Dicas da felicidade
Por Manuel Lopes • 6 Jun, 2008 • Categoria: Cultura, Juventude, Opinião, Psicologia & SociologiaAo navegar pela net, deparei-me com um daqueles sites que não interessa a ninguém com algumas dicas que as pessoas devem seguir a fim de se sentirem melhores consigo próprias e viverem melhor (e mais felizes) a sua vidinha. Entre essas “dicas” constavam indicações relacionadas com hábitos alimentares, de saúde e de higiene, bem como formas de os visitantes se inserirem melhor numa sociedade. Alguns hábitos sociais também se contavam da lista (quase) interminável de recomendações. Nada de especial até aqui, não é?
Muito bem, por curiosidade, ao correr a lista de “dicas para se viver melhor” dei de caras com algumas dicas muito interessantes. Aqui vão elas (já traduzidas):
“26. Vá à igreja (ou missa): faça novos amigos e contacte com o seu lado espiritual na igreja ou templo.
(…)
31. Considere a hipótese da religião: se não é uma pessoa espiritual, considere envolver-se mais com a religião a fim de melhorar o seu bem-estar emocional.”
Ora bem, se bem que concorde (ou nem sempre) de algumas sugestões do autor daquele artigo, não percebi lá muito bem por que raio é que alguém (repare-se, não religioso) necessita de ir à igreja para fazer amigos e de ter uma religião para se sentir melhor consigo mesmo. Parece-me até um pouco contraditório.
Primeiro, qual a razão de a pessoas frequentarem igrejas e templos?
Segundo, existirá uma relação de causalidade entre a religiosidade e crença e a felicidade e bem-estar pessoal?
Relativamente à primeira questão, não vejo outra razão para frequentar uma igreja ou templo senão a de mostrar devoção ao deus respectivo. Sim, não é para obter conforto espiritual nem fazer amigos, caros leitores. É para se prostrarem e mostrarem a sua vassalagem ao seu deus. Uma vez que maior parte das religiões (embora o que vou dizer não seja propriamente verdade) apregoa a solidariedade e o altruísmo, as pessoas adeptas dessas religiões não poderão ter mais nenhum objectivo ao ir à igreja senão o de ajudar os outros! E os outros não podem ir lá à procura, numa atitude de egoísmo, de ajuda. Logo, a única “entidade” que justifica a ida à igreja é deus, porque esse pode tudo e mais alguma coisa, nomeadamente pode ter demonstrações de altruísmo por parte do seu povo em favor do seu omnipotente egoísmo…pelo menos é o que dizem.
A segunda pergunta é mais complicada. Ora bem, temos aqui duas facções: a dos que dizem “sim, claro, sou mais feliz porque sou religioso” e a dos que dizem “claro que não, sou feliz e não sou religioso nem crente”.
Bem, tenho aqui a dizer que nem uns nem outros estarão correctos. Acham mesmo que isto é assim tão simples? Já sei que o Helder Sanches se pronunciou sobre isto num artigo da sua autoria (muito sinceramente não me lembro qual é), mas sem querer ser chato tenho a dizer que “não bate a bota com a perdigota”.
Ou seja, é assim tão difícil considerar que existem crentes que não são felizes (aqueles que vivem no mundano martírio e com elevado espírito de sacrifício à espera de melhor num mundo do além imaginário)?
Ou que existam ateus ou agnósticos que são completamente infelizes (vá lá, não atribuem a culpa do seu mal-estar emocional a causas do mundo das fadas)?
A realidade é uma e ao mesmo tempo várias. Acho que algumas pessoas têm que se consciencializar de que os factores da realidade que nos rodeia (ambientais, de saúde, financeiros, sociais, relacionais, laborais, entre outros) e a conjugação entre esses mesmos factores, aliados à personalidade de cada um, são aquilo que nos pode fazer mais ou menos felizes. Não tem absolutamente nada a ver, em termos objectivos, com a adopção de uma religião ou com a falta de crença.
Simples, não é? Provavelmente, ainda que isto seja uma afirmação provida de incerteza e de prova, quem não tiver uma crença poderá lidar com certas realidades de forma mais consciente e sóbria do que alguém que atribui a ocorrência desses factores a entidades fantasma. Não sei, é só uma opinião.
De qualquer forma, vale a pena visitar o tal site e dar uma espreitadela aos comentários que foram feitos a esta lista de “dicas para se viver melhor”. Por mim, digo que se ganhasse o Euromilhões era bem mais feliz!
Podem ver o site a que me referi aqui.
Bem hajam!
Este site representa a psicologia barata e teorias da felicidade que associo a certas e determinadas publicações periódicas que nunca trazem nada de jeito. De x em x tempo lá se vê um artigo deste género, a apregoar conselhos para uma vida mais feliz que pecam na originalidade e que se repetem consecutivamente, de revista para revista e de ano para ano. Mais parece uma religião cujos conselhos para a vida evoluíram, não deixando de ser um monte de banalidades.
A nível “social” gostei da medida “Start a blog”, embora ache que um perfil no HI5 seja socialmente mais interessante, nomeadamente para quem anda ao engate ou à procura de amigos. Claro que quem se for a uma igreja não terá muita sorte e, provavelmente irá encontrar gente mais interessante se der uma festa ou se se juntar a um clube de qualquer coisa…
A “Be thankfull “(nº 43) é para rir.
Sempre quando digo minhas convicções ou as poucas certezas de que tenho, as pessoas ficam indignadas com meus comentários. Uma amiga de um bom tempo, motivou-me a relatar aqui pois ao ler as “Dicas de felicidade” aqui neste site,fez-me lembrar deste episódio. Como sei que não é caso particular acho conveniente expor o que escrevi . Talvez muitas pessoas podem identificar algo parecido com elas próprias.
Foram as seguintes palavras quando eu disse que YHWH era somente mais um deus remanescente do panteão mesopotâmico ou javé e que não era segundo ela “D’us”. Como tenho quase por certo que ela não lerá, espero que outras pessoas leiam e pensem se não é justamente esta maneira hermética que todos os religiosos se situam para protegerem-se dos contrários á sua fé.
“Tá bom, só espero que fique claro que nenhum comentário vai me fazer mudar de idéia ou ter dúvidas em relação a minha fé. Eu sou uma pessoa religiosa, acredito que Jesus é D’us e é o meu Senhor. E já expliquei o motivo de escrever D’us. Só imagino como deve ser ruim uma pessoa não acreditar em “nada”. Deve ser muito estranho uma pessoa acreditar que quando morrer, não vai mais existir… Que não existe um Deus que a criou… Graças a D’us não tenho essa mentalidade e nem quero ter! Posso provar com minha vida que D’us existe e garanto que não é nada da minha cabeça, nada criado por mim. Estou bem certa disso. D’us e o mundo espiritual é mais real do que todos nós juntos. Sei por experiência disso… Mas, repito… Religião não se discute!”
Escrevi o que acharia ser um conhecimento a mais. Sei que nem todos estão dispostos a saber um pouco mais principalmente quando suas certezas podem balançar. Mas não vem ao caso.
O fato de eu dizer coisas que são omitidas, a grande parte das vezes propositalmente pelas igrejas (E eu não disse nada referente a isto), não quer dizer que estou forçando uma opinião minha.
Não existe, como pode parecer, que há uma “evangelização do avesso” e que eu estou na empreitada de “desvirtuá-la para o caminho do mal”. Não existe nada disso !
Não sou o que as religiões chamam de “desagregador dos caminhos traçados para os filhos de deus”. Conheço isso muito bem. Fico realmente triste que esta possível impressão possa prevalecer. Não costumo discutir religião com alguma pessoa fiel por que eu não possuo nenhuma e sei que será em vão qualquer tentativa. Reconheço que tenho esta falha, a de gostar deste assunto por ser a base de muitas civilizações e povos que existiram muitíssimo antes do monoteísmo mais especificamente cristão e eu próprio não possuir religião. Mas a incompreensão é o preço a pagar da tão pouca paixão que eu ainda possuo na vida por algo.
Quando eu falo sobre religião com pessoas que se dispõem a isto, ninguém se ofende. Todos compreendem o percurso de cada uma, muitos daqueles que se dispõem a discutir religiões, quando também não as tem, falam sobre veracidade histórica, os medos, anseios, temores, próprios dos homens que as criaram e as criaram por serem homens daqueles tempos. Ainda assim parece a mim que o fator emocional, mesmo para as pessoas que falam abertamente sobre religião, tem peso de verdade. Então, como tenho a natureza de não aceitar verdades impostas e as quais mandam calar abandono a improdutiva discussão e recolho-me no silêncio.
Desculpe se eu por acaso dei a impressão de querer colocar dúvidas impertinentes em você. Quando você tem alguma convicção, ela escapa e transpira sem ao menos você perceber.
No entanto por vezes deixo que elas escapem involuntariamente pela respiração em formas de palavras inoportunas e contenho-me novamente. Eu tenho minhas convicções e guardo o máximo possível comigo. Somente uma desta coisas eu não gostaria de guardar. A rejeição é uma delas. Somente uma delas.
Quando você disse que não quer ter esta “mentalidade” ou seja, a de não “crer em nada”, você está certa. Eu perdi as ilusões, o mundo ficou mais cinza. Não sonho mais como eu sonhava antes. Nisto estou dizendo por mim pois sei que existem muitos que também não “crêem em nada” e que são felizes. Eu não sou. Talvez eu seja ainda mais infeliz por ter conhecido durante muitos anos de minha vida a esperança vivida por aqueles que crêem em um deus e eu busquei novos conhecimento além do que as escrituras diziam (malditos conhecimentos). Houve um nó que a razão firmou-se e eu não soube mais desatá-los.
Tomei em um momento da vida da mesma taça que promete vida eterna, felicidade eterna e paz. Um dia eu conheci a felicidade nesta taça. Eu fui feliz algum dia. Nos sonhos Podemos voar somente com o auxílio dos braços, ou respirar debaixo d’água como os peixes e conversar com animais falantes. Eu voava, eu sorria muito, muito é a primeira lembrança que eu tenho quando eu escorregava entre brisas. Claro que eu sei que isto não faz o menor sentido mas como eu disse, a razão estava acorrentava. Eu experimentava a felicidade aos goles e tudo era muito sensível para mim.
Os sonhos para mim, eram a manifestaçã mais visível e real do possível. Não haviam obstáculos para mim. Eu sentia uma efervescência interior que transbordava vida. Eu tinha muitos amigos animais e anjos. Eu sonhava e mesmo quando tudo emudecia para mim, eu podia escutar panis angelicus, jesus alegria dos homens e então eu sentia acolhimento num lugar sem dor, sem ansiedades ou angústias. Em momentos de contrariedades eu falava com um ser que nos ensinaram ser deus. Fiz dele amigo e tinha toda convicção do mundo que ele me ouvia e me escutava e apaziguava minhas dores. Eu fechava os olhos e sentia que poderia flutuar. Tudo era muito bom, perfeito e simples. Bastaria ter fé e vontade de ganhar a vida eterna. Também achava que ficaria jovem “do outro lado eternamente”. O desaparecimento de tudo que eu acreditava foi brutal. Eu me sinto mais sozinho do que poderia estar, mais do que eu desejaria estar em meus momentos de fúria com as pessoas.
Descobri que existe um deserto interior maior do que se pode plantar pois descobri que não existem sementes. Perder todo encantamento oferecido pela religião foi bom? Não parece que seja bom. Aliás, com toda honestidade eu não sei e não sugiro que a perca. Pode parecer que houve um sentimento de revolta. De início sim. Mas a fase do sentimento de revolta por ter me sentido enganado já passou. Agora, o alívio. Direi por que do alívio.
Não tenho medo de infernos horrendos, não sou “pecador”, não carrego esta culpa do pecado e vejo como uma eterna injustiça a idéia de inocentes devam pagar pelos “pecadores” ou seja lá qual a conveniência tirar disto.
Este tormento e lavagem cerebral de que se não agirmos direito não teremos o paraíso prometido e “arderemos num mármore do inferno onde o verme nunca morre e onde o fogo nunca se apaga e onde há o ranger de dentes” é desprezível, covarde, desumano, cruelíssimo. Não perco nada em desacreditar no que professam as religiões. Este é o alívio do qual falava. Sou responsável pelo meu próprio destino. Não sou determinado por deus algum. Se existe alguma coisa que se perde é a ilusão. Perdi em ilusão mas tive algum ganho em lucidez. Esta é minha auto-consciência. Esta história de “alcançar transcedência máxima” também já passou para mim.
No entanto, tudo desabou. Acordei de um sonho para cair em um pesadelo: A rotina, o cotidiano, o tédio de todos os dias e sempre tentando refletir pra que eu levanto e acordo todos os dias esse ser autônomo e autômato sempre me perguntando se tudo ou alguma coisa que eu faça vale mesmo a pena. Este é o outro pesadelo do qual falava que é conviver com a sombra de mim mesmo. Desta não se pode fugir.
Se você tem algum encantamento, agarre-se a ele com toda força, não deixe que fuja não perca as ilusões mesmo não sabendo que são ilusões. Tape os ouvidos às palavras com rigores lógicos sobre a vida, sobre o mundo, ignore toda ciência maldita, ignore todos os saberes seculares estúpidos e hereges que tentam lhe tirar o paraíso, os sonhos, as esperanças e cometem a barbaridade de afirmar que o céu é somente uma camada da troposfera cujo azul não foi pintado por um deus, mande a razão para a fogueira, que a razão queime todas suas conjecturas e não amolem os que estão felizes dentro de seu universo mágico… *
Rui,
Sim tens razão esse site parece um excerto de uma “Maria” ou de uma qualquer revista de telenovelas. Há, no entanto, que retirar algumas coisas boas daquela listagem imensa. Parece-me é que as pessoas andam tão distraídas na vida que se esquecem de algumas questões básicas que se prendem, não com a “felicidade”, mas com a qualidade de vida. E nesse aspecto, estas listas estereotipadas têm algo de positivo, embora tremendamente desprovido de bom gosto…
Tenho, porém que te fazer um reparo: provavelmente ir à igreja é melhor para fazer amizades do que ter um perfil no Hi5. O contacto pessoal é sempre preferível e ouvi dizer que por lá se come o corpo dos outros (Para os restantes leitores, isto foi uma piada). No hi5 não.
Caro Alexandre,
Se bem entendi do seu extenso comentário, terá respondido a alguém, em tempos, e afirmado, na parte final, que as pessoas devem agarrar-se às ilusões, porque a tomada consciência de que são somente ilusões lhe trouxeram algum vazio na vida.
Acho, no entanto, que o seu discurso se torna um pouco contraditório. Senão vejamos: terá respondido à sua amiga no sentido de afirmar que já não se sente “preso” a ideias de castração, de promessas de eternidades num céu ou paraíso ou de, caso fosse “pecador”, num inferno horrendo, num sistema de recompensas e castigos descrito na Bíblia e que repugna qualquer pessoa com um mínimo sentido de justiça. Depois acaba por afirmar que preferia não ter deixado o “sonho”, aquela realidade alternativa que o fazia ter algum conforto na vida e pensar que algo na vida faria sentido.
E é nisto que não concordo consigo, Alexandre. Eu também deixei esse mundo de ilusões e fantasia. Pus os pés bem assentes na terra e tento encontrar de forma lógica e coerente uma explicação para tudo. Se ainda existem fenómenos que não se conseguem explicar cientificamente, a minha resposta é simples: a ciência está num processo constante de evolução e desenvolvimento. Se há 500 anos atrás eu dissesse a um qualquer cidadão que era possível voar e atravessar um oceano em 10 horas, provavelmente seria ostracizado (ou até mandado queimar na fogueira). Hoje não.
No entanto, não me parece que seja assim tão difícil aceitar a condição humana sem a interferência de quaisquer entidades sobrenaturais. Se não é feliz por não acreditar num qualquer deus, não penso que o pudesse ser mais se acreditasse. Se me dissesse que não era feliz por não ter família, por não ter casa, por não ter algo que comer às refeições, por não ter círculos de amizades, por uma série de outros factores, isso seria perfeitamente aceitável. Não por não ter um sistema de crenças.
Aliás, referiu algo que me chamou bem a atenção:
“Não tenho medo de infernos horrendos, não sou “pecador”, não carrego esta culpa do pecado e vejo como uma eterna injustiça a idéia de inocentes devam pagar pelos “pecadores” ou seja lá qual a conveniência tirar disto”.
Pessoalmente, sinto-me bem mais feliz por ser eu próprio a traçar a minha “rota” na vida, através das minha vontade livre e esclarecida exteriorizada em acções (e da influência de factores externos e aleatórios), do que propriamente se aceitasse que existiria uma entidade inconstante, sobrenatural, castradora e injusta em muitos aspectos que guiava os meus passos. Isso significaria para mim que eu seria uma marioneta nas mãos de outrem, logo que a minha vida não faria sentido se fosse controlada por outros.
Muito obrigado pelo sue comentário,
Bem hajam!
Manuel Lopes,
Me foi útil seu comentário e agradeço. Quando eu li novamente minha carta, percebi que meu texto final tomou forma contrária, talvez, do que eu gostaria. Seria para ser irônico, mas acho que não deu certo.
Ficou sutilíssimo de tal forma que pareceu contraditório.
Se me referi à ela para que se apegasse a encantamentos foi por ser uma pessoa tão religiosa a tal ponto que chegasse ao cúmulo de uma irrealidade que somente alguém encantado com um mundo de fantasias pode conceber. Se eu falei para ignorar a ciência foi por que me venci pelo cansaço das explicações sobre os fenômenos mais básicos da natureza que alguém muitíssimo religioso não aceita e nem escuta e coloca qualquer coisa como a vontade de um deus. Quando dizia eu que foi somente pela razão e a dúvida que foi possível desvendar o que antes era mistério insondável, era sempre advertido sobre a ignomiosa ousadia de tirar de deus todos os acontecimentos naturais. Por fim, agora compreendo que quase agi como um fundamentalista de minhas convicções, se não fosse para ao menos convencê-la de que toda dúvida que temos sobre o que nos colocam como verdades absolutas, é legítima. tudo isso na tentativa de manter uma amizade e consideração apesar de pensamentos tão opostos.
Abraços.