God Bless America

Segundo o semanário The Economist, cerca de sete em cada dez americanos esperam que o seu presidente tenha uma forte fé pessoal. O eleitorado manda e os partidos e candidatos têm de se adaptar, pois não possuir referências religiosas é um suicídio político e é mesmo apelidado de anti-americano por alguns candidatos.

Dos candidatos de um partido que se esperava mais secular (Democratas), surgiram crescentes manifestações de fé e convicções religiosas, chegando mesmo a contratar pessoas ligadas a igrejas como conselheiros. Para a presente campanha, Hillary Clinton afirmou ser uma “praying person” que quase foi uma “Methodist Minister”, referindo-se ao aborto como uma “tragédia”. John Edwards, indicou a sua fé cristã como percussor da sua cruzada contra a pobreza.

Mas nenhum político usou melhor a religião como Barak Obama, apesar de não ter corrido muito bem nos últimos tempos. Para além dos problemas que teve à conta do seu estimado ex-líder espiritual que tantos votos o ajudou a angariar, chegou a ser apelidado de muçulmano e a ter o seu nome associado ao terrorismo devido às semelhanças fonéticas com “Osama”. Uma manobra política aparentemente de mau gosto mas que tem o seu efeito em alguns sectores mais conservadores ou menos bem informados, pois numa sondagem do mês passado cerca de 11% dos inquiridos indicava Obama como muçulmano e 22% desconhecia a sua religião.

Filho de pais agnósticos, só se baptizou aos 26 anos, altura em que sentiu o apelo do espírito de Deus. Sendo “Deus” um argumento usado pelos sectores mais conservadores (Republicanos) para defender políticas mais reacionárias, tal pareceu enfraquecer com Obama. Foi o político que conseguiu usar as referências religiosas no seu discurso de uma maneira em que conseguia agradar tanto ao sector mais religioso como à ala mais secular dos Democratas, resolvendo de certa forma o problema que o partido tinha com “Deus” e alargando a sua influência a um eleitorado teoricamente mais conservador e/ou religioso.

O candidato dos Republicanos também não está livre de problemas quando se trata de religião ou “Deus”. John McCain está associado a uma imagem do Partido Republicano  que remete as suas convicções religiosas para o foro íntimo/privado, na era pré-Reagan. A religião nunca foi um dos temas que mais destacou na sua campanha, preferindo falar mais de coragem (foi militar e esteve preso no Vietnam durante alguns anos, sob tortura, sendo a segurança um dos seus temas de eleição) do que de piedade.

Tal como Obama, demarcou-se há pouco tempo do apoio de dois pastores polémicos, Rod Parsley e John Hagee. O primeiro vê a destruição do islão como um dos objectivos da América, pois acredita que foi um demónio que apareceu ao profeta Mohammed (em vez do Arcanjo Gabriel). O segundo é anti-católico, indicou o furacão Katrina como um castigo de Deus para os homossexuais de Nova Orleães e acredita que o anti-cristo virá sob a forma de um “judeu gay”.

O artigo fecha com um parágrafo interessante.

A “caça ao voto” religioso tornou-se decisiva. A campanha irá continuar com Obama a tentar apanhar alguns votos católicos (o grupo mais “flutuante” entre democratas e republicanos) e evangélicos (decisivos na eleição de Bush) e McCain a usar a polémica à volta do reverendo Wright como forma de denegrir a imagem do democrata. Tanto a ala secular dos Democratas como a Europa (secular) devem estar algo desapontados, nomeadamente os que esperavam que as referências religiosas nas campanhas desaparecessem com o fim da presidência de Bush.

Assusta-me o facto de na nação mais poderosa do mundo haver tanta influência de pastores e grupos religiosos cujas afirmações e convicções se assemelham a declarações de guerra e pura xenofobia, ainda para mais quando a principal ameaça ao mundo ocidental pós-queda do Muro de Berlim se concentra numa organização terrorista de cariz religioso.

Pior do que Bush será difícil. O mais complicado será gerir a sua herança…

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