Males maiores.

A propósito da constituição da Associação Ateísta Portuguesa (AAP), o Alfredo Dinis questionou «se não seria construtivo que os objectivos da nova associação se centrassem antes de mais na urgência de resolver os actuais problemas que a humanidade enfrenta»(1). Se fala da fome, da guerra ou do aquecimento global não me parece construtivo criar uma associação como a AAP para os resolver. São problemas que exigem um esforço de colaboração internacional muito além do que se pode exigir de uma associação desta natureza. Para ajudar a resolvê-los é melhor apoiar organizações já existentes.

Mas recordo ao Alfredo as palavras que o cardeal-patriarca de Lisboa proferiu na homilia de Natal. «Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade»(2). Isto não é o maior drama, porque há coisas piores. Mas é dramático que se diga uma coisa destas numa democracia do século XXI e são estes problemas mais modestos que a AAP gostaria de resolver. Ou, no mínimo, de apontar como problemas, já que muitos nem vêm problema num cardeal afirmar que o maior drama da humanidade são pessoas como eu. Mas a motivação principal deste texto foi esclarecer uma confusão. O Alfredo escreveu:

«Parece-me, porém, que a nova associação não tem esta perspectiva. Aliás, apesar de afirmar no seu manifesto que o ateísmo não se define “pela mera oposição à religião e ao dogmatismo”, a verdade é que o ‘Portal Ateu’ não faz outra coisa senão opor-se à religião de uma forma completamente indiscriminada e inadequada.»

A critica ao Portal Ateu não me parece justa. Mas talvez os nossos critérios divirjam por questões subjectivas; o que é adequado para uns pode ser inadequado para outros. E sei que cada religião prefere ser discriminada porque se a virem como mais uma entre muitas é difícil defendê-la. Mas há aqui um erro factual e objectivo. A AAP não é o Portal Ateu.

Uma organização religiosa normaliza e prescreve a conduta dos seus membros. Cada seguidor, presume-se, tenta representar fielmente a doutrina que segue. Isto não compatível com o ateísmo a AAP não pretende ditar normas ou prescrever crenças a ninguém. O ajuste é no sentido contrário. Não são os ateus que obedecem à AAP mas a AAP que se guia pela vontade consensual dos seus membros e é incorrecto confundir expressões individuais com a representação dos pontos comuns.

O Portal Ateu é um de vários fóruns para as primeiras, que constituirão sempre a manifestação mais fundamental e mais plural do ateísmo. Aqui cada um fala por si e não segue doutrinas ou a vontade divina como relatada por outrem. Por outro lado, o objectivo da AAP é falar por todos os ateus. Não para lhes dizer o que pensar mas para dar voz às suas preocupações comuns. Por isso não é de esperar que posição da AAP coincida perfeitamente com a opinião de qualquer ateu. Ao tentar exprimir o consenso a AAP terá que deixar de parte o que não é consensual. E como nenhum ateu se restringe ao que a AAP manifesta, cada um defenderá naturalmente aspectos menos consensuais do seu ateísmo.

Nem no Portal Ateu nem na AAP decidimos «ignorar sistematicamente o incontável número de homens e mulheres que um pouco por todo o mundo, em nome das próprias crenças religiosas, se empenham na promoção da paz e da justiça». Apoiamos a promoção da paz e da justiça, com ou sem religião. E é por isso que nos preocupa a venda da caridade em troco da conversão religiosa, a justiça embrulhada em proselitismo e as alegações, em nome da paz, que não se fiar numa religião é «o maior drama da humanidade».

Individualmente, preocupam-nos coisas diferentes e cada um de nós escreve sobre o que entende escrever. Colectivamente, a AAP tenta exprimir o que nos preocupa a todos enquanto ateus. Em ambos os casos sabemos que não é pela expressão do ateísmo que vamos saciar a fome do mundo, remediar o aquecimento global ou eliminar ditaduras e acabar com guerras. O propósito, mais modesto, é afirmar a independência da religião como uma vivência legítima e apontar que, ao contrário do que muitos julgam, também não é a fé no sobrenatural que resolve estes problemas.

1- Alfredo Dinis, 1-6-08, Associação Ateísta Portuguesa
2- DN, 26-12-07, Cardeal diz que maior drama é a negação de Deus

Outros artigos relacionados:

  1. A AAP e o futuro do ateísmo em Portugal
  2. Apresentação do Planeta Ateu
  3. Associação Ateísta Portuguesa
  4. Portal Ateu na linha da frente (actualização)
  5. FAQ do Portal Ateu actualizada