Uma “porta” para a “posição de joelhos”
Por Ricardo Silvestre • 7 Jul, 2008 • Categoria: Ciência & Educação, Discriminação Religiosa, Opinião, Psicologia & SociologiaEste artigo de opinião de António Rego no site da Agencia Ecclesia merece uma análise mais cuidada.
Para além do Português ser algo impenetrável, com um texto tão enrolado, denso, e lírico que faz os livros de Vitorio Kali parecerem Pedro Paixão, esta prosa traz camufladas todas as metas de evangelização e supressão do laicismo que estamos habituados a ver nas igrejas, ou pelo menos em grupos mais… “puristas” (para não lhes chamar outra coisa).
De António Rego:
“Uma porta para o Evangelho.
O Evangelho nunca entrou, onde quer que fosse, apenas com o tesouro das palavras. (…) Mas logo a seguir acontecia a grande viagem: encarnar e habitar no meio de nós. E assim se estabelece o elo entre o Infinito e o finito, entre Deus e o homem. (…) Em Jesus se reforçou o gesto e o símbolo (…) Desde o início que evangelizar foi dizer que Jesus é o Pão da vida que mata a fome para a vida eterna.”
OK, até aqui tudo bem. Liturgia clássica de quem é crente. Linguagem floreada e apócrifa, mas nada de novo.
“A história da missão é a partilha fraterna deste pão eucarístico, na celebração do mistério envolto na partilha do pão da Palavra e das palavras, na mesa de cada lar, na escola de cada comunidade, na urgência de cada hospital, no ensino dos pequenos gestos que constroem e vida das famílias e da sociedade (…) Foi esta a glória da Igreja missionária. Longe, nos Continentes abandonados, e aqui, nas cidades, periferias e aldeias mais esquecidas dos poderes. E os gestos de acolher em creches, jardins-de-infância, escolas vocacionadas na atenção a cada um, centros de dia, lares de abandonados pela idade ou doença
Aqui começam a soar as “campainhas de alarme”. A “história da missão” era sem dúvida entrar por todo o lado e pregar o evangelho e evangelizar. E podemos até conceder que a “igreja missionária” pode ter feito muito de bom para populações esquecidas e necessitadas. Mas quando se começa a invocar a “glória” de o fazer, parece que a tão apregoada humildade cristã passa um pouco ao lado.
Mas esses foram tempos passados. A ajuda aos necessitados em troca da “salvação” dos mesmos. Mas esperamos que as coisas tenham mudado um pouco com a mudança dos tempos. Certo? Certo?
Aparentemente, “podemos dobrar, mas não partimos”. Vejam o último parágrafo.
“Novos tempos se vivem. O Estado cada vez mais ocupa estes espaços e copia este estilo. Que mal há nisso? Nenhum. Se, com isso, não pretender transformar o serviço em poder. Quando na realidade dum dever se trata. Que não sirva para roubar missão e afecto. “
Ahhh! Veio de cima o azedume e a angustia da perda da “missão” (e do afecto, como se fosse exclusivo da igreja). O Estado pode fazer tudo aquilo que a igreja faz, mas não nos “roubem a missão e o afecto”. Ou seja, não nos tirem aquela que á “glória do nosso trabalho missionário” que é mentir as pessoas, encher as suas cabeças de superstições e irracionalismo, de faze-las sentir amedrontadas e prontas para se prostrarem de joelhos e aceitar um dogma como meio de salvação em troca de um cobertor e de uma sopa quente.
Não, meus senhores. A missão não deve ser de evangelização. Deve ser de ajuda aos próximos sem a preocupação pela sua “alma imortal”.
E não deve ser de andar a enviar “recados” para o Estado em formato de “moralismo de alguidar” e de “passados gloriosos e missões eternas”.