A religião e o desenvolvimento dos povos
Por Ricardo Silvestre • 15 Jun, 2008 • Categoria: Direito de RespostaDe Alfredo Dinis:
“As pessoas que têm crenças religiosas são muitas vezes apresentadas como alguém que vive alheado/a dos problemas deste mundo porque se interessa sobretudo com o ‘outro mundo’, o ‘mundo sobrenatural’, em relação ao qual ‘este mundo’ tem pouca ou nenhuma importância. A Igreja Católica é muitas vezes acusada de estar mais preocupada em defender e impor os seus dogmas, cheios de absurdidades, do que em contribuir para o real desenvolvimento dos povos. Com efeito, porque não vende o Vaticano o património artístico guardado nos seus museus em Roma, por exemplo? Os católicos são em geral vistos como pessoas que puseram de lado o uso da razão, contradizem facilmente os dados da ciência, e se submetem à irracionalidade do conteúdo da Bíblia e da Revelação, vivendo obcecados pela salvação eterna das suas almas, e na permanente angústia de serem eternamente condenados. O Deus em quem acreditam é vingativo e distante, tem um comportamento errático, e tem contra a sua existência todos os argumentos da filosofia e da ciência actuais.
Não se reconhecem neste deus milhares de cristãos que se colocam ao serviço do desenvolvimento dos povos mais marginalizados como, por exemplo, os refugiados e os que, em geral, vivem em situações de estrema pobreza. O Deus em que acreditam é o que estabelece uma relação de amor com cada ser humano e lhe diz, nas palavras do actual Papa, ‘tu não morrerás para sempre’. São essas mesmas palavras de vida que muitos cristãos levam aos mais explorados e marginalizados do planeta, cristãos que têm uma cultura filosófica e científica de elevada qualidade e que, por isso mesmo, não colide com a sua fé, antes a fundamenta e fortalece.
Apresento a seguir duas organizações de voluntários católicos. Ambas estão ligadas aos Jesuítas, e é por isso que as conheço melhor, sendo eu próprio um Jesuíta. Mas esta é apenas uma muito pequena amostra do que fazem não só os católicos mas também os cristãos de outras denominações. Do mesmo modo, os crentes de outras religiões trabalham pelo desenvolvimento dos povos em situações semelhantes.
Os Leigos para o Desenvolvimento são uma ONG portuguesa, de inspiração católica, que através da acção de jovens voluntários, muitos deles recém-licenciados, actua nos países de expressão portuguesa menos desenvolvidos (S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Timor) através de projectos de desenvolvimento nas áreas do ensino, saúde, etc.. Dedicam pelo menos um ano das suas vidas ao serviço gratuito dos mais desfavorecidos. Como pode ler-se no respectivo site :
“Os Leigos para o Desenvolvimento são, antes de mais, uma proposta de caminho para quem escolhe não ser indiferente à realidade complexa e desigual do Mundo. Mobilizam-nos os valores da solidariedade e da justiça social, que nos levam a tentar responder às necessidades dos mais carenciados. Inspirados pelo espírito evangélico, procuramos contribuir com o nosso trabalho e presença para a construção de um mundo cada vez mais justo, fraterno e humano.
Promotores do desenvolvimento, reconhecemos naqueles que procuramos servir colaboradores, pessoas responsáveis pelo seu próprio desenvolvimento. Na verdade, o verdadeiro desenvolvimento é sempre autodesenvolvimento.
A nossa acção gratuita gera mudança e transformação, não só naqueles com quem trabalhamos, mas em nós próprios. O pouco que damos multiplica-se no muito que recebemos e aprendemos: tolerância e respeito pela diferença, um novo olhar sobre o mundo, a satisfação profunda de se saber útil. Mais importante ainda, aprendemos a acreditar que é possível contribuir de uma forma positiva para a construção de um mundo melhor.”
O Serviço Jesuíta aos Refugiados (Jesuit Refugee Service, JRS) é uma organização humanitária, católica, internacional, fundada em 1980 pelo P. Pedro Arrupe, então Superior Geral dos Jesuítas, voltada para os refugiados de todo o mundo. Está actualmente em 70 países. A sua missão, segundo o respectivo site é:
“acompanhar, servir e defender os direitos dos refugiados e deslocados à força”. (…) no exercício da sua missão, alguns membros do JRS sacrificaram as suas vidas ao serviço destas populações e, noutros casos, algumas equipas tiveram que ser evacuadas, tudo pelos conflitos e violência existentes em áreas críticas do mundo (como no Burundi, Molucas, Colômbia, República Democrática do Congo, Angola, entre outras).”
Em Portugal, a organização presta apoio aos refugiados e imigrantes (ensino da língua, legalização, trabalho, etc.)
Nenhuma destas organizações nasceu para converter ao catolicismo os povos ao serviço dos quais se coloca. Não é feito qualquer proselitismo. Não se troca ajuda ao desenvolvimento por religião. Não se faz publicidade ao serviço que é realizado, nem este é tomado como prova de que Deus existe. Os ateus poderão fazer, e de facto fazem, actividades semelhantes. As pessoas que em nome das suas crenças religiosas desempenham estas actividades poderiam fazer o mesmo sem as suas crenças? Teoricamente sim. Mas, na realidade, é em nome dessas crenças, e como exigência delas, que eles, de facto, actuam.
Se é verdade que os autores (Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris, Christopher Hitchens, etc.) e os sites (como o portal ateu) que atacam sistematicamente as religiões não têm qualquer obrigação de louvarem o que de positivo há nelas, não deixa de ser verdade que ao insistirem apenas e sistematicamente no negativo apresentam, mesmo que involuntariamente, uma imagem distorcida da religião, e acabam por dirigir os seus ataques muitas vezes a caricaturas e moinhos de vento que nada têm a ver com a religião e que, objectivamente, em nada favorecem as suas posições ateístas. Muita da crítica que fazem àquilo a que chamo os aspectos mais deprimentes de muitas manifestações feitas em nome das religiões, já é feita no interior das mesmas, incluindo não só o cristianismo, mas também o Islão, actualmente uma das religiões mais criticadas. Embora pareça a muitos que o espírito crítico é incompatível com qualquer fé religiosa, não é essa a minha experiência pessoal, nem a de muitos milhões de crentes. A crítica é não só bem-vinda como absolutamente necessária, para que a religião não acabe na superstição e no irracionalismo. Mas terá que ser uma crítica objectiva, inteligente e informada.”
Distorcida só mesmo a HISTÓRIA.
é preciso lata,
Vamos lá por a vossa filantropia a teste
1. Apoiam a distribuição, e a respectiva instrução, de preservativos para salvar pessoas da sida?
2. Apoiam a distribuição, sem comentários que não sejam sobre como utilizar, de anticoncepcionais a quem o pedir?
Não? Mesmo que assim matem mais gente que aquela que salvam? Então a vossa filantropia não vai longe.
Claro que eu sei que têm uma explicação para isso.
Quando mataram os judeus em lisboa, os protestantes em paris, ou quando queimaram o Jordam Bruno (matem todos - Deus saberá escolher os seus, não é?) também tinham uma explicação (alguns ainda hoje dizem que a culpa foi toda do Galileu…).
Portanto podem embrulhar as explicações modernas com as justificações antigas e meter onde acharem mais apropriado. A lógica de umas está equivalente a das outras.
Estou a ser mal educado? É preciso lata. O Vosso chefe de fila, mais conhecido pela protecção a pedófilos, acusou-me de ser “o maior drama da humanidade”, insulto amplificado pelos subordinados e média controlada, e claro, vocês é que ficam ofendidos (…)*. Mais um brilhante argumento do vossa poderosa filosofia.
Sei que têm uma justificação. Podem junta-la às outras.
José Simões
* - Segmento editado pela moderação do Portal Ateu (HS)
Não contesto de maneira nenhuma as iniciativas de ajuda humanitária um pouco por todo o mundo e até louvo a intervenção de muitos destes grupos.
“Nenhuma destas organizações nasceu para converter ao catolicismo os povos ao serviço dos quais se coloca. Não é feito qualquer proselitismo. Não se troca ajuda ao desenvolvimento por religião.”
Mas não posso de maneira nenhuma ter consideração quando estes grupos de ajuda promovem o proselitismo, mais parecendo um falso altruísmo, uma maneira de “pagar” a ajuda que as pessoas carenciadas recebem. E descaco o facto do Alfredo Dinis ter referido que isso não acontece.
E não nos esqueçamos da polémica entre a Santa Sé e uma organização para a qual eu contribuo chamada Amnistia internacional… Gostaria de saber a opinião dessas ONGs de inspiração católica sobre o aborto, contraceptivos e planeamento familiar.
Eu acho muito válido as ações humanitárias que visam a solidariedade, e a confraternização dos povos. Os ateus também, como foi dito no texto, fazem ações humanísticas. Tem um porém nisso aí. Os ateus não fazem ações de acordo com um evangelho e sim pela sua própria consciência de confraternização e solidariedade. Fico pensando se não fosse por um evangelho e o exemplo de um suposto messias, os crentes teriam as atitudes levantadas aqui. Mesmo se a conduta não visa uma conversão, uma atitude que só é tomada a partir de crenças pessoais num ser divino é questionável se é legítima enquanto conscienciosa. Por este motivo, a intervenção positiva por cristãos ainda está na berlinda se efetivamente fazem algo sem pretensões individuais de alcançarem suas credenciais ao céu.
Alfredo Dinis disse:
“…não deixa de ser verdade que ao insistirem apenas e sistematicamente no negativo apresentam, mesmo que involuntariamente, uma imagem distorcida da religião, e acabam por dirigir os seus ataques muitas vezes a caricaturas e moinhos de vento que nada têm a ver com a religião e que, objectivamente, em nada favorecem as suas posições ateístas”.
Caro Alfredo,
Antes de mais, agradeço que tenha acedido a escrever para o espaço “Direito de Resposta”.
Concordo com muita coisa do que você escreve no seu texto; também concordo com muitas das críticas que já foram expressas entretanto nos comentários. Mas, quero concentrar-me na sua frase que supra-cito: se bem que não devamos contribuir para uma imagem distorcida da religião, preocupa-me muito mais que contribuamos para uma imagem distorcida do ateísmo. Sou cada vez menos compreensivo com o ateísmo cor de rosa; o ateísmo da crítica supérflua traz tanto de positivo para o pensamento ateu como a coscuvilhice das beatas no átrio da igreja traz de positivo para a religião.
Caro José,
Disse por duas vezes que sabe que os católicos têm justificação para as suas posições, mas não sei se são as que tenho em mente. Quanto aos erros que foram cometidos pelos católicos ao longo da História, não há nenhum tabu, são reconhecidos e assumidos e sobre vários deles foi pedida publicamente desculpa, uma atitude pouco comum. Não foram apenas os católicos que se enganaram, como sabe. No que se refere ao preservativo, ao aborto e aos anticonceptivos, a Igreja Católica não tem posições avulsas e pontuais, as suas posições são tomadas no contexto de princípios sobre a sexualidade humana enquanto expressão de amor. Em todo o caso, não creio que as pessoas que estão contaminadas pela sida não tenham utilizado o preservativo por obediência à Igreja Católica. Finalmente, concordará que o preservativo, os anticonceptivos e o aborto não são os únicos meios de resolver os problemas ligados à sexualidade. Nem uma verdadeira educação sexual se pode limitar a informar as pessoas, a começar pelos/as adolescentes, sobre a utilização desses meios anticonceptivos. Uma educação para os afectos e para a fidelidade nas relações pessoais é fundamental, mas parece-me que se fala pouco disso. Pode crer que a gravidez indesejada das adolescentes não se deve ao desconhecimento dos meios anticonceptivos. Há estudos que comprovam isso.
Quanto à afirmação de que o ateismo é o maior drama da humanidade, ela só pode ser compreendida no contexto da crença de que a existência de Deus, entendida como libertadora, permite uma definitiva autocompreensão da Humanidade. A afirmação´foi feita a nível de princípio e não de pessoas. O próprio Cardeal Patriarca esclareceu este assunto.
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Caro Nuno,
Não entendi o seu brevíssimo comentário. Quer explicitá-lo?
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Caro Rui,
Obrigado pelo seu comentário. No que se refere à posição da Igreja Católica sobre questões ligadas à sexualidade, repito apenas o que já disse ao José:
“No que se refere ao preservativo, ao aborto e aos anticonceptivos, a Igreja Católica não tem posições avulsas e pontuais, as suas posições são tomadas no contexto de princípios sobre a sexualidade humana enquanto expressão de amor. Em todo o caso, não creio que as pessoas que estão contaminadas pela sida não tenham utilizado o preservativo por obediência à Igreja Católica. Finalmente, concordará que o preservativo, os anticonceptivos e o aborto não são os únicos meios de resolver os problemas ligados à sexualidade. Nem uma verdadeira educação sexual se pode limitar a informar as pessoas, a começar pelos/as adolescentes, sobre a utilização desses meios anticonceptivos. Uma educação para os afectos e para a fidelidade nas relações pessoais é fundamental, mas parece-me que se fala pouco disso. Pode crer que a gravidez indesejada das adolescentes não se deve ao desconhecimento dos meios anticonceptivos. Há estudos que comprovam isso.”
Acrescento que a Igreja Católica sempre afirmou que as pessoas são responsáveis em consciência pelas suas decisões. Por outro lado, a linha que divide o grupo dos que são críticos do aborto, por exemplo, não coincide com a linha que divide crentes de não crentes.
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Caro Alexandre,
Obrigado pelos seus comentários.
O que fariam os cristãos se não acreditassem em Deus é uma boa pergunta, mas não sei responder-lhe. Uma resposta ficará sempre no reino das hipóteses.
Sei que é uma opinião comum que os cristãos fazem as suas acções de socorro aos mais desfavorecidos apenas porque querem ganhar ‘créditos’ no céu. Não é o que se passa comigo, nem creio que seja essa a situação geral.
Finalmente, há um provérbio que diz: ‘pelos frutos se conhece a árvore’. Se os cristãos têm atitudes construtivas em nome da sua crença em Deus, isso indica, a meu ver, que tal crença não é em si mesma negativa.
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Caro Helder,
Obrigado pelo seu comentário que revela uma clara compreensão do meu texto e refere a única atitude que, também a meu ver, credibiliza os ateus. Pode crer que leio sempre com interesse as críticas objectivas que os ateus fazem à religião, mesmo que nem sempre esteja de acordo com elas. Não considero que as religiões estejam acima de qualquer crítica, e muitas vezes a auto-crítica pode não ser suficiente.
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Caro Alfredo Dinis,
Não respondeu à minha pergunta.
“Gostaria de saber a opinião dessas ONGs de inspiração católica sobre o aborto, contraceptivos e planeamento familiar.”
“No que se refere ao preservativo, ao aborto e aos anticonceptivos, a Igreja Católica não tem posições avulsas e pontuais, as suas posições são tomadas no contexto de princípios sobre a sexualidade humana enquanto expressão de amor. Em todo o caso, não creio que as pessoas que estão contaminadas pela sida não tenham utilizado o preservativo por obediência à Igreja Católica.”
A questão não é de obediência. As campanhas negativas sobre os contraceptivos têm muita mão da Igreja católica e são pelo menos co-responsáveis pela propagação da epidemia.
“Finalmente, concordará que o preservativo, os anticonceptivos e o aborto não são os únicos meios de resolver os problemas ligados à sexualidade.”
De facto não são. Apenas o são para a parte física e para impedir situações indesejadas.
“Nem uma verdadeira educação sexual se pode limitar a informar as pessoas, a começar pelos/as adolescentes, sobre a utilização desses meios anticonceptivos. Uma educação para os afectos e para a fidelidade nas relações pessoais é fundamental, mas parece-me que se fala pouco disso.”
Concordo com a sua primeira frase, embora ache que essa informação é indispensável.
Sou muito crítico dessa educação para a fidelidade. Acho que a educação deve ser para a responsabilidade. A fidelidade, onde se inclui por exemplo, a restrição a um parceiro sexual durante toda a vida, é contra-natura para algumas pessoas.
“Pode crer que a gravidez indesejada das adolescentes não se deve ao desconhecimento dos meios anticonceptivos. Há estudos que comprovam isso.”
Tem razão. E os contraceptivos não são 100% eficazes, mas resolvem muitos problemas. Imagine se não existissem… Há que fazer muito em matéria de educação (e informação para a contracepção e saúde).
“Acrescento que a Igreja Católica sempre afirmou que as pessoas são responsáveis em consciência pelas suas decisões.”
Seguindo este princípio a ICAR não se devia opor às leis que permitem a IVG até determinadas semanas. Ficava para a consciência de cada um e sem ser punido por lei.
“Por outro lado, a linha que divide o grupo dos que são críticos do aborto, por exemplo, não coincide com a linha que divide crentes de não crentes”
De acordo.
RJ
Caro Rui,
Obrigado pelos seus comentários.
As duas ONGs que referi não fazem campanha nem a favor nem contra os anticonceptivos. Acreditam que se torna urgente agir ‘a montante’, isto é, ao nível da educação/alfabetização e da melhoria das condições de vida das populações. Neste aspecto, os principais obstáculos são os regimes corruptos dos países pobres que dificilmente conseguirão sair da sua pobreza se não houver uma campanha internacional e concertada de todas as forças que lutam pela justiça.
O que quer dizer com a expressão: “a restrição a um parceiro sexual durante toda a vida, é contra-natura”?
A Igreja Católica propõe princípios que considera construtivos para a sociedade. O mesmo fazem outras instituições e forças sociais, como os partidos políticos, os sindicatos, os movimentos e associações de todo o género, etc. É no diálogo e na discussão entre posições claras e fundamentadas que se pode encontrar o caminho do consenso e da tolerância. Nada disto contradiz o direito à liberdade de consciência.
Cordiais saudações,,
Alfredo Dinis
Caro Alfredo Dinis,
Obrigado pelos esclarecimentos.
Quanto à sua pergunta…
Para muita gente a sexualidade restringida ao amor é (e perdoe-me a expressão) uma grande treta. Estamos numa sociedade onde grande parte das pessoas tem, ao longo da vida, mais do que um parceiro sexual e muitos dos relacionamentos são motivados não necessariamente pelo amor.
Isto tanto está associado a factores culturais (nomeadamente para o sexo masculino frequentador de prostitutas) como à natureza das pessoas (podendo ser motivado, por exemplo por factores hormonais).
RJ
Não nego que muiats organizações cristãs façam trabalho humanitário de grande qualidade e dedicação, mas pois entãos se não se trata de propaganda religiosa porque são essas organizações cristãs e não têm nomes diferentes e não englobam gente das mais diversas religiões, ateus e agnósticos?
Além disso o que as religiões fazem de bom pela comunidade (quando o fazem) é apenas caridade, beneficiando algumas pessoas, mas não a totalidade ou a quase totalidade das pessoas que necessitam.
É a tal caridadezinha ao invés da solidariedade que os governos não aplicam nas politicas, esperando que as igrejas façam qualquer coisita e o povo ande alegre com o pão e o circo.
Não nego que muitas organizações cristãs façam trabalho humanitário de grande qualidade e dedicação, mas pois entãos se não se trata de propaganda religiosa porque são essas organizações cristãs e não têm nomes diferentes e não englobam gente das mais diversas religiões, ateus e agnósticos?
Além disso o que as religiões fazem de bom pela comunidade (quando o fazem) é apenas caridade, beneficiando algumas pessoas, mas não a totalidade ou a quase totalidade das pessoas que necessitam.
É a tal caridadezinha ao invés da solidariedade que os governos não aplicam nas politicas, esperando que as igrejas façam qualquer coisita e o povo ande alegre com o pão e o circo.
space_aye
As duas organizações que referi - e há muitíssimas outras - actuam através de projectos de desenvolvimento que realmente deixam marcas positivas nas populações em favor das quais se realizam. Precisamente para que tudo não passe de uma efémera caridadezinha.
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Só uma pergunta muito simples:
Estas organizações e toda esta propensão para a solidariedade deixavam de existir se cada um dos seus membros deixasse de acreditar em Deus?
Caro Lucas,
É uma boa pergunta, à qual não sei responder. Entraria no reino das hipóteses. Não me custa a crer que as pessoas envolvidas em projectos de desenvolvimento continuassem esses projectos mesmo que viessem a abandonar a sua fé religiosa. Mas esse não é o ponto aqui tratado. A minha questão é esta: como é que uma crença religiosa que encoraja as pessoas a darem a sua vida pelos outros pode ser considerada algo que deve ser erradicado?
Conheço algumas pessoas que se empenharam nesta solidariedade a partir do momento em que assumiram seriamente a sua fé religiosa. Aqui não estamos no reino das hipóteses mas dos factos. É aí que prefiro argumentar.
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Caro Alfredo,
“Como é que uma crença religiosa que encoraja as pessoas a darem a sua vida pelos outros pode ser considerada algo que deve ser erradicado?”
Se a questão é só essa, vamos já criar uma religião “que encoraja as pessoas a darem a sua vida pelos outros”! Mas não é só disso que estamos a tratar quando falamos do cristianismo, já que todo um “pacote” vem atrás: a ressureição, o Inferno, os milagres, etc., etc.
As religiões não se pretendem afirmar apenas como arautas do “bem”: elas arrogam-se também (pelo menos algumas, e nas quais a católica está incluída), a ser arautas da “verdade”. E é aí que inevitavelmente desmoronam.
Caro Lucas,
Jesus Cristo deixou dito que no juízo final ninguém vai ser julgado pelas teorias e filosofias em que acreditou, mas pelos actos que realizou.
Não sei a que verdade te referes. O cristianismo não tem nenhuma verdade sobre a origem do universo, da vida, dos fenómenos galácticos ou extra-galácticos, buracos negros, etc. O mesmo se diga quanto a regimes políticos, sistemas económicos, etc.
Mesmo em questões éticas, a verdade nunca é servida numa bandeja. Os cristãos não são dispensados da fadiga de justificarem racionalmente as suas posições, tal como todos os demais mortais.
Saudações,
Alfredo Dinis