Carta do Portal Ateu

Por Ricardo Silvestre • 30 Jun, 2008 • Categoria: Discriminação Religiosa, Informação Jurídica, Juventude, Opinião

Exmo. Senhor Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa
Dr. Mário Soares

Os nossos nomes são respectivamente , Ricardo Silvestre e Hélder Sanches
e somos ambos cidadãos ateus atentos à influência das religiões na
sociedade Portuguesa.

No seguimento da vossa iniciativa “III Colóquio Internacional sobre
Religiões” gostávamos de trazer dois pontos à sua consideração e que
achamos necessários para uma visão mais global do fenómeno religioso e,
de certeza, do “multiculturalismo” que várias vezes foi invocado no
colóquio.

1) É de estranhar que os não crentes não possam dar o seu contributo num
debate que visa obter “um caminho para a paz”. Não só toda a sociedade
(crentes e não crentes) se encontra directamente dependente desse
pressuposto entendimento entre religiões, como uma discussão franca
sobre quais as razões para os desentendimentos entre denominações
religiosas serem mais fáceis de avaliar e de apresentar por alguém que é
exterior ao fenómeno religioso, e como tal, tem uma opinião isenta sobre
a temática.

Deve concordar connosco, Sr. Presidente, em como teria sido uma
mais-valia para o Colóquio.

2) Uma das conclusões dos trabalhos foi “A proposta da existência da
disciplina de história comparada das religiões”. Apesar de esta ser uma
iniciativa interessante e com um valor cultural e histórico inegável,
porque não incluir o ateísmo e o agnosticismo no programa dessa
disciplina? Não será estar, mais uma vez, a limitar o debate, neste caso
a jovens em formação, ao “diálogo entre religiões”?

Deixávamos-lhe estes pontos para reflexão.

O mundo está demasiado balcanizado por posições dogmáticas e
incompatíveis provenientes de “certezas religiosas”, com todo o
sobrenaturalismo e irracionalidade que dai advém.

Está na altura de um debate franco sobre quais as necessidades de
modernização das religiões para que a nossa sociedade avance para um
maior racionalismo e com isso seja possível que apesar de “as religiões
encerrarem problemas complexos ser preciso manter a coexistência
importante para o equilíbrio e para a paz mundial, que é um interesse
superior”.

Doutor Ricardo Silvestre
Sócio fundador da Associação Ateísta Portuguesa
Co-administrador do sítio www.portalateu.com

Helder Sanches
Sócio fundador da Associação Ateísta Portuguesa
Co-administrador do sítio www.portalateu.com

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15 Respostas »

  1. Estimado Doutor Ricardo Silvestre

    Permita-me informá-lo do seguinte:

    1) No colóquio que mencionou participou o Prof. Doutor António Reis, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa, distinta personalidade não crente e laica, Professor da Universidade Nova de Lisboa, que participou no tema “Crentes e não crentes face à laicidade”;

    2) Foi o Prof. Doutor António Reis que lançou a proposta de uma disciplina de história comparada das religiões.

    Como pode verificar os não crentes estiveram representados no colóquio. Penso que o Doutor Ricardo Silvestre não colocará em causa o brilho e o enorme valor intelectual, humano e cívico do Prof. Doutor António Reis, Ilustre Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa.

    Com os melhores cumprimentos e máxima estima,

    António Parente

  2. Caro António Parente

    Obrigado pela atenção, mas eu já sabia da presença do Prof. António Reis no Colóquio.

    Mas como o próprio António refere, o Prof. Reis é Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa, o que, por inerência, não o pode colocar como um “não crente”. A não ser que, claro, a sua definição (e a dele) de “não crente” seja diferente da mais conhecida.

    Permita-me então elaborar o porque de eu não considerar o Prof. Reis como um “não crente”.

    “A Maçonaria Universal”, regular ou tradicional, professa a via sagrada (independentemente de uma religião) e trabalha sob a invocação do Grande Arquitecto do Universo.

    O “Grande Arquitecto” neste contexto significa “o principal criador de tudo que existe”, o “ser supremo ou Grande Geómetra”, que é o título que é dado a deus. A crença num ser supremo é ponto indiscutível para a Maçonaria. É verdade que é uma conceito filosófico e não tanto um conceito doutrinal, mas apesar de não haver proselitismo, há obrigatoriamente a exigência na crença num ser superior, “criador de tudo e de todos”

    Assim sendo, não posso concordar com a sua definição de “não crente”.

    E se me permite um comentário mais “directo”: na minha opinião o Prof. Reis foi convidado pelo Dr. Mário Soares, não pela sua “não crença”, mas sim por compadrio, conivência e uniformidade, necessária a uma iniciativa destas.

    E já agora, agradeço a gentileza de me ter tratado pelo meu título académico, só espero que não o estivesse a fazer por troça.

    Com os melhores cumprimentos

  3. Caro Ricardo Silvestre

    Usei o seu título académico sem troça. Tem direito a utilizá-lo. Para desfazer equívocos retomarei o tratamento informal.

    Em relação à Maçonaria, julgo que os seus conhecimentos estão desactualizados. Neste momento, existem dois ramos da Maçonaria (há um terceiro mas não é relevante) em Portugal: o Grande Oriente Lusitano, pertencente ao ramo da maçonaria irregular, onde se agrupam maçons ateus, e a Grande Loja Regular de Portugal, pertencente ao ramo da maçonaria regular, onde se encontram maçons crentes.

    Sobre o Prof. António Reis, permita-me chamar-lhe a atenção para o seguinte link:

    http://www.gremiolusitano.eu/?p=198#more-198

    Com os melhores cumprimentos,

    António Parente

  4. Caro António

    Interessante o artigo que enviou, e folgo em saber que o ramo Grande Oriente Lusitano é um defensor tão público da laicidade. E faço votos para que assim se mantenha. No entanto, o artigo não faz qualquer referência a visão do ateísmo nessa organização (apesar de eu perceber que não foi por isso que o meu deu a ler).

    Quanto ao que escreveu de haver maçons ateus, tenho que acreditar na sua palavra, uma vez que não encontro qualquer informação sobre essa nova política da Maçonaria. Estava convencido que os candidatos a maçons teriam de acreditar em deus antes de serem aceites nessa organização. Mas aceito que tenham mudado os seus critérios de inclusão.

    Mas quando vi o Prof. Reis na televisão, ele não me pareceu como um ateísta. Mas posso estar errado.

  5. Caro Ricardo Silvestre

    A Maçonaria Regular exprime a sua crença no Grande Arquitecto do Universo enquanto a Maçonaria Irregular não exige a aceitação nessa crença.

    Quer isto dizer que na Maçonaria Regular só entra quem aceitar a crença no Grande Arquitecto do Universo e a Regra dos 12 pontos. Na Maçonaria irregular entram crentes e não crentes, agnósticos e ateus. É esta a diferença entre os principais ramos da maçonaria.

    Quanto ao Prof. Reis não parecer um ateísta, penso que os ateístas não são todos iguais, tal como os crentes. Pelas suas posições públicas, julgo que será um não crente.

  6. Existem muitos crentes que defendem um vida pública laica, o que não é a mesma coisa que ser não crente. De qualquer forma, agradeço ao António Parente os esclarecimentos, só que nós somos cépticos por natureza, e convites para este tipo de eventos feitos à maçonaria - seja ela qual for - deixam-nos com o cepticismo todo eriçado.

    Cumprimentos.

  7. Caro Helder Sanches

    Como deve calcular, a representatividade do portal ateu e da associação ateísta portuguesa é muito reduzida. Terão um longo caminho a percorrer até conseguirem ser aceites como “parceiros institucionais”.

    Cumprimentos,

  8. Caro António,

    Essa sua afirmação é muitíssimo discutível. Tem que substanciar os pressupostos em que se baseia. De qualquer forma, não me espanta porque é normal que em termos religiosos as minorias tendam a ser queimadas, perdão, ignoradas. ;)

  9. Caro Hélder Sanches

    Basta fazer as contas, caro Hélder. Se tem uma média de 220 visitas por dia e se cada visitante voltar quatro ou cinco vezes isso significa que uma média de 40/50 pessoas por dia visita o seu site. Suponhamos, com boa vontade, que cada visitante faz, em média, duas visitas por dia. Isso dá 100 visitantes. Depois, uma parte dos visitantes vem do Brasil. Digamos 30 a 40%. Sendo assim, tem no máximo uns 50 a 60 portugueses a visitar regularmente portal ateu. Não me parece um número significativo. Quanto à associação, segundo li no jornal, teve umas dezenas de sócios fundadores. Também é um número irrisório. Tudo junto, não dá representatividade nenhuma.

    Se alguém o perturbar na sua paz pessoal, informe-me. Serei o primeiro a defendê-lo se alguém o incomodar de forma violenta. Conte comigo ;-)

    Cumprimentos do

    António Parente

  10. Caros Helder Sanches e Ricardo Parente:
    Segundo posso afirmar pelos meus próprios conhecimentos, existem de facto dois ramos da maçonaria:
    A regular, cujos membros são crentes num qualquer ser criador, sejam eles cristãos, islâmicos, budistas, hindus ou de qualquer outra religião organizada ou não, e a irregular cujos membros podem não ser crentes. Entende-se também por maçonaria irregular as lojas mistas ou femininas, que não são consentidas pela maçonaria regular.
    Se o Prof. António Reis é do GOL então pertence á maçonaria regular e é portanto crente (provavelmente cristão).
    Se ainda restão duvidas uma simples pesquisa do google poderia confirma-las.
    Bom, visto isto não me parece que o dr. Helder Sanches se tenha saido mal na carta que escreveu ao dr. Mario Soares. Estou morto por saber a resposta. :)
    Cumprimentos.

  11. space_aye,

    Não leve a mal mas fartei-me de rir com o seu comentário. É que você conseguiu trocar-nos os nomes e os títulos que se fosse de propósito não teria conseguido melhor. :)

    Vejamos:
    - O Parente é o António e não o Ricardo
    - O Ricardo é o Silvestre e não o Parente
    - Finalmente, o doutor é o Ricardo (Silvestre, não Parente) e não eu.

    Conclusão: das suas confusões, safou-se o Mário Soares!

    Um abraço. ;)

  12. Senhor papa_eye

    Está tudo certo menos a sua informação sobre o GOL. Faça a sua pesquisa no Google. ;-)

  13. Peço desculpa pela confusão de Ricardo com António, áquelas horas já começo a ficar com sono ;)

  14. António Parente, lá por me ter enganado despropositadamente no seu nome isso não lhe dá o direito de se enganar propositadamente no meu, ainda que seja só um nickname ;)

  15. Caros,
    Sou maçon e sou ateu… militante. Já aqui foi dito correctamente que o GOL representa a corrente liberal (dita irregular) da Maçonaria: a obrigatoriedade da crença no “princípio ordenador do caos” foi abandonada, bem como a existência de qualquer “livro sagrado” nos trabalhos da loja. Para esta maçonaria não há verdades reveladas… a não ser as que a natureza, através dos trabalhos da ciência e pelo uso da razão, nos revela. Como diz António Arnaut, na sua “Introdução à maçonaria”, “Nos tempos remotos e medievais, o maçon era obrigado a perfilhar a religião do seu País. Mas depois do Iluminismo, e das formas modernas, considerou-se mais adequado, apenas lhe impôr a religião sobre a qual todos estão de acordo, e que consiste em amar o próximo, fazer o bem e ser homem bom, de honra e probidade. Deste modo a maçonaria é uma casa de união entre ateus, agnósticos e pessoas dos mais diversos credos.”
    A maçonaria que conheço, no seio do Grande Oriente Lusitano, não aceita dogmas, pratica a tolerância e respeita a liberdade absoluta de consciência. Um maçon tem o direito de examinar e de criticar todas as opiniões e de discutir todos os problemas, sem quaisquer peias ou limitações. E é anti-dogmática, tanto no aspecto politico como religioso ou filosófico. A política e a religião pertencem ao foro intimo de cada um.
    Abraços,

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