Uma opinião científica sobre um dogma religioso específico
Por Ricardo Silvestre • 6 Jun, 2008 • Categoria: Ciência & Educação, OpiniãoNa continuação de um post que coloquei aqui, gostava de vos apresentar uma opinião mais técnica, sobre a continuada intromissão da religião na investigação do potencial terapêutico das células estaminais embrionárias.
Estudos com células estaminais embrionárias podem proporcionar um conhecimento sobre qual o mecanismo que causa este tipo de células a se diferenciarem. Estas células encontram-se no embrião humano e podem ser totipotentes ou pluripotentes, sendo que a diferença entre estas é o seu poder de diferenciação. Algumas das condições médicas mais incapacitantes, como é o caso do cancro e de defeitos à nascença, acontecem devido a uma divisão de células incorrecta ou problemas no processo de diferenciação.
Um conhecimento mais detalhado sobre qual o mecanismo genético e molecular destes processos pode proporcionar um caminho para o desenvolvimento de novas e mais eficazes terapias para combater estas condições.
Como em qualquer processo científico, esta linha de investigação exige um maior conhecimento de como se processam estes fenómenos: cientistas actualmente não entendem ainda na totalidade quais os sinais biológicos que activam (ou desactivam) genes que influenciam a diferenciação das células estaminais. Mas essa é a natureza da ciência, e o trabalho dos investigadores deve continuar para se continuar a descodificar esses sinais.
Outra área que pode beneficiar do estudo deste estilo de células é a indústria farmacêutica, onde novos medicamentos podem ser testados em culturas celulares provenientes de linhas celulares pluripotentes.
No entanto, o potencial científico mais declarado é a aplicação de células estaminais na criação de células e tecidos que podem depois ser utilizados em “terapias baseadas em células”. Esse progresso podia colmatar a necessidade de órgãos e tecidos humanos para o tratamento de pessoas doentes, como é o caso de órgãos em falência, ou tecidos destruídos, uma vez que a procura é claramente superior à oferta existente.
Existem muitas formas em que as células estaminais podem ser utilizadas para investigação médica e em investigação científica. Como podemos ler no sítio da Internet do National Institutes of Health dos Estados Unidos, “células estaminais embrionárias, uma vez dirigidas para uma diferenciação para tipos específicos de células, oferecem a possibilidade de se tornarem uma fonte de células e tecidos que podem ajudar a tratar doenças como a de Parkinson e Alzheimer, lesões na coluna cervical-lombar, acidentes vascular cerebrais, queimaduras, doença cardiovascular, diabetes, osteoartrite, e artrite reumatóide.”
Parecem existir assim todas as condições para que esta linha de investigação seja considerada uma prioridade científica, social, e até moral, de forma a se encontrar mais uma forma de aliviar o sofrimento humano.
Aparentemente não!
As igrejas católicas e protestantes não compartilham esta visão. Pelo contrário, para estas instituições, o estudo com células estaminais embrionárias representam um grave problema que a sociedade moderna enfrenta.
Na opinião oficial destas igrejas, é imoral a produção e/ou utilização destas células.
Uma vez que ambas estas religiões mobilizam milhões (se não biliões) de pessoas, e tentam amiúde ter uma acção a nível de influência de decisões governamentais ou da sociedade civil, convém saber qual a justificação para esta posição tão fortemente contrária a este progresso tecnológico.
Algumas respostas apontam para o facto de que, para os religiosos, o embrião humano, no momento da fusão dos gâmetas, passa a ser um “sujeito humano” com uma “identidade bem desenvolvida”. Esta crença faz com que este “sujeito humano” tenha direitos, defendidos pela teologia natural, que refere que o “sistema do probabilismo não é aplicável”.
Em particular, o Vaticano promulgou que “para os católicos, a Igreja sempre ensinou - e ensina - que tem de ser garantido ao fruto da geração humana, desde o primeiro instante da sua existência, o respeito incondicional que é moralmente devido ao ser humano na sua totalidade e unidade corporal e espiritual” (Evangelium vitae - referindo-se à Instrução Donum vitae da Congregação para a Doutrina da Fé)
Quando as igrejas tornam casos como estes em “questões morais”, deve haver uma exigência por parte da comunidade científica, das pessoas não religiosas (e até mesmo religiosas), e de grupos seculares, para a saber da justeza destes assuntos se tornarem “reféns” de doutrinas religiosas.
Mas mesmo que fosse. Vamos imaginar que a religião tem verdadeiramente o direito de “dizer de sua justiça”. Façamos esse exercício filosófico.
Como diz Sam Harris, se em cada blastocisto existe um “sujeito humano” interpretado pela gramática religiosa como uma “alma” que entrou no momento da fertilização, qual é o critério que define que esse “sujeito humano” tem mais direitos que outro, nomeadamente quando um primeiro é um conjunto de 150 células, não diferenciadas, sem sistema nervoso, sem órgãos, sem consciência, enquanto o segundo é um ser complexo, consciente, com uma experiência e história de vida: um trolha vitima de acidente cardiovascular, uma advogada com uma falência no pâncreas, ou um bombeiro com queimaduras extensas no corpo?
Se as igrejas querem ver um embrião como um potencial “sujeito humano”, então qualquer célula no corpo é um “potencial ser humano”: uma vez que qualquer célula com um núcleo e com o ADN intacto, se propriamente manipulada, pode ser um potencial ser humano.
E em relação ao dogma que a “alma” é a unidade que produz uma “identidade bem desenvolvida” existe todo uma aritmética de “almas” que não é abordada pelos teólogos cristãos. O que acontece quando um embrião se divide em dois (gémeos idênticos)? Ou quando se fundem (quimera)? O que acontece à “alma”? Ou às “almas”?
Mas muito mais importante, e premente na sociedade moderna, é que quem apresenta tantas certezas, como é o caso das “certezas religiosas”, tem de apresentar as provas concretas que suportam essas “certezas”. Para que a “alma” de um blastocisto seja mais importante que a “alma” de uma criança com uma lesão na espinha cervical-lombar, as religiões cristãs devem ter de defender de uma forma muito mais racional e “moral” as suas posições, no lugar de apelar à irracionalidade e mitos com origem na Idade do Bronze da Humanidade.
Mais facilmente escomungam um cientista que manipule embriões ou células estaminais do que um homicida ou um pedófilo…
E para não falar que os sectores mais conservadores (e religiosos) não são contra a pena de morte. Gostava de saber a diferença entre o “respeito incondicional que é moralmente devido ao ser humano na sua totalidade e unidade corporal e espiritual” na sua fase embrionária e esse mesmo respeito para um ser humano adulto que cometa um determinado crime passível de pena capital.
Ricardo Silvestre
“qual é o critério que define que esse “sujeito humano” tem mais direitos que outro, nomeadamente quando um primeiro é um conjunto de 150 células, não diferenciadas, sem sistema nervoso, sem órgãos, sem consciência, enquanto o segundo é um ser complexo, consciente, com uma experiência e história de vida”
É uma pena que ache que haja seres humanos mais importantes que outros. Também, se podiam utilizar crianças sem abrigo, ou com deficiência, que supostamente têm um destino condenado, para salvar advogados e bombeiros!? Porque não dá a sua vida por outra pessoa que considere superior a si?
“então qualquer célula no corpo é um “potencial ser humano”: uma vez que qualquer célula com um núcleo e com o ADN intacto, se propriamente manipulada, pode ser um potencial ser humano”
Por isso a Igreja também é contra a clonagem humana.
Ricardo Sá. Você já tinha interpretado erroneamente coisas que escrevi, mas sempre pensei que fosse por causa da minha forma de escrever que é algo confusa. Mas desta vez, só posso concluir que está a deturpar as minhas palavras por maledicência: que comparação mais ignóbil a que fez.
Se você acha que um blastocisto é um “ser humano” realmente a conversa não pode progredir mais. O seu dogmatismo e irracionalidade ofuscam a sua inteligência, e directamente (alias como se pode ver pelo teor do seu comentário) a sua argumentação.
Fico seriamente preocupado com a capacidade que mostra de ter feito a insinuação que fez, perguntando polidamente se eu seria capaz de ser um eugénico, por causa de uma argumentação sofisticada e coerente da minha parte. Só mostra o vosso desespero: ao não conseguirem defender os vossos dogmas, partem para discursos vazios e alarmistas.
Como escrevi no artigo: “quem apresenta tantas certezas, como é o caso das “certezas religiosas”, tem de apresentar as provas concretas que suportam essas “certezas”, e você não apresentou mais nada do que insulto intelectual e pobreza argumentativa.
RS
Bem realmente, se a igreja é pela vida….devia mesmo apoiar um projecto que pode salvar milhões vidas….
““então qualquer célula no corpo é um “potencial ser humano”: uma vez que qualquer célula com um núcleo e com o ADN intacto, se propriamente manipulada, pode ser um potencial ser humano”
Por isso a Igreja também é contra a clonagem humana.”
Esse “por isso” estraga a tua linha de raciocínio… Por que se são contra a utilização de células embrionárias obtidas de uma forma “não natural” por impedir que se desenvolva a partir dessas células um ser humano, por que não são então contra a não utilização de células com potencial de se transformarem num ser humano, quando o objectivo é mesmo esse? Criar um ser humano a partir de uma célula com esse potencial (clonagem)?
E sim, já sabemos que a maioria das religiões são, por exemplo, contra a masturbação, mas não vejo nenhuma campanha contra o desperdício de espermatozóides que esta prática pressupõe (falo da masculina, como é óbvio), que vendo bem são milhões de células quase quase quase humanas (se o zigoto já o é, por que não o espermatozóide, já que defendem a “não existência de barreiras de tempo na formação da vida”?) que nunca têm a oportunidade de se desenvolver numa pessoa.
O “por isso” de que falas é simplesmente por ser “anti-natura”. E o que não é natural é contra a vontade de Deus, claro! Mas deviam começar a ser mais coerentes. Por exemplo, deviam proibir totalmente o recurso à medicina! Por que é que interferir no curso duma doença (protelar os seus efeitos ou mesmo eliminá-la) não é interferir com os desígnios de Deus? Ou Deus afinal quer que os humanos se curem a si mesmos? É que parece-me que “a vontade de Deus” é e sempre foi “o que mais convém” para determinadas pessoas.
Ricardo Silvestre
De facto, não se pode saber quando é que a alma entra no ser humano. Mas como sabemos no momento da concepção ficam grande parte das características do indíviduo definidas. Se a Igreja Católica considera que um embrião é um indíviduo em potência, uma fase pela qual todos nós passamos e por isso é que aqui estamos hoje, porque é que o seu racíocinio sofisticado não compreende a posição da Igreja sobre a utilização de células estaminais embrionárias? Deste ponto de vista, a analogia que fiz é perfeitamente correcta e racional…
Talvez seja um pouco alarmista, mas eu acho que o racionalismo cego pode levar a este tipo de situações.
Nuno
No nosso corpo mandamos nós, e portanto faço o que quiser com ele, sujeito-o às cirurgias que quiser e gasto as células que quiser das mais diferentes formas. Só que do meu ponto de vista, as células do embrião não pertencem a ninguém, a não ser ao próprio embrião. Obviamente que o embrião não pensa, nem faz nada e está totalmente dependente da mãe, ou do laboratório, mas não é por isso que este deve ser utilizado como um produto comercial.
João Ribeiro
A Igreja não está contra todo o tipo de células estaminais. As células estaminais adultas também têm um enorme potencial e já são aplicadas em seres humanos, podendo também salvar muitas vidas. Para além disso, as células estaminais embrionárias podem originar problemas gravíssimos ao serem aplicadas, nomeadamente a ocorrência de teratomas, cancro que afecta os diversos folhetos germinativos. Mas obviamente que disto, o Ricardo Silvestre não fala, pois aproveita tudo o que pode e o que não pode para atacar a Igreja.
Ricardo Sá escreveu: “De facto, não se pode saber quando é que a alma entra no ser humano”.
Parece-me que, para ser coerente, teria que acrescentar “como, se, porquê, por onde”… Apenas o “quando” acho muito pouco!
Helder Sanches
Acho que é necessário existir alma, ou espiríto o que quer que lhe chame, senão seríamos só matéria orgânica. E nós não somos apenas matéria orgânica. Há algo que diferencia um morto de um vivo.
Muito interessante o seu ponto Ricardo. Como é que é possível um conjunto de elementos inconscientes dar origem a um ser consciente e inteligente? Porque é que os computadores ou robots não têm consciência e nós temos?
Porque é que você tem a sua consciência dentro do corpo do Ricardo Sá e não de outro qualquer, segundo o ateu porque é que você só tem uma consciência agora passado um número infinito de anos? ( contradição em termos).
Eu pessoalmente, já li vários documentos baseados em experiências de quase morte que são impressionantes e que não podem ser atirados para o lado com o “falta de oxigénio”. Se fossem puras alucinações porque é que as pessoas veriam o seu corpo? Porque não ver o rato Mickey e o Bugs Bunny? Como é que pessoas idosaas e cegas à nascença são capazes de descrever os médicos e as máquinas da sala de operações? . Acho que empiricamente será mais fácil provar a existência de uma alma do que de um Deus. E eu conheço ateus já agora que acreditam numa sobrevivência pós morte.
“E nós não somos apenas matéria orgânica.”
Não?
“Há algo que diferencia um morto de um vivo”.
Posso presumir, então, que, uma vez que uma barata viva também é diferente de uma barata morta, as baratas também têm alma, certo? Uma vez que um suricata vivo também é diferente de um suricata morto, os suricatas também têm alma, certo?
“Mas como sabemos no momento da concepção ficam grande parte das características do indíviduo definidas.”
Isto só mostra a falta de entendimento de processos biológicos dentro de um sistema de raciocínio naturalista e científico:
não “ficam grande parte”… fica no seu todo definidas as características. Quando o ADN materno e paterno se associam, juntamente com mais ou menos erros de transcrição e mutação de certos genes, as características ficam impressas no ADN que eventualmente será a pessoa. Mas isso é igual para todas as células. Quer dizer que todas essas células tem uma “alma”? Onde se enquadra exactamente a “presença” da alma num blastocisto? Essas células não estão ainda definidas a nível do seu percurso embriológico, tanto podem te sinais para se transformarem numa célula do cérebro como do pulmão.
É uma argumentação ridícula que uma “entidade” sobrenatural, entre num blastocisto, e que seja a base da consciência e da espiritualidade da futura pessoa. É este dogmatismo irracional que faz a religião chocar com a ciência e o conhecimento, quem estudar o mínimo sobre como se desenrolam os processos naturais, sabe, inevitavelmente, que não há qualquer possibilidade de haver outra maneira de as coisas funcionarem, sem serem da única maneira que a natureza as criou.
Por muito que se expliquem, continua a ser ofensivo a sugestão que “racionalismo cego” (essa expressão é só em si absurda) leve à defesa de decisões eugénicas. É ofensivo e falta de honestidade intelectual.
Que eu saiba, e não sou o único, as características de um indivíduo também dependem do ambiente em que é criado, e não só do DNA. Não sei onde tirou o curso, mas deve ter faltado a alguma aula….
Quanto às almas, se não acredita não posso fazer nada. Por acaso não sabia que os ateus achavam que não temos alma, pensava que era óbvio. Talvez fosse mesmo uma ideia a que sempre me habituei, mas vou reflectir sobre o assunto….
Caro Ricardo Silvestre,
Quando afirma “é este dogmatismo irracional que faz a religião chocar com a ciência e o conhecimento” decerto quer dizer “‘e este dogmatismo irracional que faz Ricardo Sá chocar com a ciência e o conhecimento”. Assim tudo fica mais claro e objectivo!
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Olá Ricardo Silvestre,
Penso que há um equivoco principal neste texto.
Acho que está a invocar a religião e os dogmas sem grande razão de ser, porque o problema das células estaminais que refere não é religioso mas sim antropológico.
Por problemas intelectuais profundos, dos quais a Humanidade já padece há uns dois ou três séculos, muita gente deixou de ver o ovo fertilizado da espécie Homo Sapiens como sendo um ser humano. Sabe-se lá porquê, e nesta era de Ciência, que já nos explicou que a matéria cromossomática nele presente é exactamente a mesma que se encontra num ser humano adulto, deveria ser óbvio que a Ciência já provou há largas décadas que um ovo fertilizado resultante da união dos gâmetas humanos feminino e masculino é mesmo um ser vivo da espécie Homo Sapiens.
Esta dúvida científica é inexplicável, mas muitas pessoas ainda não compreendem este facto. A Igreja não está a defender um dogma, mas sim o mais elementar bom senso e a verdade científica.
Outros dirão: tudo bem, o ovo fertilizado pertence à espécie Homo Sapiens. Mas porque razão teria direitos, ou o direito à vida?
Aqui entramos noutro debate, e a essas pessoas seria interessante mostrar uma cópia da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Mesmo neste campo moral do debate, não é preciso ir buscar dogmas: eu gosto de reconhecer o direito dos outros seres humanos à vida porque gosto também que me reconheçam o meu.
Para mais, é triste que não se fale no facto de que há uns bons duns meses que se descobriu uma forma inovadora de obter as tão desejadas células a partir de células-tronco adultas. É uma técnica nova, que torna desnecessária a velha técnica, mas anda tudo muito preocupado com a obtenção de direitos para destruir embriões humanos…
Há quem faça dos embriões humanos um cavalo de batalha. Essas guerras têm muito pouco de ciência e muito de ideologia, mas isso dava outra conversa!
Sobre os direitos do Homo Sapiens à vida desde que se constitui geneticamente, eu escrevi um longo texto que está disponível no meu blogue. Acho que reuni bons argumentos. Gostava de saber a sua opinão, Ricardo.
Um abraço,
Bernardo
Rui Janeiro:
“É uma pena que ache que haja seres humanos mais importantes que outros. ”
Nunca um aglomerado de células pode ser considerado um ser humano. Ser humano pra mim envolve muito mais complexidade do que um amontoado de células que não difere em nada de outras células embrionárias de um orangotando ou de um camundongo.
Caro Alexandre,
As suas dúvidas podem ser esclarecidas em bons manuais de embriologia humana. Um embrião, ou para todos os efeitos, mesmo na sua fase inicial de zigoto, é um ser humano totipotente, dotado da complexidade genética que o vai permitir desenvolver-se até à idade adulta, num processo contínuo, sem saltos mágicos nem interrupções.
Considerar o zigoto como um “aglomerado de células” é um insulto à ciência e à embriologia. E há diferenças genéticas entre um zigoto de Homo Sapiens e um zigoto de Orangotango.
Cumprimentos,
Bernardo Motta
Considerar que uma célula (ou um aglomerado, vá! mas o que pelos vistos está aqui agora em causa é o zigoto) é um ser humano como todos os outros é um insulto ao bom senso!
E não percebo estes complexos com “a carga genética do Homo Sapiens”
Bernardo, revi o meu livro “Principles of Neural Science” pelos professores Eric R. Kandel, J.H. Schwartz, and Thomas M. Jessell (que me custou uma fortuna (!!!) mas que precisei de ler para o meu doutormento) e na parte de embriologia… nop, não está aqui em nenhum lado que um blastocisto é um “ser humano”. Sem dúvida, um blastocisto pode ser totipotente, mas não diz aqui nada sobre almas a entrarem nas células: espere, vai me dizer que estive a ler o livro errado? E eu a pensar que estar a ler o livro de um prémio Nobel (Prof. Kandel) era o manual correcto.
Vá lá, Bernardo. Liberte-se desses dogmas! A única diferença nos dois zigotos que fala, é que um está mais equipado para desenvolvimento de zonas no cérebro de pensamento abstracto e linguagem (e nem em todos)
“Vá lá, Bernardo. Liberte-se desses dogmas!”
You first….
Ricardo,
«Bernardo, revi o meu livro “Principles of Neural Science” pelos professores Eric R. Kandel, J.H. Schwartz, and Thomas M. Jessell (que me custou uma fortuna (!!!) mas que precisei de ler para o meu doutormento) e na parte de embriologia… nop, não está aqui em nenhum lado que um blastocisto é um “ser humano”.»
Não vejo porque razão deveria estar. Os senhores autores que refere, pelos vistos, usam da sobriedade natural à linguagem do verdadeiro cientista. Qual seria a lógica de introduzir linguagem não científica, filosófica ou de outro tipo que não o científico?
O cientista não tem competência “ex cathedra” para tecer considerações éticas. Pode ter opiniões pessoais, mas se ele se pronunciar sobre matéria ética (o que num manual como o que indica seria estranho), será em termos pessoais, e não na sua qualidade de técnico competente.
Muita coisa se resolveria se tantos materialistas dos nossos dias se habituassem a separar a técnica do técnico. Ou seja, se essas pessoas conseguissem distinguir entre o que é uma ferramenta (no seu caso, um manual científico) e o que é o utilizador dessa ferramenta. A ética só se aplica a este último.
Não é a ética da ciência que se deve discutir. Ciência é ciência. É a ética do cientista que se deve discutir. Não há ética ou ausência dela numa clínica de abortos. As ferramentas usadas para abortar são como são: nem boas nem más. As pessoas que lá “trabalham” é que são objecto de considerações éticas.
Os autores do livro que refere ensinam, certamente, coisas fundamentais:
a) a totipotência do zigoto
b) o seu património genético 100% humano
isso basta para um livro de ciência.
O intelecto razoável fará o raciocínio que se impõe:
a) o zigoto, pelo seu genoma, é humano
b) o zigoto, porque não precisa de mais informação genética para se desenvolver, é um ser geneticamente diferente e independente da sua mãe ou pai
Este raciocínio, que explica de forma cabal e irrefutável porque razão um zigoto Homo Sapiens é um ser humano, é um raciocínio filosófico. Não tem nada a ver com ferramentas científicas, mas sim com o raciocínio intelectual que olha para os dados e para os factos, que considera as ferramentas técnicas, e que tece considerações lógicas.
O que é engraçado, porque permite-me responder ao que o Ricardo escreveu a seguir:
«Sem dúvida, um blastocisto pode ser totipotente, mas não diz aqui nada sobre almas a entrarem nas células»
De novo, a alma é um conceito filosófico. Sim, se acha que é religioso, não está a ter em consideração a míriade de filósofos não cristãos que debateram o assunto. O que faria a noção filosófica de alma num manual científico? Penso que nada…
«espere, vai me dizer que estive a ler o livro errado?»
Se quer aprender Ciência, parece-me que está a ler os autores certos.
Se quiser aprender filosofia, posso recomendar outros.
«E eu a pensar que estar a ler o livro de um prémio Nobel (Prof. Kandel) era o manual correcto.»
Se a área do Prof. Kandel é a mesma do manual que indicou, anda certamente a ler o manual correcto.
«Vá lá, Bernardo. Liberte-se desses dogmas! A única diferença nos dois zigotos que fala, é que um está mais equipado para desenvolvimento de zonas no cérebro de pensamento abstracto e linguagem (e nem em todos)»
Mais nenhum animal não-humano conhecido é capaz de realizar precisamente o que eu aqui escrevi: silogismos, encadeamento de raciocínios, pensamento lógico e estruturado.
Isso diz muito sobre a diferença colossal entre o Homo Sapiens e os restantes animais. Temos imenso património genético em comum, é certo. Mas o erro do materialismo, um erro filosófico (e não científico) está em pensar que nós somos apenas os nossos genomas. E por isso, pela estrada do erro adiante, acham que se o nosso genoma praticamente se sobrepõe ao do macaco, então somos praticamente macacos.
Sem se darem conta do abismo intelectual que existe, e que é forçosamente complicado de explicar por via empírica, porque o que faz o ser humano demonstrar actividade intelectual sofisticada não tem apenas a ver com fenómenos empiricamente mensuráveis.
Mas isto leva-nos longe demais: eu aceito a complexidade de um debate filosófico sobre almas e imaterialidade. Mas já fugimos do tema: nada disto é preciso para ver o óbvio crime do aborto. Quem quer que reconheça, de forma coerente, o direito humano à vida, e pensa pela sua cabeça, vê as coisas como elas são.
Por isso, um ateu materialista (e eu vejo-os como pessoas equivocadas) tem tudo à sua disposição para reconhecer o aborto como um crime. E alguns reconhecem-no, corajosamente, contra as modas quotidianas.
Eu não estou a dizer que o Ricardo não reconheça o direito à vida: reconhece-o, mas é incoerente, porque não o reconhece a todos os seres humanos. Usa um inválido critério de idade biológica para definir uma artificial fronteira do direito à vida.
Eu não estou a dizer que o Ricardo não pensa pela sua cabeça: certamente que pensa, e já o demonstrou, apesar de para mim ser evidente em si a influência de muitos preconceitos e ideias feitas, fortemente mediatizadas pelo “establishment” cultural dos nossos dias. É complicado escapar a ele: eu demorei vários anos. Noutros tempos, também eu defendi o aborto nalgumas situações, e felizmente, com o passar dos anos deixei-me levar pela razão em vez de ficar refém da propaganda.
Um abraço
Bernardo
Caro Nuno,
Imagine que eu lhe respondia só assim:
«Considerar que um zigoto não é um ser humano como todos os outros é um insulto ao bom senso!»
Tinha dois efeitos: fazia-me poupar tempo e eu ia-me embora mais relaxado, porque tinha descarregado as minhas emoções numa frase.
No entanto, essa frase ajudaria pouco…
Já reparou? A frase não tem qualquer argumento. A frase diz apenas que o outro lado não tem bom senso. Não é que isso seja algo mau em si. Eu acho que os defensores do pretenso “direito” ao aborto não têm bom senso. Mas procuro argumentar racionalmente, e explicar metodicamente, porque razão o digo.
Sem argumentos, como no caso do seu comentário, não se consegue grande coisa.
É a diferença entre gritar e argumentar.
Já agora, tenho a dizer, em resposta ao seu breve comentário, que o problema ético não está nas células. Eu posso amputar o meu braço direito se ele gangrenar. E o meu braço está cheio de células com o genoma do Homo Sapiens. Só que, se eu amputar o meu braço, e a amputação for bem feita, eu sobrevivo.
É a diferença, caro Nuno, entre um ser inteiro (vítima de um aborto que mata de forma irreversível) e uma parte desse ser. O nosso valor ético, como seres humanos, não está nas células ou num pequeno aglomerado delas. Está neste todo independente e autónomo que é o ser humano.
Um abraço,
Bernardo