Reflectir o meu ateísmo - Parte 5: Sistemas amorais

Por Helder Sanches • 9 Jun, 2008 • Categoria: Discriminação Religiosa, Opinião

É inevitável a conotação moralista com que os sistemas de crenças impregnam as suas doutrinas. O “Bem” e o “Mal” transformam-se, pois, em caprichos divinos onde a razão e a liberdade individual não têm lugar, sujeitando-se a valores de outros, quase sempre antepassados pouco credíveis e eles próprios tantas vezes exemplos de uma conduta questionável.

A questão dos falsos moralismos é talvez a que mais me aborrece nas religiões. Sem respeito pela liberdade pessoal de cada um conduzir a sua vida como muito bem entender, criam-se balizas artificiais para a conduta individual em contradição com o argumento oportunista do livre arbítrio. Note-se que eu sou um defensor do livre arbítrio e não dou muita credibilidade às teorias deterministas, mas tudo na religião aponta no sentido do determinismo, excepto quando se tem que desresponsabilizar deus e responsabilizar a Humanidade. Por isso critico o oportunismo da argumentação do livre arbítrio na religião.

A ideia de que cada um de nós terá que se sujeitar às opções de vida, à conduta comportamental ou às regras éticas de outros por “razões” metafísicas trata-se do maior atentado à liberdade pessoal, incentiva ódios e a ostracização social de quem não segue a norma.

Para um ateu, ao contrário do que nos querem fazer crer – no caso de Portugal, a ICAR e, lamentavelmente, o Ministério da Educação -, religião e moral não cabem no mesmo saco. A conduta moral de cada um é totalmente independente do resto da sociedade enquanto aquela não interferir com a liberdade dos outros. E por interferência não se podem entender os afrontamentos a conceitos de decência, vergonha ou respeito ideológico/religioso.

A confusão surge muitas vezes por se confundirem valores como moral e civismo. São coisas diferentes. Viver com padrões de ética diferentes da norma ou diferentes dos nossos não significa que se vive sem padrões de ética.

Assim, a moral imposta pela religião não só é castradora da liberdade individual, como também contribui para a intolerância e o desrespeito por outras opções de conduta pessoal, factores que tantas vezes conduzem à homofobia, ao sexismo, ao racismo e à xenofobia, etc. Por outro lado, adquirir um determinado padrão ético através de um processo de chantagem face a um sistema de punição versus recompensa, parece-me, em si, pouco abonatório para a capacidade intrínseca de saber distinguir o “Bem” do “Mal”.

Finalmente, ser-se ateu – como ser-se religioso – é, por si só, uma definição completamente amoral. Não é no não acreditar ou no acreditar que residem os factores que nos transformam em agentes morais ou imorais.

Reflectir o meu ateísmo:

  1. O que o meu ateísmo não implica
  2. As insuficiências do agnosticismo
  3. Promover uma laicidade pró-activa
  4. A desnecessidade de crer

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2 Respostas »

  1. As pessoas que não têm doutrina religiosa não deveriam exigir um estatuto ou uma constituição a qual a hegemonia de seu pensamento sobre todas as outras formas de expressão ideológica, porque se assim fosse, os livres de pensamento estariam fazendo o mesmo papel daqueles que professam uma fé.

    A história demonstra que todos aqueles que têm fé em comum ou que transmitem a sua fé por contágio mental,
    sempre houve rigorosas supressões e moderação de todas as ações dos indivíduos.

    Jamais qualquer conquista democrática se fez por profissões fé. Muito pelo contrário. Onde a fé dominava, massacres por imposições se fizeram presentes, haja visto o reinado de Carlos IX, com a matança de S. Bartolomeu, as dragonadas promovidas por Luís XIV simplesmente porque achava que a palavra divina estava com ele e que seu reinado deveria ficar livre daqueles que não comungavam das mesmas crenças que a sua.

    Ser um sujeito ético independe de se ter fé no sobrenatural, ou mais dotado de senso moral do que aqueles cujas ações estão invariavelmente atrelados às promessas advindas de livros santos. A importância de uma atitude com consciência de valores universais e laicos está justamente em sua oposição no que se refere á imposição muitas vezes tirana do que pensa diferente, guia suas ações tão somente devido a sua responsabilidade ética sem o temor incontrolável da fúria divina e que por esta razão é mais livre.

    Quem é livre, não se sente ameaçado por quimeras doutrinárias, não vê olhares ameaçadores dos religiosos a espreitar sempre os livres de crenças religiosas como verdadeiros guardiões dos céus todas as ações que não satisfazem os seus ritos, mesmo que de forma sutil.

  2. Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e Ele passou a ensiná-los dizendo: Bem aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos Céus, Bem aventurados os que choram, porque serão consolados, Bem aventurados os mansos, porque herdarão a terra, Bem aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serão fartos, Bem aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia, Bem aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus, Bem aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus, Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus, Bem aventurados sois vós quando por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus, pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte, nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.
    Esta é uma das mais belas passagens registradas do ministério de Jesus, enquanto entre nós viveu. Mensagem que transcende as próprias palavras com que foi escrita, e que chegou até nós irrigada com a fé e o sangue dos mártires nas arenas, nas guerras, nas fogueiras, nas perseguições… Mensagem que chegou até nossas mãos através da corajem e ousadia dos bravos e heróicos navegadores portugueses que com suas grandes caravelas singraram mares hostis nunca d´antes navegados até aos extremos desconhecidos da terra. Procuravam prata, ouro, especiarias? Procuravam sim, mas levavam encimada em suas naus o simbolo de sua fé, de sua crença, de todo um povo, e de uma Grande Nação. Crença esta que chegou até nós, trazida por nossos avós, que também emigraram de Portugal. Os tempos mudaram. As idéias também. Hoje, navega-se para a Lua, para Marte, e sondas pioneiras estão atingindo os limites do Universo. Qual será a mensagem que transmitiremos às futuras gerações? Darwin???

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