Cartas “pastorais”

O Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, publicou este Domingo uma Carta Pastoral na qual deixa apelos em favor de uma Igreja mais activa num tempo de “mutação cultural”.

O que apresento a seguir são algumas das frases proferidas pelo Sr. Policarpo, para que a comunidade ateísta, agnóstica e secular que nos visita saiba que são estas as “linhas directoras” que pautam o discurso, e seguramente a acção destes “líderes espirituais”.

1. “Lamento que a comunidade católica tenha vindo a perder espaço na sociedade como principal fonte inspiradora de valores da humanidade”.

Mais uma vez a igreja mostra a sua “humildade” e “falta de ambição”. A “principal fonte é a comunidade católica”? Não “uma das fontes”? Não”! A “principal” fonte. Como se tudo dependesse das acções da “comunidade católica”, incluindo a definição de “valores” como: irracionalidade, provincianismo, paroquialismo, num mundo cada vez mais modernizado e global.

 2. “É um erro considerar a fé cristã como uma atitude estritamente individual. Quer no seu dinamismo interno, quer na sua missão no mundo, a Igreja situa-se necessariamente num quadro cultural”.

“Necessariamente”. Não existe na cabecinha deste senhor qualquer lugar para dúvidas. É “necessário” que “não seja estritamente individual, mas que faça parte da cultura”. É “necessário” que a igreja se meta na vida dos outros, quer eles queiram que não. Afinal que interesse tem a opinião daqueles que estão “errados”.

3. “Hoje há uma fronteira de tensão entre a Igreja e a sociedade na afirmação dos valores morais, inspiradores da dignidade do homem e do sentido último da existência humana. A sociedade pressiona a Igreja para que adopte a sua dimensão secular de valores, evolutiva e pouco sensível à dimensão perene da vida humana”.

A sociedade não “pressiona” a igreja a ser pouco sensível “à dimensão perene da vida humana”. Se quiserem contar “histórias da carochinha” sobre paraísos onde todos os animais são amigos e onde existe maná no chão para se comer, ou que iremos ter asas e voar por cima de nuvens ou que vamos viver para sempre com aqueles que gostamos num pós-vida glorioso, façam favor. Haverá sempre crédulos para acreditar em tudo o que lhes é dito. Não esperem é que “sociedade” se regule por tais irracionalidades.

Na minha opinião, é até contraproducente estas “promessas” de vida depois da morte. Essas crenças fazem com que se veja o tempo que estamos na terra como uma “etapa” para algo “maravilhoso e justo”, o que justifica muitas vezes certos abandonos ao sofrimento e à miséria dos crentes.

4. A retirada de “Deus da vida do homem, em termos culturais” levou a que o ser humano ficasse “dependente de si mesmo, da sua inteligência, da sua liberdade, da sua criatividade e perdeu algo de muito importante na auto-compreensão de si mesmo, que é a consciência da sua precariedade e incapacidade”.

Arre!!! Mais alguém fica verdadeiramente ofendido com estas palavras?!
“Coitados” dos seres humanos, que podem ficar “dependentes de si mesmo, da sua inteligência, liberdade e criatividade”. O horror!!! O horror!!! O que será destes seres humanos, perdidos na escuridão das suas incapacidades e precariedades sem o grande “pai céu” na sua vida. Para estas pessoas, o ser humano que não se renda a deus é um ser sem qualidade, e que é incapaz até mesmo de apertar os próprios sapatos. 

5. “A absolutização da liberdade individual levou ao relativismo ético. Cada um decide a orientação da sua vida, o que é bem e o que é mal, progressivamente insensível aos valores de uma cultura comunitária”,

Como?!!?!?

Por onde começar? Não existe tal coisa como “Cada um decide a orientação da sua vida, o que é bem e o que é mal”. Existem leis, consensos, modelos de sociedade. Existe um moral construída, uma memória colectiva, um iluminismo civilizacional. Todas estas conquistas criam as regras de comportamento e percepção de bem e mal do ser humano. Apenas os sociopatas ou os psicopatas não respeitam estes pressupostos e decidem fazer tudo aquilo que querem.

O que o Sr. Policarpo está a fazer a apologia de uma ditadura celestial, com todos as nossas decisões e os nossos valores e morais dependentes de aprovação e conselho do seu deus.

E quanto “à liberdade individual” causar que uma pessoa fique ”progressivamente insensível aos valores de uma cultura comunitária”, só mostra a ignorância (ou a tentativa gratuita de alarmismo) deste senhor. As pessoas que assumem a sua “liberdade individual” para com o dogmatismo religiosos têm vidas perfeitamente integradas e em consonância com a comunidade, e com a cultura comunitária. Mais, se calhar, que certos crentes, que apelam constantemente pela beatice, intriga, maledicência, e intolerância.

Caros visitantes e amigos, é esta a realidade religiosa que temos. Sem filtros, sem perguntas, sem descrença, sem ultraje.

Ninguém na nossa sociedade: imprensa (falta de coragem), políticos (falta de poder), “opinion makers” (falta de visão) é capaz de criticar estas afirmações ou estas posições. Ninguém é capaz de emitir uma opinão sobre a falta de consideração, de respeito, ou de cuidado por parte deste senhor e dos dogmas religiosos que ele defende.

Este estilo de documentos é para “consumo interno”, certo. Mas é também o estilo de documento que “guia” os crentes, ou que pelo menos, os faz abanar a cabeça em concórdia com o “pastor-mor do rebanho”.

Depois são os ateístas que “não respeitam”, e que “ofendem” os religiosos.

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