Um comentário para o Prof. Daniel Serrão

Por Ricardo Silvestre • 13 Jun, 2008 • Categoria: Ciência, Ciência & Educação

Daniel Serrão, Professor Catedrático, Doutorado em Anatomia Patológica, um Professor com um currículo impressionante e uma carreira repleta de sucessos, um médico conceituado e de elevada reputação, deu uma entrevista para uma revista chamada Contacto SVD que se pode ler aqui.

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Para o final da entrevista foi guardada a pergunta “chave”:

“Contacto SVD: Como conciliar ética científica e moral cristã?”

A seguir transcrevo a resposta do Professor Serrão

“Esta é uma pergunta delicada. Um cientista cristão respeitará sempre as indicações da moral cristã, baseada nos valores superiores do espírito e no respeito absoluto pela vida humana, que é condição de todos os valores. Foi esta atitude que levou ao desenvolvimento de alternativas de investigação às células estaminais embrionárias que vieram a mostrar-se muito mais eficazes nas aplicações às doenças humanas. Do que as células obtidas com destruição de embriões. O cientista cristão, e são numerosos em todo o mundo e em todos os campos de investigação, estará atento ao melhor bem da pessoa e sabe que nem tudo o que é tecnicamente possível é aceitável pela sua consciência de cristão.

Mas há cientistas que não são cristãos. A estes, quando as suas propostas de investigação são ameaçadoras para os valores cristãos, há que lembrar- lhes que cristãos e não cristãos devem respeito à dignidade humana e aos valores que a definem. Aqui não há diferença entre uns e outros. A diferença está no fundamento. Para mim como cristão, o fundamento é transcendental, é a filiação no acto criador de Deus.

Para o cientista ateu o fundamento é a natureza e as leis que a inteligência vai descobrindo. Mas o valor vida merece de uns e de outros o mesmo respeito.”

Alguns comentários:

Está o cientista cristão agrilhoado às “indicações da moral cristã”? Na opinião do Prof, Serrão, “respeitará sempre”. Há algum livre-arbítrio? Alguma capacidade de “transgressão” dessa “moralidade”. Ou é o “cientista cristão” um determinista que está sujeito a não ultrapassar a fronteira do conhecimento como é definida pelos dogmas religiosos?

Para o cientista ateu o fundamento para propor investigações que são “ameaçadoras para os valores cristãos” (o que só em si é uma frase dogmática e fascizante) são “a natureza e as leis que a inteligência vai descobrindo”, enquanto para o cientista cristão é “ a filiação no acto criador de Deus”.

Acho que não será preciso argumentar sequer qual destas duas “fundamentações” é a mais lógica, racional e verdadeira: “actos criadores de Deus” são mitos, fantasias, teologias, irracionalismo, sem qualquer base, leis, ou fundamentos científicos.

Mas o que esperar da mente de um membro da “Academia Pontifica para a Vida” da Igreja Católica? Um médico que acredita que, “Entre a Ciência e a Religião não há hoje já conflito nenhum! Cada uma percebeu que tem uma metodologia própria, tem um objectivo próprio e uma competência específica”, ao mesmo tempo que defende que os valores que orientem o pensamento, a acção e a procura de conhecimento de um ”cientista cristão” sejam os canones da religião que professa? 

Isenção?

Não me parece.

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15 Respostas »

  1. E o que me parece ainda mais trágico para um “homem da ciência”, é a total ausência da “verdade” na sua busca (não aquela “verdade” da treta: Jesus é a verdade, a verdade é vida, vida é amor, amor é Deus, etc., mas sim, a verdade confirmadora de um facto).

    Para o “cientista cristão”, “o fundamento é transcendental, é a filiação no acto criador de Deus” e não a “busca da verdade” - porque no final da linha, podemos encontrar coisas tão chatas como a Teoria da Evolução ou a destruição da visão Ptolomaica do Universo. Se o cristão puder “fazer ciência” sem se confrontar com a incomodidade de certas verdades (as que contribuem para a erosão dos seus dogmas fantasiosos), tanto melhor para ele.

    Não quer isto dizer que ele não seja um bom matemático, um bom físico, um bom médico, etc., mas o “golpe de génio” que contribui para a mudança de paradigmas, para a evolução do pensamento, não pode nunca vir de mentalidades dogmáticas.

  2. Caro Lucas,

    Suponho que não ignora que tanto o abandono do universo ptolemaico, como a aceitação das teorias do big bang e da evolução das espécies são questões pacíficas para o cristianismo.

    Cordiais saudações,
    Alfredo Dinis

  3. Oh Alfredo…

    Eu sei que o meu amigo se esforça para dar um lado da sua religião que é inteligente, sofisticado e conciliador. Mas assim como me critica muitas vezes por colocar todos os cristãos no mesmo “saco”, também não pode estar a escrever que as teorias que enumerou são “pacíficas para o cristianismo.”

    Mesmo que esteja só a defender a sua “dama” (o catolicismo) existem bispos em Roma que defendem o Inteligent design (que é uma teoria que tenta substituir a teoria da evolução das espécies); o próprio Ratzinger diz que não é possível dissociar a abiogénese ou o “big bang” da intervenção divina (mais, esse senhor disse que não seria possível entender esses fenómenos sem a presença de deus).

    E já para não começar a falar dos cristãos (como eu gosto de lhes chamar amiude) protestantes. Os movimentos criacionistas nos US, e já em alguns países da Europa começam a ser algo preocupantes, nem que seja por estarmos no ano 2008.

    Até mesmo os anglicanos (for crying out loud), que são uns “suaves” nestas coisas, começam a reclamar todo o estilo de disparates no sistema educativo inglês.

  4. Ricardo,

    Tremo cada vez que leio algumas frases suas, porque fico sempre preocupado quando alguém dá, inadvertidamente, passos em falso.

    «Mesmo que esteja só a defender a sua “dama” (o catolicismo) existem bispos em Roma que defendem o Inteligent design (que é uma teoria que tenta substituir a teoria da evolução das espécies);»

    Que bispos são esses?
    Não estou a dizer que não existam, mas vamos chamar as coisas pelos nomes. Quem são eles? Há muitos bispos em Roma, e fora de Roma. E há muitas formas de ver a questão. O ID não pretende “substituir a evolução das espécies”. O ID, quando muito, pretende fornecer uma alternativa ao neodarwinismo. Ser evolucionista não é ser darwinista. Eu, por exemplo, vejo de forma pacífica a teoria da evolução, mesmo que não me agarre a ela dogmaticamente, porque nenhuma teoria científica é dogmática, e só vive enquanto não surge outra melhor. No entanto, o darwinismo é muito mais problemático do que o evolucionismo, porque propõe uma visão materialista da realidade e erradica totalmente a realidade filosófica do “sentido”.

    Por isso lhe peço:

    a) não misture evolucionismo com darwinismo: são coisas diferentes

    b) não suponha que o Intelligent Design é católico: não é, e traz problemas (nomeadamente, ao chocar com a noção católica de que há fenómenos contingentes e fenómenos necessários: o ID parece apontar para o surgimento da vida exclusivamente por fenómenos necessários, sem grande espaço para a contingência)

    c) veja o ID como ele é: pretende ser uma teoria científica: os defensores do ID propõem métodos empíricos para aferir o “design”: porque não tenta contestar cientificamente o ID?

    Eu não me vejo como adepto do ID, mas vejo-o como uma estimulante contribuição para o debate científico. Porque razão tantos materialistas se preocupam com o ID? Se é má ciência, desaparecerá, como todas as más teorias científicas.

    Eu acho que o ID está a tentar, por via empírica, demonstrar uma realidade filosófica, que os escolásticos chamam de “causa final”. A finalidade é uma noção filosófica, e apesar de eu achar o ID uma abordagem curiosa, tenho dúvidas de que se possa provar a preseça de finalidade por via empírica.

    No entanto, o Ricardo confunde o ID com o catolicismo. O católico pode perfeitamente admitir que o corpo do homem evoluiu a partir da matéria orgânica de outras espécies animais. Uma figura não menos importante como a do Papa João Paulo II acreditava nesta forma de ver as coisas, que é perfeitamente católica.

    «o próprio Ratzinger diz que não é possível dissociar a abiogénese ou o “big bang” da intervenção divina (mais, esse senhor disse que não seria possível entender esses fenómenos sem a presença de deus).»

    Não vamos distorcer as palavras do pobre Papa Bento XVI, que não está aqui para se defender destas distorções, Ricardo. É evidente que, para qualquer cristão que se preze, toda a Criação é obra de Deus. Isto porque, ontologicamente, todos os seres e tudo o que existe deve o seu “ser” ao Ser máximo cuja essência é existir, que é Deus.

    Deste modo, todos os fenómenos naturais, mesmo sendo vistos como sujeitos a leis universais (que a Ciência procura discernir), são, em última análise, derivados de leis eternas criadas pelo próprio Criador.

    Isto não belisca a Ciência, e seria um insulto a Ratzinger pensar que ele pretende substituir a valiosa ciência por um mundo bizarro em que tudo é visto como causa directa e imediata de Deus. Note bem o absurdo, Ricardo, desta forma de pensar: ao negar a realidade das “causas segundas” (objecto de estudo da Ciência), o católico bem pode mandar às malvas o livre arbítrio, e tudo o que a liberdade tem de riqueza inesgotável.

    Um mundo sem causas segundas, sem espaço para que a Natureza exiba as consequências inesgotáveis das suas leis universais, é um mundo tirano, governado por um Deus tirano e ditador, que decide tudo, que faz tudo ser sempre do mesmo modo necessário. Esse Deus não é o Deus cristão.

    É uma fantasia, é um moinho de vento. E Ricardo, não vale a pena combater moinhos de vento.

    Tudo o que sucedeu após o Big Bang, em termos naturais, ou físicos, pode e deve ser compreendido pelo intelecto. A própria criação do tempo e do espaço, causa imediata do Big Bang, é acto voluntário de Deus, que cria um Cosmos contingente, e não necessário, sujeito a regras universais que cabe ao ser humano descobrir e aprofundar.

    É impressionante, Ricardo, notar que o nosso intelecto tem a capacidade e a vocação para compreender o Cosmos e as suas leis universais. O que me faz pensar no problema filosófico dos universais:

    a) estas leis universais existem mesmo que o Homem não existisse? eu diria que sim, mais um ponto a favor da metafísica, ou seja, da existência de coisas intelectuais universais

    b) porque é que todos os cérebros humanos são capazes, não só de comunicar entre si, mas também de chegar juntos a leis universais? porque é que o Cosmos é inteligível?

    Note que, apesar dos esforços de Darwin e de muitos dos seus seguidores, problemas filosóficos de sempre, como o dos universais, não são fáceis de varrer para debaixo do tapete.

    São Tomás dizia que a realidade natural está constituída entre dois intelectos, o divino que a criou, e o humano que a procura compreender.

    Ricardo, no dia em que se libertar dos seus preconceitos, verá um Cosmos espantoso, apelativo, e intelectualmente inesgotável. E, se pensar melhor, verá que não é por acaso que, ao contrário de todas as outras criaturas, nos foi dada a faculdade intelectual de compreender o que nos rodeia. E como isto é um poderoso princípio antrópico!

    «E já para não começar a falar dos cristãos (como eu gosto de lhes chamar amiude) protestantes. Os movimentos criacionistas nos US, e já em alguns países da Europa começam a ser algo preocupantes, nem que seja por estarmos no ano 2008.»

    Como o Pe. Alfredo se tem esforçado inúmeras vezes por explicar, há muito erro em tantos movimentos criacionistas, alguns dos quais populados por pessoas sem formação científica ou que rejeitam factos científicos comprovados.

    «Até mesmo os anglicanos (for crying out loud), que são uns “suaves” nestas coisas, começam a reclamar todo o estilo de disparates no sistema educativo inglês.»

    Veja a questão do nosso ponto de vista, Ricardo. Na escola secundária estatal, onde andei, ensinaram-me a bruta asneira de que o homem chegou onde chegou por acaso. E disseram-me, entre outras coisas, que a alma não existia e que tudo o que existia era matéria. A uma criança com pouca preparação filosófica, estas coisas fazem confusão (porque são irracionais). No entanto, e felizmente, tinha em casa quem me desse mais informação, quem me abrisse portas que o Ensino Secundário queria, à força, fechar, para não levantar problemas.

    Os meus filhos terão acesso ao máximo possível de informação: saberão que há problemas filosóficos, que defender o materialismo é defender a irracionalidade, porque se o que pensamos é apenas um epifenómeno da matéria, para quê pensar?

    O Ricardo deve ponderar no peso de chumbo desta “chatice” filosófica que é o sentido. O Ricardo quer argumentar que não há sentido em invocar Deus como Criador. Se calhar, o Ricardo é darwinista, e saberá que Darwin lutou muito para erradicar o sentido e a funcionalidade da Natureza. Darwin detestava a filosofia, e era até mau nela, mas a sua obra tem imenso de filosófico, apesar de ser má filosofia. Negar filosoficamente o sentido (ou o “design” se quiser usar a expressão anglo-saxónica) é dar um tiro no pé. Porque qualquer inimigo visceral do ID segue um sentido argumentativo bem claro: negar o sentido ao adversário.

    Sem a noção filosófica de sentido, morre o intelecto. Cai por si a argumentação. Desmorona a racionalidade. Colapsa a lógica. A guerra de muita filosofia moderna em defender o materialismo, contra a cidadela inexpugnável do sentido, é uma guerra intelectualmente suicida. Não conte comigo! Quero usar o meu intelecto nos poucos ou muitos anos que me sobram nesta vida!

    Um abraço,

    Bernardo

  5. Caro Bernardo

    Ora viva!! Já tinhamos saudades dos seus longos comentários.

    Agradeço a sua preocupação, mas não se preocupe com os meus passos: eu sei atar bem os atacadores dos meus sapatos.

    “Que bispos são esses?”
    Dou-lhe o exemplo mais conhecido: Christoph Schönborn, cardeal Austríaco e parte do ciclo próximo de Raztinger. Numa carta para o New York Times escreveu que “Evolução no sentido de haver uma origem comum pode ser verdade [“pode”, reforço eu], mas que a evolução aconteceu de uma forma não planeada e com variações aleatórias, isso não é verdade”

    ““O ID não pretende “substituir a evolução das espécies”.” O ID, quando muito, pretende fornecer uma alternativa ao neodarwinismo.”
    Deve estar a brincar, Bernardo. Veja a “wedge strategy” do Discover Institure para ver quais são as reais intenções dos criacionistas que se fazem passar por proponentes dó ID.

    “No entanto, o darwinismo é muito mais problemático do que o evolucionismo, porque propõe uma visão materialista da realidade e erradica totalmente a realidade filosófica do “sentido”.”
    Você está a “comer da mesma gamela” (não estou a tentar ser mal-criado, apenas a fazer uma figura de estilo) que todos os outros crentes que se deixam levar na conversa que o Darwinismo leva ao niilismo, à imoralidade, e a falta de respeito pela condição humana. Você é demasiado inteligente para se deixar enrolar nesses argumentos “desesperados”.

    “a) não misture evolucionismo com darwinismo: são coisas diferentes”
    Ainda me vai mostrar onde eu faço isso.

    “b) não suponha que o Intelligent Design é católico:”
    Também não o fiz

    c) veja o ID como ele é: pretende ser uma teoria científica: os defensores do ID propõem métodos empíricos para aferir o “design”: porque não tenta contestar cientificamente o ID?
    Oh bulls#it!!! Não há qualquer maneira de “contestar cientificamente o ID” porque os defensores do ID não apresentam um argumento que seja científico. Não há qualquer base, nem bioquímica, nem biomolecular, nem fisiológica para os seus argumentos. Todos os “casos” de provas de ID já foram destruídos há muito tempo pela comunidade científica: desde o motor da bactéria até à “ordem no DNA”.

    “eu não me vejo como adepto do ID, mas vejo-o como uma estimulante contribuição para o debate científico. Porque razão tantos materialistas se preocupam com o ID? Se é má ciência, desaparecerá, como todas as más teorias científicas.”
    Ora nem mais. É o que está a acontecer! O ID tem sido progressivamente abandonado pelos criacionistas que agora querem “ensinar as fraquezas da teoria das especíes”

    “Não vamos distorcer as palavras do pobre Papa Bento XVI, que não está aqui para se defender destas distorções, Ricardo. É evidente que, para qualquer cristão que se preze, toda a Criação é obra de Deus.” (…) seria um insulto a Ratzinger pensar que ele pretende substituir a valiosa ciência por um mundo bizarro em que tudo é visto como causa directa e imediata de Deus.”
    Desculpe??
    Pelos menos já por duas vezes Ratzinger fez públicas as suas “preocupações” sobre a questão da evolução das espécies. Quando foi eleito papa, ele disse que “os humanos não podem ser uma causa e um produto sem significado de um processo evolutivo”. Mais tarde disse que “a criação do Universo foi um projecto inteligente” o que foi uma mensagem recebida com grande gáudio pela comunidade ID.

    “A própria criação do tempo e do espaço, causa imediata do Big Bang, é acto voluntário de Deus”
    Ai sim? Onde está a sua prova desse acontecimento? Onde está a evidência incontornável que existiu esse “acto”? Sabe que os cosmólogos já têm uma ideia bastante solidificada de como surgiu o Universo: pergunte a Richard Winberg, ou Stephan Hawkins, ou Neil deGrass Tyson. Espere, vai me dizer que é a opinião do Ratzinger que se deve sobrepor a destes cientistas?

    “São Tomás dizia que a realidade natural está constituída entre dois intelectos, o divino que a criou, e o humano que a procura compreender.”
    Invocar São Tomás não ajuda a sua causa, Bernardo.

    Ricardo, no dia em que se libertar dos seus preconceitos, verá um Cosmos espantoso, apelativo, e intelectualmente inesgotável.
    Ahhhh!! Ora ai está a sua faceta pia a tecer pelo meu “despertar”. Caro Bernardo, eu não preciso do seu deus (que não se trata de preconceitos) para exactamente sentir todo esse apelo e espanto do cosmos que me rodeia. Não precioso de “amigos invisíveis” para saber o meu lugar no Universo.

    “Veja a questão do nosso ponto de vista, Ricardo. Na escola secundária estatal, onde andei, ensinaram-me a bruta asneira de que o homem chegou onde chegou por acaso. E disseram-me, entre outras coisas, que a alma não existia e que tudo o que existia era matéria.”
    Pois, é aqui a nossa discórdia. Não é uma “bruta asneira” dizer as crianças que não existe “alma” ou que “tudo seja material” porque essa é a realidade do mundo natural! Quanto ao home ter chegado ao que chegou “por acaso”, realmene ai o docente que teve era um cretino que não entendeu nada do que supostamente devia ter estudado

    Sempre estimulante (apesar de time consuming) trocar argumentos consigo Bernardo!

    Reforço o que escrevi há pouco, escrevo-lhe com consideração e respeito, e com certeza de poder ter a liberdade de usar algumas frases mais “conflituosas” mas no bom sentido da palavra.

  6. “Quanto ao home ter chegado ao que chegou “por acaso” ”

    Mas parece-me óbvio que se Deus não existe o homem chegou aqui por sorte, visto que não houve planeamento nenhum. É como dar uma tacada de snooker ao calhas e enfiar as bolas todas, não houve planeamento do jogador logo foi sorte.

    Embora a selecção natural em si não tenha nada a haver com sorte, as mutações aleatórias do DNA como o próprio nome indica são ao acaso, ou não?
    ” Não é uma “bruta asneira” dizer as crianças que não existe “alma” ou que “tudo seja material” porque essa é a realidade do mundo natural”

    Quem é que decide o que é natural? Porque é que uma alma não pode ser natural? Se o ateu diz e muito bem, que a ciência ainda não explicou tudo, como é que sabe que a ciência não vai descobrir a alma?
    Pelo que já estudei de casos de experiências de quase morte há boas possibilidades que isso venha a acontecer. Só que o ateu nunca vai aceitar essa possibilidade, porque tem de cometer sempre o seu raciocínio estanque e totalmente circular.. A rejeição de uma realidade transcendente digamos assim, é posta automaticamente de lado sem qualquer tipo de prova , e quando é apresentado algum tipo de evidência é logo rejeitada com alucinações e afins porque não pode haver de modo algum outra realidade… aliás tudo pode ser justificado com alucinações. Você disse que se Jesus aparecesse nas tardes da Júlia você ajoelhava-se, mas aposto que o Ricardo posteriormente à experiência diria que as pessoas todas do estúdio tiveram uma alucinação colectiva. Assim será sempre impossível provar para o ateu a existência de um sobrenatural…

  7. Caro Alfredo,

    “Suponho que não ignora que tanto o abandono do universo ptolemaico, como a aceitação das teorias do big bang e da evolução das espécies são questões pacíficas para o cristianismo”.
    E eu suponho que o Alfredo não ignora quando é que surgiu o “pacifismo” dessas questões para o cristianismo: quando as mesmas foram refutadas pela ciência e expostas como falaciosas (porque senão, não tenha dúvidas que ainda hoje muito mais gente acreditava no Adão e na Eva).
    Quanto ao pacifismo dessas questões para o cristianismo, tenho as minhas dúvidas que, mesmo esse “pacifismo”, exista:quando falamos em “cristianismo”, falamos de muita ideias – algumas delas inconciliáveis entre denominações, seitas ou clérigos.

    Em relação à “alma” e ao “sentido”:

    Quem pretenda dar um ar “científico” à probabilidade de existência da alma, tenha plena consciência que está simplesmente a propor mais uma Teoria do Flogisto – em versão mais rude e insustentada do que esta. Todos sabemos como acabou a Teoria do Flogisto; e infelizmente, se o mesmo não acontece com o conceito de “alma”, tal não se deve ao absurdo da proposta (mais do que evidente), mas à força institucional dos seus principais defensores – a começar pela Igreja. Vitória na secretaria…

    Gostava igualmente de saber como é que se pode colocar o “materialismo” em antagonismo com o “sentido” e vice-versa. “defender o materialismo é defender a irracionalidade, porque se o que pensamos é apenas um epifenómeno da matéria, para quê pensar?” Uooooo! Já agora, invertemos o argumento e encalhamos no disparate gnóstico: “defender a espiritualidade em absoluto, terá como corolário a abjuração da matéria já que, se a existência corpórea é apenas um epifenómeno do espírito, para quê viver fisicamente?” Crentes de todo o mundo: suicidai-vos. Encontrai a plena realização da vossa filosofia.

    “Quem é que decide o que é natural? Porque é que uma alma não pode ser natural?” Quando alguém pretende submeter a naturalidade a sufrágio, entramos no campo da retórica demagógica. O Ivan Karamazov estava completamente errado: se Deus “existe”, então sim…parece que tudo é permitido!

  8. Confesso ficar estarrecido com o facto de alguns quererem introduzir o IT em fóruns de discussão como se de uma teoria ciêntifica viável se tratasse. A presunção dos crentes nunca me deixa de surpreender. E enquanto seja, como já foi dito por outros mais eloquentes do que eu, um motivo de orgulho para um proponente do IT debater com uma verdadeiro evolucionista para o último isso é motivo de demérito. Nem vou abordar a rídicula e recorrente gaffe sobre o acaso ou a sorte no processo da evolução, deixo isso para o Ricardo que saberá muito bem arrasar tais argumentos.

    O que me interessa é responsabilizar o desenhador inteligente, pelos milhares de projectos falhados, o que não atesta à sua superior inteligência. Quererá o arquitecto ser culpado pelos milhares de espécies que se extinguem em cada ano? Ou mesmo pelos defeitos de desenho na nossa espécie, como por exemplo a localização da faringe que faz com que inumeras pessoas sufoquem por ano? Ou o desperdício de tecido que parece ser o apêndice cecal, sem nenhuma função aparente, sem ser a de no caso de inflamação poder vir a ser letal? E o que dizer do dente do siso ou do cóccix hoje sem qualquer utilidade? Porque fazer algo que não será útil no futuro? Se tem a capacidade para dirreccionar o crescimento duma espécie num bom sentido, porque é que esta mão invisível não o faz decentemente?

    Em suma o argumento do IT pode parecer inócuo, já que se aproveita de algumas lacunas do evolucionismo, mas não é. Além de ser uma tentativa frustrada de o fazer, abre a porta a deus numa arena que não o quer nem dele necessita. Talvez também devessemos ter astrólogos a discutir com astrónomos. Cada macaco, sim aqueles que vocês acusam de ser meu avô, no seu galho.

  9. Onde se lê IT dever-se-ia ler ID. Sou tão falível como o criador. Talvez alguém me queira dedicar uma “teoria científica”.

  10. Caro Ricardo,
    Quando digo que a não contradição entre cristianismo e evolucionismo não estou a dizer que todos os cristãos pensam assim, estou a dizer que é possível a um cristão pensar assim (a até a um ateu - Michael Ruse, “Can a Darwinian be a Christian?”), e que de facto há muito cristãos, tanto católicos como protestantes, que pensam assim.

    Para Ratzinger, como para qualquer cristão, o universo e a vida atingem a sua plenitude de sentido em relação a Deus, mas isso não significa, por exemplo, que foi o ‘dedo de Deus’ que provocou o big bang. Tudo o que se passa no universo acontece segundo as leis da natureza. Não é necessário invocar intervenções miraculosas de Deus no sentido de suspensão dessas leis. Por conseguinte, a teologia não entra em competição com a ciência - isso seria incompreensível.

    Cordiais saudações,

    Alfredo Dinis

  11. Caro Lucas,

    Suponho que querias responder ao Bernardo!
    Em todo o caso, talvez tenhas interesse em saber que no livro ‘Introdução ao Cristianismo’ o actual Papa afirma que hoje o dualismo ‘corpo-alma’, uma herança dos gregos, pode ser arquivada. O ser humano é um todo, e o que o faz humano é a sua abertura à relação com os outros seres humanos e, para quem é crente, com Deus. Como afirma o actual Papa, aquilo que em termos mais substancialistas se exprime como ‘ter uma alma’, exprime-se hoje numa linguagem mais actualizada porque mais de acordo com a experiência histórica dos seres humanos, como ’ser objecto de uma especial relação de amor por parte de Deus’. Nesta perspectiva, o que assegura a imortalidade do ser humano não é a qualidade imortal de uma alma, mas sim a imortalidade de Deus que estabelece com cada ser humano uma relação imortal ao dizer-lhe: ‘Tu não morrerás’.

    Além deste dualismo corpo-alma há outros como: maréria-espírito, natural-sobrenatural, imanente-transcendente, etc. Trata-se de dualismos epistemológicos que não têm que ser necessariamente tomados num sentido ontológico.

    Cordiais saudações,

    Alfredo Dinis

  12. Caro Alfredo,

    Não concordo nada contigo, mas pelo menos, já vi que és alguém com quem se pode ter uma conversa simpática, bem educada e inteligente. Vamos lá então às discordâncias:

    “O actual Papa afirma que hoje o dualismo ‘corpo-alma’, uma herança dos gregos, pode ser arquivada”. E o que diz o Dalai Lama? E Mar Aprem Mooken? E Shenouda III? E Pramukh Swami Maharaj? E já agora…Edir Macedo? Não podemos entrar neste género de “discurso personalizado de autoridade” para defender os nossos argumentos; não é honesto e não é rigoroso.

    “Como afirma o actual Papa, aquilo que em termos mais substancialistas se exprime como ‘ter uma alma’, exprime-se hoje numa linguagem mais actualizada porque mais de acordo com a experiência histórica dos seres humanos, como ’ser objecto de uma especial relação de amor por parte de Deus’”. Mais uma vez…retórica. Numa relação, o amor estabelece-se mutuamente entre as partes. Onde está Deus nessa relação? “Deo abscondito”? Eu sei que me dirás: “procura no fundo de ti, no coração, blá, blá, blá.” Só que isso é absurdo; e a aplicar-se generalizadamente, todo o objecto imaginário de devoção se torna possível: “procura bem no fundo do teu coração: encontrarás a fada Oriana que zela por ti”.

    E quanto a Deus dizer “tu não morrerás”, pela quantidade de certidões de óbito que se passam diariamente, só podemos crer que a sua omnisciência não abrange a contabilidade…

    “Além deste dualismo corpo-alma há outros como: maréria-espírito, natural-sobrenatural, imanente-transcendente, etc. Trata-se de dualismos epistemológicos que não têm que ser necessariamente tomados num sentido ontológico”. Hmmmm??? Vamos lá ver se descascamos esta frase logicamente: Antes de mais, para a análise de um qualquer dualismo epistemológico, ambas as unidades da dualidade tem de se constituir como “objectos de conhecimento” (episteme=conhecimento); ora…matéria-espírito? Natural-sobrenatural? Não há qualquer conexão entre ambas numa hipotética relação dual. É como comparar alhos e bugalhos (e ainda assim, tanto os alhos como os bugalhos existem!). O que é a matéria em relação ao espírito? Ou o natural em relação ao sobrenatural? Nada! Não há qualquer medida de aferição dessa relação: simplesmente porque a mesma não pode ser feita (excepto no plano teórico da teologia, a qual é profícua em criar relações conceptuais provenientes da sua própria imaginação). Ora, sem possibilidade de se obter qualquer “dualidade epistemológica”, qual o sentido em colocar a ontologia na equação? Portanto, caro Alfredo…nada do que disseste, parece fazer sentido.

    Abraços cordiais (cordis…coração; coração, sempre o coração. Vocês adoram esse orgão!)

  13. Olá Ricardo,

    «Ora viva!! Já tinhamos saudades dos seus longos comentários.»

    Bolas, que simpatia! Obrigado. Tenho tido uns dias muito agitados.

    «Agradeço a sua preocupação, mas não se preocupe com os meus passos: eu sei atar bem os atacadores dos meus sapatos.»

    Não consigo não me preocupar. Para ser coerente, tenho que afirmar que o Ricardo está errado no seu ateísmo. E por isso, preocupo-me. E sim, rezo por si. E por todos os ateus que conheço.

    «Dou-lhe o exemplo mais conhecido: Christoph Schönborn, cardeal Austríaco e parte do ciclo próximo de Raztinger.»

    Uma coisa é defender as causas final e formal do mundo natural. Já aqui escrevi sobre isso: segundo a escolástica (que tomo pelo pico intelectual da nossa cultura), que herdou isto de Aristóteles, um dado fenómeno tem quatro tipos de causa: final, formal, material e eficiente. A causa final advém da necessidade lógica e racional de que cada coisa aconteça para uma dada finalidade. A causa formal tem a ver com o carácter qualitativo dos fenómenos, com as especificidades não quantitativas que eles apresentam. As causas material e eficiente são bem conhecidas dos cientistas, e o Ricardo certamente que as respeita e considera: têm a ver com a matéria que está na base dos fenómenos e com o próprio mecanismo (a eficiência) dos mesmos.

    O Cardeal Schonborn, figura intelectual respeitável, que muito admiro, está apenas a dizer aos darwinistas materialistas (que, repito, não devem ser confundidos com os cientistas evolucionistas) que os problemas filosóficos de sempre não se varrem facilmente para debaixo do tapete. Schonborn defende a realidade das causas final e formal. Logo, defende necessariamente as noções filosóficas de sentido (ou objectivo) e de forma. São aspectos bem reais, e no entanto, são imateriais.

    Ao fazê-lo, ao dizer que todo o Cosmos tem uma lógica (senão nunca o poderíamos inteligir), Schonborn não está, automaticamente, associado ao ID. O ID é ajudado por Schonborn? Penso que é. Mas não é correcto identificar Schonborn com o ID. Já referi um forte argumento em contrário, ao qual o Ricardo não deu atenção: o catolicismo defende que há fenómenos contingentes (em ciência, dizem-se “estocásticos”), ou seja, coisas que não têm necessariamente que acontecer de certa maneira deterministica. Por isso, a “aleatoridade” científica é perfeitamente católica. O católico reconheçe-a em inúmeros fenómenos científicos. Por exemplo, a pressão do ar dentro de um pneu insuflado explica-se por processos moleculares que são estocásticos.

    No entanto, a aleatoridade filosófica (partilhada pelos darwinistas materialistas, que fazem má filosofia e tentam fazê-la passar por ciência), que é a negação do sentido metafísico da realidade, é, não só uma asneira filosófica, como certamente não é ciência.

    Um cientista não pode dizer: “a vida surgiu por acaso” em sentido filosófico, negando qualquer lógica ou inteligibilidade a todo o processo, que é claramente orientado para fins concretos e visíveis. Por exemplo, o olho evoluiu até ser um órgão complexo que ninguém nega ser compatível com as leis universais da óptica. A causa final do olho, como diria um católico defensor da escolástica, é o desenvolvimento desse órgão para o cumprimento das leis universais da óptica. Isso é finalidade.

    No entanto, se um darwinista diz que não há qualquer finalidade na evolução do olho, que não entram em jogo nenhum sentido ou objectivo final, isso já não é ciência. Isso é filosofia. E má, por sinal.

    Mas um cientista pode dizer “a vida evoluiu através de vários processos, alguns dos quais estocásticos”, e pode dizê-lo sem problemas, e ao mesmo tempo partilhar do catolicismo mais ortodoxo e puro que há.

    Será que fui claro?

    «Deve estar a brincar, Bernardo. Veja a “wedge strategy” do Discover Institure para ver quais são as reais intenções dos criacionistas que se fazem passar por proponentes dó ID.»

    Eu não sou porta-voz do ID, nem quero ser.
    Defendo que há coisas bem reais e imateriais como finalidade e sentido para a evolução. Um darwinista é, normalmente, materialista em termos filosóficos. O materialismo é uma filosofia, Ricardo. Não julgue que é ciência. O meu desacordo com o materialismo é um problema filosófico, e não científico.

    «Você está a “comer da mesma gamela” (não estou a tentar ser mal-criado, apenas a fazer uma figura de estilo) que todos os outros crentes que se deixam levar na conversa que o Darwinismo leva ao niilismo, à imoralidade, e a falta de respeito pela condição humana. Você é demasiado inteligente para se deixar enrolar nesses argumentos “desesperados”.»

    Não, Ricardo: o Ricardo é que não está a ter a noção da dimensão filosófica do problema. O próprio problema filosófico do conhecimento fica totalmente embrulhado com o materialismo. Se tudo o que somos se compõe apenas de átomos ou matéria, então o que é o pensamento? O que faz com que o Ricardo argumente deste ou daquele modo? aliás, o que é argumentar, numa lógica materialista? Aliás, o que é a lógica para um materialista? Como se argumenta, usando o materialismo, que os princípios fundamentais da lógica são verdadeiros? Como fica o princípio da identidade e o princípio da não contradição? O que diz um materialista sobre o princípio da exclusão do terceiro termo?

    O materialismo é FILOSOFIA. E má, por sinal.
    Não é ciência…

    «Ainda me vai mostrar onde eu faço isso.»

    O Ricardo não me parece distinguir um cientista evolucionista (alguém que investiga os processos evolutivos) de um darwinista (alguém que mistura teorias científicas sobre a evolução com filosofias materialistas, à semelhança do que Darwin fez até à exaustão).

    «Oh bulls#it!!! Não há qualquer maneira de “contestar cientificamente o ID” porque os defensores do ID não apresentam um argumento que seja científico. Não há qualquer base, nem bioquímica, nem biomolecular, nem fisiológica para os seus argumentos. Todos os “casos” de provas de ID já foram destruídos há muito tempo pela comunidade científica: desde o motor da bactéria até à “ordem no DNA”.»

    Não seja tão contundente. O problema do ID, na minha modesta opinião, é a de que é composto por teses “border line”, que estão no limiar entre ciência e epistemologia, já a raiar para dentro do campo da filosofia. Há partes das teses do ID que são metafísicas. E isso é problemático. Como testá-las empiricamente?
    Mas repito: eu contesto o darwinismo, e contesto-o em várias facetas, sobretudo na sua parte filosófica, que está longe de ser pequena ou irrelevante. Mas não vou usar o ID para o fazer. Há outras formas mais elegantes e racionais de contestar o darwinismo. E, repito, o ID tem partes que chocam com a tradição católica.

    «Ora nem mais. É o que está a acontecer! O ID tem sido progressivamente abandonado pelos criacionistas que agora querem “ensinar as fraquezas da teoria das especíes”»

    Se for isso que vai acontecer, óptimo. A ciência a progredir é sempre algo que agrada a um bom católico. Más teorias vão para o lixo, novas teorias surgem.

    «Pelos menos já por duas vezes Ratzinger fez públicas as suas “preocupações” sobre a questão da evolução das espécies.»

    Preocupações filosóficas, porque o materialismo darwinista é filosofia.

    «Quando foi eleito papa, ele disse que “os humanos não podem ser uma causa e um produto sem significado de um processo evolutivo”.»

    Frase filosófica. Crítica filosófica ao materialismo darwinista, que é filosófico. Nenhum ataque à ciência.

    «Mais tarde disse que “a criação do Universo foi um projecto inteligente” o que foi uma mensagem recebida com grande gáudio pela comunidade ID.»

    Era de esperar essa satisfação dos defensores do ID. Mas Bento XVI não defende o ID. Nunca o fez. Pelas razões que já invoquei.

    «Ai sim? Onde está a sua prova desse acontecimento? Onde está a evidência incontornável que existiu esse “acto”?»

    Bom, a começar pelo facto evidente de que a grande maioria dos cientistas defende que o tempo não é eterno, que teve um início. Ou seja, que à medida que “caminhamos” para trás na semi-recta do tempo, vamos em direcção a uma singularidade (inatingível), atrás da qual está o “tempo zero”. Ou seja, o facto de que o tempo teve um início aponta para um universo contingente. E um universo contingente, usando como analogia as descobertas do matemático Godel, apela para uma explicação fora dele. Note que não estou a usar o Godel como prova do que afirmei. Apenas como forte analogia e forte argumento.
    Afinal, se a cosmologia moderna é, toda ela, suportada na matemática, os teoremas da incompletude de Godel são para levar a sério e terão, quase certamente, implicações fortes para todas as áreas da ciência que fazem uso da matemática.

    «Sabe que os cosmólogos já têm uma ideia bastante solidificada de como surgiu o Universo: pergunte a Richard Winberg, ou Stephan Hawkins, ou Neil deGrass Tyson. Espere, vai me dizer que é a opinião do Ratzinger que se deve sobrepor a destes cientistas?»

    O Ricardo conhece Stanley Jaki? Deveria ler as suas obras. É um sacerdote católico, bem como um prolífico cientista. Doutorado em física e história da ciência. Ele tem tido interessantes debates com Hawkins e Tyson, e muitos outros. Vou-lhe mandar alguns textos. O problema é que a maioria dos colossos científicos do nosso tempo são quase analfabetos filosóficos. E isso explica porque razão eles pensam ter respostas definitivas. Porque normalmente não se questionam sobre as implicações filosóficas das suas ideias, porque não notam que a própria defesa de teses científicas é um acto intelectual que se deve sujeitar à realidade imaterial do raciocínio e do pensamento intelectual.

    «Invocar São Tomás não ajuda a sua causa, Bernardo.»

    Poderia ajudar à causa da razão e da racionalidade, mas hoje em dia ninguém está verdadeiramente interessado em aprender estas coisas com católicos. O preconceito vence a vontade de aprender e de saber.

    «Ahhhh!! Ora ai está a sua faceta pia a tecer pelo meu “despertar”.»

    Não deixo de pedir a Deus que esse despertar chegue depressa.

    «Caro Bernardo, eu não preciso do seu deus (que não se trata de preconceitos) para exactamente sentir todo esse apelo e espanto do cosmos que me rodeia. Não precioso de “amigos invisíveis” para saber o meu lugar no Universo.»

    Nem o Ricardo imagina como “precisa” de Deus. Basicamente, deve-Lhe a sua existência.

    «Pois, é aqui a nossa discórdia. Não é uma “bruta asneira” dizer as crianças que não existe “alma” ou que “tudo seja material” porque essa é a realidade do mundo natural!»

    Não, Ricardo, essas são ideias filosóficas defendidas por certos adeptos do materialismo filosófico.
    Quando eu estava numa aula de História, ou de Ciências da Natureza, estava à espera de aprender essas matérias, e não de receber a catequese do materialismo filosófico.

    «Sempre estimulante (apesar de time consuming) trocar argumentos consigo Bernardo!»

    Idem!

    «Reforço o que escrevi há pouco, escrevo-lhe com consideração e respeito, e com certeza de poder ter a liberdade de usar algumas frases mais “conflituosas” mas no bom sentido da palavra.»

    Claro que sim. Essas dúvidas já não se colocam.

    Um abraço,

    Bernardo

  14. Ricardo,

    Em relação às aulas, usando uma linguagem mais clara…
    Gostaria que um professor do Secundário explicasse, nas aulas de Biologia, como os processos moleculares demonstram a grandeza e a glória de Deus?

    Imagino que não gostaria…
    Então entende porque razão eu não gosto que se usem as aulas de Ciência para dizer aos miúdos coisas filosóficas (ou mesmo teológicas) como negar a existência da alma ou afirmar a tese filosófica do materialismo, que são coisas claramente fora do âmbito das Ciências?

    Um abraço

  15. Caro Lucas,

    Citei o actual Papa quanto à ideia de alma, não como um argumento de autoridade, mas como um contra-exemplo de uma concepção que teve origem na filosofia e grega, portanto fora de qualquer religião, que foi depois integrada na teologia medieval e que chegou até aos nossos dias, parecendo assim que pertence aos fundamentos do cristianismo. O mesmo aconteceu com o cosmos medieval, que foi intergrado no cosmos bíblico e chegou até Galileu. Hoje, não se fala mais no assunto. Da distinção entre corpo e alma à maneira grega ainda se continua a falar. Se cito Ratzinger é apenas para dizer que a tradição grega pode ser deixada, porque não é necessária para exprimir a crença na imortalidade.

    Creio que compreendeste que a expressão ‘tu não morrerás’ não tem um sentido biológico. Aliás, encontro-a em numerosos cemitérios, esculpidas na pedra por pessoas que perderam familiares e amigos. Não é certamente no sentido biológico que escrevem a expressão. E para essas pessoas, ela faz sentido.

    No que se refere aos dualismos, creio que a realidade é uma só, e que ela nos é acessívek de diferentes perspectivas. Como se diz por vezes, ‘distinguir não é separar’. A distinção entre o interior e o exterior de um copo, por exemplo, é uma distinção epistemológica mas não ontológica. Por mais que dê importância a tal distinção, o que existe realmente é, ontologicamente, um copo.

    Saudações figadais,

    Alfredo Dinis

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