Olho por olho?

Por Ricardo Silvestre • 19 Mai, 2008 • Categoria: Informação Jurídica, Internacionais, Notícias

“Ali Ahmed, terrorista da Al-Qaeda, foi ontem condenado à morte pelo Tribunal Criminal Central do Iraque que o considerou culpado por ter assassinado o arcebispo católico caldeu D. Paulos Faraj Rahho, em Fevereiro. Este foi o mais mediático ataque de extremistas islâmicos contra a pequena comunidade católica local de rito caldeu.

“O Tribunal Criminal condenou à morte Ahmed Ali Ahmed, conhecido como Abu Omar, pelo seu envolvimento na morte do arcebispo caldeu de Mossul”, afirma um comunicado do porta-voz do governo, Ali Al Dabbagh. “O condenado é um dos líderes do braço iraquiano da Al-Qaeda, procurado pela justiça pela sua responsabilidade em vários crimes contra o povo iraquiano”, afirmou Dabbagh.

Depois de quase 15 dias de rapto, na segunda semana de Março foi encontrado sem vida o corpo do Arcebispo Paulos Faraj Rahho, enterrado num terreno baldio utilizado como lixeira. Os cristãos são alvo dos sunitas e dos xiitas, vítimas de atentados, de sequestros, de pressão para que abandonem os seus lares e da cobrança ilegal do tradicional imposto que os governantes muçulmanos arrecadavam aos seus súbditos não-muçulmanos.”

Ver aqui.

Congratulo-me pelo facto que estes criminosos tenham sido apanhados, trazidos à justiça, e que tenham sido punidos nos moldes da lei local. E nem me incomoda que a igreja católica apresente esta notícia com este tom informativo e vindicado.

Mas.

Não deixo de reparar que neste caso a “superioridade” moral cristã ficou “à margem”. Num caso como este, não se justificava pregar “que se deve amar os nosso inimigos”? Que se “deve dar a outra face”? Que a “santidade da vida deve ser respeitada e só Deus pode retirar a vida”?

A mim não me incomoda que quem escreveu este texto estivesse satisfeito com o resultado do veredicto, sem um pensamento para os “ensinamentos” que tanto apregoam ser a base da moral cristã. Mas depois não venham dizer ao mundo que são “o” exemplo de moralidade e de liderança espiritual nas sociedades modernas.

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9 Respostas »

  1. Caro Ricardo,

    Levanta uma importante questão sobre a posição católica em relação à vida.

    Existe uma total coerência ideológica nestas matérias quando falamos da Igreja Católica. Não reconheço tal congruência em mim, situação que me causa algum desconforto e muito debate interno. A posição oficial desta denominações cristãs é de que a vida é um valor do qual não devemos prescindir. Alinha coerentemente a sua posição em relação à pena com a sua posição em matérias de aborto. Pergunto-me, sendo que no meu caso reconheço esta falha, se a maioria dos ateus não relativiza também esta questão. Muitos admitirão a possibilidade do aborto em casos específicos - ninguém é na realidade a favor do aborto - mas não abdicarão os seus principios na questão da pena de morte. Não lhe parece uma contradição importante?

  2. Considero que a questão levantada pelo Luís Nascimento é bastante pertinente, mas parte de um pressuposto errado. A questão do aborto - e estou à vontade para falar nesta matéria porque durante o debate do referendo sempre defendi o “Não” - tem a ver com algo muito mais complexo que se prende com o facto de não ser unânime a definição de a partir de quando é que um feto passa a merecer consideração ética ou, por outras palavras, a partir de que fase da gestação é que se pode considerar que se trata de um ser humano. Uma vez que as opiniões divergem nesta matéria, é natural que as opções em relação ao aborto também divirjam.

    Em relação à pena de morte, penso que ninguém no seu perfeito juízo questionará o facto de um ser humano adulto - seja ele quem for - se encontrar protegido pela tal consideração ética que, neste caso, considera a vida humana inviolável.

    Não caíamos, portanto, na tentação fácil de comparar o aborto com a pena de morte uma vez que se tratam de questões totalmente diferentes e cuja problemática envolve pressupostos totalmente dispares.

    Cumprimentos.

  3. Caro Helder,

    Penso que ilustrou bem o relativismo que mencionei. Ou se é a favor da vida ou não. A racionalização que fez em relação ao começo da vida é um subterfúgio intelectual frequente, apesar de reconhecer a sua solidez moral nesta questão. Não admitimos cedências à Igreja Católica quando se escusa de condenar a pena de morte referida no artigo do Ricardo, mas ao mesmo tempo reservamos esse direito para nós.

    A questão do respeito ético levanta um problema interessante: se podemos discutir sobre quando cronologicamente se inicia esse direito também não existirá um ponto a partir do qual possamos rescindir essa consideração ética quando actos hediondos são cometidos que possam justificar a pena de morte? Este é o problema da ambiguidade, presta-se logo a ser usada como arma de arremesso.

  4. Luís

    Não posso falar pelos ateus, apenas por mim.

    Para mim há muito menos relativismo do que para si. Sou algo mais absolutista em assuntos destes. Mas tento não ser hipócrita nas minhas posições: nunca direi por exemplo que “amo os meus inimigos”. Alias, acho tal posição imoral (para além de perigosa) e nunca faria a apologia do respeito e da tolerância para aqueles que não mostram respeito e tolerância para comigo.

  5. Ricardo Silvestre

    O texto é claramente informativo, e de acordo com as regras, deve-se a todo o custo evitar as opiniões pessoais.

    A posição da Igreja Católica é clara sobre a pena de morte: é contra. Não percebo porque é que procura criticar a Igreja onde não existe nada para criticar, só para ver se consegue mais fiéis para a sua seita.

  6. Se é contra, então devia fazer uma adenda a dizer, “Estamos muito satisfeitos com a prisão e a condenação destes criminosos, no entanto a pena aplicada não devia ser a pena de morte”

    Para terminar

    “só para ver se consegue mais fiéis para a sua seita.”

    É uma pena que as pessoas não consigam manter o nível de sofisticação que uma conversa entre pessoas inteligentes merece.

  7. Desculpe. Vou tentar ser mais racional e menos mesquinho para a próxima…

  8. Desta vez, temos que reconhecer que se retrataram:

    “A Igreja Católica no Iraque manifestou-se contra a condenação à morte de Ahmed Ali Ahmed, terrorista da Al-Qaeda envolvido no rapto e assassinato do Arcebispo caldeu de Mossul, D. Paulos Faraj Rahho, nos meses de Fevereiro e Março.”

    http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=60214

  9. [...] seguimento do nosso artigo de ontem sobre alguma ambiguidade na notícia apresentada no sítio Agência Ecclesia sobre a [...]

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