E=mc2, sem deus pelo meio

Por Ricardo Silvestre • 13 Mai, 2008 • Categoria: Internacionais, Notícias

“Einstein disse uma vez que “a ciência sem a religião é fraca, a religião sem a ciência é cega”. Esta frase (e outras iguais) tem despertado o debate entre crentes e não crentes sobre quais as verdadeiras convicções daquele que é considerado como um dos melhores cientistas mundiais do século 20.

Mas agora existe uma carta que irá a leilão esta semana em Londres, que tem pertencido a uma colecção privada durante os últimos 50 anos. Esta carta não deixa qualquer dúvida que o físico não apoiava crenças religiosas, e que Einstein considerava esse estilo de crenças como “superstições infantis”.

Einstein escreveu esta carta no 3 de Janeiro de 1954 endereçada ao filósofo Eric Gutkind, que lhe tinha enviado uma cópia do seu livro “Escolha a vida: um apelo da Bíblia para uma revolta”.

Na carta pode-se ler “A palavra deus não é para mim mais nada do que a expressão e produto de fraquezas humanas, a Bíblia uma colecção de lendas com mérito, mas se qualquer forma lendas primitivas que são muito infantis. Nenhuma interpretação, independentemente de o quão subtil seja, irá alterar isso.”

A carta irá a leilão na Bloomsbury Auctions em Mayfair e é esperada de atingir os £8,000 (cerca de 10.000 Euro).”

Ver aqui.

Alguém tinha de explicar a uma das pessoas mais inteligentes da história da humanidade o conceito de macro e micro leitura da bíblia. Talvez o Sr. Carreira das Neves o pudesse ter ajudado.

Afinal, parece que nem tudo é relativo.

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13 Respostas »

  1. Ricardo,

    Há um vício e um erro tão típicos que se vêem por toda a parte: quando admiramos alguém, procuramos endeusar esse alguém, e colocamo-lo num pedestal de perfeição que o próprio recusaria.

    Eu nunca usaria as palavras de Einstein para arriscar a compreensão de Deus ou do fenómeno religioso.
    Por uma razão simples: Einstein nunca estudou teologia nem se sabia exprimir coerentemente sobre esses tópicos.

    A carta que refere é um exemplo dessa incoerência: por um lado, Einstein sempre repudiou um Deus pessoal, um Deus cristão e bíblico. Por outro lado, Einstein sempre admirou (e amou) um Deus-Cosmos, muito ao estilo do panteísmo de Espinosa, autor de referência para Einstein.

    Não tenhamos dúvidas: Einstein era um cérebro brilhante a todos os aspectos. Mas, como todos os seres humanos, não teve um tempo de vida infinito nem teve a capacidade de estudar todos os temas do saber humano. Alguma coisa teria que lhe escapar. Do mesmo modo que não espero da obra e das palavras de Einstein grandes conhecimentos sobre poesia lituana, também não espero desse grande homem algo de consistente sobre Deus. Ele, simplesmente, não era especialista nessas matérias.

    O fascínio de Einstein pelo mecanismo e pela matéria, comum a muitos cientistas, levou-o muito longe no campo científico. Mas deixou-o muito pobre no campo metafísico. Einstein nunca conseguiu conceber um Deus imaterial e metafísico. Para Einstein, Deus eram as leis eternas do Cosmos. Uma clara confusão entre Criador e Criação.

    Para além de tudo isto, a infantilização que Einstein atribui às crenças bíblicas era, claramente, um mecanismo de auto-defesa em relação a uma área que ele temia por a desconhecer quase por completo.

    É perfeitamente humano, menosprezar áreas do saber que, não só parecem colidir com a nossa área de especialidade, como são também áreas muito complexas e que requerem muito tempo de estudo. Einstein adoptou, em relação à Bíblia, o caminho mais fácil.

    Essa opção, no entanto, e paradoxalmente, veio a dar-lhe problemas, pois ele viveu o suficiente para ver os problemas da visão materialista e mecanicista a virem ao de cima com Bohr, Heisenberg e todo o drama epistemológico da interpretação de Copenhaga…

    A confusão entre Deus e a Criação, tão forte em Einstein, levava-o à célebre frase: “Deus não joga aos dados com o Universo”. A realidade é muito mais complexa do que imaginamos. A parte material do nosso cosmos é importante e determinante, mas é determinada pela parte imaterial. Ainda agora estamos a começar a levantar o véu sobre a complexidade da realidade.

    Assustados com o peso esmagador do trabalho científico, alguns pensam que esse peso pode ser minorado deitando fora as Bíblias. Não tenhamos tanta pressa em deitar fora a Bíblia, que tem tanto para nos ensinar…

    Admiro muito Einstein, mas não planeio aprender cristianismo com ele! ;)

    Um abraço,

    Bernardo

  2. @Bernardo

    Mas quem endeusa Einstein são os religiosos que pretendem fazer dele um homem religioso que nao era.

  3. Não acredito que esta discussão ainda persiste…. e até me saltaram os olhos da cara, quando o senhor Luís Rodrigues, foi às tardes da Júlia, dizer que Einstein “era obviamente ateu”.
    Einstein não era ateu, nem era religioso, ERA deísta… acreditava no deus de Espinoza, num deus que não intervém se o benfica ou sporting vai ganhar o campeonato, nem está preocupado com o sexo ou com o que as pessoas comem, mas que é responsável pela criação do Universo e Leis da física, e isto disse muito bem o senhor Hitchens num dos debates com o Dinesh D´Souza.

    Não religiosidade:

    “I can not prove to you that there is no personal God, but if I were to speak of him I would be a liar.”

    “I do not believe in a personal God and I have never denied this but have expressed it clearly. If something is in me which can be called religious then it is the unbounded admiration for the structure of the world so far as our science can reveal it.

    Deísmo:

    “In view of such harmony in the cosmos which I, with my limited human mind, am able to recognize, there are yet people who say there is no God. But what really makes me angry is that they quote me for the support of such views.”

    “The more I study science the more I believe in God.”

    “I believe in Spinoza’s God who reveals himself in the orderly harmony of what exists, not in a God who concerns himself with the fates and actions of human beings. ”

    Isto encontra-se facilmente googlando…. Quando é que vão perceber que não religioso é diferente de ateu?

    Cumprimentos

  4. Bernardo.

    Pela sua argumentação, temos uma “mão cheia de pessoas” que podem falar realmente sobre fenómenos religiosos? Se o Bernardo acha que é preciso ser teólogo para falar sobre religião, fé, crenças, e deus, então aqui no PORTAL podemos fechar a secção de comentários dos meus artigos, uma vez que imagino que nenhum teólogo me leia, ou que tenha paciência para falar comigo. A não ser que você seja um deles.

    E não seja condescendente (não o estou a insultar gratuitamente, tenho respeito pela sua colaboração para poder usar este termo sem pensar que o estou a ofender) quando escreve que “O fascínio de Einstein pelo mecanismo e pela matéria, comum a muitos cientistas, levou-o muito longe no campo científico. Mas deixou-o muito pobre no campo metafísico (…)a infantilização que Einstein atribui às crenças bíblicas era, claramente, um mecanismo de auto-defesa em relação a uma área que ele temia por a desconhecer quase por completo.”
    Não sei quais as fontes que conhece para saber isto. Mas creio que estará a dar pouco valor ao Professor. Einstein foi educado numa colégio católico, e conhecia a bíblia (especialmente o antigo testamento que alias criticava com sabedoria principalmente quando se tratava de algumas das exigências que faz o povo Judeu).

    Parece-me mais uma vez é que o “vosso” argumento de “é preciso saber ler a bíblia” serve sempre como um “get free of jail card”. Cada vez que alguém critica o que lá se encontra escrito, é porque a pessoa não tem “conhecimento suficiente” para o interpretar.

    E vai me permitir o comentário: quando me fala da parte “material do cosmos ser importante e determinante, mas é determinada pela parte imaterial”, está novamente a falar-me de “superstições infantis” (utilizando a expressão de Einstein)? Qual parte imaterial? De que está a falar? A constituição do cosmos é conhecida, a sua natureza decifrada, os seus fenómenos teoricamente explicados. Não venha o Bernardo falar-me também que não se “consegue explicar os fenómenos naturais sem um entendimento do sobrenatural”.

    E quando diz “ainda agora estamos a começar a levantar o véu sobre a complexidade da realidade”, isso é uma frase que serve o meu lado do argumento. Quanto mais o veu for levantado, menos o “imaterial” explicará o “material”

    E essa sua opinião que a bíblia “tem tanto para nos ensinar”, como seria de esperar, nunca poderemos concordar. Para mim, o que é benéfico da bíblia já foi apregoado e aceite o suficiente. E por outro lado, é preciso continuar a empurrar para a margem algumas das coisas que estão escritas nesse livro e que nos colocam todos em risco, como o que é necessário para o regresso do “vosso” salvador.

  5. Caro João

    Esta “notícia” não era sobre o que escreveu, mas fez bem em o abordar.

    Todas as indicações realmente apontam para Einsten ter uma crença: mas alguns defendem que nem deista era, mas sim mais apróximado do panteísmo, elevando o cosmos e a natureza a um estado de “divino”. Eu concordo com quem defende esse argumento depois de ter lido um resumo da correspondência do Professor para com alguns dos seus amigos e oponentes.

    Quanto a “Quando é que vão perceber que não religioso é diferente de ateu?” não me revejo nessa sua crítica. Eu nunca colocaria Einstein no campo dos ateus. Maas a sua frase também está incorrecta, porque ser-se ateu e ser-se (também) não religioso.

  6. Olá Ricardo

    ” Mas a sua frase também está incorrecta, porque ser-se ateu e ser-se (também) não religioso.”

    Errado duas vezes, o que eu pretendi dizer é que ser não-religioso é diferente de ser ateu, não implica ser ateu.

    Por outro lado, os budistas por exemplo, são ateus..

    Cumprimentos

  7. Ricardo,

    Há muita justiça nalgumas observações que me faz. De facto, não é fácil eu montar uma defesa usando argumentos de autoridade. Eu não tenho provas para a falta de conhecimentos teológicos de Einstein, nem quero dar a ideia de que apenas teólogos encartados estão aptos. Aliás, o que não faltam por esse mundo fora são teólogos a dizer asneiras sobre Deus.

    Vou tentar outra abordagem, que evite os problemas que me aponta.
    Trata-se do problema da metafísica.
    No início do século XX, um bravo grupo de pensadores, conhecido pelo nome de “Círculo de Viena” (Wiener Kreis - veja aqui http://plato.stanford.edu/entries/vienna-circle/), tentou fazer uma coisa gira…

    Eles queriam, de alguma forma, provar os postulados do materialismo. Ou seja, que tudo o que existe é material, que só há corpos materiais, que a mente é uma percepção subjectiva de fenómenos mecânicos e materiais, e que nada de metafísico existe. Carnap, por exemplo, tentou nada mais nada menos do que a demonstração da irrealidade da metafísica.

    Um pouco aquilo que o Ricardo quer fazer aqui comigo: demonstrar que nada há de imaterial.

    Essa tentativa é tramada como o raio. Se o nosso pensamento é todo ele determinado por fenómenos físicos, onde está o livre arbítrio? É ilusão que possamos, num dado momento, mudar uma atitude?

    Eu estou aqui a escrever este comentário. Será que já está mecanicamente determinado que eu não vou fechar o browser sem acabar o comentário? Será que posso desistir agora mesmo??


    não desisti!
    ;)
    Era isto certo, ou apenas probabilisticamente previsível?
    A mecânica quântica veio tornar estas questões muito complicadas. Einstein não se deu nada bem com alguns postulados da mecânica quântica, sobretudo com o que veio a ser conhecido como a interpretação de Copenhaga.

    Os problemas de Einstein, sem o querer menosprezar de qualquer forma que seja, advinham de uma visão “espinosista” do Universo, muito cartesiana, muito mecânica. O determinismo era algo inegociável na cosmovisão de Einstein.

    A filosofia escolástica sempre soube lidar com estas coisas. Ela distinguia a forma da matéria. A matéria não tinha o seu ser em si mesma, mas sim na forma. Por exemplo, a estátua só era estátua porque o mármore tinha recebido a forma de estátua, e esta forma era imaterial. Ninguém negava a forma de estátua, porque essa realidade imaterial era partilhada por todos os que olhavam para a dita cuja. Era a forma que fazia aquele mármore ser visto como uma estátua.

    Usando um exemplo atómico, o átomo de Árgon só é o que é pela forma que tem. É precisamente porque se trata de um arranjo de 2+8+8 electrões em torno de um núcleo de 18 protões e 18 neutrões que o Árgon é Árgon. Se pegar nesses mesmos protões, electrões e neutrões e os arranjar de outro modo, obtém outro átomo diferente. Ou seja, a forma imaterial faz toda a diferença.

    Era isso que eu queria dizer: o imaterial faz toda a diferença. Sem a óbvia realidade da forma imaterial, nós nem conseguiríamos falar nem comunicar, uma vez que o fazemos usando formas (palavras orais ou escritas).

    Por isso, a iniciativa de Carnap, por muito fascinante que seja em termos epistemológicos, estava votada ao fracasso. Como diria Aristóteles, a forma é o que confere realidade à matéria subjacente. A forma “actualiza” a potência material. Isso sucede com os objectos inanimados, desde as mais ínfimas partículas sub-atómicas, até aos seres vivos. Os cristãos usam o termo “alma” para designar a forma que organiza a matéria orgânica de um dado ser humano no ser que ele é.

    Os problemas da mecânica quântica surgem porque se está numa escala microscópica ínfima. Quanto mais próximos estamos da potencialidade pura da matéria prima, cada vez menos “forma” encontramos na natureza. Por isso, o próprio instrumento de medida vai conferir “forma” ao fenómeno subatómico, fazendo assim colapsar a função probabilística de onda. Se a nossa única ferramenta para “observar” estes fenómenos é um canhão de partículas, é evidente que vamos fazer colapsar a função de onda, interferindo forçosamente na experiência. Deixa de existir, como existia ao nível macroscópico, uma observação “neutra” (que, na verdade, nunca existe).

    Devo esta forma engenhosa de “casar” escolástica com física moderna ao Wolfgang Smith. Sugiro este belo texto:
    http://www.catholic.net/rcc/Periodicals/HPR/April%202000/belief.html

    Tudo isto para dizer que, tanto na física quântica, como nos fenómenos complexos da mente humana, estamos longe do mundo limpinho e organizado que os materialistas tanto gostariam de ter. A realidade é bem mais complexa do que estes imaginam. As recentes descobertas científicas, tanto macroscópicas e cosmológicas, como microscópicas, apontam no sentido de uma cada vez maior importância filosófica do conceito imaterial de forma, que é a única a poder explicar o que é, afinal, a realidade. Eu não sou o Bernardo por causa dos meus átomos apenas, mas sobretudo pela forma específica pela qual eles estão organizados. A forma não é material, e no entanto é bem real.

    Só o conceito de forma resolve o problema ontológico da unicidade dos seres e o problema filosófico dos universais.

    Um abraço,

    Bernardo Motta

  8. Alguém tinha de explicar a uma das pessoas mais inteligentes da história da humanidade o conceito de macro e micro leitura da bíblia.

    Não entendi essa sua última afirmação. Para mim a descrição de Einstein sobre a Bíblia está perfeita.

  9. Caro Lealcy.

    Essa frase que utilizei é irónica: Para entender melhor terá de visitar aqui.

    http://www.portalateu.com/2008/04/30/para-quem-nao-viu/

  10. Caro Lealcy

    Essa frase é irónica. Tem a ver com uma entrevista na televisão que pode ver aqui no Portal na notícia “Para quem não viu”, e com uns comentários que um padre Português fez.

    Na página principal, está na barra à sua direita debaixo de “Diz não a concordatas”

  11. Tem a certeza que Enstein não acreditava que o próprio universo ou algo assim poderia ser Deus?
    E a carta está autentificada?

  12. Meu… esses deístas falam muita (…)… por que tem gente que ainda discute??? e qual o problema se Einstein for ateu? É tão mais lógico…

    Comentário alterado pela Administração do Portal Ateu

  13. Ninguém quer experimentar a singularidade da solidão sua própria existência, só Deus, os homens são animais sociais, alguns vivem na ilusão de serem maiores quantos mais forem a viverem a singularidade de uma determinada ilusão a que chamam vida, outros vivem a realidade em Deus, na verdadeia ilusão da vida, Muito embora, Einstein tenha alcançado a imortalidade pela sua grandiosa contribuição para a obra de Deus, essa imortalidade será sempre relativa tal como a sua teoria da relatividade, porque a verdadeira imortalidade é aquela que só Deus nos pode conceder pelo mistério da fé.

    Já sei os ateus não procuram a imortalidade, procuram desesperadamente as referências que lhes faltam, procuram idolos a seguir, já que o exemplo de Cristo não tem qualquer cabimento nos dias que correm, tal como os sacrificios de animais e antes de pessoas também tinham passado o de prazo hà dois milénios, sim, seguir o exemplo de Cristo, seja da criançice retrograda da igreja, está completemente fora de questão, mas, Cristo substituiu o sacrificio animal, apresentou-se ele próprio no altar como o cordeiro de Deus, quem faria o mesmo, bem, foi isto o que escreveram, e vocês, tal como eu estamos no direito de duvidar da autenticidade de toda esta história, com toda a razão, do mesmo modo que eu duvido também do ateismo de Einstein, perfeitamente irrelevante, nem sequer morreu pelo ateismo, pelo que eu saiba até hoje, não vá o Diabo teçe-las e escrever alguma carta, mesmo anónima que seja, só para contrariar-me.

    Cumprimentos

    Cirilo

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