jesus e as Igrejas passaram a servir aos fiéis somente as Hóstias.»

    O vinho nunca foi “retirado” das celebrações. Aliás, não há Eucaristia sem consagração do Pão e do Vinho. E isto SEMPRE foi assim. Outra coisa totalmente difernente é ambas as espécies serem administradas aos fiéis. A consulta da Redemptoris Sacramentum explica isto bem (ver pontos 100 a 107). Pode-se administrar a comunhão em ambas as espécies como excepção e não como regra. Não se trata de vedar o acesso ao Sangue de Cristo, mas sim de evitar as dificuldades práticas da distribuição do Sangue de Cristo a grandes agrupamentos de fiéis. Por se tratar de um líquido, o risco de perdas é maior do que no caso das hóstias, que com a ajuda de patenas, garante a protecção das mais ínfimas partículas. Para mais, há dificuldades práticas no dosear do vinho necessário, pois cada dose individual não tem um volume definido, o que se consegue com a hóstia. E, por causa do valor sagrado do Corpo e do Sangue de Cristo, não podem sobrar nem hóstias consagradas nem vinho consagrado (têm que ser consumidos na totalidade).

    A Igreja procurou, com o Concílio de Constança, garantir a validade e a completude de uma comunhão apenas do Corpo, precisamente para fazer face a estas questões de natureza prática, e acusando como herética a ideia de que a comunhão deveria ser sempre em Corpo e em Sangue. Mais concretamente, o problema visado por este concílio era o dos hereges hussitas, o grupo liderado pelo boémio Jan Hus, uma comunidade cristã apocalíptica que, a dada altura, se sedeou no monte Tabor. Os hussitas defendiam a obrigatoriedade da comunhão nas duas espécies.

    «O dogma da transubstanciação só toma corpo no concílio de Trento (2º período - 1551-1552), presidido pelo Papa Júlio III, que era homossexual e pedófilo, sodomizava rapazes menores de idade e apaixonou-se por um rapaz de 15 anos, o qual adoptou como filho e mantinha relações sexuais com o mesmo (só um pequeno à parte).»

    ;)
    O Helder tem um refinado sentido de humor!
    Sem querer debater aqui a vida do Papa Júlio III, bastaria estar familiarizado com a doutrina e com a liturgia católicas para o Helder saber que um sacerdote que tivesse acabado de cometer um assassinato em massa seria capaz de consagrar eficazmente o Pão e o Vinho, mesmo logo a seguir ao crime, sem confissão pelo meio. É que o sacramento eucarístico é “ex opere operato”, ou seja, opera pelas próprias palavras e gestos operados, e não pelo estado espiritual do sacerdote. Invocar os crimes ou falhas humanas de um sacerdote, ou mesmo de um Papa, em nada afecta a qualidade das suas decisões doutrínárias ou a eficácia dos sacramentos do tipo “ex opere operato”.

    «No ano de 1551, apesar de ter sido preciso florear as explicações para explicar o porquê do sacerdote dar apenas o pão ao fiel, o que é uma clara desobediência ao mandamento do mestre, pois Jesus foi taxativo ao dizer “BEBEI DELE TODOS “ e “quem não bebe o seu sangue não tem parte com ele e não terá a vida eterna…”.»

    Só uma pergunta simples: o Helder conhece os decretos e as deliberações do Concílio de Constança?
    É sempre uma mania persistente, esta de alguns anti-católicos acharem que os católicos tomam decisões “à papo seco”, sem as justificarem ou fundamentarem. Conhece por acaso a argumentação definida em Constança?

    «Sumarizando:
    As “raízes” da hóstia vêm de religiões pagãs, bastante mais antigas do que o cristianismo.»

    Sem contar com o caso particular do judaísmo, porque é certo e não polémico afirmar que o judaísmo é o berço do cristianismo, como é que o Helder supõe ter provado as restantes raizes, fora do Judaísmo? Por ter falado em Ceres e no simbolismo solar? Há trigo em quase todo o planeta, e é uma das grandes bases alimentares da humanidade. Há sol em todo o planeta, mais nuns lugares que noutros. O simbolismo em torno do trigo e do sol é quase universal. A sua argumentação não prova nada. Por essa linha de raciocínio, o uso do símbolo solar num esquentador remontaria a Amon Rá?

    «Jesus pegou na tradição judaica Pessah e deu-lhe um contorno igualmente simbólico, acrescentando o carácter de agradecimento aos seus seguidores. Durante vários séculos, a celebração constituiu-se semelhante à de Jesus, porém a partir do Concílio de Latrão aflorou-se o dogma da transubstanciação o qual veio a ser oficializado uns séculos mais tarde no Concílio de Trento, o qual foi presidido por homens de índole questionável.»

    O Helder não está a distinguir a formulação filosófica do conceito, que é de facto, tardia, da veneração da eucaristia como sendo Corpo e Sangue de Cristo, que existe desde os primórdios como base fundamental da religião cristã.

    «Se a transubstanciação é realmente um evento real, não deveria a Igreja primitiva ter tido o cuidado de a instituir de imediato, visto que essa era a vontade do Senhor?»

    Foi, sem dúvida, isso que se passou. A eucaristia foi instituída por Cristo na quinta-feira santa, na véspera da sua paixão e morte na Cruz. Desde então, o sacramento tem sido celebrado rigorosamente com o mesmo sentido e profundidade.

    «P.s: Só uma pequena dúvida que me atormenta: Poder-se-á tomar a hóstia na sexta-feira Santa, visto que é carne?»

    Na sexta-feira santa não há missas e as igrejas estão fechadas em sinal de luto pela morte de Nosso Senhor.
    Tenho quase a certeza de que não se pode celebrar a Eucaristia nesse dia, mas posso confirmar este detalhe. A questão, seja como for, não se coloca. O vedar do consumo da carne tem a ver com a procura de um jejum mais adequado. Comer peixe também é comer carne de animais, só que se trata de uma carne muito menos farta e abundante, pelo que se cumpre melhor o jejum comendo peixe que carne. Note que a ideia não é a de sacralizar certos alimentos em detrimento de outros, mas sim a de procurar nesses dias uma alimentação menos abundante, como forma de concentração na espiritualidade da época pascal. Não se aplica, por exemplo, o abuso que eu fiz uma vez com uns amigos meus, quando numa sexta-feira santa usámos e abusámos do marisco numa bela marisqueira em Silves, usando a desculpa esfarrapada de que não era “carne”! ;)

    Um grande abraço

  23. Caro Mingos,

    «- Se a essência da pessoa é corpo mais alma, e se com a morte se dá a destruição dessa essência (uma vez que a alma permanece apesar da morte do corpo), então com a morte perde-se a identidade, a essência da pessoa? Se eu sou corpo + alma, e com a morte só sou alma, então deixo de ser eu mesmo?»

    O problema do seu raciocínio está em pensar no “antes” e no “depois”, achando que isso se aplica à alma. O corpo permanece associado para sempre à alma, e só assim se erradica o erro absurdo da reencarnação, que é uma impossibilidade. A alma subsiste porque é imaterial, logo não é afectada na sua essência pelos eventos temporais do nascimento e da morte.
    A alma está sempre ligada a um corpo, em termos ontológicos, e é, no entanto, distinta deste, por ser imaterial e não perecível.

    «- Como é ue uma substância não material pode interagir com uma substância material, e vice-versa?»

    Como é que um programa de software (imaterial por definição) pode interagir com o hardware de um computador?
    Como é que um pensamento puro (imaterial por definição) pode interagir com o nosso cérebro?
    Como é que um projecto arquitectónico (imaterial por definição) pode servir de base para a construção de um edifício?
    Como é que uma partitura musical (imaterial por definição) pode servir de base para uma peça musical?

    A diferença fundamental entre causa formal (imaterial) e causa material ajuda a deslindar a confusão.

    « Precisamos por acaso de uma alma para ter o nosso corpo animado e com vida?»

    Alma vem de “anima”. Deveria ser evidente que nada está animado sem alma. Só que almas há muitas, e cada animal tem um leque de faculdades diferente.

    «- Para que é que precisamos de alma? Eu não preciso, e você?»

    Eu preciso dela para estar vivo. Senão estaria morto.

    «- O que se entende por vida eterna? O que é o céu, o inferno, o purgatório?»

    Vida eterna é a contemplação infindável de Deus, face a face. É uma felicidade sem fim, é a meta da existência humana.
    Céu é a condição ontológica dos seres que merecem essa condição.
    Purgatório é uma condição ontológica intermédia, anterior (em termos causais e não temporais) ao acesso ao Céu, é um estado necessário para quem não morreu na plenitude da amizade com Deus, e traz ainda imperfeições que devem ser “limadas” antes do acesso ao Céu.
    O Inferno é um estado irreversível de miséria existencial, resultado da opção livre pela recusa de Deus ou dos Seus mandamentos.

    «Ah, o próprio Ratzinger afirma claramente que a teoria do substancial do corpo e da alma é incompatível com o cristianismo…»

    Pode dar-nos uma citação?

    «- Será que poderemos pensar sem cérebro?»

    Pensar, em termos racionais, de pensamento encadeado e sequencial, não.
    Mas para inteligir de forma imediata e instantânea, não precisamos. Os anjos não têm cérebro.

    «Poderemos ver sem ter um cérebro?»

    Ver, em termos ópticos?
    Nesse caso, precisamos de todo o sistema de visão, cérebro, olhos, nervo óptico, etc.

    «Se o nosso cérebro desaparece como continuaremos a ter consciência?»

    Se por “consciência” entende actividade intelectual, certamente que sim. Senão, que actividade intelectual teriam as criaturas imateriais (como os anjos) ou mesmo Deus, que não é material?

    «- Só poderemos contemplar Deus depois da morte?»

    Deus-Pai, diria que sim.
    Deus-Filho foi contemplado pelos contemporâneos de Cristo, bem como pelos bem aventurados que tiveram a graça de o contemplar em visões particulares.

    «Não será antes nas lações que estabelecemos todos os dias com o outro?»

    Essa é uma forma indirecta e bem real de O contemplarmos.

    «- Como se pode contemplar Deus sem estar num determinado espaço?»

    Não entendo a questão.

    «- tem a certeza que Jesus morreu na cruz para nossa salvação?»

    Sim.

    « Salvação de quê? »

    Do pecado e das penas eternas dele consequente.

    «Jesus morreu para pagar um resgate? A quem? Ao diabo? Face a um deus que exige a morte do filho só haveria uma atitude humanamente digna: tornar-se ateu. Não acha? Não será que Cristo morreu antes para testemunhar que Deus é amor?»

    Sim, morreu para testemunhar que é Amor. E fê-lo para lavar o pecado do Mundo e dar a Vida Eterna aos homens. Nâo percebo porque é que quer separar o Amor da dádiva de Si mesmo do objectivo redentor. Sem a Redenção, qual seria o objectivo do acto amoroso de Deus?

    «- o homem poderá dizer ou conceber alguma coisa infalível?»

    Sim, pela graça do Espírito Santo. Através da razão, há certas coisas infalíveis que o homem pode atingir. Por exemplo, e
    é só um exemplo, os princípios fundamentais da lógica, que são verdadeiros e infalíveis.

    «- que quer dizer presença real de Cristo???»

    Presença de Cristo na Sua totalidade. O próprio Cristo frente a frente connosco.

    Um abraço!

  24. Algumas considerações sobre as opiniões do caro Bernardo,

    «O problema do seu raciocínio está em pensar no “antes” e no “depois”, achando que isso se aplica à alma.»

    Penso que compreendo…Como à alma não são aplicáveis os conceitos temporais básicos de “antes” e “depois”, quer dizer que a minha alma já existia antes de eu nascer, o que implica que o conceito de uma alma recheada de uma personalidade rica de vivências não tem qualquer sentido, e para além disso, irá existir para sempre independentemente de ter ou não ter tido tempo de adquirir quaisquer memórias – como se, por exemplo, morrer à nascença.
    Não existem pois almas boas ou más nem com boas condutas nem pecados, já que a sua função é apenas animar um suporte físico.
    Existem desde sempre… e naturalmente, serão sempre “salvas” pois continuarão sempre a existir.
    A sua passagem pelo suporte físico é apenas uma fatia infinitesimal numa eternidade que até agora possui 14 mil milhões de anos.
    Na verdade, são assim uma espécie de pozinho prilim-pimpim que pretende explicar as reacções bioquímicas que ocorrem naturalmente em consequência do princípio de minimização de energia, e ao qual a Natureza “obedece cegamente” ao formar grúmulos de ordem local.

    Já agora, quando é que as almas foram feitas? Todas de uma vez logo após o Big-Bang, já vinham de “antes” do Big-Bang, ou foram criadas conforme ia havendo disponibilidade? E foram feitas de forma personalizada para cada ser, ou os suportes físicos são “tocados” por uma alma qualquer retirada à sorte de um armazém algures?

    Como os animais são animados – se não fossem, não tinham esse nome - também possuem alma tal como afirmou. Presumo portanto que também terão alma as plantas, os fungos, as bactérias, os vírus, os priões e os cristais que se “reproduzem” por indução molecular de proximidade.
    Não é bem assim?
    Já sei. São todas diferentes e com funções diferentes.

    Mas mesmo assim ainda me restam umas dúvidas insignificantes:
    - A alma do Homo Sapiens Neardentalensis – que até celebrava a morte com referências à crença na vida eterna – é mais parecida com a do Homo Sapiens Sapiens – que também faz o mesmo - ou com a do Homo Heidelbergensis, o seu verdadeiro antecessor – que, que se saiba, não fazia nada disso? Vamo-nos encontrar com eles no céu? Só com alguns ou com todos? E com os priões da BSE, também?

    Afinal, se as almas foram todas feitas de uma só vez a totalmente personalizadas, é assim que se explica as extinções das espécies – devido ao stock de alminhas específicas de uma determinada espécie esgotarem, e o Homo Sapiens Neardentalensis apenas teve azar, certo?
    Claro que não!
    A gestão da produção de almas é completamente flexível e a produção de Neardentalensisinhos deve ter sofrido um qualquer corte devido ao redireccionamento do investimento para a produção de Sapiensinhos que ainda por cima não param de aumentar…

    Para além de tudo isto ser divertido, também possui implicações filosóficas importantes…
    - Se as almas existem desde sempre, quer dizer que não são geradas em função das necessidades e portanto TUDO está devidamente calculado: Entre quem vive, porque há uma alma disponível para atribuir, e entre quem não vive – adivinhe porquê…
    - Se as almas são produzidas em função das necessidades, então, no limite podem ser criadas “à rasca” imediatamente antes das primeiras divisões do blastocisto - ou mesmo posteriormente que ninguém repara - e portanto, o conceito de “antes” para uma alma é aqui perfeitamente aplicável.
    - Se existe verdadeiro livre arbítrio – e eu penso que sim -, então em teoria nunca deveria haver um limite para a livre procriação, pelo que nunca poderá existir um número limitado de almas para atribuir aos novos suportes físicos – não consigo imaginar um zigoto a negar dividir-se por não existirem almas disponíveis para ele.

    Conclui-se assim que as almas podem ser ilimitadas, podem ser produzidas a qualquer altura em função das necessidades, e ninguém pode saber se existem para sempre ou não.
    Por outras palavras: Se não existirem, ninguém dá conta…
    E até agora, foi isso que aconteceu: Ninguém deu conta…

    Nota: Um «programa de software», um «pensamento puro», um «projecto arquitectónico» ou uma «partitura musical» para existirem, implicaram consumo de energia e a sua concepção contribuiu para o aumento da entropia do Universo. Logo, NUNCA serão imateriais por definição. O esforço associado à sua existência é mensurável. O de uma alma não.

    «Senão, que actividade intelectual teriam as criaturas imateriais (como os anjos) ou mesmo Deus, que não é material?»

    Boa pergunta.
    A resposta é zero, tal como a actividade intelectual espectável da minha alma antes de eu nascer.

    «Sim, pela graça do Espírito Santo. Através da razão, há certas coisas infalíveis que o homem pode atingir. Por exemplo, e é só um exemplo, os princípios fundamentais da lógica, que são verdadeiros e infalíveis.

    Porque mencionou o es? Veja lá bem se assim não fica melhor:

    «Sim. Através da razão, há certas coisas infalíveis que o homem pode atingir. Por exemplo, e é só um exemplo, os princípios fundamentais da lógica, que são verdadeiros e infalíveis.»

    « Presença de Cristo na Sua totalidade. O próprio Cristo frente a frente connosco.»

    Francamente caro Bernardo,
    É preciso complicar tanto o facto de querermos e gostarmos de viver em harmonia com a Natureza e com todos?

    Cumprimentos

  25. Caro Bernardo,

    Não deixo de repetir que conceitos como corpo e alma são termos muito equívocos. O que existe é a pessoa una como um todo, que se desvela a partir da relação com o próximo. O conceito alma não nos ajuda em nada, sobretudo se entendermos alma como uma substância que nada tem haver com o empírico.

    O mais importante de tudo é a RELAÇÃO, nomeadamente a relação de amor que o JC nos ensinou até ao ponto de dar toda a sua vida por amor na Cruz.

    Pois, sem outros eus enquanto tus, não há eu… no olhar do outro enquanto próximo inobjectivável, irredutível, de que não posso dispor, pode revelar-se o apelo misterioso da proximidade infinita do Deus infinitamente outro.

    Falar de conceitos como céu, inferno, purgatório só tem sentido nesta trama de relações de amor que em tanto nos caracteriza.

    Aristóteles na sua metafísica questionava qual é o Ser na sua ultimidade ou o ser enquanto ser?
    A resposta mais adequada é o facto de em toda a realidade do ser está em relação… não podemos negar este facto!

    Na cosmologia contemporânea não tem qualquer sentido referirmo-nos ao céu ou ao inferno de modo tradicional… já João Paulo II nos tinha alertado que não são lugares, mas sim situações de RELAÇÕES interpessoais. São situações de vivência enquanto estamos vivos uns com os outros. Tudo depende das relações que estabelecemos. Se estivemos apáticos a qualquer relação, só nos preocupando com o mal dos outros, estamos claramente no inferno. Se estivermos a tentar criar relações, o bem, estamos no purgatório. E se consolidarmos essas relações de bem e amor com os outros e com Deus estamos a viver no paraíso.

    Darwin com a sua teoria da evolução das espécies vai acrescentar os desafios lançados ao cristianismo. O que Darwin constata é que o homem não é objecto de uma criação particular, mas uma espécie animal sujeita à lei biológica da evolução. Assim, o homem não é um produto directo de um Deus criador, mas é fruto de um processo de adaptação e selecção natural. Portanto, os seres humanos aparecem na terra da mesma forma que todos os seres vivos, partem todos de um passado e ponto comum, por um processo evolutivo. É um mecanismo cego, onde somente os seres mais aptos sobrevivem. A natureza agora é vista apenas como um palco onde os vários actores se digladiam num combate sem tréguas com o único fim de sobreviver.
    Esta teoria colocou em causa o facto de Deus criar directamente o primeiro casal, Adão e Eva, o que contradiz a narração bíblica do génesis, lendo-a literalmente. Por conseguinte, se Deus não criou directamente Adão e Eva como nos relata a bíblia, então também não houve o pecado original. Do mesmo modo, a teoria darwiniana põe seriamente em causa o facto de o ser humano possuir alma. Uma vez que o ser humano tem a mesma origem que os restantes animais, e se os animais não têm alma espiritual, logo o ser humano também não pode ter alma espiritual. E se o ser humano não tem alma, então, não é imortal. Portanto, não havendo uma alma substancial e permanente que sobrevive depois da morte do corpo, então, não existe vida para além da morte .
    A alma é colocada à parte, já não tem qualquer função, é um conceito desactualizado. Pois, é preciso atender que o conceito de alma foi criado num contexto muito próprio e singular. Infelizmente os primeiros teólogos do cristianismo tiveram a má ideia de harmonizar uma filosofia especulativa sobre a alma com o cristianismo, o que iludiu muitas pessoas durante vários séculos, e ainda ilude.

    Será que aquilo que vem na Bíblia sobre a existência da alma, e que acreditamos inspirado por Deus, não passa de “uma filosofia especulativa…o que iludiu muitas pessoas durante vários séculos, e ainda ilude”?
    Primeiro a bíblia não é um relato jornalístico. Segundo o termo alma referente na bíblia não tem haver em nada com a alma substancial e permanente que a nossa igreja não se cansa de repetir e iludir. Lendo aqui o texto de Ratzinger “Introdução ao Cristianismo” defende que a teoria filosófica da imortalidade da alma foi indevidamente incorporada no pensamento cristão. Ratzinger (actual B16) defende que não existe corpo mais a alma… mas sim existe a pessoa que é uma só coisa. Afirma mesmo que o dualismo corpo-alma é “um dualismo incompatível com a fé cristã” (pag. 254). Interessante não é! Mais à frente afirma o seguinte: “o raciocínio bíblico, pelo contrário, pressupõe a unidade indivisa do ser humano, tanto assim que a bíblia nem tem palavra para designar apenas corpo (separado e distinto da alma); por outro lado, o termo «alma» refere-se ao ser humano inteiro, tal como ele existe” (pag. 255). Portanto, quando falamos de vida eterna (imortalidade) referimo-nos ao “ser humano uno e indiviso, e não apenas ao destino de uma metade do homem” (idem). Mas o que mais gosto e mais me impressiona no pensamento de Ratzinger é o seguinte: quando se fala de ressurreição e imortalidade só tem sentido num âmbito “dialogal” – “quem crê está em diálogo com Deus, e esse diálogo é VIDA que supera a morte” (pag. 257). E o melhor é isto: “a formula bíblica da imortalidade pretende transmitir uma ideia dialogal que abrange o ser humano como um todo (…) E a sua existência prossegue porque vive na MEMÓRIA de Deus ” (pág. 258). Claro que estas reflexões do grande teólogo Ratzinger e actual Bento XVI têm muita mais plausibilidade do que a teoria meramente sem nexo do, por exemplo, capitão René Descartes que defende uma “res cogitans” (alma) separada da “res extensa” (corpo); ou as teorias de Platão e Aristóteles. Pergunto como é que hoje ainda é possível ensinarem isto na catequese: que existe uma coisa que é alma que sai do corpo quando se morre. Que coisa sem nexo, que nada tem haver com o cristianismo.
    (aconselho-te a ler o livro do Joseph Ratzinger – “Introdução ao cristianismo”. Cascais: Principia, 2005. Principalmente é preciso ler com atenção as páginas 254 até 262).

    Não se pode defender um cristianismo ingénuo, mas um cristianismo que não pode estar alheio à ciência e às críticas da razão. O cristianismo necessita de espírito crítico para não cair em superstição e não se tornar inadequada e irrelevante numa cultura em constante mudança.
    Uma relação de complementaridade entre cristianismo e ciência (enquanto estudo e compreensão da realidade empírica) talvez será a melhor solução. Um cristianismo sem ciência (e espírito crítico) possivelmente será ilusão. Uma ciência sem cristianismo tende a endeusar-se.

    Novamente repito que temos que constatar que tudo o que é ser é relação. E só a partir do paradigma relacional podemos compreender incompreensivelmente Deus, o ser humano, a morte, a imortalidade, a vida eterna, etc…

    O problema da morte é na realidade um mistério… um momento irrepetível, único… Mas se atendermos que “ser” é “ser relação” poderemos começar a compreender muito limitadamente alguma coisa mais. A relação é o mais importante, e é aquilo que nos constitui verdadeiramente como pessoas. A “relação” implica “morrer” para si (para o egoísmo) para sair de si, e fazer feliz o outro na sua diferença. Quando nos relacionamos ficamos com “marcas”… após a relação não somos o mesmo… pelo menos ficamos com as “memórias” da relação. Este aspecto “memorial” é um dos mais importantes (ex: “fazei isto em memória de mim”). Ao falar do homem Ratzinger a afirma que depois da morte biológica do homem, “a sua existência prossegue porque vive na MEMÓRIA de Deus ” (pág. 258 – Introdução ao Cristianismo).

    O grande padre e filósofo Alfredo Dinis também desenvolve bem esta perspectiva relacional, e memorial que fica depois da morte biológica:

    “A pessoa é toda a realidade relacional que foi “construindo” através da sua vida, da sua história pessoal, desde o momento da concepção. Essa totalidade da existência humana que é a pessoa, sobrevive de algum modo totalmente na sua própria memória, enquanto vive na história, e parcialmente na memória de outras pessoas com as quais se relaciona ou se relacionou e se “constuiu” até ao momento da sua morte corporal. Essa memória é, porém frágil, - de facto, mera poeira em que se desfaz o suporte físico da memória humana. Mas a realidade pessoal sobrevive para sempre na “memória” substancial e imortal de Deus. Deste modo, a imortalidade substancial e pessoal é vista a partir de Deus e não a partir da substância da alma humana. Nesta perspectiva, com a morte o corpo, a mente, o “espírito”, a consciência, etc., voltam, de facto ao pó da terra, e a ressurreição da carne não é a reanimação do corpo, nem tem que ser a recriação de algum corpo individual à maneira tomista, mas uma nova relação, transfigurada, da pessoa, não só com Deus mas também com as outras pessoas e com todo o universo. Neste sentido, os termos “relação” e “totalidade” assumem uma importância fundamental” (Dinis, Alfredo – “Implicações Antropológicas de Desenvolvimentos
    Científicos Recentes em Biologia e Ciências Cognitivas”. In: Revista Portuguesa de Filosofia, 54 (1988), pp. 555-591).

    Este é uma nova perspectiva de ver a vida que não levanta os problemas que levantava as concepções substancialistas de alma e corpo da filosofia e teologia aristotélico-tomista. É uma visão que se aproxima mais da realidade. E pessoalmente gosto muito deste paradigma uma vez que é exactamente aquilo que Cristo nos queria ensinar: só vivemos na relação, nomeadamente na relação de amor.

    Saudações cordiais,

  26. Voltando ao tema proposto pelo Ricardo Silvestre, e sobre a tal de transubstanciação.

    Do que é que aquela seita e tantas outras semelhantes viviam?
    De acordo com os registos, alguns até deixaram de “ir ao mar”.
    Do de que é que eles viviam – e eram bastantes - senão das contribuições dos seguidores?
    Admitindo a existência de jc, o facto de na sexta à noite haver pão para todos já era motivo de festa e dizer que o pão é feito do mesmo material que o corpo é apenas uma forma erudita de dizer “vamos mas é comer que se faz tarde!”.
    Dizer isto enquanto se distribui pão de borla… tem definitivamente impacto!
    E a partir daí…

    Já quanto ao que parece que foi afirmado no fim da festa sobre a semelhança entre vinho e sangue, penso sinceramente que se estavam a referir às taxas de alcoolémia que cada um devia exibir.

    Abraços a todos

  27. Problemas da alma substancial e outros:
    Já agora o que é: “inteligir de forma imediata e instantânea” sem precisar de cérebro? será mais um mito?
    E como poderá existir uma consciência (actividade intelectual) sem cérebro?
    Tenho consciência que Deus não tem actividade intelectual mas algo que transcende tudo o que posso imaginar, e que transcende também tudo o que é do nosso universo espacio-temporal (como é o exemplo da actividade intelectual). Se não, não era Deus…
    Tem a certeza que existem anjos? Qual a sua evidencia? Eu não tenho certeza alguma…
    Como consegue evidenciar numa ontologia a existência de anjos?
    O que significa contemplar directamente a Deus?
    Penso que a verdadeira contemplação directa a Deus é na relação de amor com o outro, que nos “conduz” (é ícone) ao infinitamente outro, se O aceitarmos.
    “Sem a Redenção, qual seria o objectivo do acto amoroso de Deus?” (não seria sermos todos uma unidade em amor, uma verdadeira humanidade, dando Ele esse exemplo!? [Cf. evangelho de João 17])
    Será que os princípios fundamentais da lógica são verdadeiros e infalíveis no trans-espaço e trans-tempo? Como consegue evidenciar isso?
    Porque não poderá ser presença real de Cristo o próprio Bernardo com quem me relaciono?!

    Vamos utilizar “substância” como sendo aquilo que subsiste por si, independente de qualquer outro.
    Se o corpo é uma substância e a alma outra substância; então, a alma poderá subsistir à morte do corpo (que é material e corruptível) porque a alma é imortal e não perecível.
    Agora questiono como é que uma substância imaterial pode interagir como uma material? Será que é como um barqueiro dirigindo um barco?
    O software não funciona sem hardware. O pensamento não funciona sem circuitos neuronais.
    Será que a alma pode “funcionar” ser corpo?
    Eu não preciso de alma para estar vivo… preciso antes de ter uma estrutura orgânica/biológica funcional, com o coração a bater e a bombear sangue para eu estar vivo.
    E a consciência emergiu-me por ter os meus circuitos neuronais sem problemas, e pelo facto de começarem a estabelecer comigo relações interpessoais.
    Não preciso de alma para nada! Todos vivemos sem alma! Não existe “dentro” dos seres humanos um “fantasma” que os põe necessariamente a viver. Como também se concluiu que não existe flogisto, ou planetas a moverem-se numa sopa cósmica de éter…

  28. Mingos, ainda me há-de explicar como consegue ser catequista, com as afirmações que aqui apresenta! Espero sinceramente que se limite a cumprir o programa catequético (já por si bastante degradado no que respeito ao ensino de regras e verdades fundamentais da Doutrina Católica), e não manifeste a sua opinião aos jovens que o ouvem. Porque está a ensinar tudo menos a Doutrina Católica. Pense na responsabilidade que tem, pois mesmo que tenhas essas opiniões é sua obrigação ensinar os jovens na verdade e no que ensina a Santa Igreja.

    Cumprimentos

  29. “E a consciência emergiu-me por ter os meus circuitos neuronais sem problemas, e pelo facto de começarem a estabelecer comigo relações interpessoais.”

    O Mingos é um ateu camuflado? Para além de que gostava de saber de onde é que o Mingos tirou essas ideias da consciência….visto que é uma área que ainda poucos (ou ninguém) dominam..

  30. Caro João,

    Sou cristão (acredito no grande tipo chamado Jesus Cristo) e sobretudo acredito na mensagem de AMOR.
    Sou catequista, mas não quero enganar os meus catequizados com a filosofia aristotélico-tomista que se incorporou indevidamente na doutrina cristã, nem com filosofias de substâncias ou acidentes, matérias ou formas, actos ou potências, que apenas só levam a problemas em vez de os resolver.

    Pretendo alertar toda a gente (crianças, jovens e adultos) que ter uma fé acritica e dogmática é um grande fundamentalismo e comporta muito perigo. É necessário uma fé racional que esteja de acordo com os dados da ciência e das neurociências.
    A religião tem que ser criticada até ao limite, pois, necessita de ser purificada de tudo aquilo que é superstição e fundamentalismo irracional.

    O ser humano não é dono da verdade… vivemos todos num contexto… temos todos os nossos “óculos” de leitura da realidade… nunca vemos neutralmente… Logo, penso que é uma séria falta de desonestidade intelectual e uma falta de sinceridade reclamar sem mais nem menos a verdade para algo que não se tem a certeza.

    As dúvidas são necessárias… é um grande caminho para nos aproximarmos relativamente da verdade inalcansavel. Nada melhor que a falsificabilidade (cf. Popper) que para além de ser aplicada à ciência, penso que também se poderá aplicar à religião e ao cristianismo.

    Caro João Ribeiro,
    Sou cristão… Não sou um ateu camuflado… apesar que os ateus me ajudam muito a radicalizar a razão critica e assim a purificar cada vez mais uma religião e cristianismo que vive veemente a relação de amor.
    Gosto de ler Dawkins e Dennett… como também gosto de ler teólogos (Apesar de muitos o acharem conservador, Ratzinger é um grande pensador, nomeadamente pelo que escreveu no livro “Introdução ao Cristianismo”. Nas últimas páginas até esclarece que o dualismo [corpo-alma] é incompatível com o cristianismo).
    Tudo ajuda… temos é que ter uma mente e pensamento aberto… porque ninguém (essente) é dono da verdade.

    Despeço-me com uma citação de um professor meu, que também é padre: “o ateísmo é o primeiro momento da fé”! pois, este “despe” (é a nudez ontológica)… e só quando for “pobre” de tudo é que posso ser “rico” de tudo…

    Saudações cordiais,

  31. Caro João,

    Não é o sofrimento que pode reparar o “pecado” (traduz-se numa linguagem normal por: desumanidade existente no mundo). Mas, só o AMOR e a relação de encontro com o outro poderá conduzir a uma humanização do mundo.
    Jesus reparou ou redimiu os pecados do mundo com amor, ensinando a amar e a relacionar-se com a humanidade para que todos sejam um.
    É ilógico conceber um Deus amor que exige sacrifício. Cristo não morreu na cruz por ser bom sofrer… Cristo não morreu sequer para pagar um resgate (ao diabo??? Ou a quem???) nem sequer morreu para aplacar a ira de Deus. Mas, Cristo morreu para testemunhar a verdade incrível que Deus é amor, que é oblação total. Na missa celebra-se este Deus amor… não um deus egoísta que exige o sofrimento dos seres humanos como forma de pagamento (que deus terrível esse!)

    Volto a repetir: Sou cristão (acredito no grande tipo chamado Jesus Cristo) e sobretudo acredito na mensagem de AMOR.
    Sou catequista, mas não quero enganar os meus catequizados com a filosofia aristotélico-tomista que se incorporou indevidamente na doutrina cristã, nem com filosofias de substâncias ou acidentes, matérias ou formas, actos ou potências, que apenas só levam a problemas em vez de os resolver.
    Pretendo alertar toda a gente (crianças, jovens e adultos) que ter uma fé acritica e dogmática é um grande fundamentalismo e comporta muito perigo. É necessário uma fé racional que esteja de acordo com os dados da ciência e das neurociências, etc…
    A religião tem que ser criticada até ao limite, pois, necessita de ser purificada de tudo aquilo que é superstição e fundamentalismo irracional.
    O ser humano não é dono da verdade… vivemos todos num contexto… temos todos os nossos “óculos” de leitura da realidade… nunca vemos neutralmente… Logo, penso que é uma séria falta de desonestidade intelectual e uma falta de sinceridade reclamar sem mais nem menos a verdade para algo que não se tem a certeza.
    As dúvidas são necessárias… é um grande caminho para nos aproximarmos relativamente da verdade inalcansavel. Nada melhor que a falsificabilidade (cf. Popper) que para além de ser aplicada à ciência, penso que também se poderá aplicar à religião e ao cristianismo.

    Sou cristão… Não sou um ateu camuflado… apesar que os ateus me ajudam muito a radicalizar a razão critica e assim a purificar cada vez mais uma religião e cristianismo que vive veemente a relação de amor.
    Gosto de ler Dawkins e Dennett… como também gosto de ler teólogos (Apesar de muitos o acharem conservador, Ratzinger é um grande pensador, nomeadamente pelo que escreveu no livro “Introdução ao Cristianismo”. Nas últimas páginas até esclarece que o dualismo [corpo-alma] é incompatível com o cristianismo).
    Tudo ajuda… temos é que ter uma mente e pensamento aberto… porque ninguém (essente) é dono da verdade.
    Despeço-me com uma citação de um professor meu, que também é padre: “o ateísmo é o primeiro momento da fé”! pois, este “despe” (é a nudez ontológica)… e só quando for “pobre” de tudo é que posso ser “rico” de tudo…

    Saudações cordiais,

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