“A minha filha mereceu morrer por se ter apaixonado”

Por Ricardo Silvestre • 14 Mai, 2008 • Categoria: Discriminação Religiosa, Internacionais, Notícias, Psicologia & Sociologia

Como apresentamos aqui, a jovem Rand Abdel-Qader, uma jovem Iraquiana, foi pisada, sufocada e esfaqueada pelo seu pai, que depois a enterrou de uma forma não cerimonial para aumentar ainda mais a desgraça da jovem. Isto depois de o pai ter sido avisado por conhecidos seus que Rand estava a mostrar em público sinais de simpatia para com um soldado Inglês na cidade de Basra, enquanto trabalhava para uma organização de apoio a vítimas Iraquianas. A jovem foi morta pelo pai, que contou com a ajuda dos seus dois filhos homens, tudo isto à frente da mãe de Rand, que nada pode fazer para impedir o que aconteceu.

Abdel-Qader Ali, pai de Rand, disse para o Guardian, um jornal do Reino Unido, que o único remorso que tem… é não ter matado a filha no momento em que ela nasceu. “Se eu soubesse no que ela se iria tornar, tinha-a matado no momento em que a mãe a teve. “

Numa entrevista no jardim da sua bem cuidada casa na cidade de Al-Fursi, Abdel-Qader continua um homem livre. Depois de ter sido detido pela polícia de Basra, foi libertado duas horas depois sem qualquer acusação. Pelo contrário, a polícia deu-lhe os parabéns pela sua acção. Abdel-Qader disse que “estes polícias são homens que sabem o que significa ter honra”.

“Morte é o que ela merecia”, disse Abdel-Qader. “Não tenho qualquer remorso. Eu tinha de dar um exemplo a todos os meus amigos que são pais, como eu, e que sabem que aquilo que ela fez não era aceitável para qualquer muçulmano que honra a sua religião.”

Ver aqui.

Abdel-Qader Ali é um cobarde e um monstro. O produto de uma “civilização” que trata metade dos seus cidadãos como gado, e outra metade como animais raivosos: que irão manter a “ordem social” através da obliteração do amor, da individualidade e da liberdade.

“Pessoas” como este Abdel-Qader, assim como outros que matam jovens mulheres com blocos de cimento, ou os “polícias” que respeitam esta “honra”, não são mais do que selvagens : seres sem qualquer honra.

Ter honra não é ser cego e fanático, não é ter uma obediência estúpida a “leis” que exigem a morte de pessoas, das próprias filhas (!!!) por estas mostrarem sinais de serem Humanas.

Mas o mais importante é tentar perceber as razões destes comportamentos. E para isso, deixo uma frase, proferida por este criminoso: “Eu tinha de dar um exemplo a todos os meus amigos que são pais, como eu, e que sabem que aquilo que ela fez não era aceitável para qualquer muçulmano que honra a sua religião.”

Abdel-Qader Ali não é uma “aberração”, não é um “psicopata”, ou um “rejeitado”, ou um “marginal”. Não. Este monstro é o produto, um membro, e um exemplo, de uma sociedade onde se “honra” os pressupostos bárbaros, violentos, e ignóbeis de uma religião.

Planeta Terra,  Sec 21.

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15 Respostas »

  1. Ricardo,
    como sempre oportuno.
    Estas situações aberrantes mantêm-se, perpetuam-se.. eternizam-se!
    Embora muitas vezes denunciadas nos mais diferentes órgãos de comunicação social, continuamos a embater num muro de silenciamento e inoperância por parte das altas instâncias internacionais.
    Eu sei, escusam de vir argumentar, que são questões do foro politico e religioso interno, desses países, mas quando toca a interesses económicos já não há esses pruridos.

    Enfim, continuaremos a ver mulheres espancadas, mortas pelas razões mais ignóbeis…
    Afinal são só mulheres.. que não são souberam estar como deviam e lhes mandam !!!!

    Fossem homens e outras posturas veríamos !!

  2. Eu só queria lembrar que o caso se passa no Iraque.
    Se os EUA pretendiam levar a “civilização” até ao Médio Oriente, fica bem patente que falharam; ou então, que os polícias iraquianos treinados pelo Tio Sam, devem ter tirado o estágio em Abu Ghraib.

  3. Caro Lucas

    Discordo em absoluto com o que escreveu. Estar a mencionar a intervenção militar no Iraque só confunde o debate sobre este tema.

    Mais, eu acho que o seu argumento só mostra mais uma vez o quanto o fanatismo religioso se sobrepõem a qualquer boa intenção. Os Iraquianos foram libertados pelos aliados do jugo opressivo e brutal de Saddam, e com essa liberdade, no lugar de caminharem para um modernismo civilizacional, continuam a mostrar o mesmo tribalismo e a mesma irracionalidade de antes.

    Nunca foi intenção dos aliados “educar” os Iraquianos. Isso já seria considerado como uma “cruzada”. E ao mesmo tempo, os muçulmanos (especialmente com a estúpida diferença que existe entre xiitas e sunitas), nunca conseguiram ver que a intolerância religiosa nunca seria o caminho para uma sociedade estável e cooperante.

  4. Oh Ricardo!

    “O fanatismo religioso se sobrepõem a qualquer boa intenção”? Mas qual “boa intenção”? De quem?

    “Os Iraquianos foram libertados pelos aliados do jugo opressivo e brutal de Saddam, e com essa liberdade…”? Mas qual liberdade? O Iraque hoje, é pura anarquia. E em anarquia, não existe liberdade.

    Dir-me-ás que não existe anarquia porque a polícia existe e um governo gere o Iraque. E depois? Como diria o Dias da Cunha, o “sistema” anterior foi desmantelado? Não me parece que tenha sido. Se assim fosse, os tais polícias não louvavam o Abdel.

    A religião, ao contrário do que pensas (e aqui também não posso alinhar pela mesma batuta do Hitchens), não é a única responsável pelo atraso civilizacional. Durante décadas os EUA manipularam Saddam como um fantoche contra o Irão! Que inovações civilizacionais é que os States obrigaram o Iraque a cumprir? Se houvesse vontade política e um punho de ferro secular, como dizem os jovens: “a religião amoxava!” (como por exemplo, foi o que aconteceu com Ataturk Turquia – bons velhos tempos! Se a Turquia pensa aderir hoje à EU, muito deve a ele; senão, vivia ainda na idade da pedra).

    Abraços

  5. Que coisa horrivel, trágica, absurda…! Agora me diz: os cristãos fazem muito melhor? Certo que não chegam a matar a filha, mas isso é imposição do Estado laico - mas podem ter certeza que muito expulsariam e renegariam a moça…

  6. Caro Lucas

    Não concordo com algumas das suas posições, mas aqui não é o lugar para as discutir. Por aqui temtareo sempre cingir o assunto à influência da religião, por exemplo, em política. Mas se for sobre política internacional, deve haver outros sítios onde se pode continuar o debate.

  7. Yes sir, Capt. Ricardo :)

    Obedeço ao coordenador do Portal. Mas continuo a afirmar que as questões não são estanques; e tanto não são, que se quiséssemos discutir aqui o livro do Hitchens sob esses presupostos restritivos de “só religião”, não o poderíamos: por exmeplo, o “God is Not Great” é todo ele política internacional E religião.

    Abraços

  8. Ricardo Silvestre

    Não resisto em perguntar-lhe depois deste artigo, ainda acha que a bondade dos seres humanos é inata?

  9. João Ribeiro.

    Não percebo porque me faz essa pergunta.

    “Ainda” penso que a bondade dos seres humanos é inata? Desde quando é que me pronunciei nesta matéria para o João me perguntar se eu “pensava, mas podia ter mudado”.

    Mas respondendo à sua pergunta (pela primeira vez), sim, acho que bondade é inata. Assim como a maldade. Estes monstros que mataram a sangue frio esta mulher-criança, num acto supremo de maldade, é possível que tenham chegado a casa e tratado os seus filhos machos com carinho, ternura, e bondade. Claro que também é o ambiente e a cultura que rodeia a pessoa que molda esses valores morais. E que faz ver os padrões de maldade e de bondade à luz dos valores vigentes nesse local. Se vivêssemos na Noruega seriamos muito mais bondosos e respeitadores para uns com os outros, se vivêssemos no Paquistão seriamos muito mais capazes de não o fazer.

    Mas, e como diria o Prof. Wienberg: “pessoas bondosas, fazem coisas bondosas. Pessoas maldosas, fazem coisas maldosas. Mas para pessoas bondosas fazerem coisas maldosas, é preciso religião.” E eu concordo em absoluto.

  10. Sinceramente, duvido que a bondade seja inata. Basta olhar para a crueldade das crianças umas com as outras. As crianças têm de ser ensinadas e os bons valores têm de ser transmitidos.

  11. Ricardo Sá

    Nunca viu uma criança a ser espontaneamente bondosa para com outra? Ou para com os seus pais? Ou para com um animal?

    Se acha que as crianças tem de ser ensinadas a terem bons valores, lamento que assim pense, porque não concordo de todo com essa opinião.

  12. Vi um programa chamado o Simio Humano sobre as diferenças entre os humanos e os simios que foi uma verdadeira lição de humildade. A bondade nem sequer é exclusivamente humana. Um simio fere a sua mão e é imediatamente confortado por outos- sem que haja qualquer vantagem para os que o ajudam. O Ricardo Sá achará que os primatas tiveram algum acesso a textos de origem divina para chegarem a este ponto? E antes que se atribua esta situação a uma questão de solidariedade de espécie lembro umas imagens muito conhecidas, estarão talvez disponíveis no Youtube, duma criança que caí no habitat dos gorilas num jardim zoológico, tendo perdido os sentidos. Uma gorila pega na criança como se fosse sua e procede a colocá-la na entrada do tratador. Como explica o Ricardo Sá estas manifestações de bondade?

  13. Parece-me a mim que a bondade é um reconhecimento civilizacional e não algo de per si.
    O “bom” ou o “mau” é-o em referência a algo; e esse algo, é a nossa sociedade; se uma criança nascesse e fosse criada na selva (em bom estilo Tarzan!) seria uma selvagem. Nem boa, nem má (pelo menos de acordo com os nossos padrões civilizacionais), mas simplesmente alguém que age para sobreviver. Os tais “valores” que reconhecemos como “bons ou maus”, são uma mera percepção nossa em relação a um comportamente expectável da criança de acordo com os nossos padrões.

  14. De facto, verificam-se vários actos de bondade nos exemplos referidos. Mas não quer dizer que sejam regra, e que todos nascem bons. É do senso comum que as crianças podem ser muito cruéis com os seus pares.

    Como já ouvi defender, e como disse o Lucas Samuel, uma determinada acção não é por si só, nem boa nem má, mas sim o que nós consideramos. Assim, se matar é mau para mim, pode ser bom para outra pessoa. Seria assim necessário transmitir que matar é mau!?!

    Dada a complexidade do ser humano, acho muito difícil fazer uma regra para este assunto…

  15. Sim o Ricardo Silvestre já se tinha pronunciado sobre o que lhe perguntei nas tardes da Júlia… Como o Lucas Samuel constatou e muito bem (nem acredito que estou a dizer isto), o que é bom e o que é mau, se não existe uma Lei Standard, passa a ser relativo, e portanto varia de cultura para cultura, a maneira como as pessoas agem é praticamente determinada pela cultura onde vivem.
    Se o Ricardo tivesse nascido numa dessas culturas Orientais, e não se ofenda com isto, provavelmente não teria problemas nenhuns com o espancamento e apedrejamento até à morte da rapariga.
    Em Esparta na antiga Grécia, os bebés eram abandonados ao frio numa montanha por um dia, para ver se eram fortes o suficiente, (isto sem qualquer tipo de motivos religiosos) e as pessoas viviam bem com isso…

    Eu fico muito contente por ter nascido neste lado do mundo fundado na base de valores cristãos…..

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