Oh, Amor, não me mataste o desejo

Por Helder Sanches • 20 Jun, 2008 • Categoria: Opinião

Há quem compare a dedicação, admiração e mesmo paixão de algumas pessoas a Deus com o amor cego de um adolescente pela sua última paixão, quando as hormonas turvam a visão e o discernimento. Da mesma forma que parece impossível chamar à razão o adolescente para os falsos atributos da sua amada ou para o risco potencial de um futuro pouco promissor junto desta, também parece ser tarefa inglória tentar clarear a visão dos crentes relativamente ao seu objecto de paixão.

Que centros de prazer serão estimulados pela dedicação a um ser hipotético e invisível? De onde virá a sensação de conforto transmitida por tal dedicação? Não será, certamente, pelos resultados obtidos. Não há registos de que os crentes sejam mais felizes que os não crentes, que vivam mais ou melhor, enfim, que conduzam a vida com maior dignidade ou virtude, o que quer que isso possa significar.

Estaremos, então, numa encruzilhada insolúvel em que nos resta apenas observar a entrega doentia, embora voluntária, a uma paixão sem futuro? Terá Deus o papel da jovem libidinosa e o crente o papel de adolescente portador de hormonas em ebulição? Se assim for, apenas nos resta esperar pelo amadurecimento da personalidade colectiva da humanidade e aguardar que os impulsos hormonais regridam, cedendo espaço à razoabilidade e à ponderação.

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Uma Resposta »

  1. Caro Hélder

    Considero que o seu grande erro deve-se ao facto de confundir a espiritualidade com a religião, e a religião com sentimentos e experiências específicas; concomitantemente, sugerir que “centros de prazer serão estimulados pela dedicação a um ser hipotético e invisível” parece-me muito reducionista. Mas, é preciso atender que a fé é mais que um sentimento.
    Assim, pelo facto de existir um Deus e por sermos crentes não quer dizer que os nossos sentimentos, hormonas, cérebro nos programou para isso; nem sequer se deve às “hormonas em ebulição”. Por exemplo: “para vermos Cristo num doente com sida, ou para amarmos os nossos inimigos, não temos necessidade de nenhumas alterações especiais nos nossos circuitos cerebrais [, hormonais, etc…]. Nem a eficácia de uma celebração eucarística depende da existência de ondas cerebrais colectivas da comunidade. (…) A religião compreende uma grande variedade de actividades e ideias que se referem a uma ordem transcendente mas não exigem necessariamente uma experiência transcendente” (WOODWARD, Kenneth L).
    O facto de alguém ter momentos de grande elevação (como a união com o cosmos) ou impulsos hormonais não significa necessariamente experiências religiosas. O que caracteriza verdadeiramente um religioso e um seguidor de Cristo é a “amor-doação ao próximo”, e isso exige um grande esforço de auto-transcendência. Deste modo, o cristão nega o eu (não significa elimina o eu), para ir ao encontro do outro, para ajudar o outro. O cristianismo não é algo de extraordinário, espectacular, mas tem a ver com fenómenos normais, do dia-a-dia, das relações interpessoais que estabelecemos. Assim, no cristianismo o amor ao próximo deve ter sempre prioridade em relação à união com Deus. Os cristãos são cristãos pela sua “caridade” e não pelas suas “experiências místicas”, hormonais, ou de outra índole.

    Saudações cordiais,

    df

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