Pérolas evangélicas: Parte 1, a abstinência pré-matrimonial e os contos de fadas
Por Rui Janeiro • 12 Jun, 2008 • Categoria: Ciência & Educação, Juventude, OpiniãoOs evangélicos nunca nos deixaram de surpreender pelo seu empenho e iniciativa.
Sempre achei o Portal Evangélico um site extremamente interessante e recheado de pérolas, uma das quais destaco neste artigo. A política de abstinência sexual à volta de jovens casais com as hormonas aos saltos é de louvar, nomeadamente na sua componente de criatividade, tal é a quantidade de coisas que inventam de modo a que a juventude se mantenha casta até ao casamento, coisa que nos dias de hoje, no mundo civilizado, não é normal e até é chega a ser motivo de chacota.
Basicamente falamos de gente que odeia o sexo e o amor livre (e os que não odeiam têm um livro sagrado cuja interpretação vai nesse sentido) que, face à impossibilidade de travar essa liberdade, resolve restringi-la ao casamento. Envolta numa espiral de romantismo só comparável aos contos de fadas, procuram impingir aos jovens um modelo de vida que, muito sinceramente, apenas funciona para alguns. E não nos esqueçamos da habitual fobia aos contraceptivos associada às instituições cristãs.
Na página principal aparece o seguinte texto, que me pregou a atenção: «Vale a pena Esperar é a experiência de adolescentes e jovens que hoje em dia valorizam o amor, a afectividade, a amizade e o namoro assumindo a abstinência até ao casamento». Mais abaixo estão dois links para sites aos quais recomendo uma curta visita, nomeadamente a quem goste de rir.
O TrueLoveWaits tem como principal causa a defesa da castidade antes do casamento entre os mais jovens, encorajando a “pureza moral” com base em princípios bíblicos. Por todo o site estão anúncios a bugigangas e outras parolices como vídeos, cartões e T-shirts, assim como iniciativas de apoio e promoção à castidade pré-nupcial, com destaque para um documento muito interessante, uma espécie de juramento que passo a mostrar.
“Believing that true love waits, I make a commitment to God, myself, my family, my friends, my future mate, and my future children to a lifetime of purity including sexual abstinence from this day until the day I enter a biblical marriage relationship.”
(“Acreditanto que o verdadeiro amor espera, faço um compromisso com Deus, comigo, a minha família, amigos, o/a meu/minha futuro(a) companheiro(a) e crianças para uma vida de pureza, incluindo abstinência sexual desde este dia até ao dia em que estiver num relacionamento bíblico por meio do casamento.”, embora também se possa traduzir como: O outorgante deste documento compromete-se em não mandar nenhuma antes do seu casamento pela igreja e faz questão de que toda a gente saiba disso e não tem vergonha de o assumir)
O outro site é a vertente francófona do TLW, o AmourVraiAttend, uma associação que promove a abstinência sexual em mais de 100 países, com cerca de dois milhões de membros. Compreende uma secção de testemunhos de felizes casais que desejam partilhar a sua experiência de pureza, com as habituais tretas associadas, de “Deus” ter criado a mulher e o homem um para o outro e da sexualidade no casamento (ou melhor, restringida ao casamento) ser uma coisa maravilhosa. Tão maravilhosa que até podiam incluir nas homilias casamenteiras a frase “Até que a disfunção eréctil vos separe”.
Nos dias de hoje casar sem viver uns tempos junto com o cônjuge é um factor de risco. Pior ainda é casar sem “conhecer” o companheiro(a).
Numa sociedade (Europa) onde uma grande percentagem (eu apostaria nuns 90%, se não for mais) de jovens não vão virgens para o casamento (que há cada vez menos e pior ainda se for pela igreja), este tipo de iniciativas representa um retrocesso depois das conquistas da revolução sexual dos anos 60. Mas onde este tipo de iniciativas tem mais oferta é na América, uma das quais será objecto de destaque na segunda parte deste artigo.