Dualidades (i)materialistas
Por Ricardo Silvestre • 14 Mai, 2008 • Categoria: Direito de RespostaPor Bernardo Motta.
“Eu não tenho provas para a falta de conhecimentos teológicos de Einstein, nem quero dar a ideia de que apenas teólogos encartados estão aptos. Aliás, o que não faltam por esse mundo fora são teólogos a dizer asneiras sobre Deus.
Vou tentar outra abordagem, que evite os problemas que me aponta. Trata-se do problema da metafísica.
No início do século XX, um bravo grupo de pensadores, conhecido pelo nome de “Círculo de Viena” (Wiener Kreis - veja aqui http://plato.stanford.edu/entries/vienna-circle/), tentou fazer uma
coisa gira…
Eles queriam, de alguma forma, provar os postulados do materialismo. Ou seja, que tudo o que existe é material, que só há corpos materiais, que a mente é uma percepção subjectiva de fenómenos mecânicos e
materiais, e que nada de metafísico existe. Carnap, por exemplo, tentou nada mais nada menos do que a demonstração da irrealidade da metafísica.
Um pouco aquilo que o Ricardo quer fazer aqui comigo: demonstrar que nada há de imaterial.
Essa tentativa é tramada como o raio. Se o nosso pensamento é todo ele determinado por fenómenos físicos, onde está o livre arbítrio? É ilusão que possamos, num dado momento, mudar uma atitude?
Eu estou aqui a escrever este comentário. Será que já está mecanicamente determinado que eu não vou fechar o browser sem acabar o comentário? Será que posso desistir agora mesmo??
…
não desisti!
Era isto certo, ou apenas probabilisticamente previsível? A mecânica quântica veio tornar estas questões muito complicadas. Einstein não se deu nada bem com alguns postulados da mecânica quântica,
sobretudo com o que veio a ser conhecido como a interpretação de Copenhaga.
Os problemas de Einstein, sem o querer menosprezar de qualquer forma que seja, advinham de uma visão “espinosista” do Universo, muito cartesiana, muito mecânica. O determinismo era algo inegociável na cosmovisão de Einstein.
A filosofia escolástica sempre soube lidar com estas coisas. Ela distinguia a forma da matéria. A matéria não tinha o seu ser em si mesma, mas sim na forma. Por exemplo, a estátua só era estátua porque o mármore tinha recebido a forma de estátua, e esta forma era imaterial. Ninguém negava a forma de estátua, porque essa realidade imaterial era partilhada por todos os que olhavam para a dita cuja. Era a forma que fazia aquele mármore ser visto como uma estátua.
Usando um exemplo atómico, o átomo de Árgon só é o que é pela forma que tem. É precisamente porque se trata de um arranjo de 2+8+8 electrões em torno de um núcleo de 18 protões e 18 neutrões que o Árgon é Árgon. Se pegar nesses mesmos protões, electrões e neutrões e os arranjar de outro modo, obtém outro átomo diferente. Ou seja, a forma imaterial faz toda a diferença.
Era isso que eu queria dizer: o imaterial faz toda a diferença. Sem a óbvia realidade da forma imaterial, nós nem conseguiríamos falar nem comunicar, uma vez que o fazemos usando formas (palavras orais ou
escritas).
Por isso, a iniciativa de Carnap, por muito fascinante que seja em termos epistemológicos, estava votada ao fracasso. Como diria Aristóteles, a forma é o que confere realidade à matéria subjacente. A forma ”actualiza” a potência material. Isso sucede com os objectos inanimados, desde as mais ínfimas partículas sub-atómicas, até aos seres vivos. Os cristãos usam o termo “alma” para designar a forma que organiza a matéria orgânica de um dado ser humano no ser que ele é.
Os problemas da mecânica quântica surgem porque se está numa escala microscópica ínfima. Quanto mais próximos estamos da potencialidade pura da matéria prima, cada vez menos “forma” encontramos na natureza. Por isso, o próprio instrumento de medida vai conferir “forma” ao fenómeno subatómico, fazendo assim colapsar a função probabilística de onda. Se a nossa única ferramenta para “observar” estes fenómenos é um canhão de partículas, é evidente que vamos fazer colapsar a função de onda, interferindo forçosamente na experiência. Deixa de existir, como existia ao nível macroscópico, uma observação neutra” (que, na verdade, nunca existe).
Devo esta forma engenhosa de “casar” escolástica com física moderna ao Wolfgang Smith. Sugiro este belo texto:http://www.catholic.net/rcc/Periodicals/HPR/April%202000/belief.html
Tudo isto para dizer que, tanto na física quântica, como nos fenómenos complexos da mente humana, estamos longe do mundo limpinho e organizado que os materialistas tanto gostariam de ter. A realidade é bem mais complexa do que estes imaginam. As recentes descobertas científicas, tanto macroscópicas e cosmológicas, como microscópicas, apontam no sentido de uma cada vez maior importância filosófica do conceito imaterial de forma, que é a única a poder explicar o que é, afinal, a realidade. Eu não sou o Bernardo por causa dos meus átomos apenas, mas sobretudo pela forma específica pela qual eles estão organizados. A forma não é material, e no entanto é bem real.
Só o conceito de forma resolve o problema ontológico da unicidade dos seres e o problema filosófico dos universais.”





“Usando um exemplo atómico, o átomo de Árgon só é o que é pela forma que tem. É precisamente porque se trata de um arranjo de 2+8+8 electrões em torno de um núcleo de 18 protões e 18 neutrões que o Árgon é Árgon. Se pegar nesses mesmos protões, electrões e neutrões e os arranjar de outro modo, obtém outro átomo diferente. Ou seja, a forma imaterial faz toda a diferença.”
Este não é um bom exemplo, Bernardo. Não se trata da “forma imaterial” determinar a forma material do átomo. A forma do átomo, é nela própria a sua materialidade. Não há um pressuposto imaterial que faz os electrões se arranjarem de forma a circular à volta do núcleo, nem o núcleo se manter estável com os seus protões e neutrões. Todos estes processos são materiais, desde a sua formação, passando pela sua função, até à sua recuperação como matéria-prima. Apelar por um “universo” subjacente (e imaterial) a todas estas características é apelar por uma “espiritualidade” natural que eu não vejo na natureza. São as leis da natureza, que regulam tudo o que existe e que é material, que controlam e suportam a existência.
“Era isso que eu queria dizer: o imaterial faz toda a diferença. Sem a óbvia realidade da forma imaterial, nós nem conseguiríamos falar nem comunicar, uma vez que o fazemos usando formas (palavras orais ou escritas).”
Mas estes fenómenos não se baseiam em “formais imateriais”. A propagação do som não é, nem depende de meios imateriais, mas sim da existência de ar, de cordas vocais, da propagação de ondas, de um sistema auricular capaz de receber e traduzir essas ondas em sinais nervosos e químicos que são transformados em “sons” nos nossos sistemas neuronais para o efeito.
O átomo existe não porque existe um suporte imaterial, mas porque é a sua materialidade que o permite existir dessa forma.
Não sei se é impressão minha, mas quando o Bernardo não mete a igreja até faz artigos bem interessantes.
Caro Ricardo,
«Este não é um bom exemplo, Bernardo. Não se trata da “forma imaterial” determinar a forma material do átomo. A forma do átomo, é nela própria a sua materialidade. Não há um pressuposto imaterial que faz os electrões se arranjarem de forma a circular à volta do núcleo, nem o núcleo se manter estável com os seus protões e neutrões. Todos estes processos são materiais, desde a sua formação, passando pela sua função, até à sua recuperação como matéria-prima.»
Há uma importante distinção, Ricardo, que os escolásticos já faziam. Estamos a falar de coisas diferentes. Eles reconheciam quatro tipos diferentes de causas para algo ser o que é:
a) causa material: o que compõe materialmente a coisa: electrões, protões e neutrões (por sua vez, estes poderiam também ser analisados precisamente deste modo, em quatro causas distintas)
b) causa formal: o que dá razão de ser ao nome que damos à coisa; o arranjo especial apresentado pelo átomo de Árgon é a sua causa formal; a causa formal está associada necessariamente à classificação e às categorias; se acharmos que as categorias das coisas são apenas convenções (como fazem os filósofos materialistas), então a causa formal será irreal; se acharmos que as categorias das coisas existem independentemente de nós e do nosso intelecto (como fazem os filósofos realistas), então a causa formal é real
c) causa eficiente: o que faz a coisa “funcionar”; aqui, entramos com as forças sub-atómicas que mantêm o átomo de Árgon estável
d) causa final: esta é mais subjectiva, tem a ver com a finalidade da coisa em si; eu arriscaria uma finalidade para o Árgon, mas que não será única porque é partilhada com os restantes gases inertes: ser quimicamente inerte!
Em suma, para a ciência moderna, só há causas materiais e eficientes, ou seja, só há o ponto de partida da matéria e a análise dos processos. Processos a operar sobre matéria. O Ricardo concorda certamente com esta visão, mas ao contrário de mim, defende que esta visão da ciência moderna representa toda a realidade.
Para a filosofia clássica (que eu necessariamente defendo), a realidade pode ser considerada de duas perspectivas interligadas (não isoladas): de uma forma empírica (causas materiais e eficientes) e de uma forma supra-empírica (causas formais, finais e eficientes).
«Apelar por um “universo” subjacente (e imaterial) a todas estas características é apelar por uma “espiritualidade” natural que eu não vejo na natureza.»
Claro que não vê! É invisível!
O essencial é invisível aos olhos, aqui está uma bela verdade…
«São as leis da natureza, que regulam tudo o que existe e que é material, que controlam e suportam a existência.»
Mesmo que concorde consigo neste aspecto (e concordo), essas leis, para serem reais independentemente das nossas convenções, são “estruturas” imateriais. As leis da natureza não não coisas materiais, mas sim princípios universais imateriais. É curioso, isto, porque se constata que é muito raro que os cientistas, ou as pessoas que trabalham nestas áreas, se preocupem com os melindres filosóficos clássicos como este, o de indagar acerca da realidade ontológica de certos universais, como as leis matemáticas, geométricas ou físicas…
«Mas estes fenómenos não se baseiam em “formais imateriais”. A propagação do som não é, nem depende de meios imateriais, mas sim da existência de ar, de cordas vocais, da propagação de ondas, de um sistema auricular capaz de receber e traduzir essas ondas em sinais nervosos e químicos que são transformados em “sons” nos nossos sistemas neuronais para o efeito.»
Tem toda a razão, mas fala-me novamente de causas eficientes no processo da comunicação oral. O que distingue lixo imperceptível, ruído electrostático, ou o “blá-blá-blá” caótico, da linguagem? Não é certamente o ar, ou a frequência ou amplitude das vibrações de compressão e expansão do ar durante a transmissão do som.
É a forma (ou melhor, a causa formal) que confere a semântica ao som transmitido. É ela que traz o significado. Certamente que esse significado é, depois, materializado pelas causas eficientes dos nossos neurónios, ou seja, o significado imaterial da forma da palavra é, depois, constatado nos processos neurológicos de activação sináptica, mas isso já é no nível eficiente, e não no nível formal (que é imaterial).
E, mesmo sem sair da física, há muito de imaterial e que ninguém contesta. Por exemplo, o dualismo partícula-onda reflecte, numa escala microscópica, a tensão existente na realidade entre os domínios do material e do imaterial, entre o empírico e o supra-empírico. A corrente eléctrica tem uma dimensão corpuscular e outra imaterial (onda electromagnética).
«O átomo existe não porque existe um suporte imaterial, mas porque é a sua materialidade que o permite existir dessa forma.»
Eu diria que o átomo só existe porque se reunem todas as quatro causas que referi na sua existência: a formal, a material, a final e a eficiente. A causa final é a que mais confusão fará a muitos ateus, porque invoca uma noção teística de finalidade. Mas eu não a consigo remover da “equação escolástica”!
É que estragaria tudo, deitar fora a causa final, que é magnífica!
Tudo isto pode parecer uma linguagem estranha, mas note-se a apetência de importantes vultos da física moderna pelo Vedanta hindu e por temas áridos como estes da ontologia e da metafísica… Estou a recordar-me de Schrodinger, Bohr, e outros mais recentes como Roger Penrose.
Curiosamente, poucos se interessam pelo infindável manancial da escolástica cristã, que também permite cruzamentos muito interessantes com a física das partículas e com a cosmologia, mas aí entra muitas vezes o preconceito… Santos da casa não fazem milagres!
É mais “cool”, nas modas dos séculos XX e XXI, ligar a ciência moderna ao Vedanta hindu, do que a São Tomás de Aquino e à escolástica!
Mas há, felizmente, excepções: o físico Stanley Jaki, por exemplo, é monge benedictino e sabe tanto de física como sabe de filosofia cristã e de teologia. É um especialista em história da ciência e tem escrito imenso sobre estes temas, abrindo caminhos novos para quem vive livre de preconceitos intelectuais e apenas aspira à pura das verdades.
Um abraço,
Bernardo
Oi Xiquinho,
«Não sei se é impressão minha, mas quando o Bernardo não mete a igreja até faz artigos bem interessantes.»
Meu caro, a “Igreja” está metida nisto até ao pescoço!

Nenhuma das raras verdades que eu digo ou escrevo é da minha lavra. Se eu errar, a asneira é minha, mas se acertar, é obra e graça do divino. A mais elementar atitude realista obriga-me a reconhecê-lo.
Nunca aprendi tanto sobre tantas coisas como desde que me decidi, há uma década atrás, no início da idade adulta, a aceitar Cristo como o Salvador, o Caminho, a Verdade e a Vida, e a Igreja Católica como a guardiã das verdades reveladas ao Homem.
Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat!
Um abraço,
Bernardo