Venham a mim as criancinhas

De Lucas Samuel:

No dia 10 de Junho de 2008, como em todos os dias 10 de Junho, comemorou-se Portugal…e Fátima.

“Alegria, colorido, festa, surpresa e animação são palavras que, uma vez mais, marcaram a Peregrinação das Crianças a Fátima, este ano na 30ª edição. Milhares de crianças de Portugal inteiro e também um pequeno grupo da Áustria participaram naquela que é uma das mais singulares peregrinações a este santuário mariano”. Ver aqui.

É óbvio que só existe uma palavra para qualificar (ou melhor dizendo, desqualificar) este evento: nojento. A operação de lavagem cerebral cujos destinatários são crianças, merecia adjectivos bem mais violentos que tentarei não utilizar para não ferir susceptibilidades.

Em primeiro lugar: que cada católico maior de idade queira participar nas pantominas que bem entenda, está no seu direito. Agora, que pais e catequistas queiram condicionar crianças a obedecer a uma mensagem religiosa específica, isso só pode merecer o mais vivo repúdio de qualquer livre pensador. Já Dawkins afirmava e bem, que não existem “crianças cristãs”; nem cristãs, nem muçulmanas, nem hindus, nem comunistas, nem socialistas, nem fascistas. Existem apenas crianças. Pequenas criaturinhas cuja formação a todos os níveis, é ainda um “work in progress”.

Mas qual é o problema de tudo isto? dirão alguns. Comecemos pelo ridículo da mensagem que se tenta passar às crianças: “A marcar a diferença, o tema escolhido para este ano: “Jesus, só tu és a verdade”, que procurou sensibilizar, através de gestos, símbolos e de exemplos de vida, a importância de verdade como gesto de amor”.

“A importância da verdade como gesto do amor”. É bonito e até tem a sua lógica. A pergunta que se coloca então é: que “verdade” é essa? Segundo D. António Marto, a verdade é que “Jesus precisa de vós como precisou do pequenito Francisco, Pastorinho de Fátima, para através de vós levar o amor da verdade e verdade do amor”, exclamou ao sublinhar que Jesus “não se esquece de cada um de vós” e que, por isso, “quer que sejais grandes no amor à verdade, no amor aos outros e grandes a alegria de viver”.

Ficamos então a saber que a verdade…é a verdade! E a verdade é o amor…e o amor é a verdade…e Jesus é o amor… e Jesus é a verdade…e Deus é amor…e a verdade é a verdade… e o amor é o amor…e a vida é amor…e amor é vida…e a vida é verdade…e Jesus é vida e… a verdade… o…a… e coisa e tal!

É assim que se estimula a cultura crítica e a racionalidade de um povo. Aceitando “a verdade” (seja lá isso o que for). Não é de estranhar por isso, que Portugal seja um país do “prontos!” e do “portantes!”. É assim que podemos dialogar melhor, né….prontos! Porque coisa e tal e…olha…o quécsáde fazer? Só se portantes, coisa e tal, né? Viva a verdade, Jesus e prontos!

A festança da alienação não poderia terminar sem que fosse distribuída propaganda do Reich católico: “Jesus, só Tu és a verdade” é o título do livro oferecido a todos os meninos e meninas que participaram na Peregrinação das Crianças 2008. Uma edição para crianças com textos do Leccionário Litúrgico, Domingo a Domingo, até ao Domingo de 11 de Junho de 2009! Pois…porque para o ano há mais! E esqueçam lá a bonecada do Toys‘R’Us porque a criançada precisa já é começar a formar-se enquanto “bom cristão” e não enquanto “consumista alienado”. Mundo maniqueísta este o dos cristãos…

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“A palavra de Deus enche-nos o coração. (…) É o que vamos tentar fazer ao longo destes domingos: ajudar-te a perceber o que Jesus nos quer dizer e nos manda fazer, para transformarmos o nosso mundo num mundo mais parecido com Deus”, escreve Maria da Graça Fernandes na introdução da publicação”.

Para já não falar na treta do coração (existe alguma obsessão cardíaca cristã?), é muito interessante a frase “ajudar-te a perceber o que Jesus nos quer dizer e nos manda fazer, para transformarmos o nosso mundo num mundo mais parecido com Deus”. Ficamos então a perceber que Deus não tem capacidade para fazer do mundo aquilo que ele próprio idealizou. Deus é um incompetente que tem de recorrer à mão-de-obra infantil para levar o seu intento esclavagista a bom termo.

Todas as bestas nacionais que, a começar pelos jornalistas das várias televisões que entrevistaram as criancinhas no recinto de Fátima, acham “ternurenta e fofinha” a imagem de um petiz adorando o “menino Jesus e os pastorinhos”, revelam bem a ignorância saloia que grassa em Portugal. Nesta sociedade mentecapta de role models impingidos, ninguém quer crianças que desenvolvam a sua personalidade: temos apenas crianças à imagem de Cristo ou à imagem de Cristianos Ronaldos; e para se cumprir a tríade fascizante, só nos faltam mesmo as imagens fadisteiras.

Mas o “bom educador católico” ripostará: “eu quero educar as minhas crianças na moral cristã!”. Pois…talvez até queira, mas se algum dia descobrir que moral é essa, é conveniente que a registe em conservatória: com tanta seita por aí, ainda se arrisca a criar um(a) pequeno(a) fundamentalistazinho(a).

A uma criança que pergunte, “Deus existe?”, qual deveria então ser a resposta de um pai/mãe ateus? Se responder “não”, estará a cometer o mesmo erro dogmático do católico, fechando-lhe o mundo para a existência “do outro”; se disser “sim”, estará a ser hipócrita. Que caminho resta? A da opinião sincera: “o pai/mãe não acreditam, mas há pessoas que acreditam. Brinca e vive a tua infância como se nada disso importasse e quando fores mais velho(a), se tiveres alguma vez de escolher, fá-lo-ás por tua livre e espontânea vontade”. E tal como os ateus, também os cristãos deveriam proceder da mesma maneira – ou será que é preferível ameaçar as crianças com as chamas do Inferno ou dizer-lhes que Jesus não gosta delas? Nenhuma destas últimas opções contribui para eliminar a auto-estima deplorável que constitui imagem de marca do português típico.

No fim, tudo isto é triste, tudo isto é Fátima.

Fica aqui uma sugestão: todos os anos, a Associação Ateísta Portuguesa deveria tentar marcar presença em Fátima e denunciar esta pouca vergonha nas televisões nacionais. Façam marcação homem a homem a cada televisão que tente violar a integridade de uma criança sempre que quiser “entrevistá-la”: “estás a gostar de ouvir a mensagem do menino Jesus?” Não dêem descanso a esta impunidade vergonhosa que arrasta para a lama da ignorância Portugal inteiro.

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