Fernando Pessoa e Fátima
Por Ana Valente • 3 Jul, 2008 • Categoria: OpiniãoO poeta português Fernando Pessoa encarava Fátima como o lugar mítico da construção do nacionalismo católico e monárquico que ele repudiava, sustentou hoje o historiador José Barreto, antes de revelar um texto inédito do escritor sobre aquele lugar de culto.
“É um texto irónico, a roçar a sátira anticlerical, em que Pessoa parece regressar ao seu radicalismo de juventude. A intenção não é propriamente anti-religiosa mas anti-católica - uma ‘nuance’ que se deve sublinhar”, disse José Barreto numa conferência sobre “Pessoa e Fátima. A prosa política e religiosa”, proferida hoje na Casa Fernando Pessoa.
Começa assim: “Fátima é o nome de uma taberna de Lisboa onde às vezes… eu bebia aguardente. Um momento… Não é nada d’isso… Fui levado pela emoção mais que pelo pensamento e é com o pensamento que desejo escrever”, diz o poeta.O texto inédito descoberto pelo historiador e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa é apenas “o preâmbulo de um artigo maior que teria um carácter de estudo de caso, permitindo caracterizar aquilo a que Pessoa chama ‘esta religiosidade portuguesa, o catolicismo típico deste bom e mau povo’”, explicou, citando o poeta.
“Fátima é o nome de um lugar da província, não sei onde ao certo, perto de um outro lugar do qual tenho a mesma ignorância geográfica mas que se chama Cova de qualquer santa”, observou.”Nesse lugar - esse ou o outro - ou perto de qualquer d’elles, ou de ambos, viram um dia umas crianças aparecer Nossa Senhora, o que é, como toda gente sabe, um dos privilégios (…) a que se não (…). Assim diz a voz do povo da provincia e a ‘A Voz’ (jornal católico e monárquico) sem povo de Lisboa”, prosseguiu.
“Deve portanto ser verdade, visto que é sabido que a voz das aldeias e ‘A Voz’ da cidade de ha muito substituíram aquelas velharias democraticas que se chamam, ou chamavam, a demonstração científica e o pensamento raciocinado”, ironizou.
Pessoa denunciava o aproveitamento da crença do povo por parte do poder político e afirmava: “o facto é que ha em Portugal um lugar que pode concorrer e vantajosamente com Lourdes. Ha curas maravilhosas, a preços mais em conta”, escreveu.”O negócio da religião a retalho, no que diz respeito à Loja de Fátima, tem tomado grande incremento, com manifesto gaudio místico da parte dos hoteis, estalagens e outro comércio d’esses jeitos - o que, aliás, está plenamente de acordo com o Evangelho, embora os católicos não usem lê-lo - não vão eles lembrar-se de o seguir!”, comentou.
O artigo sobre Fátima - que teria sete páginas tipográficas, de acordo com o sumário que Pessoa deixou escrito - destinava-se a ser publicado no primeiro número da revista Norma, um dos três projectos editoriais de Pessoa no ano da sua morte, em 1935, um quinzenário sobre Literatura e Sociologia que não chegou a concretizar.
http://sic.aeiou.pt/online/noticias/cartaz/080702_textoineditodefernandopessoa.htm
Esta notícia apareceu hoje nos noticiários da nossa televisão, chamando-me desde logo a atenção pela temática e pelo tom que tão bem conhecemos em Pessoa.
Escreveu estas palavras creio que nos anos vinte, onde já ironizava e criticava o negócio “sujo” que se faz com as crenças e fragilidades do povo, das pessoas.
100 anos depois o trabalho e negócio milionário que é Fátima está para durar, cada vez mais elaborado e com mais artigos de oferta e os mais crentes agradecem, pagando sempre a sua parte (o rebanho segue e paga ao pastor, aliás até as rezas/missas já tiveram aumento 10 euros com as reformas que existem neste país? ) e sorriem, somos homens de deus e para tal temos os nossos sacrifícios e os nossos pagamentos!
É esta ideologia que vocês crentes alimentam e defendem, a ideia do pagar o lugarzinho lá no céu! E enquanto isso, muitos lugarzinhos cá na terra são comprados com o vosso dinheiro!
Será natural que em Fátima exista em cada esquina uma caixa de esmola?
Será natural todo o dinheiro que Fátima produz por ano?
Será natural todo o negócio e dinheiro que envolve o fenómeno de Fátima?
E para os impostos? Fazem ao menos toda a contribuição?
E a culpa, não é somente de quem enriquece, quero dizer, fornece os serviços… é de todos os que contribuem para alimentar a máquina!
“Fátima é o nome de uma taberna de Lisboa onde às vezes… eu bebia aguardente.” Hahaha, adorei!
Não esperava que Fernando Pessoa fosse ateu, afinal de contas ele era admirador do pio Sidónio Pais, ou não tivesse ele escrito aqueles poemas ao “presidente-rei”.
Bem, gostava que tivessem publicado mais cedo um livro de Pessoa sobre o que ele pensava de Fátima, sempre teria sido mais divertido do que ler a anedota do pensamento do “Banqueiro Anarquista”.
space_aye, lá por Pessoa criticar Fátima, não quer dizer que seja ateu.
“É esta ideologia que vocês crentes alimentam e defendem, a ideia do pagar o lugarzinho lá no céu! E enquanto isso, muitos lugarzinhos cá na terra são comprados com o vosso dinheiro!”
Os crentes quando dão dinheiro em Fátima têm as suas razões para dá-lo. Como o Ricardo não sabe essas razões não percebo porque é que inventa. Porque não se preocupa simplesmente com o seu dinheiro. O Ricardo também não sabe onde é aplicado todo esse dinheiro, logo também não deve criticar. É uma atitude muito irracional.
Há imensas empresas em Portugal que acumulam muito mais dinheiro à custa do povo e que vai para os bolsos dos administradores. Mas isso o Ricardo já não pergunta se é “natural” que estes administradores recebam centenas de vezes mais que os trabalhadores.
Ao menos em Fátima as pessoas interessadas sabem que o dinheiro das esmolas é bem empregue..
Send your money to Jesus Christ
Mail order your eternal life
Bend your mind, make you turn around
Don’t believe it when they tell you
That even god needs money
God needs money from you
Mas o Ricardo Sá está a dirigir-se ao Ricardo porquê?
Ups!! Peço desculpa. …Ana Valente…
Cara Ana Valente,
Nem imagina a sensação desagradável que este seu texto me provoca. Sinto um enorme paternalismo (ou maternalismo, melhor dizendo), da sua parte, quando escreve:
«Escreveu estas palavras creio que nos anos vinte, onde já ironizava e criticava o negócio “sujo” que se faz com as crenças e fragilidades do povo, das pessoas.»
Quando escreve isto, está a equiparar as crenças a fragilidades? Parece que sim.
Da parte que me toca, como sou devoto das aparições de Fátima, devo supor que eu também faço parte de um povo frágil e equivocado, manipulado pelo poder político?
O que é que está errado neste raciocínio?
Sobre uma coisa não tenho quaisquer dúvidas: mais depressa alinho ao lado do povo crente de Fátima, na sua generosa e genuína devoção a Nossa Senhora, rainha e padroeira de Portugal, do que alinho ao lado da auto-proclamada nova elite intelectual, que de forma parternalista, ao estilo caduco de um Afonso Costa, ainda gosta de menosprezar as crenças cristãs pela via da arrogância e do paternalismo.
Já agora: em que é que se baseia a sua rejeição das aparições como fenómeno?
Eu gosto de tentar compreender como é que as pessoas formam posições tão radicais.
Cumprimentos,
Eu acho é um piadão em Fátima o aproveitamento que se faz da cera das velas. É sempre a facturar.
Uma pessoa compra uma vela, acende-a, coloca-a lá no buraquinho, consoante o pavio vai ardendo vai a cera derretendo para umas calhas da parte de dentro de onde se colocam as velas e, futuramente, vai ser aproveitada para se fazerem novas velas. A mesma cera dá para um porradão de donativos/oferendas à Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo Todo Poderoso.
Acho bem, é ecológico, e assim foi fácil atingir os 80 milhões de euros necessários à construção da luxuosa nova igreja inaugurada o ano passado.
Bem, antes pelo dinheiro dos tolos dos crentes do que pelo dinheiro do estado que é dos tolos e dos não tolos.
Ao menos isso.