Uma opinião científica sobre um dogma religioso específico

Na continuação de um post que coloquei aqui, gostava de vos apresentar uma opinião mais técnica, sobre a continuada intromissão da religião na investigação do potencial terapêutico das células estaminais embrionárias. 

Estudos com células estaminais embrionárias podem proporcionar um conhecimento sobre qual o mecanismo que causa este tipo de células a se diferenciarem. Estas células encontram-se no embrião humano e podem ser totipotentes ou pluripotentes, sendo que a diferença entre estas é o seu poder de diferenciação. Algumas das condições médicas mais incapacitantes, como é o caso do cancro e de defeitos à nascença, acontecem devido a uma divisão de células incorrecta ou problemas no processo de diferenciação.

Um conhecimento mais detalhado sobre qual o mecanismo genético e molecular destes processos pode proporcionar um caminho para o desenvolvimento de novas e mais eficazes terapias para combater estas condições.

Como em qualquer processo científico, esta linha de investigação exige um maior conhecimento de como se processam estes fenómenos: cientistas actualmente não entendem ainda na totalidade quais os sinais biológicos que activam (ou desactivam) genes que influenciam a diferenciação das células estaminais. Mas essa é a natureza da ciência, e o trabalho dos investigadores deve continuar para se continuar a descodificar esses sinais.

Outra área que pode beneficiar do estudo deste estilo de células é a indústria farmacêutica, onde novos medicamentos podem ser testados em culturas celulares provenientes de linhas celulares pluripotentes.

No entanto, o potencial científico mais declarado é a aplicação de células estaminais na criação de células e tecidos que podem depois ser utilizados em “terapias baseadas em células”. Esse progresso podia colmatar a necessidade de órgãos e tecidos humanos para o tratamento de pessoas doentes, como é o caso de órgãos em falência, ou tecidos destruídos, uma vez que a procura é claramente superior à oferta existente.

Existem muitas formas em que as células estaminais podem ser utilizadas para investigação médica e em investigação científica. Como podemos ler no sítio da Internet do National Institutes of Health dos Estados Unidos, “células estaminais embrionárias, uma vez dirigidas para uma diferenciação para tipos específicos de células, oferecem a possibilidade de se tornarem uma fonte de células e tecidos que podem ajudar a tratar doenças como a de Parkinson e Alzheimer, lesões na coluna cervical-lombar, acidentes vascular cerebrais, queimaduras, doença cardiovascular, diabetes, osteoartrite, e artrite reumatóide.”

Parecem existir assim todas as condições para que esta linha de investigação seja considerada uma prioridade científica, social, e até moral, de forma a se encontrar mais uma forma de aliviar o sofrimento humano.

Aparentemente não!
As igrejas católicas e protestantes não compartilham esta visão. Pelo contrário, para estas instituições, o estudo com células estaminais embrionárias representam um grave problema que a sociedade moderna enfrenta.

Na opinião oficial destas igrejas, é imoral a produção e/ou utilização destas células.

Uma vez que ambas estas religiões mobilizam milhões (se não biliões) de pessoas, e tentam amiúde ter uma acção a nível de influência de decisões governamentais ou da sociedade civil, convém saber qual a justificação para esta posição tão fortemente contrária a este progresso tecnológico.

Algumas respostas apontam para o facto de que, para os religiosos, o embrião humano, no momento da fusão dos gâmetas, passa a ser um “sujeito humano” com uma “identidade bem desenvolvida”. Esta crença faz com que este “sujeito humano” tenha direitos, defendidos pela teologia natural, que refere que o “sistema do probabilismo não é aplicável”.

Em particular, o Vaticano promulgou que “para os católicos, a Igreja sempre ensinou – e ensina – que tem de ser garantido ao fruto da geração humana, desde o primeiro instante da sua existência, o respeito incondicional que é moralmente devido ao ser humano na sua totalidade e unidade corporal e espiritual” (Evangelium vitae – referindo-se à Instrução Donum vitae da Congregação para a Doutrina da Fé)

Quando as igrejas tornam casos como estes em “questões morais”, deve haver uma exigência por parte da comunidade científica, das pessoas não religiosas (e até mesmo religiosas), e de grupos seculares, para a saber da justeza destes assuntos se tornarem “reféns” de doutrinas religiosas.

Mas mesmo que fosse. Vamos imaginar que a religião tem verdadeiramente o direito de “dizer de sua justiça”. Façamos esse exercício filosófico.

Como diz Sam Harris, se em cada blastocisto existe um “sujeito humano” interpretado pela gramática religiosa como uma “alma” que entrou no momento da fertilização, qual é o critério que define que esse “sujeito humano” tem mais direitos que outro, nomeadamente quando um primeiro é um conjunto de 150 células, não diferenciadas, sem sistema nervoso, sem órgãos, sem consciência, enquanto o segundo é um ser complexo, consciente, com uma experiência e história de vida: um trolha vitima de acidente cardiovascular, uma advogada com uma falência no pâncreas, ou um bombeiro com queimaduras extensas no corpo?

Se as igrejas querem ver um embrião como um potencial “sujeito humano”, então qualquer célula no corpo é um “potencial ser humano”: uma vez que qualquer célula com um núcleo e com o ADN intacto, se propriamente manipulada, pode ser um potencial ser humano.

E em relação ao dogma que a “alma” é a unidade que produz uma “identidade bem desenvolvida” existe todo uma aritmética de “almas” que não é abordada pelos teólogos cristãos. O que acontece quando um embrião se divide em dois (gémeos idênticos)? Ou quando se fundem (quimera)? O que acontece à “alma”? Ou às “almas”?

Mas muito mais importante, e premente na sociedade moderna, é que quem apresenta tantas certezas, como é o caso das “certezas religiosas”, tem de apresentar as provas concretas que suportam essas “certezas”. Para que a “alma” de um blastocisto seja mais importante que a “alma” de uma criança com uma lesão na espinha cervical-lombar, as religiões cristãs devem ter de defender de uma forma muito mais racional e “moral” as suas posições, no lugar de apelar à irracionalidade e mitos com origem na Idade do Bronze da Humanidade.

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