Males maiores.
Por Ludwig Krippahl • 8 Jun, 2008 • Categoria: EditorialA propósito da constituição da Associação Ateísta Portuguesa (AAP), o Alfredo Dinis questionou «se não seria construtivo que os objectivos da nova associação se centrassem antes de mais na urgência de resolver os actuais problemas que a humanidade enfrenta»(1). Se fala da fome, da guerra ou do aquecimento global não me parece construtivo criar uma associação como a AAP para os resolver. São problemas que exigem um esforço de colaboração internacional muito além do que se pode exigir de uma associação desta natureza. Para ajudar a resolvê-los é melhor apoiar organizações já existentes.
Mas recordo ao Alfredo as palavras que o cardeal-patriarca de Lisboa proferiu na homilia de Natal. «Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade»(2). Isto não é o maior drama, porque há coisas piores. Mas é dramático que se diga uma coisa destas numa democracia do século XXI e são estes problemas mais modestos que a AAP gostaria de resolver. Ou, no mínimo, de apontar como problemas, já que muitos nem vêm problema num cardeal afirmar que o maior drama da humanidade são pessoas como eu. Mas a motivação principal deste texto foi esclarecer uma confusão. O Alfredo escreveu:
«Parece-me, porém, que a nova associação não tem esta perspectiva. Aliás, apesar de afirmar no seu manifesto que o ateísmo não se define “pela mera oposição à religião e ao dogmatismo”, a verdade é que o ‘Portal Ateu’ não faz outra coisa senão opor-se à religião de uma forma completamente indiscriminada e inadequada.»
A critica ao Portal Ateu não me parece justa. Mas talvez os nossos critérios divirjam por questões subjectivas; o que é adequado para uns pode ser inadequado para outros. E sei que cada religião prefere ser discriminada porque se a virem como mais uma entre muitas é difícil defendê-la. Mas há aqui um erro factual e objectivo. A AAP não é o Portal Ateu.
Uma organização religiosa normaliza e prescreve a conduta dos seus membros. Cada seguidor, presume-se, tenta representar fielmente a doutrina que segue. Isto não compatível com o ateísmo a AAP não pretende ditar normas ou prescrever crenças a ninguém. O ajuste é no sentido contrário. Não são os ateus que obedecem à AAP mas a AAP que se guia pela vontade consensual dos seus membros e é incorrecto confundir expressões individuais com a representação dos pontos comuns.
O Portal Ateu é um de vários fóruns para as primeiras, que constituirão sempre a manifestação mais fundamental e mais plural do ateísmo. Aqui cada um fala por si e não segue doutrinas ou a vontade divina como relatada por outrem. Por outro lado, o objectivo da AAP é falar por todos os ateus. Não para lhes dizer o que pensar mas para dar voz às suas preocupações comuns. Por isso não é de esperar que posição da AAP coincida perfeitamente com a opinião de qualquer ateu. Ao tentar exprimir o consenso a AAP terá que deixar de parte o que não é consensual. E como nenhum ateu se restringe ao que a AAP manifesta, cada um defenderá naturalmente aspectos menos consensuais do seu ateísmo.
Nem no Portal Ateu nem na AAP decidimos «ignorar sistematicamente o incontável número de homens e mulheres que um pouco por todo o mundo, em nome das próprias crenças religiosas, se empenham na promoção da paz e da justiça». Apoiamos a promoção da paz e da justiça, com ou sem religião. E é por isso que nos preocupa a venda da caridade em troco da conversão religiosa, a justiça embrulhada em proselitismo e as alegações, em nome da paz, que não se fiar numa religião é «o maior drama da humanidade».
Individualmente, preocupam-nos coisas diferentes e cada um de nós escreve sobre o que entende escrever. Colectivamente, a AAP tenta exprimir o que nos preocupa a todos enquanto ateus. Em ambos os casos sabemos que não é pela expressão do ateísmo que vamos saciar a fome do mundo, remediar o aquecimento global ou eliminar ditaduras e acabar com guerras. O propósito, mais modesto, é afirmar a independência da religião como uma vivência legítima e apontar que, ao contrário do que muitos julgam, também não é a fé no sobrenatural que resolve estes problemas.
1- Alfredo Dinis, 1-6-08, Associação Ateísta Portuguesa
2- DN, 26-12-07, Cardeal diz que maior drama é a negação de Deus
Caro Ludwig,
Obrigado pelas considerações que faz acerca do texto que publiquei por ocasião da criação da AAP. As críticas que deixei no texto não implicam que não respeite quer a Associação, quer os seus membros e as posições que expressam. O meu é, porém, um respeito crítico.
No que se refere à colaboração dos ateus com os crentes na solução dos problemas deste mundo, limitei-me a expressar a sugestão de um respeitável ateu, Edward Wilson.
Continuo a pensar que não é construtivo denunciar como irracional e anti-humana toda e qualquer religião, toda e qualquer manifestação religiosa, de uma forma indiscriminada e quase sempre pouco inteligente e muito pouco informada. Continuo a pensar que é isto que é feito diariamente no Portal do Ateu. Só poderei alegrar-me se a AAP não for pelo mesmo caminho.
Sei bem que é opinião generalizada entre os ateus que os crentes não têm liberdade de pensamento nem de decisão, limitando-se a obedecer cegamente às normas e leis que Deus lhes manda lá do alto e, no caso dos católicos, a sua Igreja lhes impõe, de uma forma acrítica, irracional e absurda. Pode crer que há muito de razão e de sentido no conteúdo do cristianismo. E que a fé cristã faz realmente apelo à liberdade. Mas o que é a liberdade?
O sentido comum da liberdade é ‘a possibilidade de fazer ou não fazer, pensar ou não pensar, decidir ou não decidir, isto ou aquilo, sem que se seja obrigado ou impedido.’ Esta parece à primeira vista uma boa definição e de, de facto, é a que tem mais adeptos. O meu problema com esta definição é que um assaltante de bancos deve ser considerado um homem livre se ninguém o impedir de fazer os assaltos, onde e quando quiser, e utilizando os meios que quiser, roubando as quantias que muito bem entender. Mas eu não considero que uma tal pessoa tenha a verdadeira liberdade, aquela que nos humaniza.
A liberdade que defendo é ‘a possibilidade de elaborar e realizar um projecto de vida humanizante’. Neste sentido, Nelson Mandela nunca deixou de ser um homem livre mesmo quando não foi autorizado a deixar a prisão durante décadas. O que ninguém pôde impedir foi a sua fidelidade a um projecto de vida humanizador para si mesmo e para o seu povo. É também neste sentido que me considero um homem livre.
Por outro lado, o Ludwig não concorda com a minha opinião de que os conteúdos do Portal Ateu se centram num ataque cerrado aos aspectos efectivamente mais deprimentes de certos comportamentos de pessoas que se dizem religiosas. Mas logo a seguir parece-me que me dá mais um argumento a meu favor ao afirmar que “é por isso que nos preocupa a venda da caridade em troco da conversão religiosa, a justiça embrulhada em proselitismo”. Meu caro Ludwig, não há mesmo nada de positivo na religião que valha a pena destacar?
Finalmente, quanto aos dois objectivos da AAP que refere:
-“afirmar a independência da religião como uma vivência legítima”. Creio que nem mesmo D. José Policarpo contesta esta legitimidade.
-“e apontar que, ao contrário do que muitos julgam, também não é a fé no sobrenatural que resolve estes problemas.” Totalmente de acordo. Em primeiro lugar porque ainda não entendi o que quer dizer com o termo ‘sobrenatural’; em segundo lugar porque os problemas que enfrentamos devem ser de facto resolvidos por nós, com os pés bem assentes na terra. A fé não resolve os problemas, mas responsabiliza os crentes pela sua solução.
Um abraço.
Alfredo Dinis
Caro Alfredo,
Obrigado pelo comentário e pela promessa de crítica. É disso que precisamos. Eu também julgo não valer a pena criticar como irracional e anti-humana toda e qualquer religião. Não teço muitas críticas ao budismo, por exemplo. Mas há aspectos de muitas religiões que considero tanto irracionais como anti-humanas e, por isso, julgo ser construtivo apontá-los. Dou-lhe um exemplo.
O assaltante é livre mas usa mal a sua liberdade. Quando o castigamos ou o ameaçamos não o tornamos nem mais livre, nem mais humano nem mais capaz de usar a sua liberdade de melhor forma. Apenas restringimos a sua liberdade. O ideal ético humano não é guiar-se por obrigação a terceiros, ou visando recompensa ou evitando castigos. O ideal, a pessoa que eu quero ser, é aquela que tem a oportunidade de roubar, que sabe que nunca vai ser apanhada nem punida, mas que ainda assim não rouba. Isto não é razão para concluir que não há deuses, mas é razão para se alegrar que não haja e para criticar como anti-humano quem alega que a ética tem que vir de outro e não do próprio no pleno exercício da sua liberdade.
Mudando de assunto, eu discordei que os textos do Portal Ateu se opõem à religião «de uma forma completamente indiscriminada e inadequada». Discordo que seja completamente indiscriminada e que seja completamente inadequada. Concordo que muitos «se centram num ataque cerrado aos aspectos efectivamente mais deprimentes de certos comportamentos de pessoas que se dizem religiosas.» Mas parece-me que são duas coisas muito diferentes. Já agora, noto que o critério para considerar alguém religioso não pode ser outro que a pessoa se dizer religiosa. A natureza da religião não permite algum teste empírico que determine se a pessoa é ou não é religiosa como diz. Afinal, até há religiões sem deuses…
Há coisas positivas na religião? Sim. Mas parece-me que nenhuma das coisas positivas na religião precisa da religião. É perfeitamente possível manter as coisas positivas tirando a religião e, com ela, todas as coisas negativas que certamente concordamos a religião também tem.
Finalmente, acho duvidoso, ou pelo menos incompreensível, que José Policarpo considere perfeitamente legítima uma visão do mundo que ele propõe ser o maior drama humano. E também me parece estranho que a fé num ser omnipotente de cuja vontade tudo o que acontece está totalmente dependente seja uma boa via para assumir responsabilidade pessoal pela resolução dos problemas. Na minha experiência, depois de sair de casa dos meus pais tornei-me muito mais responsável.
Voltando ao início, alegra-me esse respeito crítico. Devemos sempre respeitar as pessoas e sempre considerar as suas ideias, e as nossas, de forma crítica. É uma parte fundamental desse projecto humanizador. E é uma das razões porque considero a fé desumanizante, por se tratar de uma aceitação acrítica.
Um abraço,
Ludwig
Ludwig
Presumo que não lhe passou pela cabeça que as pessoas possam chegar à fé depois de um processo de aceitação crítica.
Caro Ludwig,
Há alguns critérios para se decidir se uma pessoa tem legitimidade para reclamar que actua em nome da sua religião. Um doente mental que se proclama Jesus Cristo não deve ser levado a sério. Sobre isto creio que não haverá dúvidas. E ninguém acreditará facilmente que uma pessoa invoque o aparecimento numa visão do seu defunto pai para justificar um homicídio que ele lhe terá encomendado. Um mínimo de bom senso é suficiente!
No que se refere à liberdade, parece-me que o acentuar da independência de juízo está muito de acordo com a perspectiva individualista que é filha do iluminismo racionalista. Qualquer decisão é sempre condicionada por factores que são em parte conscientes e em parte inconscientes, em parte racionais e em parte emocionais, e sempre situados na ‘rede’ – biológica, cultural - que somos todos nós, seres humanos. Falar de um indivíduo com a ‘sua’ liberdade como algo que se caracteriza por uma ‘posse exclusiva’, é sempre uma abstracção. É numa complexa teia de relações interpessoais e interculturais que se exerce a nossa liberdade. Digo ‘nossa’, porque a ‘minha liberdade’ nunca é algo que eu possa reclamar em abstracto só para mim, fora das relações interpessoais que me fazem ser a pessoa que sou, aberta ao diálogo, por natureza, e não por simples opção.
A afirmação “parece-me que nenhuma das coisas positivas na religião precisa da religião. É perfeitamente possível manter as coisas positivas tirando a religião.” é aceitável, mas tem o inconveniente de ser abstracta. Prefiro falar de pessoas concretas que tomam decisões corajosas com as quais arriscam a vida por outros seres humanos concretos, em nome das suas crenças religiosas. Se levamos a discussão para o nível da abstracção, também posso dizer que ‘nenhuma das coisas positivas da ciência precisa do ateísmo’ – talvez o contrário seja verdade. Mas isso não é certamente, para os ateus, um argumento que justifique a inutilidade do ateísmo.
Quanto à omnipotência divina como impeditiva da liberdade e da responsabilidade humanas, é uma questão que tem sido debatida pelos cristãos ao longo dos séculos - o que contraria a tua da ausência de crítica em religião. Para além da ambiguidade do termo ‘omnipotência’, mesmo que se tomasse este termo no sentido mais literal do termo - ‘poder fazer tudo o que der a Deus na sua real gana! – tal não significaria necessariamente que Deus actuasse sempre como tal. O termo ‘omnipotente’ é mais filosófico que teológico, e é bastante abstracto. A omnipotência divina só pode ser bem entendida se for contextualizada numa realidade feita de relações interpessoais no interior das quais Deus pode criar seres dotados de tanta autonomia e responsabilidade quanto lhe permitir a sua natureza. É neste Deus que acredito.
Finalmente, a afirmação “considero a fé desumanizante, por se tratar de uma aceitação acrítica” não corresponde necessariamente à verdade. Poderá haver tanta aceitação acrítica da religião como da ciência, da técnica ou da arte. Mas isso não significa que as coisas se passem sempre e só deste modo. Podes crer, Ludwig, que em religião a fé interroga e desafia a razão tanto quanto a razão interroga e desafia a fé. Mais uma vez, saindo do abstracto, posso dizer-te que é esta a minha experiência e a de muitos outros crentes.
Caro Ludwig, podes crer que as tuas observações críticas continuam a ser estimulantes. Obrigado.
Um abraço,
Alfredo Dinis
Caro António,
É possível chegar a uma conclusão por um processo crítico. Mas não é possível ter a conclusão como definitiva se se mantiver o espírito crítico.
Caro Alfredo,
Se um doente mental afirma ser filho de Deus podemos determinar que não é. Há testes de paternidade para determinar se o seu pai é humano ou divino. Mas se o doente mental afirma acreditar na ressurreição na salvação da alma pela fé no poder redentor de Jesus Cristo penso que o razoável é considerá-lo religioso mesmo que seja doente mental. E neste caso o “bom senso” é claramente insuficiente para distinguir os religiosos “verdadeiros”.
Quanto à liberdade, concordo. Não faz sequer sentido exigir uma ausência total de restrições. Mas podemos usá-la num sentido mais útil que é o da quantidade de restrições que vêm de nós. Lutero, apesar de afirmar não poder agir de outra forma, foi mais livre na sua tomada de posição do que Mandela quando ficou na prisão. Porque o primeiro foi limitado pelas restrições que se impôs a si mesmo e não pelas grades que os outros lá puseram.
Também concordo que, como método, a ciência não precisa de ateísmo e seria útil também num universo com deuses. Mas como corpo de conhecimento seria completamente diferente se houvesse deuses. Em cada modelo tínhamos que deixar espaço para milagres e excepções ad hoc. O conhecimento científico que temos hoje é fruto de ter escolhido sistematicamente alternativas ateístas e preterido as explicações teístas. Não por preferir o ateísmo à partida, mas porque as primeiras eram sistematicamente superiores como explicações. De certa forma, é o ateísmo que depende muito da ciência. Se a teoria criacionista estivesse mais de acordo com os factos do que a teoria da evolução a ciência teria optado pela primeira e o ateísmo, enquanto modelo da realidade, teria sido refutado.
Finalmente, parece-me que confundiste fé com religião no teu argumento. A religião tem muito de crítica. É uma construção social humana plena de tensões. Livros, encíclicas, exegeses, 95 teses, tudo isso pode ser objecto de crítica na religião. Todas essas coisas dão razões e de todas se pode exigir razões. Excepto na fé. A fé é o fim da crítica e começa onde se acabam as razões. Nesse sentido é desumanizante porque dar e exigir razões é a característica mais saliente do ser humano.
Um abraço,
Ludwig
Caro Ludwig
Ter fé não significa perder o espírito crítico mas também não é sinónimo de “duvidar sempre”.
Caro Ludwig,
Continuo a pensar que o conceito de liberdade que utilizas é formal e abstracto. Há outros conceitos, a meu ver, igualmente defensáveis e menos abstractos.
Quanto à distinção entre quem é religioso e quem não é, concordo em que não é fácil traçar uma linha nítida ou estabelecer critérios objectivos. Há certamente o critério da coerência, também utilizado, aliás, pela ciência e pela filosofia. Uma pessoa que se diz ser interlocutora especial do Espírito Santo, e depois, por exemplo, passa a vida a enganar os outros não me merece qualquer credibilidade.
Insistes, por outro lado, em sublinhar o confronto entre ciência e religião no que se refere à compreensão da natureza. A ciência levou a melhor sobre a religião em casos como Galileu e Darwin, mas hoje – e acho importante não estarmos permanentemente voltados para o passado! – o cristianismo, para falar do que conheço melhor, nada tem a ‘temer’ da religião, nem tem que entra em confronto com ela. A crença em Deus é compatível com qualquer teoria científica precisamente porque não se coloca ao mesmo nível. O cristianismo não tem nenhuma explicação científica própria sobre a origem do universo ou da vida.
Finalmente, a distinção entre religião e fé existe, mas não podemos separá-las demasiado. Como dizem os filósofos, ‘distinguir não é sempre separar’. A fé não tem o carácter irracional que lhe atribuis. A fé não consiste em acreditar no absurdo e no irracional. Se assim fosse, eu já seria ateu. A fé está ligada a uma experiência pessoal de relação com Deus – mesmo que isso possa, no limite, ser uma ilusão – muito mais do que a um conjunto de conteúdos cognitivos, ainda que estes não estejam ausentes. Mas isto é o que se passa com as relações interpessoais entre os seres humanos.
Um abraço,
Alfredo Dinis