Presunção e água benta

Por Ricardo Silvestre • 23 Mai, 2008 • Categoria: Ciência, Ciência & Educação

“A Santa Sé classificou como uma “monstruosidade” a aprovação, por parte dos parlamentares britânicos, da utilização de embriões híbridos, criados mediante a introdução de ADN humano em óvulos de animais.
O presidente da Academia Pontifícia para a Vida (APV), D. Elio Sgreccia, considerou, em declarações à Rádio Vaticano, que esses tipos de pesquisas “são graves do ponto de vista ético”.

D. Sgreccia acredita que a ideia de ajudar a encontrar remédios para doenças genéticas como o Alzheimer ou a Doença de Parkinson a partir de embriões híbridos “não tem fundamento”.

“É uma mentira mediática sem base científica”, atirou.”

Ver aqui.

E pronto.

Se o Sr. Sgreccia diz que é uma “mentira sem base científica” é porque a sua longa carreira científica, académica e laboratorial lhe deve dar essa convicção. Alias, pode-se ver pelos inúmeros artigos científicos publicados por este senhor (zero!) estudos organizados pela APV (nenhum!) ou simples leitura da bibliografia existente sobre este tema (nula!) que estes senhores sabem do que estão a falar.

Mas ajudemos o Sr. a não dizer, ele sim, “monstruosidades”.

O Instituto Nacional de Saúde Americano (National Institutes of Health no original) diz no seu sítio que:

“Existem muitas formas em que as células estaminais podem ser utilizadas para investigação médica e em investigação científica.

Células estaminais, uma vez dirigidas para uma diferenciação para tipos específicos de células, oferecem a possibilidade de se tornarem uma fonte de células e tecidos que podem ajudar a tratar doenças como a de Parkinson e Alzheimer, lesões na coluna cervical-lombar, acidentes vascular cerebrais, queimaduras, doença cardiovascular, diabetes, osteoartrite, e artrite reumatóide. ”

No sítio da revista The Scientist podemos ler que:

Investigadores na Hebrew University em Jerusalem usam uma linha de células estaminais que desenvolvem a mutação da “Síndrome de Fragilidade X”. que é a forma mais comum de deficiência mental, que permite estudar quis os momentos críticos para o desenvolvimento da mutação.

Num outro estudo em Boston no Children’s Hospital and Harvard Medical School, estudos em animais mostram que células estaminais neuronais podem ser utilizadas para o tratamento de desordens neuronais como a adrenoleucodistrofia, ou a esclerose múltipla.

E até deixamos aqui um pequeno vídeo sobre a aplicação prática desta linha de investigação para pacientes com arteriosclerose.

O que este senhor está a fazer é dizer aos melhores cientistas do mundo que eles estão todos enganados, ou pior ainda, que estão a agir de “má fé”, e que ele, do alto das suas bíblias empilhadas é que sabe mais que todos os outros.

E ainda pior, o que estes religiosos nos dizem é que, os interesses de um grupo de celulas não defenidas são mais importantes do que os de qualquer pessoa desenvolvida, consciente e em sofrimento. E isto por causa de um dogma que “a alma entra no óvulo no momento da concepção”.

Mais uma vez, estes senhores que se reduzam à sua insignificância em áreas que não dominam, e nas qual têm uma resistência dogmática que é contraproducente e absurda.

Se passassem mais tempo a ler o trabalho dos cientistas e menos tempo a dizer mal destes últimos, era bem melhor para todos.

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2 Respostas »

  1. De facto referiu vários exemplos sobre a importância da investigação em células estaminais. Só se esqueceu de referir que estas células não precisam de ser retiradas de embriões, e que as células estaminais embrionárias são extremamente difíceis de obter e podem causar originar vários problemas para os indíviduos transplantados. De facto, sobre as células estaminais embrionárias há muito mediatismo e poucos resultados, ao contrário das células estaminais não embrionárias que conseguem cobrir os bons resultados obtidos com células embrionárias e também têm um enorme potencial por descobrir.

    O Ricardo também não sabe se D. Elio Sgreccia se aconselhou com algum cientista ou se informou sobre o assunto, portanto as acusações disparatadas e infundadas são dispensáveis. De certeza que D. Elio Sgreccia, tal como o Ricardo, deseja que as pessoas não sofram com as diversas patologias que referiu, e que também espera que a cura para estas seja encontrada, mas sem passar por cima dos príncipios éticos que defende.

  2. Caro Ricardo

    Então, se não células embrionárias, menos uma razão para uma condenação pelo Vaticano.

    Mas mais uma vez, não contentes pelo facto de tentarem impedir o progresso da investigação na área das células estaminais embrionárias, também agora se pronunciam sobre células híbridas, uma vez que estão contra a infusão de ADN humano em células de animais: apesar de qualquer pessoa saber que a biologia de uns e outros é praticamente idêntica a nível celular.

    Quanto aos exemplos que dei, tanto derivam de estudos humanos, como animais, como de células híbridas.

    Mas o mais importante é não se ser dogmático e impedir o progresso civilizacional devido a “princípios éticos” baseados num livro escrito na Idade do Bronze

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