Pérolas evangélicas: Parte 2, “The Silver Ring Thing”
Por Rui Janeiro • 16 Jun, 2008 • Categoria: Ciência & Educação, Juventude, OpiniãoNo seguimento do artigo da semana passada, passo a mostrar (adaptado de um artigo que fiz há alguns meses) um dos principais programas de orientação evangélica para a sexualidade dos jovens, apoiado pela administração Bush.
O Silver Ring Thing é o representante mais mediatizado da política sexual evangélica na América. A primeira vez que ouvi falar desta praga foi no 60 Minutes, da CBS, cuja reportagem mostrou a verdadeira faceta desta iniciativa. Os contraceptivos são deturpados em prol de uma política de abstinência até ao casamento. Os que não são virgens são encorajados a adoptar esse mesmo regime como uma “second chance”.
Como um dos projectos de promoção à abstinência “evangelic-inspired” e umas das bandeiras de Bush, a mensagem é passada através de um evento cultural (música, stand-up comedy, efeitos especiais e testemunhos), seguido de uma avalanche de e-mails encorajadores e outros materiais digitais pró-abstinência. Depois de ultrapassadas umas estapas é possível adquirir o pacote que inclui o anel de prata. Algumas dezenas de milhares de jovens já passaram pelo programa, embora pretendam atingir os 2 milhões daqui a alguns anos.
O programa tem cerca de 12 anos, e foi criado para “combater” as gravidezes adoloscentes e as doenças sexualmente transmissíveis em geral e a “unhealthy obsession with sex“, fruto da revolução sexual dos anos 60, em particular. O senhor Bush canalizou muitos dólares para a indústria à volta destes anéis, mas suspendeu o financiamento devido a mau uso dos fundos.
A exportação para Inglaterra deste programa teve resultados díspares (digamos que os europeus, nesta matéria, são um bocado mais evoluídos). O caso mais mediatizado passou-se com uma rapariga que processou a escola onde andava por ter sido impedida de usar o anel com base no facto de este violar o código de indumentária do estabelecimento. Alegou em tribunal que o anel tinha um significado religioso, constituindo uma violação dos seus direitos de liberdade de pensamento, consciência e religião, mas perdeu.
E o mais engraçado de tudo são os relatos de jovens que, não aguentando os instintos naturais, praticam sexo anal e oral com os companheiros, pois tecnicamente as raparigas mantêm-se virgens. A própria eficácia do programa deixa muito a desejar, estimando-se que ultrapassa os 80% o número de jovens que quebram o juramento.
Tolero, mas não posso ter o mínimo de respeito por estes pseudo-moralistas. Estes senhores têm todo o direito em promover a abstinência com base em motivos religiosos e as tretas associadas que bem lhes apetecer, mas deturpar a imagem dos contraceptivos na qual se investe milhões de dólares em todo o mundo devia ser considerado crime.
Caro Rui Janeiro,
Não vou tecer críticas ao texto. Separa-nos uma enorme distância na forma de ver o mundo e a realidade.
Seria bastante aborrecido, para si e para mim, e para quem nos lê, fazer um comentário frase a frase ao seu texto.
Limito-me a partilhar consigo o seguinte: os preconceitos distorcem, e não pouco, a forma como vemos a realidade. Noto, pela sua escrita, uma enorme parte da sua maneira de ser a vir ao de cima.
Por exemplo, usa a palavra “praga” quando se refere a uma campanha de abstinência sexual pré-matrimonial. Note que eu não partilho necessariamente dos pontos de vista dos líderes da campanha. É bem sabido que há grandes diferenças entre católicos e evangélicos. Mas eu considero peculiar que o Rui use o termo “praga”, como se a abstinência sexual fosse uma espécie de doença contagiosa, de algo que devesse ser erradicado e proibido.
O que pensa de um homem, ou mulher, que opta por uma vida celibatária? Mesmo supondo que tal decisão nada tem de religioso? Uma pessoa que não pratica sexo, e por sua própria e soberana vontade, estará doente? Poderá passar essa “doença” a alguém?
Outro ponto em que o Rui deixa transparecer noções que me parecem assimiladas sem grande crítica é quando se refere ao sexo oral e anal como “instintos naturais”. O que quer dizer com isto? Em que sentido é que pretende que se entenda esta referência?
Outra coisa que noto é uma generalizada adesão à sexualidade irresponsável. Assumo que o meu caro seja fervoroso adepto dos métodos contraceptivos artificiais. Ora, como bem sabe, tais métodos não são 100% eficazes. Nenhum deles, à parte da esterilização (algo radical, convenhamos), é 100% eficaz. Logo, há uma percentagem ínfima de gravidez potencial resultante de uma sexualidade sem compromissos. O que se faz quando ocorre essa gravidez?
Pelo seu raciocínio, só vejo duas formas de o Rui encarar este problema (não pequeno):
a) admite o recurso ao aborto, que gera não poucos problemas éticos
b) não admite o recurso ao aborto, e então entra em incoerência, ao concordar com a prática de uma sexualidade sem grandes preocupações com as consequências, bem naturais, que podem advir da relação sexual entre duas pessoas que não têm qualquer compromisso de criar filhos em conjunto
Estas coisas são importantes e sérias, e no entanto, é tão fácil ver pessoas a escamoteá-las.
Se há pessoas, por esse mundo fora, evangélicas ou não, que se preocupam com ética, com moral, com decência, com honradez, com compromissos sérios, com práticas responsáveis, é para mim incompreensível que pessoas dotadas de capacidade de raciocinar dediquem esforços a tentar defender o indefensável.
No fim de contas, não compreendo porque razão, senão por preconceito cego, se usa o intelecto para argumentar contra uma atitude perfeitamente racional, como é a de inculcar nos jovens atitudes de sexualidade responsável.
Cumprimentos,
Bernardo Motta
Caro Bernardo Motta,
Primeiro que tudo não me oponho a quem seja celibatário. Estão no seu direito e não considero que tal deva ser erradicado, independentemente de ser por motivos religiosos ou não.
Esta campanha em particular é apelidada de praga por incentivar os jovens a algo que considero arcaico nos dias de hoje. A civilização já passou a revolução sexual dos anos 60 e o Maio de 68, eventos como este representam um retrocesso. Estariam livres para fazer as campanhas que quisessem, mas ao mesmo tempo que se promove esta campanha dizer mal dos contraceptivos representa um perigo para a saúde pública e revela uma faceta beata e conservadora de quem a promove.
Quanto aos “instintos naturais”. Compreenda que juventude com as hormonas aos saltos incentivada à abstinência nem sempre consegue ser bem sucedida e acaba por sofrer um bocado. Muitos não aguentarão e procuram “dar a volta à coisa”.
“Outra coisa que noto é uma generalizada adesão à sexualidade irresponsável. Assumo que o meu caro seja fervoroso adepto dos métodos contraceptivos artificiais. Ora, como bem sabe, tais métodos não são 100% eficazes.”
Não sei o que entende por “sexualidade irresponsável”. Considera que ter mais do que um parceiro sexual ao longo da vida e ter sexo antes do casamento (ou nem sequer uma pessoa se casar) é irresponsável? (considerando o recurso à contracepção)
Sou adepto dos métodos contraceptivos e sei que não são 100% eficazes.
Sim, sou a favor da IVG (e acho que 10 semanas é pouco tempo).
“Estas coisas são importantes e sérias, e no entanto, é tão fácil ver pessoas a escamoteá-las.
Se há pessoas, por esse mundo fora, evangélicas ou não, que se preocupam com ética, com moral, com decência, com honradez, com compromissos sérios, com práticas responsáveis, é para mim incompreensível que pessoas dotadas de capacidade de raciocinar dediquem esforços a tentar defender o indefensável.”
Defendo muito mais a liberdade do que a libertinagem, e com responsabilidade, onde a contracepção tem um papel importante.
Quem quer assumir esses comportamentos está no seu direito, mas tal não considero uma “sexualidade responsável”. É mais uma “não sexualidade”, restringida ao casamento, algo que considero que vai contra a felicidade de muitas pessoas e é potenciador de muito divórcio. Para não falar no perigo que é para a saúde pública.
RJ
O problema é que estes programas de celibato tenham recebido fundos federais quando se previa serem ineficazes, só para agradar a sectores da sociedade americana. Enquanto isto acontecia não era permitido distribuir preservativos nas escolas por se considerar que levaria a comportamentos promiscuos.
E acrescente-se que os 30 milhões de evangélicos foram decisivos na eleição de Bush.
Olá Rui,
Em primeiro lugar, obrigado pela sua resposta cordial.
«Primeiro que tudo não me oponho a quem seja celibatário. Estão no seu direito e não considero que tal deva ser erradicado, independentemente de ser por motivos religiosos ou não.»
Ok.
«Esta campanha em particular é apelidada de praga por incentivar os jovens a algo que considero arcaico nos dias de hoje.»
A palavra praga é forte.
«A civilização já passou a revolução sexual dos anos 60 e o Maio de 68, eventos como este representam um retrocesso.»
Não compreendo como é que a promoção da responsabilidade sexual pode ser vista como um retrocesso. A revolução sexual de que fala tem muito que se lhe diga. Eu vejo-a como um acontecimento datado, daqueles que têm tudo a ver com a época em que aconteceram, e motivados por imensos acontecimentos históricos e políticos muito específicos. Muita da revolução sexual da que fala tinha a ver com a promoção da libertinagem sexual. Isso está totalmente errado, e como acontecimento cultural, está datado. Já passámos adiante.
«Estariam livres para fazer as campanhas que quisessem, mas ao mesmo tempo que se promove esta campanha dizer mal dos contraceptivos representa um perigo para a saúde pública e revela uma faceta beata e conservadora de quem a promove.»
Vamos evitar misturar coisas. O Rui irrita-se com os beatos e os conservadores, eu sou um deles, e está no seu direito.
Mas isso nada tem a ver com saúde pública.
É sensato reconhecer que nenhum método contraceptivo é eficaz, seja a prevenir a fertilização, seja a prevenir DSTs.
Por isso, é sempre sensato promover a abstinência, seja a pessoas infectadas com DSTs, seja a pessoas que não estão preparadas para a paternidade ou maternidade. Não entendo o seu protesto.
Se não há eficácia 100% nesses métodos, a única solução 100% segura é a abstinência. Informar as pessoas dos riscos que correm é importante. E para isso, podem-se usar percentagens, que são dados objectivos. Nunca se faz perigar a saúde pública se se informar as pessoas dos reais riscos de cada método.
Mas eu não conheço o grupo do qual se queixa ao ponto de saber se eles usam estatísticas científicas ou falseadas. Em geral, promover a abstinência, seja para pessoas infectadas, seja para adolescentes sem compromissos, é sempre sensato. E não tem a ver com tabus: a sexualidade é uma coisa muito boa e importante. Tem a ver com responsabilidade.
«Quanto aos “instintos naturais”. Compreenda que juventude com as hormonas aos saltos incentivada à abstinência nem sempre consegue ser bem sucedida e acaba por sofrer um bocado. Muitos não aguentarão e procuram “dar a volta à coisa”.»
Exacto. Por isso é que é importante o papel dos formadores, dos professores, da família, dos pais. Para se tentar educar os jovens a viver a sua sexualidade de forma responsável.
«Não sei o que entende por “sexualidade irresponsável”. Considera que ter mais do que um parceiro sexual ao longo da vida e ter sexo antes do casamento (ou nem sequer uma pessoa se casar) é irresponsável? (considerando o recurso à contracepção)»
1. Considero que a sexualidade responsável é indossociável do compromisso. Porquê? Porque, devido ao facto de os métodos não serem 100% eficazes, há sempre probabilidades não nulas de daí nascer uma criança. Logo, o compromisso é fundamental, sobretudo por causa da criança.
2. O sexo antes do casamento comporta sempre uma elevada dose de irresponsabilidade, uma vez que estando ausente o compromisso, e caso daí venha uma criança, o que se faz? Aborta-se?
«Sou adepto dos métodos contraceptivos e sei que não são 100% eficazes.
Sim, sou a favor da IVG (e acho que 10 semanas é pouco tempo).»
IVG?
O que é isso?
Chamemos-lhe aborto, ou abortamento, que é o que a coisa é. Matar um ser humano, sob a forma de zigoto ou embrião da espécie Homo Sapiens. Esses eufemismos politicamente correctos da “interrupção” de uma coisa que não tem retorno é uma estupidez pegada.
Eu sei que vai dizer que matar o seu filho ou filha é um direito da mãe, etc, e coisa e tal.
Para poupar algum tempo, eu queria dar-lhe a conhecer um trabalho que preparei para o passado referendo, e que está disponível do lado direito do meu blogue, em http://espectadores.blogspot.com
Lá encontra um texto, em vários tamanhos, desde o completo ao ultra-resumido, onde coloquei uma argumentação racional contra esse pretenso “direito” a abortar um ser humano.
Seria mais eficaz, visto que o Rui concorda com o aborto, percorrer os meus argumentos que lá se encontram, e procurar uma refutação a esses argumentos. Defender racionalmente o erro de abortar dá trabalho, e também é justo que quem defenda o direito a abortar também tenha o trabalho de procurar montar uma argumentação racional.
Por isso, gostaria de conhecer os seus argumentos. De onde vêm as justificações para defender esse direito, Rui?
Note que não há crispação na minha atitude: estas trocas de mensagens escritas são ineficazes na comunicação dos sentimentos e das atitudes. Estou apenas preocupado em saber se a sua argumentação pró-aborto está sustentada em argumentos racionais ou se é apenas uma convicção pessoal intuitiva, sem suporte argumentativo.
«Defendo muito mais a liberdade do que a libertinagem, e com responsabilidade, onde a contracepção tem um papel importante.»
Só que contracepção, como a palavra indica, tem a ver com o impedir da concepção. E não com o destruir do que já foi concebido. Há argumentos de tipo religioso para criticar quaisquer meios artificiais de contracepção, e eu, sendo católico, obviamente que concordo com eles. Não suponho que o Rui me acompanhe…
Mas não iria tão longe. Preocupo-me se o Rui achar que métodos abortivos como o da chamada “pílula do dia seguinte” são também contraceptivos, ou se uma visita à tia Yolanda ali na “Clínica” dos Arcos é também um método contraceptivo…
Matar o que já foi concebido não é contracepção. É matar.
Mesmo que o Rui me diga, “ah e tal, mas o embrião não é uma pessoa”, o Rui vai ter sempre que aceitar o verbo “matar”, porque é disso que se trata. Mesmo que suponha que um embrião Homo Sapiens, por qualquer passe de mágica, só se torna Homo Sapiens depois das dez semanas de vida, ou algures na gravidez, tem que admitir que é um ser que está vivo. E que o aborto o mata.
Para além disso, e indo de encontro ao seu desejo de um mais largo período para matar a vida intra-uterina, pergunto-lhe se alguma vez viu uma ecografia às 8 semanas… Se nunca viu, tenho umas fotografias da minha filha com 8 semanas de gestação e que eu gostaria de lhe dar a conhecer…
Numa época de ciência, nunca se viu tanto repúdio pela visualização de imagens científicas ecográficas. Não vá suceder que as imagens claras relativas a esse ser vivo (ao qual negam humanidade) rebentem, eventualmente, com os belos sofismas dos defensores do aborto.
Um abraço,
Bernardo
Bernardo,
Obrigado também pelos seus comentários.
O que me parece é que temos uma definição diferente de “sexualidade responsável”.
Você provavelmente acha que a sexualidade deve ser restringida a um parceiro apenas durante toda a vida e depois do casamento, eu não. Apenas acho que as pessoas devem ser livres para adoptarem o comportamento que bem entenderem e (preferencialmente) com responsabilidade.
“1. Considero que a sexualidade responsável é indossociável do compromisso. Porquê? Porque, devido ao facto de os métodos não serem 100% eficazes, há sempre probabilidades não nulas de daí nascer uma criança. Logo, o compromisso é fundamental, sobretudo por causa da criança.”
Tem razão quanto às probabilidades e não deixo de partilhar alguma da sua preocupação com a criança, mas acho que as pessoas são livres de fazerem o que quiserem, de preferência de maneira responsável. Há sempre um risco e as pessoas devem estar bem conscientes disso.
“2. O sexo antes do casamento comporta sempre uma elevada dose de irresponsabilidade, uma vez que estando ausente o compromisso, e caso daí venha uma criança, o que se faz? Aborta-se?”
Às vezes o facto de vir uma criança pode ser um factor decisivo para que gente sem compromisso se decida unir ou ir morar junto, mas penso que muito casamento nestas condições esteja condenado na linha de partida.
Se a criança não é desejada não me oponho a que se aborte. É lamentável, mas penso que a alternativa pode ser pior.
E não se esqueça que as pessoas não fazem sexo apenas com fins reprodutivos.
“Não compreendo como é que a promoção da responsabilidade sexual pode ser vista como um retrocesso. A revolução sexual de que fala tem muito que se lhe diga. Eu vejo-a como um acontecimento datado, daqueles que têm tudo a ver com a época em que aconteceram, e motivados por imensos acontecimentos históricos e políticos muito específicos. Muita da revolução sexual da que fala tinha a ver com a promoção da libertinagem sexual. Isso está totalmente errado, e como acontecimento cultural, está datado. Já passámos adiante.”
De facto já passámos adiante… Passou-se momentaneamente do 8 para o 80 nos anos 60, mas essa “libertinagem” (catapultada pela pílula) vem como resposta a vários factores, entre sociais, políticos e culturais, tal como diz. A década de 60 é farta em matéria de revolução social (Martin Luther King e os direitos dos negros) e mesmo religiosa (concílio Vaticano II).
Depois de décadas (para não dizer séculos) de imposição de um comportamento “moral” com o qual muita gente (consciente ou insconscientemente) não se identificava a geração dos nossos pais (falo por mim, tenho 27 anos) conseguiu ultrapassar muitas barreiras e hoje vivemos num mundo livre, onde o adultério não é criminalizado e o divórcio permitido, onde uma pessoa pode “viver em pecado” sem a censura dos seus semelhantes. Aconselhar pessoas à abstinência no mundo livre de hoje representa, para mim, esse “retrocesso” a que me refiro.
“Vamos evitar misturar coisas. O Rui irrita-se com os beatos e os conservadores, eu sou um deles, e está no seu direito.
Mas isso nada tem a ver com saúde pública.”
Não acha que o não uso de contraceptivos e a pouca informação a esse respeito (ou mesmo a desinformação) constituem um perigo para a saúde pública? Não acha um perigo uma pessoa educada para a abstinência (com poucos efeitos) e pouco educada em matéria de contracepção e que não domina os seus desejos sexuais andar por aí numa espiral libidinosa? (situação aparentemente exagerada, mas possível)
“É sensato reconhecer que nenhum método contraceptivo é eficaz, seja a prevenir a fertilização, seja a prevenir DSTs.
Por isso, é sempre sensato promover a abstinência, seja a pessoas infectadas com DSTs, seja a pessoas que não estão preparadas para a paternidade ou maternidade. Não entendo o seu protesto.”
Numa coisa concordo consigo, “que nenhum método contraceptivo é” 100% “eficaz”.
Não considero sensato promover a abstinência. As coisas surgem naturalmente, e quando surgem as pessoas devem estar a par dos possíveis efeitos dos seus actos, daí a importância da educação sexual e não de uma educação para a abstinência. Nesses termos quem, de sua consciência e vontade pretender uma vida de celibato (ou apenas até ao casamento) poderá exercer esse seu direito, enquanto que os outros viviam a sua vida como bem entendessem.
“Se não há eficácia 100% nesses métodos, a única solução 100% segura é a abstinência”
Se toda a gente pensasse nesses termos ninguém entraria num carro com medo da “probabilidade” de ter um acidente.
Em relação ao que disse mais para o fim do comentário,
Conheço o seu blogue, embora só superficialmente (passo lá de vez em quando). Para comentar esse seu texto e argumentação tem de me dar mais tempo, não o poderei fazer neste comentário. Irei fazê-lo assim que tiver tempo e com interesse.
“ Preocupo-me se o Rui achar que métodos abortivos como o da chamada “pílula do dia seguinte” são também contraceptivos, ou se uma visita à tia Yolanda ali na “Clínica” dos Arcos é também um método contraceptivo…”
Tanto um como o outro não são contraceptivos e só devem ser usados em último caso.
RJ
Caro bernardo,
Você disse que: “O sexo antes do casamento comporta sempre uma elevada dose de irresponsabilidade, uma vez que estando ausente o compromisso…”. Isto é uma falácia (da generalização – parte de casos particulares para um universo homogéneo), pois, antes de existir um casamento público-institucional ou sacramental pode bem existir um compromisso e é bem que exista; uma vez que se não existir compromisso antes do casamento, tb muito provavelmente depois do casamento não se vai assumir um compromisso. Cuidado com a palavra compromisso… é mais uma vivência (doação perene e total de si), do que um mero dizer de palavras num determinado momento.
O que entende por compromisso? É necessário haver casamento (pela igreja ou público para haver compromisso)?
Ah… penso tb que está a fazer uma confusão entre relações sexuais pré-matrimoniais e relações sexuais pré-cerimoniais.
- As pré-matrimoniais -» não englobam qualquer compromisso, nem tem como perspectiva o casamento.
- As pré-cerimoniais -» englobam necessariamente a vivência do compromisso (doação perene de si), um projecto de vida em comum, estando só à espera do momento adequado (financeiro, ou de outra índole) para efectivar o casamento publico-institucional (ou sacramental) como reconhecimento do amor (doação perene de si, onde cada um morre para si e nasce no outro) que existe entre os dois.
Você está a meter no mesmo horizonte estes dois tipos de relações sexuais. E isso é um grande erro!
Cuidado com as falácias na sua argumentação!!!
Saudações cordiais,
Caro Rui,
«Você provavelmente acha que a sexualidade deve ser restringida a um parceiro apenas durante toda a vida e depois do casamento, eu não. Apenas acho que as pessoas devem ser livres para adoptarem o comportamento que bem entenderem e (preferencialmente) com responsabilidade. »
Cuidado com as palavras, Rui, porque “restringida” é uma palavra que pode ter uma conotação legal. O que é legal não coincide necessariamente com o que é moral. Por exemplo, o aborto é imoral e, no entanto, é legal em muitos países. Eu não defendo, de forma nenhuma, qualquer tipo de coacção à liberdade pessoal, quando das acções do indivíduo não resultar dano para mais nenhum indivíduo.
Note bem:
a) do aborto, resultam notáveis danos para o indivíduo abortado; por isso, o aborto deveria ser proibido pela lei
b) da contracepção (por definição, não abortiva), não resultam danos para nenhum indivíduo, pelo que são opções livres de cada pessoa
Por isso, certamente que eu não defendo que a lei do Estado se imiscua na liberdade de cada um optar pelos métodos artificiais de contracepção, apesar de eu os ver como imorais porque me revejo na moral cristã e a tomo como verdadeira. Por outro lado, o aborto tem efeitos destrutivos sobre indivíduos que deveriam ser protegidos pelo Estado, pelo que nesse caso não há espaço para “opções livres”, porque há terceiros em jogo.
Quero esclarecer algo fundamental no cristianismo: cada pessoa, na verdade, tem toda a liberdade para errar. Quando um homicida planeia mata alguém, não é costume cair um raio do céu a matar o homicida, para o impedir do crime. Deus dá liberdade até ao homicida. O dedo dele não fica preso, como que por milagre, na hora de premir o gatilho.
Noutro plano ainda mais elevado de liberdade fica a liberdade para errar com consequências apenas para mim próprio. O cristianismo também respeita esta liberdade, pela qual todos nós pecados quotidianamente, de várias formas, e não somos impedidos, nem por leis nem por Deus. No entanto, o estado, como garante das liberdades de todos, deve proteger as eventuais vítimas dos actos livres de pessoas que atentem contra o outro.
A liberdade é mesmo assim: para a proteger e a garantir até ao máximo possível, temos que impor restrições à liberdade de cada um. Sou livre, mas o Estado não me deve deixar usar essa liberdade se eu quiser prejudicar a dos outros.
«Tem razão quanto às probabilidades e não deixo de partilhar alguma da sua preocupação com a criança, mas acho que as pessoas são livres de fazerem o que quiserem, de preferência de maneira responsável. Há sempre um risco e as pessoas devem estar bem conscientes disso.»
Sublinho: nenhuma lei do Estado deveria, na minha opinião, legislar sobre o número de parceiros sexuais ou sobre métodos contraceptivos não abortivos. Deve, isso sim, proteger a criança da melhor forma possível.
«Às vezes o facto de vir uma criança pode ser um factor decisivo para que gente sem compromisso se decida unir ou ir morar junto, mas penso que muito casamento nestas condições esteja condenado na linha de partida.
Se a criança não é desejada não me oponho a que se aborte.»
O Rui não se opõe, mas a criança, se se pudesse exprimir, discordaria do Rui.
«É lamentável, mas penso que a alternativa pode ser pior.»
Algo é pior do que ser morto? É este tipo de lógica difusa (ou ilógica) que me faz confusão.
«E não se esqueça que as pessoas não fazem sexo apenas com fins reprodutivos.»
Esta é engraçada. É um pouco como o Rui me dizer: “não se esqueça que as pessoas não comem só para se alimentarem”. É certo que tudo o que ponho na boca, num acesso de gula, entra no sistema digestivo. Será que posso optar, ao comer milhares de calorias e gorduras prejudiciais, que não quero que aquilo entre no meu sistema digestivo?
Há certas coisas da moral, que os cristãos chamam de “leis naturais”, que vêm com o nosso “pacote” biológico.
Se meto comida na boca, ela vai ser digerida, com tudo o que daí poder advir.
Analogamente, sempre que tenho relações sexuais, há consequências bastante previsíveis desse facto, mesmo que eu tome precauções contraceptivas.
Ser responsável serve para tudo o que fazemos. E há acções que se reflectem sempre no nosso corpo. Não posso dissociar o meu gosto por bela e farta gastronomia de eventuais consequências para o meu organismo. Por isso, não existe tal fantasia como a de separar a sexualidade da reprodução, porque essa fantasia está apenas assente em estatísticas de sucesso contraceptivo que nunca são de 100%. Faço-me entender?
Não há “sexo seguro”, nem no sentido de sexo com 0% de probabilidade de transmissão de DSTs, nem no sentido de sexo com 0% de probabilidade de contracepção (a não ser no caso de pessoas esterilizadas).
É por isto tudo, e acho que montei uma argumentação bastante clara e racional, que eu digo que não deve haver sexualidade sem a responsabilidade de ver que dali pode advir uma criança. E a criança, com zero culpa do que fazem os pais, deve ser protegida e respeitada.
«De facto já passámos adiante… Passou-se momentaneamente do 8 para o 80 nos anos 60, mas essa “libertinagem” (catapultada pela pílula) vem como resposta a vários factores, entre sociais, políticos e culturais, tal como diz. A década de 60 é farta em matéria de revolução social (Martin Luther King e os direitos dos negros) e mesmo religiosa (concílio Vaticano II).»
Note que não estou a retirar todo o valor a esse fenómeno. Retirados os excessos, há sempre coisas boas para encontrar.
«Depois de décadas (para não dizer séculos) de imposição de um comportamento “moral” com o qual muita gente (consciente ou insconscientemente) não se identificava a geração dos nossos pais (falo por mim, tenho 27 anos) conseguiu ultrapassar muitas barreiras e hoje vivemos num mundo livre, onde o adultério não é criminalizado e o divórcio permitido, onde uma pessoa pode “viver em pecado” sem a censura dos seus semelhantes.»
Se fala de uma maior responsabilização das pessoas, removendo dos códigos leis que impediam actos cuja moralidade apenas afectava o próprio, concordo e alinho consigo. No entanto, sendo eu da geração posterior à dessa revolução cultural, sinto-me muito mais realizado com uma visão moral tradicional cristã. E não me sinto minimamente “antiquado” com isso: sinto-me evoluído e no bom caminho para uma realização humana plena.
É isso que tantos ateus não compreendem: como cristão, a moral cristã que a Igreja tem vindo a defender heroicamente durante 2.000 anos, derivada dos ensinamentos de um Deus que Se fez Homem, é uma moral que me eleva, que me dá plena realização e satisfação pessoais!
E não sinto, minimamente, o peso de quaisquer tabus ou preconceitos. Antes pelo contrário. Sinto-me livre, porque a verdade da moral cristã é a verdade do ser humano. E a verdade liberta.
«Aconselhar pessoas à abstinência no mundo livre de hoje representa, para mim, esse “retrocesso” a que me refiro.»
Eu, consciente da felicidade e da realização que o caminho cristão me tem dado, irei aconselhar os meus filhos à abstinência sexual antes de um compromisso sério. Ah, e mesmo que esse compromisso venha a ser um casamento civil, apesar de eu ficar, naturalmente, mais satisfeito se os meus filhos vierem a casar pela Igreja.
«Não acha que o não uso de contraceptivos e a pouca informação a esse respeito (ou mesmo a desinformação) constituem um perigo para a saúde pública?»
Se as pessoas não se abstiverem, esse perigo existe. Só que muitas pessoas não entendem uma regra principal de toda a moral, e da moral cristã, que nestas coisas é sempre sensata: os fins não justificam os meios. A Igreja não pode propor, para a solução de um problema de saúde pública, uma solução moralmente falsa. Se a Igreja considera, e bem, que a contracepção artificial é imoral, não pode advogá-la como solução.
Mas há aqui uma nuance: nenhum sacerdote católico dirá a um casal infectado para não usar preservativo. Dirá, isso sim, para se absterem da relação sexual, por causa do risco de infecção, que nenhum preservativo evita a 100%. No entanto, se as pessoas não se conseguem abster, e têm a noção dos riscos, é evidente que não podem por em risco o seu parceiro, tendo uma relação sexual desprotegida, porque isso faria perigar a pessoa não infectada.
«Não acha um perigo uma pessoa educada para a abstinência (com poucos efeitos) e pouco educada em matéria de contracepção e que não domina os seus desejos sexuais andar por aí numa espiral libidinosa? (situação aparentemente exagerada, mas possível)»
Sinceramente, acho que todo o período da adolescência, com ou sem educação, com ou sem informação, é um período dotado desse risco. A educação e a informação são indispensáveis para reduzir o risco de uma gravidez indesejada ou de uma infecção com DSTs. Mas eu colocaria, nessa educação e informação, e no topo de tudo, a promoção da abstinência.
Já reparou o absurdo do que a cultura moderna afirma? Dizem aos jovens: “tenham o sexo todo que quiserem”, e depois, só depois, é que tenta informá-los, aos poucos que ouvem, dos riscos inerentes. Não é absurdo? É um bocado como dizer a um grupo de candidatos a “bungee jumpers”: saltem à vontade. E depois, a meio da queda, avisá-los: “mas atem uma corda à vossa cintura!”.
A Igreja coloca, à frente de tudo, a lição mestra: o compromisso é necessário para uma relação sexual da qual pode nascer uma criança, de cuja vida não nos podemos desembaraçar, porque também ela tem direito a viver.
«Se toda a gente pensasse nesses termos ninguém entraria num carro com medo da “probabilidade” de ter um acidente.»
A diferença é que, antes de entrar num carro, as pessoas têm a formação necessária para o usar. E há outra grande diferença: o efeito normal ou natural de um carro é deslocar-se. E não, necessariamente, ter um acidente. Isso é algo que pode acontecer de forma contingente, mas nunca necessária. Já o efeito normal, natural, de uma relação sexual, biologicamente falando, é gerar novos seres humanos. Há coisas simples que nos passam ao lado, não é?
«Conheço o seu blogue, embora só superficialmente (passo lá de vez em quando). Para comentar esse seu texto e argumentação tem de me dar mais tempo, não o poderei fazer neste comentário. Irei fazê-lo assim que tiver tempo e com interesse.»
Estes temas não passam de moda com o tempo!
Tome o tempo que quiser, e só se tiver interesse e disponibilidade.
«Tanto um como o outro não são contraceptivos e só devem ser usados em último caso.»
Bom, fico feliz, pelo menos, com o facto de que o Rui reconhece que não são contraceptivos.
Um abraço,
Bernardo
Caro Bernardo,
Em primeiro lugar, o homem é naturalmente artificial. Logo, não existem leis naturais… o homem é um ser de cultura, e como a cultura é artificial, tudo o que o homem faz é artificial.
Em segundo lugar, você fala e fala de “compromisso”, mas ainda não definiu o que entende por “compromisso”. Não poderá existir um sólido compromisso antes da cerimónia matrimonial, como um par de namorados que são fieis e têm um projecto de amor para toda a vida numa doação total de si?
Penso que você está do outro lado do extremismo, por um lado temos o liberalismo total, e por outro temos o proibitivismo total. Não será melhor seguir a recomendação do filosofo estagirista: “in medius virtus est”?
Penso que o fundamental é existir o verdadeiro “dom de si”, num amor reciproco, perene e fiel. O casamento enquanto instituição é o reconhecimento público do amor que existe entre os dois que se amam.
Logo, não vejo o problema de existir relações sexuais pré-cerimoniais baseadas na vivência perene do dom de si. (Não sou apologista das relações pré-matrimoniais onde existe objectualização do outro, mas sim das relações pré-cerimoniais onde pode bem já existir verdadeiro amor).
saudações cordiais,
Bernardo,
“ Eu não defendo, de forma nenhuma, qualquer tipo de coacção à liberdade pessoal, quando das acções do indivíduo não resultar dano para mais nenhum indivíduo.”
Já pensou na liberdade de uma mulher violada que é obrigada a ter uma criança?
“a) do aborto, resultam notáveis danos para o indivíduo abortado; por isso, o aborto deveria ser proibido pela lei”
Não temos a mesma definição de “indivíduo”.
“b) da contracepção (por definição, não abortiva), não resultam danos para nenhum indivíduo, pelo que são opções livres de cada pessoa”
Porque é que é imoral? Porque um senhor chamado Onan resolveu desperdiçar sémen? Como é que seriam as homilias se o seu Deus o tivesse presenteado?
“Por isso, certamente que eu não defendo que a lei do Estado se imiscua na liberdade de cada um optar pelos métodos artificiais de contracepção, apesar de eu os ver como imorais porque me revejo na moral cristã e a tomo como verdadeira. Por outro lado, o aborto tem efeitos destrutivos sobre indivíduos que deveriam ser protegidos pelo Estado, pelo que nesse caso não há espaço para “opções livres”, porque há terceiros em jogo.”
Eu tomo a moral cristã como verdadeira para quem é cristão. Não para os outros cidadãos. Ficava melhor afirmarem “quem é católico não pode fazer isto e aquilo”, em vez de o tentarem impor a toda a gente. Mas compreendo que, devido à crença em que um embrião é uma vida humana, procurem salvar as vidas alheias.
“No entanto, o estado, como garante das liberdades de todos, deve proteger as eventuais vítimas dos actos livres de pessoas que atentem contra o outro.”
Depende do que se considere um “acto contra o outro”.
“A liberdade é mesmo assim: para a proteger e a garantir até ao máximo possível, temos que impor restrições à liberdade de cada um. Sou livre, mas o Estado não me deve deixar usar essa liberdade se eu quiser prejudicar a dos outros.”
Liberdade implica responsabilidade.
«Tem razão quanto às probabilidades e não deixo de partilhar alguma da sua preocupação com a criança, mas acho que as pessoas são livres de fazerem o que quiserem, de preferência de maneira responsável. Há sempre um risco e as pessoas devem estar bem conscientes disso.»
“Sublinho: nenhuma lei do Estado deveria, na minha opinião, legislar sobre o número de parceiros sexuais ou sobre métodos contraceptivos não abortivos. Deve, isso sim, proteger a criança da melhor forma possível.”
Depende da sua definição de “criança”. Eu devia-me ter referido a “futura criança”.
“O Rui não se opõe, mas a criança, se se pudesse exprimir, discordaria do Rui.”
Não sei se o que chama de “criança” tinha capacidade mental para isso.
«É lamentável, mas penso que a alternativa pode ser pior.»
“Algo é pior do que ser morto? É este tipo de lógica difusa (ou ilógica) que me faz confusão.”
Não considero que se esteja a matar uma vida humana. É um ser único a nível genético (não considerando a existência de gémeos idênticos) mas não uma criança ou um ser dotado de alma desde a concepção.
“ É um pouco como o Rui me dizer: “não se esqueça que as pessoas não comem só para se alimentarem”. É certo que tudo o que ponho na boca, num acesso de gula, entra no sistema digestivo. Será que posso optar, ao comer milhares de calorias e gorduras prejudiciais, que não quero que aquilo entre no meu sistema digestivo?
Há certas coisas da moral, que os cristãos chamam de “leis naturais”, que vêm com o nosso “pacote” biológico.
Se meto comida na boca, ela vai ser digerida, com tudo o que daí poder advir.
Analogamente, sempre que tenho relações sexuais, há consequências bastante previsíveis desse facto, mesmo que eu tome precauções contraceptivas.
Ser responsável serve para tudo o que fazemos. E há acções que se reflectem sempre no nosso corpo. Não posso dissociar o meu gosto por bela e farta gastronomia de eventuais consequências para o meu organismo. Por isso, não existe tal fantasia como a de separar a sexualidade da reprodução, porque essa fantasia está apenas assente em estatísticas de sucesso contraceptivo que nunca são de 100%. Faço-me entender?“
A sua definição de sexualidade implica comer sempre o mesmo durante a vida inteira, o que não funciona para muita gente.
“Não há “sexo seguro”, nem no sentido de sexo com 0% de probabilidade de transmissão de DSTs, nem no sentido de sexo com 0% de probabilidade de contracepção (a não ser no caso de pessoas esterilizadas).
É isso que tantos ateus não compreendem: como cristão, a moral cristã que a Igreja tem vindo a defender heroicamente durante 2.000 anos, derivada dos ensinamentos de um Deus que Se fez Homem, é uma moral que me eleva, que me dá plena realização e satisfação pessoais!”
Perdoe-me, mas não posso ter consideração por uma moral baseada em premissas irracionais e dogmas da idade do bronze.
“Eu, consciente da felicidade e da realização que o caminho cristão me tem dado, irei aconselhar os meus filhos à abstinência sexual antes de um compromisso sério. Ah, e mesmo que esse compromisso venha a ser um casamento civil, apesar de eu ficar, naturalmente, mais satisfeito se os meus filhos vierem a casar pela Igreja.”
Pelo que diz respeita esse direito de escolha dos seus filhos. Estamos em sintonia.
“Se as pessoas não se abstiverem, esse perigo existe. Só que muitas pessoas não entendem uma regra principal de toda a moral, e da moral cristã, que nestas coisas é sempre sensata: os fins não justificam os meios. A Igreja não pode propor, para a solução de um problema de saúde pública, uma solução moralmente falsa. Se a Igreja considera, e bem, que a contracepção artificial é imoral, não pode advogá-la como solução.”
Não podem advogá-la como solução e nem se deviam pronunciar sobre ela. Aconselhavam a abstinência e o casamento e o que bem entendessem e não diziam uma palavra a dizer mal da contracepção.
Por cá ainda levam na cabeça, mas em África, onde as pessoas estão menos informadas, são responsáveis directos pela propagação de epidemias pois ou a sua mensagem de abstinência não chega a todos (ou a nenhum) ou pura e simplesmente muitos se estão nas tintas para o que a ICAR diz, mas continuam mal informados ou mesmo desinformados.
“Mas há aqui uma nuance: nenhum sacerdote católico dirá a um casal infectado para não usar preservativo. Dirá, isso sim, para se absterem da relação sexual, por causa do risco de infecção, que nenhum preservativo evita a 100%. No entanto, se as pessoas não se conseguem abster, e têm a noção dos riscos, é evidente que não podem por em risco o seu parceiro, tendo uma relação sexual desprotegida, porque isso faria perigar a pessoa não infectada.”
E um casal onde um está infectado mas não sabe? Já viu o perigo para o outro? Para não falar que já aconselham o uso do preservativo até durante o casamento.
“Sinceramente, acho que todo o período da adolescência, com ou sem educação, com ou sem informação, é um período dotado desse risco. A educação e a informação são indispensáveis para reduzir o risco de uma gravidez indesejada ou de uma infecção com DSTs. Mas eu colocaria, nessa educação e informação, e no topo de tudo, a promoção da abstinência.”
Eu não. E nem sequer admitiria que se falasse nela, ao mesmo tempo que não incentivaria os jovens para irem para a cama. Seria ao critério de cada um.
“Já reparou o absurdo do que a cultura moderna afirma? Dizem aos jovens: “tenham o sexo todo que quiserem”, e depois, só depois, é que tenta informá-los, aos poucos que ouvem, dos riscos inerentes. Não é absurdo? É um bocado como dizer a um grupo de candidatos a “bungee jumpers”: saltem à vontade. E depois, a meio da queda, avisá-los: “mas atem uma corda à vossa cintura!”.”
Por essa e por outras é que a educação para a sexualidade e saúde deve começar antes dos 10 anos.
“A Igreja coloca, à frente de tudo, a lição mestra: o compromisso é necessário para uma relação sexual da qual pode nascer uma criança, de cuja vida não nos podemos desembaraçar, porque também ela tem direito a viver.”
Desculpe mas há muita gente que não pensa assim e tem horror ao compromisso (ou tem horror até a determinada idade).
“A diferença é que, antes de entrar num carro, as pessoas têm a formação necessária para o usar. E há outra grande diferença: o efeito normal ou natural de um carro é deslocar-se. E não, necessariamente, ter um acidente. Isso é algo que pode acontecer de forma contingente, mas nunca necessária. Já o efeito normal, natural, de uma relação sexual, biologicamente falando, é gerar novos seres humanos. Há coisas simples que nos passam ao lado, não é?”
Grande parte das relações sexuais não são para ter acidentes, ao contrário do que afirma. O normal é as pessoas quererem divertir-se um bocado. Não para ter uma criança.
Abraço,
RJ
Caro Bernando.
Está sempre a cometer falácias… você disse que a: “contracepção artificial é imoral”. Ora esta frase é totalmente sem sentido.
Primeiro, porque a contracepção como caminho de regulação da natalidade não é de nenhum modo imoral, mas sim totalmente moral e responsável. É necessário perceber que a relação entre acto sexual e procriação está muito longe de ser imediata. Pois, o que está orientado para a procriação é a globalidade da vida em amor-doação e não cada relação sexual singular. Portanto, todos os actos sexuais, independentemente de serem biologicamente fecundos ou não, têm todo o sentido, pois exprimem, realizam e potenciam o dom pessoal e mútuo, expressam a “comunidade de vida e amor” (Gaudium et Spes 47). Daí a necessidade de uma paternidade responsável, que incide principalmente na questão de quantos filhos chamar à vida; e na questão dos métodos, analisando a sua eficácia, inocuidade, e aceitabilidade (psicológica, social, cultural). É de salientar que nenhum dos métodos realiza de forma optimal a eficácia, inocuidade, e aceitabilidade. Assim, não se pode absolutizar nenhum método; então, é só a quem vive a doação de si em amor que cabe a decisão da escolha do método.
Em segundo lugar, não existe “contracepção natural”. Dizer isto é absurdo, pois, não há métodos naturais. Toda a intromissão cultural na sexualidade é introduzir o artificial. Não é aceitável, na cultura moderna, imaginar que a fertilidade pode ser entregue, no ser humano, ao simples jogo das leis naturais. A fertilidade passou a ser um acontecimento cultural e, como tal, artificial, porque é o homem que cria a cultura e a cultura é artificial. E a separação entre coito e fecundidade, tornada possível pelo uso de uma anti-ovulação, é tão anti-natural como escolher, para o coito não procriativo, os dias seguramente inférteis da mulher, que só são conhecidos pela investigação científica. Quando os cônjuges, seleccionam estes dias para o coito estão, de facto, a separar o carácter unitivo e procriativo da relação sexual.
Cuidado com as falácias na sua argumentação!
Saudações Cordiais,
Caro Rui
Tem toda a razão quando afirma que a moral sexual não se deve fundamentar primariamente na religião. Concordo plenamente consigo nesse aspecto (mesmo sendo eu cristão). A moral sexual tem que ser universalista… tem que abranger todas as pessoas que sejam crentes e não crentes. A sexualidade é um modo profundo de comunicação que o ser humano possui. Por isso, cabe ao humano reflectir autonomamente, e não heteronomamente (lei vinda do divino), sobre isso. Apesar de ser cristão e catequista, etc… considero que nenhuma religião aprendeu a lidar com este acontecimento formidável que é um homem e uma mulher unirem-se sexualmente para terem prazer mútuo e gerarem filhos. Por imposição biológica o Homem, como ser inteligente, pode-se opor, mas não pode nunca eliminar. Tal como comer é uma obrigação biológica, mas comer em excesso é gula, pecado (agora é síndrome metabólico…), a relação sexual é um impulso biológico, que os seres humanos são chamados biologicamente a cumprir, mas deve ser contido numa leitura cultural e humana. As religiões deviam ter-se limitado a fixar as barreiras do abuso, do “pecado”, e pouco mais. Nas nações politicamente organizadas em Estados, o Direito encarregou-se dos aspectos particulares da relação homem/mulher, dos direitos filhos, da herança do património, etc., e é um papel que lhe cabe. Às religiões deve competir, apenas, mostrar em que medida esta relação, de base biológica, pode ser integrada numa leitura transcendental da origem e destino do Homem. Como dizia alguém, “não incomodemos Deus com assuntos de alcova”…
Agora vamos tentar pensar na sexualidade em si… (vou-me guiar pelo pensamento de López Quintás)
…Imaginemos uma pessoa que tenha uma mentalidade possessiva, que pensa que tudo na vida são objectos à mercê da sua ânsia de dominar. Aquela pessoa possessiva tenderá a considerar o “amor humano” como um meio para obter satisfações egoístas. A pessoa amada será dominada como se domina um objecto.
Mas, existem diferentes níveis de realidade, diferentes atitudes perante a vida: há o nível dos objectos, o nível dos valores, o nível das obras de arte, o nível do amor humano, o nível do encontro, o nível religioso.
O nível dos objectos não é criativo. Posso usar uma caneta, posso ter cem milhões de dólares na minha conta bancária, posso ter tudo isso sem criatividade nenhuma. No nível dos objectos estamos no horizonte da manipulação… o que é manipular? Manipular equivale a manejar. De per si, somente os objectos são suscetíveis de manejo. Posso utilizar uma esferográfica para minhas finalidades, guardá-la, trocá-la, descartá-la. Estou no meu direito, porque se trata de um objecto. Manipular é tratar uma pessoa ou grupo de pessoas como se fossem objectos, a fim de dominá-los facilmente. Essa forma de tratamento significa um rebaixamento, um aviltamento.
Já o tema do amor humano só pode ser compreendido por uma pessoa quando ela se eleva ao nível da criatividade. Não há nada maior no universo do que uma vida humana e o amor verdadeiro por outra pessoa. Por isso o amor tem uma relevância singular, uma plenitude de sentido e um valor impressionantes.
Quando duas pessoas se abraçam, os seus corpos entrelaçados assumem um papel de destaque, mas não constituem a meta da atenção; são o meio de expressão do afecto mútuo. A pessoa, no tal abraço, não fica relegada para um segundo plano. É, pelo contrário, realçada. Porém, se a atenção se detém no corpo acariciado, simplesmente pela atracção sensorial que tal gesto implica, o corpo invade todo o campo da pessoa. Esta é vista como objecto, realidade de que se pode dispor, manejar, possuir, desfrutar… Ora, um objecto não pode ser amado, mas somente apetecido. Daí o carácter triste da expressão “mulher-objeto” aplicada a certas figuras femininas exibidas como objecto de contemplação em alguns espetáculos ou tomadas como objecto de posse no dia-a-dia. Rebaixar uma pessoa do nível que lhe corresponde é uma forma de manipulação agressiva que gera os diferentes modos de violência que a sociedade actual regista. E a principal tarefa dos manipuladores consiste em ocultar a violência sob o véu sedutor do “fomento das liberdades”.
Defino amor como: “fazer feliz o outro na sua diferença”, ou seja, “o amor constitui a concreção máxima e última da realidade do homem como ser-para-o-encontro. A vivência do amor-comunhão exige deixar-me ser-para-o-outro e deixar o outro ser-para-mim”; assim, não posso renunciar à minha condição de sujeito tornando-me objecto, nem posso objectualizar o outro, impedindo-o de ser ele mesmo tal qual é. Esta relação de encontro com o outro não descreve, portanto, uma relação de propriedade, de possessão; mas sim apela à vida pessoal como processo de doação, encontro, e desvelamento permanente. Em suma, amar é morrer para si (para egoísmos, …) e nascer no outro, fazendo-o feliz!
Ah! Este amor verdadeiro pode-se manifestar antes do casamento-institucional, este último é o reconhecimento público do amor que “já” existe. (O Bernardo neste ponto faz muita muita confusão…)
Outra dificuldade que vejo em ti, Rui, é uma má compreensão do termo fidelidade. Fidelidade não é meramente “aguentar”. “Aguentar” aguentam as pernas das mesas, os muros, as colunas… estão feitos para aguentar. Nós, seres humanos, não estamos feitos para isto, a minha vocação não é aguentar, nem tampouco a tua. Sabes qual é? Ser fiel. Quando uma pessoa diz para a outra: “quero ser sempre contigo e para ti” (mesmo antes do casamento-institucional) uma pessoa diz à outra que quer criar, com ela, um mundo conjunto. Este “mundo” não está feito de uma vez por todas como está feita esta mesa que eu tenho à minha frente. Deve-se criá-lo a cada dia, cada hora. Ser fiel: que significa? Criá-lo. Portanto, a fidelidade autêntica é criativa. Por isso, o grande filósofo francês Gabriel Marcel tem um livro que se chama Fidelidade Criadora. Então, não é um mero “aguentar”, é fidelidade criadora. Não vale dizer: “Estás cansado? Tens dificuldades? Aguenta.” Não! “Tens dificuldades? Sê fiel”.
Não podemos baixar do nível que estamos: somos humanos, não objectos!
Caro Mingos,
Não se pode confundir fidelidade com abstinência.
A noção de fidelidade pode ser muito subjectiva e certamente não é a mesma para um casal monogâmico e sério e para um casal cujo hobby de fim de semana é o swinging.
Convém ainda distinguir lealdade de fidelidade.
RJ
Olá rui,
eu não disse que fidelidade é abstinência.
Fidelidade é nao tratar o outro como objecto e dar-se totalmente a ele.
Caro mingos,
«Penso que o fundamental é existir o verdadeiro “dom de si”, num amor reciproco, perene e fiel. O casamento enquanto instituição é o reconhecimento público do amor que existe entre os dois que se amam.»
A sua definição é muito boa: para mim, compromisso, assim como o definiu, sem mais nada, sem se falar em “compromisso cristão” ou outro tipo especial de compromisso, é uma boa definição que eu aceito.
No entanto, para o cristão, o casamento é um sacramento, ou seja, um acto reconhecido e santificado pela acção directa de Deus. E isso é muito mais do que um simples compromisso “laico”. No entanto, para a conversa que estávamos a ter, acerca da sexualidade responsável, a sua definição de compromisso parece-me muito aceitável.
Cumprimentos,
Bernardo
Caro Rui,
«Já pensou na liberdade de uma mulher violada que é obrigada a ter uma criança?»
Sim, claro que sim. Imponho a mim mesmo a necessidade de ponderar todos os prós e os contras antes de
tomar uma posição. Acredite que eu seria muito mais aplaudido pelas pessoas com quem dialogo, se eu
advogasse o aborto livre para as mulheres violadas. Muitos dos que se dizem contra o aborto fazem essa
excepção: não sei se para evitar problemas. certamente que não o fazem de forma racional, porque não há
argumentação sólida para alguém que defende o direito à vida humana intra-uterina fazer uma excepção a
esse direito universal no caso da mulher violada.
Mas não o posso fazer: acima de tudo, não posso violentar a lógica, aderindo a um erro lógico. Nenhum bem
vem da defesa de argumentações erradas porque ilógicas.
É de uma extrema violência, quando uma mulher fica grávida de uma violação. É das maiores violações à
liberdade individual. É um ultraje. No entanto, está ali um ser humano, completo, vivo.
Agora, peço que siga o meu raciocínio:
a) a Justiça, antes de condenar, procura determinar a culpa; se ela não for encontrada, não deve haver
lugar a condenação;
Por favor, diga-me se concorda
b) o ser humano concebido na sequência de uma violação não tem qualquer culpa dos actos do violador
Por favor, diga-me se concorda
c) abortar, nestas condições, é condenar à morte, sem apelo nem agravo, um ser que não tem qualquer culpa
e ao qual é imposta a pena mais pesada de todas
Por favor, diga-me se concorda
Faço-me entender?
Não sei como escapar à lógica deste raciocínio. Essa lógica, necessária e clara, não ajuda, em nada, a
aliviar o sofrimento da mulher violada, nem a atenuar a sua horrível situação. Mas é como as coisas são, e
não como eu gostava que elas fossem. Eu gostava que nenhuma mulher fosse violada, e que das poucas que
fossem, por culpa das bestas que andam por aí, que nenhuma ficasse grávida, mas todos sabemos que isso
pode acontecer num crime horrendo como esse.
«Não temos a mesma definição de “indivíduo”.»
Vou tentar usar algo mais objectivo. Quando falo da vida humana intra-uterina, falo de um ser humano:
a) “ser”: porque o ser do embrião ou do feto é diferente do ser da mãe
Por favor, diga-me se concorda
b) “humano”, porque os 46 cromossomas do embrião ou do feto são exactamente os mesmos que definem a
espécie Homo Sapiens, à qual pertencem todos os seres humanos, independentemente da sua raça
«Porque é que é imoral? Porque um senhor chamado Onan resolveu desperdiçar sémen? Como é que seriam as
homilias se o seu Deus o tivesse presenteado?»
É engraçado ler isto!
Não é nada costume ver um cristão a argumentar sobre a imoralidade dos métodos contraceptivos artificiais
recorrendo ao episódio de Onan. Até hoje, nunca vi tal coisa.
Se ler a Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, encontra as bases doutrinais para a imoralidade desses métodos:
http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_25071968_humanae-vitae_po.html
E sabe uma coisa gira? O documento é enorme, só trata sobre este tema, e o nome de Onan não surge nem uma
vez.
Sugiro MESMO que o Rui tome um contacto breve com o que a Igreja de facto diz sobre esta questão, para
evitar que perca o seu tempo a tentar refutar argumentos que nem sequer são usados pela Igreja.
Também gostava que tivesse presente que o uso de métodos naturais (eficácia acima de 95% em casais
informados e conhecedores) para regular os nascimentos é perfeitamente compatível com a doutrina cristã.
Sabia isto, certo?
«Eu tomo a moral cristã como verdadeira para quem é cristão. Não para os outros cidadãos.»
Isso chama-se relativismo.
Eu vejo as coisas pelo prisma da lógica. Os ateus dizem que não há Deus, os crentes dizem que há. Como são
proposições mutuamente exclusivas, só um lado está certo. Eu digo que Jesus Cristo é Deus, Filho de Deus.
Você dirá que não. Só um de nós está certo, pois são proposições mutuamente exclusivas. Eu digo que a
moral cristã é a única e verdadeira moral, completa, que diz a verdade sobre o ser humano e sobre a
rectidão ou não rectidão dos seus actos. Você diz que não. Só um de nós está certo, pois são proposições
mutuamente exclusivas.
«Ficava melhor afirmarem “quem é católico não pode fazer isto e aquilo”, em vez de o tentarem impor a toda
a gente.»
Impôr?
É por estas e por outras que eu me sinto quase incapaz de comunicar. Parece que hoje em dia já não é
possível usar frases construídas de forma coerente para comunicar!
Rui…
Desde quando é que o parágrafo que escrevi atrás é estranho para si? O das proposições mutuamente
exclusivas? Eu não estou a impor nada. Sobre a moral cristã, ou os cristãos estão errados (e você e os não
cristãos estão todos certos), ou então é ao contrário. Há alternativa? Pode, cada qual, inventar a “sua
verdade”? Isso da “sua verdade” é coisa que existe?
Se você acha que está certo, tem a OBRIGAÇÃO moral de me tentar corrigir.
E vice-versa.
Se Deus não existe, se Cristo não é Deus mas sim um mero homem, se a moral cristã está errada, então eu
ando totalmente errado! E andam todos os cristãos!
E você tem a OBRIGAÇÃO de zelar pela verdade e pela lógica. Se está certo do meu erro, por favor, defenda
a verdade e lute pelas ideias que o Rui toma por verdadeiras. Lute por elas!!
Não entre pelo relativismo, por favor. Isso é falência intelectual…
Este “combate” intelectual só faz sentido se usarmos o mesmo tipo de armas. Coisas como aceitar que é
possível algo ser realmente verdadeiro em si mesmo, coisas como aceitar as regras da lógica, etc…
«Mas compreendo que, devido à crença em que um embrião é uma vida humana, procurem salvar as vidas
alheias.»
Você não o faria?
Não acha que sou coerente?
Eu também acho que o Rui é coerente numa coisa: como não vê o embrião como vida humana, não o defende. No
entanto, só me escapa a lógica do seu raciocínio: onde está a fronteira? Quando é que começa a vida
humana? Eu achei que a embriologia já tinha dado uma resposta boa para esta questão científica.
Sabe o que eu acho?
Acho que algumas pessoas preferem desistir de enfrentar a verdade dos factos, e a crueza de um raciocínio
perfeitamente lógico, só porque é mais cómodo poder abortar. No entanto, fale com uma mulher que tenha
abortado, e veja os efeitos devastadores que isso tem nela… Há pelo duas vítimas, sempre, em cada
aborto. Uma que morre fisicamente, outra que morre psiquicamente. Que mulher normal é que fica bem depois
de matar o seu filho?
«Depende do que se considere um “acto contra o outro”.»
Eu considero que atentar contra a vida do outro é o maior ultraje aos direitos humanos. Não há pior acto
contra o outro.
«Liberdade implica responsabilidade.»
Precisamente. E de que maneira…
«Depende da sua definição de “criança”. Eu devia-me ter referido a “futura criança”.»
Se quiser, eu troco a palavra “criança” por “ser humano”, como defini atrás. Vai dar ao mesmo. Um ser
humano ainda não adulto.
«Não sei se o que chama de “criança” tinha capacidade mental para isso.»
Vem da capacidade mental o nosso direito a viver?
Hitler não poderia concordar mais consigo.
«Não considero que se esteja a matar uma vida humana. É um ser único a nível genético (não considerando a
existência de gémeos idênticos) mas não uma criança ou um ser dotado de alma desde a concepção.»
Não é preciso meter a alma ao barulho. Poderíamos fazê-lo noutro debate. Vamos falar apenas de critérios
científicos e éticos. Até nem é preciso meter a religião ao barulho para condenar o aborto. No texto que
escrevi, não invoquei argumentos religiosos para refutar o direito ao aborto. Nem um só.
«A sua definição de sexualidade implica comer sempre o mesmo durante a vida inteira, o que não funciona
para muita gente.»
Então temos noções diferentes de realização sexual. Para mim, tem tudo a ver com profundidade e intensidade, enquanto que o Rui parece defender que o importante é variedade e superficialidade.
Para além disso, o Rui não aceita que a sexualidade não pode ser discutida à parte das eventuais crianças que delas resultem, e isso porque não há metodos contraceptivos 100% eficazes.
«Perdoe-me, mas não posso ter consideração por uma moral baseada em premissas irracionais e dogmas da idade do bronze.»
Com todo o respeito: isto é um argumento? Onde é que criticou ou refutou o que eu escrevi?
«Pelo que diz respeita esse direito de escolha dos seus filhos. Estamos em sintonia.»
Claro que respeito. Ainda há quem não entenda que o cristianismo tem tudo a ver com respeito pela liberdade das decisões de cada um. No entanto, o cristianismo não dá palmadinhas nas costas: explica bem as consequências dos nossos actos. Eu explicarei aos meus filhos as consequências de não agir de forma cristã. E depois eles optarão, de forma livre.
«Não podem advogá-la como solução e nem se deviam pronunciar sobre ela. Aconselhavam a abstinência e o
casamento e o que bem entendessem e não diziam uma palavra a dizer mal da contracepção.»
Dizer que não é 100% eficaz é dizer mal ou difundir um facto?
«E um casal onde um está infectado mas não sabe? Já viu o perigo para o outro?»
Talvez fosse interessante perceber como é que esse membro do casal foi infectado. Muitas vezes, o problema começa aí. Um estudo recente da Unaids (ONU) mostra que a esmagadora maioria dos infectados têm comportamentos de risco. Não sou eu quem o diz. Procure no Google “Kevin De Cock”. Veja esta notícia:
http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/columnists/guest_contributors/article4143943.ece
«Para não falar que já aconselham o uso do preservativo até durante o casamento.»
Não percebi.
«Eu não. E nem sequer admitiria que se falasse nela, ao mesmo tempo que não incentivaria os jovens para
irem para a cama. Seria ao critério de cada um.»
Como é que dois adolescentes sem qualquer experiência de vida podem ter a noção clara e evidente de que o preservativo que lhes deram, ou que compraram, não é 100% eficaz? Se eles não sabem, sequer, o que mudará nas suas vidas se daí vier uma criança?
Dar uma caixa de preservativos e pílulas a um casal de adolescentes, e confiar no “critério de cada um” faz sentido?
«Por essa e por outras é que a educação para a sexualidade e saúde deve começar antes dos 10 anos.»
Ah, exacto! Para matar a inocência da infância, formatando a mente da crianças de 10 anos para que elas larguem as brincadeiras típicas da idade e se tornem obcecadas por sexo, para se tornarem consumidoras desse mercado gigantesco e milionário.
Não acha que se deve ensinar o seu a seu tempo?
«Desculpe mas há muita gente que não pensa assim e tem horror ao compromisso (ou tem horror até a
determinada idade).»
Toda a nossa sociedade tem horror ao compromisso porque vive obcecada com o individualismo e com o egoísmo. Isso vê-se em tudo, desde estas matérias até ao relativismo. Por isso é que Portugal é um país cheio de católicos que não vão à missa nem assumem a doutrina cristã: “eu cá tenho a minha fé”. Uma frase típica de uma cultura individualista e superficial, devotada ao hedonismo, ao prazer imediato, a viver a vida e gozar o prato como se não houvesse amanhã.
Duvido que esta atitude seja sensata e madura, quanto mais defensável…
«Grande parte das relações sexuais não são para ter acidentes, ao contrário do que afirma. O normal é as
pessoas quererem divertir-se um bocado. Não para ter uma criança.»
Rui, que raio de frase…
Divertirem-se um bocado… Tudo bem. Só que os órgãos sexuais, quando usados normalmente, geram crianças. É um facto biológico inegável. A sua frase, que apela à diversão independente das consequências biológicas óbvias, é espantosa.
Fico com alguma pena, porque vejo que este debate não parece ter grande via para progredir. Eu fico atrapalhado quando se defende o indefensável, como dizer que ensinar a abstinência a adolescecentes é uma asneira, ou quando se defende que se deve ensinar aos jovens que o sexo é só para diversão, porque eles têm todo o controlo sobre a fertilidade. Quando isso é totalmente falso. O número de gravidezes adolescentes fala por si. E o número de abortos, sempre a aumentar, grita por si.
Esta forma “moderna” de ver a sexualidade e a educação está toda errada. E tem os seus dias contados. Não porque os cristãos terão grande possibilidade de contrariar a tendência. O que acontecerá é que a hidra das novas “modas” sobre educação sexual irá desenrolar-se e alargar-se até às últimas consequências. Aí todos verão. Quando novos excessos forem cabalmente constatados, quando novos recordes forem batidos, chegar-se-á a um ponto em que as pessoas começarão a dizer “basta” ou “isto é falso”.
Aprendemos sempre com os erros. Só que às vezes demoramos muito tempo e isso acaba por arruinar a vida de muita gente…
Um abraço,
Bernardo
Bernardo,
“não há argumentação sólida para alguém que defende o direito à vida humana intra-uterina fazer uma excepção a esse direito universal no caso da mulher violada.” (…)“a) a Justiça, antes de condenar, procura determinar a culpa; se ela não for encontrada, não deve haver lugar a condenação; b) o ser humano concebido na sequência de uma violação não tem qualquer culpa dos actos do violador. c) abortar, nestas condições, é condenar à morte, sem apelo nem agravo, um ser que não tem qualquer culpa e ao qual é imposta a pena mais pesada de todas”
Quem defende a “vida” só pode (quanto muito) admitir a IVG no caso em que a vida da mãe está em perigo. A sua opinião é coerente.
Desculpe, mas penso que a “pena mais pesada de todas” é para uma mulher que é obrigada a ter o filho, para o qual vai olhar todos os dias e recordar o seu violador.
“Essa lógica, necessária e clara, não ajuda, em nada, a aliviar o sofrimento da mulher violada, nem a atenuar a sua horrível situação“
Pode crer… Dando à mulher a possibilidade de abortar iria aliviar (em muitos casos) o sofrimento e atenuar a sua situação.
“a) “ser”: porque o ser do embrião ou do feto é diferente do ser da mãe. b) “humano”, porque os 46 cromossomas do embrião ou do feto são exactamente os mesmos que definem a espécie Homo Sapiens, à qual pertencem todos os seres humanos, independentemente da sua raça.”
Apesar de não discordar de todo, eu falo de um “futuro ser humano”.
“Também gostava que tivesse presente que o uso de métodos naturais (eficácia acima de 95% em casais informados e conhecedores) para regular os nascimentos é perfeitamente compatível com a doutrina cristã.”
Se se refere ao método sintotérmico tenha em consideração que é um risco muito grande para casais em que a mulher não tenha um sistema regular. Não é fiável, para além do risco de DSTs.
“«Eu tomo a moral cristã como verdadeira para quem é cristão. Não para os outros cidadãos.»
Isso chama-se relativismo.”
Cada pessoa é livre para seguir a moral que bem entende. Agora tentar influenciar a opinião pública e mesmo a legislação por causa de convicções religiosas e da moral relacionada é algo que considero grave, nomeadamente a nível dos possíveis efeitos na saúde pública.
“Impor? É por estas e por outras que eu me sinto quase incapaz de comunicar. Parece que hoje em dia já não é possível usar frases construídas de forma coerente para comunicar!”
“Impor”: pressões para que se mudem as leis de acordo com o ponto de vista da ICAR, algo que afecta todos os cidadãos e não só os católicos (e mesmo entre os católicos que não se revêem no código moral).
“«Mas compreendo que, devido à crença em que um embrião é uma vida humana, procurem salvar as vidas alheias.» Você não o faria? Não acha que sou coerente?”
Acho. E acrescento. Quem é contra a IVG pelo argumento da “vida” é necessariamente a favor de alterações ao código penal que equiparem o aborto a assassínio (dependendo da situação) e que enfiem uma mulher que aborta voluntariamente na prisão entre uns 8 e uns 25 anos (posso estar enganado no número de anos, tenho de “cravar” um código penal). Só não compreendo porque não fazem campanha nesse sentido.
“Eu também acho que o Rui é coerente numa coisa: como não vê o embrião como vida humana, não o defende. No entanto, só me escapa a lógica do seu raciocínio: onde está a fronteira? Quando é que começa a vida humana? Eu achei que a embriologia já tinha dado uma resposta boa para esta questão científica.”
É discutível. O prematuro que sobreviveu em incubadora mais novo até hoje rondava as 24 semanas, coincidente com o prazo limite para a IVG em Inglaterra (o que tem gerado alguma discussão ultimamente). Mas sou a favor da IVG em casos de gravidez mais prolongada do que essas 24 semanas em que se detecte uma deficiência grave no feto ou que ponha em risco a vida da mãe.
Eu preocupo-me com as mulheres acima de tudo. Até acho que nem devíamos votar no referendo…
“No entanto, fale com uma mulher que tenha abortado, e veja os efeitos devastadores que isso tem nela… Há pelo duas vítimas, sempre, em cada aborto. Uma que morre fisicamente, outra que morre psiquicamente. Que mulher normal é que fica bem depois
de matar o seu filho?”
Fale com uma mulher que abortou e não se arrependeu. E não devem ser poucas. Independentemente de se irem arrepender ou não, acho que se deve dar esse direito à mulher.
“Eu considero que atentar contra a vida do outro é o maior ultraje aos direitos humanos.”
Depende do ponto de vista.
“Não é preciso meter a alma ao barulho. Poderíamos fazê-lo noutro debate. Vamos falar apenas de critérios científicos e éticos. Até nem é preciso meter a religião ao barulho para condenar o aborto. No texto que escrevi, não invoquei argumentos religiosos para refutar o direito ao aborto. Nem um só.”
O seu critério para a ética (também) não provém do facto do ser gerado estar dotado de alma desde a concepção?
“Então temos noções diferentes de realização sexual. Para mim, tem tudo a ver com profundidade e intensidade, enquanto que o Rui parece defender que o importante é variedade e superficialidade.”
Cada um encara a sexualidade como bem entender (com respeito ao parceiro(a) ). Nada deve ser imposto. Apenas acho que as pessoas têm o direito a ser livres sem se invocar uma imoralidade no seu comportamento. E que tal uma profundidade e intensidade com várias pessoas ao longo da vida?
“Para além disso, o Rui não aceita que a sexualidade não pode ser discutida à parte das eventuais crianças que delas resultem, e isso porque não há metodos contraceptivos 100% eficazes.”
Não percebi.
“Lembro-lhe: “como cristão, a moral cristã que a Igreja tem vindo a defender heroicamente durante 2.000 anos, derivada dos ensinamentos de um Deus que Se fez Homem, é uma moral que me eleva, que me dá plena realização e satisfação pessoais!””
A moral que apregoa (e está no seu direito) é relativa a um certo tipo de sociedade antiga, de acordo com o “espírito do tempo”. Entretanto evoluímos…
“Dizer que não é 100% eficaz é dizer mal ou difundir um facto?”
Tem razão. Pena que Igreja não diga SÓ isto sobre os contraceptivos.
“«Para não falar que já aconselham o uso do preservativo até durante o casamento.» Não percebi.“
Não sei se tem visto nas notícias. Há cada vez mais casos de SIDA entre casais devido à infidelidade (ou a relações intermédias) associada a comportamentos de risco. Um dos cônjuges traz a doença para casa e infecta o outro. É grave…
“Como é que dois adolescentes sem qualquer experiência de vida podem ter a noção clara e evidente de que o preservativo que lhes deram, ou que compraram, não é 100% eficaz? Se eles não sabem, sequer, o que mudará nas suas vidas se daí vier uma criança?
Dar uma caixa de preservativos e pílulas a um casal de adolescentes, e confiar no “critério de cada um” faz sentido?” (..)“Ah, exacto! Para matar a inocência da infância, formatando a mente da crianças de 10 anos para que elas larguem as brincadeiras típicas da idade e se tornem obcecadas por sexo, para se tornarem consumidoras desse mercado gigantesco e milionário.”
Toda a gente deve estar mentalizada e consciente que há sempre riscos, embora mínimos. Quando há casos de meninas grávidas aos 10-12 anos toda a informação deve ser facultada. Uma coisa é um ser inocente que não pode engravidar, outra coisa é uma mãe com 12 anos.
“Toda a nossa sociedade tem horror ao compromisso porque vive obcecada com o individualismo e com o egoísmo. (…) “eu cá tenho a minha fé”. Uma frase típica de uma cultura individualista e superficial, devotada ao hedonismo, ao prazer imediato, a viver a vida e gozar o prato como se não houvesse amanhã.“
Não deixo de lhe dar alguma razão, mas acho que as pessoas têm o direito a ser livres e a procurar o prazer da maneira que bem entenderem, com respeito pelos outros e sem pseudo-moralismos.
“Divertirem-se um bocado… Tudo bem. Só que os órgãos sexuais, quando usados normalmente, geram crianças. É um facto biológico inegável.“
Tem razão no que diz, mas, primeiramente, as pessoas, no mundo de hoje, fazem sexo para se divertir. Os filhos ficam para depois. É um facto.
“Eu fico atrapalhado quando se defende o indefensável, como dizer que ensinar a abstinência a adolescecentes é uma asneira, ou quando se defende que se deve ensinar aos jovens que o sexo é só para diversão, porque eles têm todo o controlo sobre a fertilidade. Quando isso é totalmente falso. O número de gravidezes adolescentes fala por si. E o número de abortos, sempre a aumentar, grita por si. Esta forma “moderna” de ver a sexualidade e a educação está toda errada. E tem os seus dias contados. Não porque os cristãos terão grande possibilidade de contrariar a tendência. O que acontecerá é que a hidra das novas “modas” sobre educação sexual irá desenrolar-se e alargar-se até às últimas consequências. Aí todos verão. Quando novos excessos forem cabalmente constatados, quando novos recordes forem batidos, chegar-se-á a um ponto em que as pessoas começarão a dizer “basta” ou “isto é falso”.”
O sexo como diversão é um facto e as pessoas nos dias de hoje são livres. Os jovens devem estar conscientes e informados dos seus actos e saber ser responsáveis nos seus comportamentos. Compreenda que não se vai passar para um mundo de devassidão e libertinagem, apenas um mundo onde as pessoas podem ser mais felizes com essa liberdade.
E quer queira quer não, as gravidezes adolescentes e as IVG não acabarão.
Abraço,
RJ
Apreciei seguir o debate entre o caro Rui Janeiro e o caro Bernardo.
Permitam-me apenas complementar o seguinte relativamente à seguinte troca de impressões:
«“Divertirem-se um bocado… Tudo bem. Só que os órgãos sexuais, quando usados normalmente, geram crianças. É um facto biológico inegável.“
Tem razão no que diz, mas, primeiramente, as pessoas, no mundo de hoje, fazem sexo para se divertir. Os filhos ficam para depois. É um facto.»
A opinião que partilho é que o desejo sexual e a respectiva recompensa é transversal a todas as espécies sexuadas na Natureza, e tenho a certeza – e coloco as mãos no fogo – que em 100% das relações sexuais existentes na Natureza, “ninguém” está a “pensar” em ter descendência.
É claro que existem espécies – entre os mamíferos por exemplo – que possuem recompensas endorfínicas pós-orgasmo de altíssima qualidade - como nos primatas – que não têm qualquer comparação com outras em termos de intensidade e relaxamento – como algumas espécies de insectos – em que a ejaculação e respectivas convulsões abdominais apenas se processam após se ter perdido literalmente a cabeça – como acontece no louva-a-deus.
Nesse aspecto, somos uns privilegiados.
Em resumo, na Natureza, criar descendência, sempre foi uma diversão completamente programada e involuntária. Não é pois um fenómeno cultural humano recente, nem nada que se pareça.
E condicionar culturalmente de forma excessiva esse comportamento natural de procura diversão, só pode dar asneira, como aliás se tem visto por esses séculos a fora…
Cumprimentos
Errata:
Quando digo que “Não é pois um fenómeno cultural humano recente, nem nada que se pareça”, refiro-me à “diversão sexual” e não a “criar descendência”, como é óbvio.
Abrasivus,
É um excelente ponto de vista, mas arrisco -sem adiantar muito mais - que te vão cair em cima com uma série de argumentos éticos que nos separam do resto da fauna do planeta.
Vou aguardar para ver.
Um abraço.
Rui,
«Quem defende a “vida” só pode (quanto muito) admitir a IVG no caso em que a vida da mãe está em perigo. A sua opinião é coerente.»
Obrigado pelo uso do termo “coerente”. Há algo inegável: nada que seja incoerente pode ser verdadeiro. O facto de eu ser coerente não me dá a verdade. A coerência é apenas condição necessária, e não suficiente, para a veracidade.
Na verdade, a questão que coloca é espinhosa. Nem sempre é ético abortar quando a vida da mãe corre risco.
Há soluções estudadas para este tipo de problemas éticos. São Tomás de Aquino deixou as bases para uma série de soluções potentes. O princípio do duplo efeito é da sua autoria:
1. A acção deve ser eticamente lícita (boa), ou pelo menos eticamente neutra;
2. A consequência má não pode ser desejada em si mesma; se a consequência má (indesejada) pudesse ser evitada por outra acção diferente, essa deveria ser tomada;
3. A consequência boa (desejada) não pode ser atingida indirectamente por meio da consequência má (os fins nunca podem justificar os meios), ou seja, pelo menos a consequência boa deve provir directamente da acção tomada (a consequência má poderá ser directa ou indirectamente causada pela acção);
4. A consequência boa deve ter peso igual à consequência má.
Se tiver interesse, posso explicar-lhe como é que se aplica o princípio do duplo efeito para justificar uma intervenção cirúrgica para salvar a vida de uma mulher com gravidez ectópica, por exemplo. Dessa intervenção resulta a morte do embrião. No entanto, um cirurgião competente consegue fazer esta intervenção sem beliscar a ética médica. A própria Igreja Católica explicou que esta intervenção, feita respeitando o princípio do duplo efeito, pode ser efectuada para salvar a vida da mãe.
No entanto, recordo-me de um caso em que abortar não era ético: uma mulher, a quem foi diagnosticada leucemia durante a gravidez, pôde optar entre receber quimioterapia (que mataria inevitavelmente o seu filho) ou esperar pelo nascimento para começar a quimioterapia. Ela optou por não matar o seu filho, e adiou os tratamentos. No entanto, já foram tarde demais e ela morreu. Foi um caso noticiado há poucos dias, salvo erro na Polónia. Um gesto heróico, que marca e vinca bem o que é que dá sentido à nossa existência, e o exacto oposto do egoísmo: o altruísmo.
A ética não é como um clube de futebol (piadas à parte!): a opção por uma vida eticamente coerente pode levar-nos a ter que tomar atitudes coerentes, mas exigentes e até mesmo heróicas.
«Desculpe, mas penso que a “pena mais pesada de todas” é para uma mulher que é obrigada a ter o filho, para o qual vai olhar todos os dias e recordar o seu violador.»
Dificilmente consigo imaginar algo pior, de facto. Pior, pior, só essa mulher ter que se deitar todos os dias e imaginar na sua cabeça como seria o filho que ela matou.
Rui, eu acho difícil argumentar que algo é mais cruel do que tirar a vida a alguém.
«Pode crer… Dando à mulher a possibilidade de abortar iria aliviar (em muitos casos) o sofrimento e atenuar a sua situação.»
Conhece os estudos que demonstram os traumas psíquicos da esmagadora maioria das mulheres que abortam?
O Rui consegue colocar-se, mais ou menos, na pele de uma mulher e pensar o que é viver toda a vida com esse peso na consciência? Conhece os efeitos depressivos (e nalguns casos, catalizadores de sentimentos suicidas) do aborto?
«Apesar de não discordar de todo, eu falo de um “futuro ser humano”.»
O Rui não me explica porque é que esse ser, cromossomaticamente totipotente, é para si apenas “futuro” e não “presente”. Com base em quê?
O Rui tem presente que não é a vontade que muitos têm em legitimar o aborto que vai resolver este imbróglio, certo?
Isto não tem grande volta que se lhe dê: se o embrião ou o feto são seres geneticamente humanos e biologicamente diferenciados de quaisquer outros seres, então temos problemas. E não é fácil varrê-los para debaixo do tapete.
Note que este problema ético do aborto tem uma existência real, distinta dos fenómenos religiosos. Ateus convictos têm aderido à luta contra o aborto porque se dão conta de que há aqui um grave problema ético. Não estamos a falar de dogmas: estamos a falar de usar uma ética de direitos humanos de forma coerente.
«Se se refere ao método sintotérmico tenha em consideração que é um risco muito grande para casais em que a mulher não tenha um sistema regular. Não é fiável, para além do risco de DSTs.»
Rui: não brinque comigo. É casado?
Se for casado, ou pelo menos, se tiver uma namorada há longa data e falar com ela sobre estas coisas, sabe bem que as irregularidades de que fala não impedem a manifestação de outros sintomas perfeitamente detectáveis e associados ao ciclo fértil da mulher. Eu não queria entrar em detalhes, mas estas coisas não são propriamente segredos militares…
Em relação às DSTs, respondo-lhe com a fidelidade. Um casal que se casa sem DST’s, e que se mantém fiel, como é que as apanharia?
«Cada pessoa é livre para seguir a moral que bem entende.»
Isso não é bem assim: se o Rui decidir seguir uma “moral” sua, que o leva a lançar aviões cheios de pessoas inocentes contra arranha-céus, não vejo que o resto das pessoas o deixem segui-la.
«Agora tentar influenciar a opinião pública e mesmo a legislação por causa de convicções religiosas e da moral relacionada é algo que considero grave, nomeadamente a nível dos possíveis efeitos na saúde pública.»
Eu insisto na diferença essencial entre o aborto e a contracepção. A posição moral da sociedade face ao aborto determina que, sob os olhos impassíveis da Justiça, e usando fundos do Estado, se matem diariamente seres humanos, não só em Portugal, mas por esse mundo fora.
A posição face à contracepção deve manter-se pessoal, uma vez que as opções que tomamos nessa matéria apenas nos afectam individualmente. No entanto, note-se que há falsa contracepção à solta. A pílula do dia seguinte tem um potencial abortivo, uma vez que actua de dois modos: ora impede a ovulação, ora estreita o endométrio. No primeiro caso, não há efeito abortivo, mas no segundo há, uma vez que a nidação é impedida. Poucos sabem estas coisas, mas o Levonogestrel, que é vendido ao pontapé nas farmácias, tem um sério potencial abortivo, o que quer dizer que numa grande percentagem das vezes, age de forma abortiva.
«“Impor”: pressões para que se mudem as leis de acordo com o ponto de vista da ICAR, algo que afecta todos os cidadãos e não só os católicos (e mesmo entre os católicos que não se revêem no código moral).»
Repito: impedir a prática imoral do aborto não é impor pontos de vista da Igreja Católica: é impor o respeito pelos direitos humanos. Eu não apoiaria uma lei que impedisse o uso de preservativos, apesar de eu achar que tal acção é imoral. Eu também acho que é imoral fumar em demasia, e no entanto, não acharia lógico legislar contra fumadores inveterados.
O Rui está, não sem engenho, a misturar o aborto com a contracepção. Os católicos não se batem para introduzir na lei proibições contra os contraceptivos. Batem-se por uma coisa elementar: defender seres humanos com os quais poucos se preocupam. Nesta quarta-feira à noite, junto à Clínica dos Arcos, far-se-á mais uma vigília de oração por aqueles desgraçados que são abortados. Um evento que está a ganhar adeptos…
«Acho. E acrescento. Quem é contra a IVG pelo argumento da “vida” é necessariamente a favor de alterações ao código penal que equiparem o aborto a assassínio (dependendo da situação) e que enfiem uma mulher que aborta voluntariamente na prisão entre uns 8 e uns 25 anos (posso estar enganado no número de anos, tenho de “cravar” um código penal). Só não compreendo porque não fazem campanha nesse sentido.»
Se o Rui tivesse lido o meu texto, coisa que imagino que ainda não tenha tido tempo, veria esta e outras questões tratadas com o devido cuidado. O Rui não deve ser advogado. Eu também não sou. Por isso, tive que me informar sobre estas matérias. Como imagina, não caberia aqui todo o texto que lá escrevi sobre os problemas legais do que afirma, Rui. Mas há uma enorme diferença entre crime e pena. O crime é objectivo: abortar é matar. Sim, abortar é assassinar um ser humano. Isso é do mais objectivo que há. No entanto, “pena” é uma coisa diferente e subjectiva. Por essa razão é que há tribunais e juízes: para avaliar, perante um crime objectivo, qual é a pena que se deve aplicar.
Ora, numa mulher fragilizada, em muitos casos até levada a abortar por pressões psicológicas ou outras, há uma série de factores atenuantes. Esses factores não mudam a objectividade do crime, mas podem perfeitamente mudar, e é assim que os tribunais funcionam (quando funcionam!), a pena subjectiva.
O crime é objectivo porque representa aquilo que se fez de mal.
Neste caso: matar um ser humano. Sim, é crime de homicídio.
No entanto, as circunstâncias são radicalmente diferentes de outros homicídios qualificados. Para começar, e mesmo supondo que a mãe abortou voluntariamente, quem comete o crime sofre uma perda profunda, com implicações biológicas. Um vulgar homicida, quando mata, não mata alguém que está dentro de si, literalmente.
Eu advogaria, certamente, que se mantivesse na lei o crime de aborto como objectivamente um homicídio.
No entanto, dadas as circunstâncias, não me preocuparia muito em pesadas penas, uma vez que sofrer um aborto, mesmo que desejado, já é uma pena suficientemente pesada.
«É discutível. O prematuro que sobreviveu em incubadora mais novo até hoje rondava as 24 semanas, coincidente com o prazo limite para a IVG em Inglaterra (o que tem gerado alguma discussão ultimamente).»
Pois… Gera discussão porque estamos todos a falar de algo disparatado, mas que toda a gente acha muito lógico.
Basicamente, querem-nos enfiar o barrete de que o direito à vida depende da década em que se nasce. Nos anos 80, podia-se ser abortado quase até ao nascimento; nos anos 90, só até ao terceiro trimestre. Com os avanços da medicina, dentro de uns anos, pode-se dar à luz um bebé com 18 semanas, suponhamos, e o direito à vida volta a ser mudado…
Convenhamos… Má ética, e péssimo raciocínio.
«Mas sou a favor da IVG em casos de gravidez mais prolongada do que essas 24 semanas em que se detecte uma deficiência grave no feto ou que ponha em risco a vida da mãe.»
Eu sei que é a favor. Mas não explica porque razão a vida da mãe vale mais do que a vida do filho. Quem decide que ser humano tem mais valor? Entende a trapalhada dessa sua posição, Rui? Perdoe-me a linguagem dura, mas eu fico pasmado por ser tão difícil fazer passar a alguém um bom raciocínio. Parece que há um qualquer bloqueio inexplicável, que impede que pessoas razoáveis, nestes casos em concreto, usem da razão.
O Rui diz: “eu sou”. Muito bem. É a sua opinião. Mas como é que a justifica?
«Eu preocupo-me com as mulheres acima de tudo. Até acho que nem devíamos votar no referendo…»
Eu preocupo-me com as mulheres e com as crianças. Qualquer pessoa razoável preocupa-se com o ser humano em absoluto, seja ele homem, mulher ou criança. A preocupação deve estar nos direitos humanos fundamentais.
«Fale com uma mulher que abortou e não se arrependeu. E não devem ser poucas. Independentemente de se irem arrepender ou não, acho que se deve dar esse direito à mulher.»
Onde marca a sua fronteira? Uma mulher stressada com um bebé a chorar semanas a fio pode matá-lo?
Imagino que responda não. Apesar de filósofos contemporâneos como Peter Singer defenderem coisas imbecis como essas. É aliás, uma coisa curiosa: o defensor coerente do direito ao aborto, como é o caso de Peter Singer, acaba por desembocar na defesa do infanticídio. O Rui dirá, chocado, que está contra o infanticídio. Mas tenho a dizer-lhe que o incoerente é o Rui e não o Peter Singer. Se duvida, leia o “Ética Prática” desse autor e veja como é perfeitamente coerente defender o infanticídio quando se defende o aborto.
O problema é este: qual é a fronteira?
Quando é que se ganha o direito à vida?
O Rui entende que não é possível, ou não deveria ser, legislar sobre matérias tão frágeis como esta? Sem uma definição clara sobre o início da vida humana, não se podem criar leis que permitam que uns matem outros.
E não vejo outro início para a vida humana que não seja a óbvia fertilização do óvulo pelo espermatozóide…
«O seu critério para a ética (também) não provém do facto do ser gerado estar dotado de alma desde a concepção?»
Não, nada. Se ler o meu texto (e já me estou a tornar chato), verá que a palavra “alma “surge apenas uma vez, precisamente quando eu procuro refutar o apelo à alma como sendo um argumento falacioso, porque não é preciso invocar argumentos religiosos para denunciar o crime de abortar.
«Cada um encara a sexualidade como bem entender (com respeito ao parceiro(a) ). Nada deve ser imposto. Apenas acho que as pessoas têm o direito a ser livres sem se invocar uma imoralidade no seu comportamento. E que tal uma profundidade e intensidade com várias pessoas ao longo da vida?»
Como é que isso é mais profundo do que ser fiel a uma única pessoa?
Simplesmente, em termos cronológicos, não funciona. Mesmo que tenha uma invejável energia sexual, não vejo como é que consegue “repartir” a sua sexualidade sem ser de forma incompleta para cada um dos parceiros que escolhe.
«“Para além disso, o Rui não aceita que a sexualidade não pode ser discutida à parte das eventuais crianças que delas resultem, e isso porque não há metodos contraceptivos 100% eficazes.”
Não percebi.»
Dizia que, visto não existir forma totalmente segura de não nascerem crianças de um acto sexual (salvo a esterilização definitiva), é impossível dissociar totalmente o acto sexual de um eventual nascimento dele consequente.
«A moral que apregoa (e está no seu direito) é relativa a um certo tipo de sociedade antiga, de acordo com o “espírito do tempo”. Entretanto evoluímos…»
Evoluímos em quê? Em tecnologia, certamente. Mas evoluímos em tudo?
Para onde?
Deixámos de ser humanos? O Homo Sapiens de hoje é diferente do medieval, em termos biológicos?
Esta coisa de o Progresso se ter tornado na religião dos materialistas, é uma coisa que me espanta…
Se evoluímos da forma absoluta que refere, como se explicam os massacres imensos das Guerras Mundiais, sem igual no passado “atrasado” que refere?
Por exemplo, a bomba atómica, pico de sofisticação tecnológica na altura, mostra bem o abismo moral que atormenta as (más) decisões dos homens de todos os tempos. Infelizmente, a boa tecnologia convive facilmente com o pecado original que marca o Homem, e o faz optar pelo mal em qualquer época da História.
Se evoluímos, porque é que matamos os nossos filhos, ao abrigo da lei?
«Tem razão. Pena que Igreja não diga SÓ isto sobre os contraceptivos.»
Se não for específico, não sei como responder a esta frase.
«Não sei se tem visto nas notícias. Há cada vez mais casos de SIDA entre casais devido à infidelidade (ou a relações intermédias) associada a comportamentos de risco. Um dos cônjuges traz a doença para casa e infecta o outro. É grave…»
E o problema está na ausência de contraceptivos ou na infidelidade?
É que é isto que as pessoas não percebem. Eu estou casado há três anos, e tenho a perfeita noção de que todos os meus actos, morais ou imorais, podem trazer consequências para os outros.
«Toda a gente deve estar mentalizada e consciente que há sempre riscos, embora mínimos.»
Mínimos?
Com a percentagem de DSTs a aumentar?
Com o número de gravidezes adolescentes, e de abortos, a aumentar?
Os factos gritam contra si, Rui.
«Não deixo de lhe dar alguma razão, mas acho que as pessoas têm o direito a ser livres e a procurar o prazer da maneira que bem entenderem, com respeito pelos outros e sem pseudo-moralismos.»
Retiro da sua frase a parte central: “respeito pelos outros”. Não há esse respeito no aborto. Não há esse respeito na infidelidade que traz a SIDA para dentro do casal. Não há esse respeito sem moral sólida.
«Tem razão no que diz, mas, primeiramente, as pessoas, no mundo de hoje, fazem sexo para se divertir. Os filhos ficam para depois. É um facto.»
Eu diria que é um facto cultural, típico da nossa sociedade de consumo imediato.
«O sexo como diversão é um facto e as pessoas nos dias de hoje são livres. Os jovens devem estar conscientes e informados dos seus actos e saber ser responsáveis nos seus comportamentos. Compreenda que não se vai passar para um mundo de devassidão e libertinagem, apenas um mundo onde as pessoas podem ser mais felizes com essa liberdade.»
O Rui deve ter o privilégio de morar num local diferente do meu, e num ambiente diferente do meu. Todos os dias eu assisto a histórias tenebrosas…
«E quer queira quer não, as gravidezes adolescentes e as IVG não acabarão.»
Mas podemos ajudar ou contrariar a tendência.
Um abraço,
Bernardo
Caro Bernardo
Não entendi esta sua frase:
“Eu não apoiaria uma lei que impedisse o uso de preservativos, apesar de eu achar que tal acção é imoral”.
Usar o preservativo é imoral… porquê?
Se é imoral, é tão imoral como usar o método “artificial” (e não natural) de esperar pelos períodos inférteis.
Saudações cordiais,
Caro mingos,
Os métodos naturais são naturais precisamente porque respeitam a natureza da sexualidade humana.
Enquanto que todos os outros implicam a criação de barreiras artificiais a essa mesma sexualidade.
Que barreiras é que os métodos naturais criam à sexualidade humana?
Deus poderia ter feito a mulher sempre fértil. Mas no entanto, não é esse o caso. Ou seja, é natural que a mulher esteja fértil numa fase do ciclo e não fértil noutra.
Já os métodos artificiais, dignos desse nome, criam barreiras ao sistema reprodutor, sejam elas físicas (preservativo, por exemplo) ou químicas (pílula, por exemplo).
Se me expliquei mal, diga-me.
Cumprimentos,
Bernardo
Caro Mingos,
Quem é perito em dar lições de “naturalidade”, é um palhaço retrógado chamado Tomás de Aquino. Segundo a criatura atrás referida, entre as actividades do corpo que vão contra a natureza (libido contra naturam), podes contar com a sodomia (os gays não devem achar muita graça a este tipo…); quem ficará feliz com certeza, serão os violadores: segundo o Dr. Angélico (não só chamam “Doutor” a um trouxa destes, como ainda por cima, temos de correr o risco de confundi-lo com o vocalista dos D’Zrt…), a masturbação é bem pior do que a violação: é que com a violação ainda há a possibilidade de se gerarem umas criancinhas que engrossem o número de potenciais alminhas no céu; agora, com a masturbação…hmmmm…que horror…é só desperdício!
Masturbadores: acautelai-vos, pois o Inferno vos espera por vosso desperdício infrutífero! Violadores: praticai a vossa arte com perícia reprodutora e ganhareis o paraíso! Deus gosta de reprodução forçada…! Muita! À fartazana! Mesmo que as moças não gostem: lembrai-vos de Genesis 38!
Ahhh….sinto-me confortado por saber que as vozes de Deus são as mais qualificadas para nos dizer o que é “natural”…
Devido a problemas técnicos durante o fim de semana alguns comentários a este post desapareceram. Passo a mostrar por ordem cronológica os comentários em falta.
O último comentário que aparece depois dos problemas técnicos é o do Bernardo, com o nº 24.
Assim, em resposta ao nº 24 aparece o seguinte.
MINGOS, 27 de Junho às 10:38 AM:
«Caro Bernardo, ainda não entendi a sua argumentação sobre os métodos.
O homem é naturalmente artificial. Logo, não existem leis naturais… o homem é um ser de cultura, e como a cultura é artificial, tudo o que o homem faz é artificial.
Acontracepção como caminho de regulação da natalidade não é de nenhum modo imoral, mas sim totalmente moral e responsável. É necessário perceber que a relação entre acto sexual e procriação está muito longe de ser imediata. Pois, o que está orientado para a procriação é a globalidade da vida em amor-doação e não cada relação sexual singular. Portanto, todos os actos sexuais, independentemente de serem biologicamente fecundos ou não, têm todo o sentido, pois exprimem, realizam e potenciam o dom pessoal e mútuo, expressam a “comunidade de vida e amor” (Gaudium et Spes 47). Daí a necessidade de uma paternidade responsável, que incide principalmente na questão de quantos filhos chamar à vida; e na questão dos métodos, analisando a sua eficácia, inocuidade, e aceitabilidade (psicológica, social, cultural). É de salientar que nenhum dos métodos realiza de forma optimal a eficácia, inocuidade, e aceitabilidade. Assim, não se pode absolutizar nenhum método; então, é só a quem vive a doação de si em amor que cabe a decisão da escolha do método.
Você disse que: “Deus poderia ter feito a mulher sempre fértil. Mas no entanto, não é esse o caso. Ou seja, é natural que a mulher esteja fértil numa fase do ciclo e não fértil noutra.” Mas, não existe “contracepção natural”. Dizer isto é absurdo, pois, não há métodos naturais. Toda a intromissão cultural na sexualidade é introduzir o artificial. Não é aceitável, na cultura moderna, imaginar que a fertilidade pode ser entregue, no ser humano, ao simples jogo das leis naturais. A fertilidade passou a ser um acontecimento cultural e, como tal, artificial, porque é o homem que cria a cultura e a cultura é artificial. E a separação entre coito e fecundidade, tornada possível pelo uso de uma anti-ovulação, é tão anti-natural como escolher, para o coito não procriativo, os dias seguramente inférteis da mulher, que só são conhecidos pela investigação científica. Quando os cônjuges, seleccionam estes dias para o coito estão, de facto, a separar o carácter unitivo e procriativo da relação sexual.
Que quer dizer “respeitam a natureza da sexualidade humana”?
A pilula tb pode mt bem respeirar a natureza da sexualidade humana se a relação sexual for efectivada com amor-doação total de si ao ser total que é o outro.
Eu sou cristão e catequista, e considero totalmente absurdo dizer que existem métodos naturais. Nós humanos não somos neutro, estamos presos a um contexto, cultura, que é necessariamente artificial.
Não vejo qualquer problema de se usar qualquer método contraceptivo (não abortivo). Pois, o que interessa veemente é a intenção ou a “legenda” que colocamos por debaixo da “fotografia” da relação sexual. Se essa “legenda” for amor-doação-compromisso-perenidade… então manifesta-se verdadeiramente um encontro de pessoas, e vive-se realmente o amor!!!»
O Lucas Samuel na sexta feira fez um comentário, muito parecido com o que colocou hoje de madrugada (o comentário nº 25).
LUCAS SAMUEL, 27 de Junho às 2:33 PM:
«Mingos,
De acordo com aquilo que dizem certos cristãos, vejamos o que entendem por “natural”; por exemplo, segundo aquilo que foi escrito por um palhaço retrógado chamado Tomás de Aquino numa tal de Suma Teológica: de acordo com a ordem de “depravações contra a natureza” (libido contra naturam), a masturbação é considerada um pecado bem pior do que a violação (é que pelo menos na violação, ainda pode haver a benesse de se gerarem criancinhas que engrossem o número de alminhas no reino do tal Deus bom e generoso). Ora, não pensemos que por estar classificada como libido contra naturam, a violação não recebe o beneplácito de Deus! Nada disso! Deus gosta de violações…e muitas! Confiram em Genesis 38:6-9.
Acautelem-se masturbadores! Respirem de alívio violadores: estáis mais próximos do reino de Deus do que os primeiros!
A Natureza está connvosco…»
Em nome do Portal Ateu peço desculpas a todos pelo ocorrido.
Caro Bernardo, de seguida transcrevo a minha resposta ao seu comentário nº 22, também afectada pelos problemas técnicos. Só não tenho registo da data, mas guardei um rascunho…
Bernardo,
“Rui, eu acho difícil argumentar que algo é mais cruel do que tirar a vida a alguém.”
Depende do ponto de vista. Eu acho uma crueldade ver uma mulher obrigada a ter um filho que não deseja.
“Conhece os estudos que demonstram os traumas psíquicos da esmagadora maioria das mulheres que abortam?”
Acredito que haja muito trauma. Mas mesmo assim acho que deve ser dada a opção de abortar.
“O Rui consegue colocar-se, mais ou menos, na pele de uma mulher e pensar o que é viver toda a vida com esse peso na consciência? Conhece os efeitos depressivos (e nalguns casos, catalizadores de sentimentos suicidas) do aborto?”
Consegue colocar-se na pele de uma mulher que é obrigada a ter um filho contra a sua vontade? Ela, independentemente do que pode vir a sentir ou não pela criança, vai pagá-lo o resto da vida.
Algumas depressões pós parto também dão em suicídio.
“O Rui não me explica porque é que esse ser, cromossomaticamente totipotente, é para si apenas “futuro” e não “presente”. Com base em quê?”
Um embrião não grande parte das suas funções e órgãos a funcionar, estão em desenvolvimento.
“O Rui tem presente que não é a vontade que muitos têm em legitimar o aborto que vai resolver este imbróglio, certo?
Isto não tem grande volta que se lhe dê: se o embrião ou o feto são seres geneticamente humanos e biologicamente diferenciados de quaisquer outros seres, então temos problemas. E não é fácil varrê-los para debaixo do tapete.”
Não é pelo facto de ser ilegal que ele não acontece. Não é por haver infra-estruturas de adopção ou ajuda às mães que ele não acontece. Legalizando ao menos acaba-se com o aborto ilegal e com os problemas de saúde e mesmo morte de muitas mulheres.
“Note que este problema ético do aborto tem uma existência real, distinta dos fenómenos religiosos. Ateus convictos têm aderido à luta contra o aborto porque se dão conta de que há aqui um grave problema ético. Não estamos a falar de dogmas: estamos a falar de usar uma ética de direitos humanos de forma coerente.”
Dou-lhe razão no que diz. O aborto não é um problema para quem é religioso, é um problema acima de tudo para as instituições religiosas.
“Se for casado, ou pelo menos, se tiver uma namorada há longa data e falar com ela sobre estas coisas, sabe bem que as irregularidades de que fala não impedem a manifestação de outros sintomas perfeitamente detectáveis e associados ao ciclo fértil da mulher. Eu não queria entrar em detalhes, mas estas coisas não são propriamente segredos militares…”
Não é um método seguro. Não se pode aplicar um comportamento padrão. Já falei com mulheres sobre isto.
“Em relação às DSTs, respondo-lhe com a fidelidade. Um casal que se casa sem DST’s, e que se mantém fiel, co