Reflectir o meu ateísmo – Parte 1: O que o meu ateísmo não significa

Em Novembro de 2007, iniciei um série de artigos no meu blog pessoal onde me propunha fazer uma reflexão pessoal sobre as motivações, preocupações e objectivos do meu ateísmo. Essa série de artigos foi interrompida por diversas razões após o quarto artigo. Pretendo agora retomá-la e, para que os leitores do Portal Ateu possam entender os novos artigos dedicados a este tema, irei republicar na íntegra os primeiros quatro artigos originais antes de retomar o processo.

O que o meu ateísmo não implica

Conforme prometi neste post, pretendo escrever uma série de artigos que me ajudem (e aos leitores deste blog) a organizar a apresentação dos motivos, preocupações e objectivos do meu ateísmo. Serão uma série de artigos onde abordarei diversos aspectos do que considero ser basilar no meu ateísmo.

Neste primeiro artigo, vou optar por deixar claro aquilo que o meu ateísmo não significa. Espero, assim, contribuir para uma leitura mais imparcial daqueles que visitam este blog.

Ser ateu para mim não significa ser anti-fé. Respeito a liberdade de cada um para acreditar naquilo que muito bem entender. Contudo, isso deverá acarretar duas responsabilidades: a de assumir os compromissos com essa mesma fé, por um lado, e a de viver essa fé na sua privacidade ou em local (templo) apropriado.

Não sou anti-clero; não encontro razões para acreditar que o exercer do sacerdócio traga consigo uma maior dose de criminalidade ou que existe um maior índice de padres criminosos do que padeiros, informáticos, ateus ou engenheiros civis criminosos. Hipocrisia não é um crime; será, quanto muito, uma questão de consciência.

O meu ateísmo não é politizável, ou seja, não sou ateu por ser deste ou daquele partido nem vice-versa.

Não sou particularmente anti-cristão; o meu ateísmo é absoluto e equidistante de todas as religiões, divindades, fadas, duendes ou unicórnios. Se, porventura, existir uma maior exposição do cristianismo nas páginas deste blog isso é facilmente explicável pela minha também muito maior exposição ao cristianismo, tanto cultural como socialmente, uma vez que nasci, cresci e vivo num país cuja religião maioritária é cristã.

O meu ateísmo não é recente, sempre fui ateu, nunca tendo sentido qualquer necessidade de procurar estímulo espiritual no sobrenatural. Música, um bom livro, observar as minhas filhas a dormirem ou olhar o céu à noite sempre foram suficientes para me encher de prazer, satisfazer quaisquer necessidades de contemplação, imaginar e concluir que o mundo é, afinal, tão belo. Respeito (embora me custe a compreender) que outros tenham outro tipo de necessidades espirituais.

Finalmente, o meu ateísmo não é estanque. Estou sempre disponível para uma boa argumentação sobre o tema. Não estou fechado sobre mim mesmo, nem sou dogmaticamente ateu. Muito pelo contrário, reconheço que filosoficamente é arriscado ser-se ateu; mesmo assim, considero que, na prática, faz muito mais sentido. Mas isso fica para a segunda parte. Nela abordarei as razões porque sou ateu e não agnóstico.

(Publicado originalmente a 5 de Novembro de 2007)

Parte 2 – As insuficiências do agnosticismo

Parte 3 – Promover uma laicidade pró-activa 

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14 Comentários

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  1. Caro Helder,
    Obrigado pela sua reflexão. Dá-nos do ateismo um perfil menos agressivo e intolerante que o de muitas pessoas, incluindo algumas que intervêm neste blog, quer através de textos, quer através de vídeos. A este propósito, deixo-lhe aqui um parecer: os videos que surgem neste blog são em geral intragáveis. Outros terão certamente uma posição oposta, mas estes vídeos são autênticos ‘tiros no pé’, quase tão maus em argumentação como os dos fundamentalistas cristãos . Curiosamente, porém, fazem a crítica de uma religião e de um deus de que, pelo menos alguns cristãos, entre os quais me incluo, gostariam de se libertar, porque se referem a um deus que nunca existiu visto que, como acredito, não passa de uma caricatura de um deus minimamente credível. Quanto às suas necessidades espirituais que refere no texto, elas são comuns, penso eu, às pessoas com um crença religiosa. Aqui não se trata de ir à procura de ‘outro tipo de necessidades’, como sugere, mas de procurar dar respostas a necessidades que vão na linha do amor, da beleza, da contemplação, e que não se opõem às primeiras mas as complementam.

    Cordiais saudações,

    Alfredo Dinis

  2. Helder, excelente artigo pela objectividade e síntese, abordarei alguns pontos enumerados por ti onde em parte discordo, onde tenho outras opiniões, ou tão simplesmente considero de alguma forma pouco alicerçado, os pontos que não abordarei do teu artigo serão aqueles onde terei concordância total.

    Sobre a questão da anti-fé, palavra à qual dou o sinónimo de irracionalidade, é inato ao Ser Humano a necessidade de ser racional salvo em determinadas esferas, e a de ser também racionalizador, ou seja, através da racionalidade construir boas ideias e destruir más ideias através do debate sobre o mundo real, ou sobre as construções aproximadas que se fazem dele, logo, afirmações como 2+2=5 não podem passar pela filtragem da racionalidade Humana, em privado de forma individual ou colectiva temos a livre vontade de indivíduos a ser exercida, e assim devem ser as coisas, mas nos monoteísmos temos o grave problema da irracionalidade transformada em leis universais, ou seja, indivíduos que não possuem essa fé e nem se agrupam com pessoas dessa fé, vêm-se englobados à força, como exemplo temos a rotulagem de tudo o que é externo a esse mundo irreal, infiéis, apóstatas, satânicos, hereges, e outros, assim sendo a fé monoteísta não reside dentro da privacidade nem dos sítios de culto, extravasa em todas as direcções de forma hostil, tanto para quem não possui fé, como para com os que possuem fé diferente. Exemplificando com duas estruturas, o budismo e o catolicismo. O budismo possui uma estrutura de fé apenas presente para os seus seguidores, não englobando de forma alguma aqueles que não seguem essa fé, pode ser privada e exercida em locais de culto em pleno de liberdade dos seus seguidores e sem interferir na liberdade de quem não segue, o catolicismo visa a conversão de todos os não-católicos ao catolicismo, aliás, essas mensagens são passadas ad nauseam em templos de culto católicos. Duas situações completamente distintas que, na minha perspectiva, merecem duas abordagens diferentes.

    Relativamente à criminalidade clerical, as coisas não me parecem tão simples de analisar, e sim, existem contextos em que o clero possui mais aptidões para o crime que qualquer outra profissão, e para isso basta analisar a percentagem de padres pedófilos nos E.U.A. (escolhi este facto por estar bem documentado) e comparar com uma outra qualquer percentagem de pedófilos num outro contexto, e os números falarão por si. As razões para tal aptidão de crimes sexuais são bem conhecidas, de foro psicológico essencialmente, imposições de castrações sexuais resultam mal, porque existe uma coisa chamada natureza humana, obviamente que tais escolhas de vida potenciam psicoses, problemas mentais por repressão da líbido, e a lista continua. O ponto essencial que considero importante é não cair em absolutismos, pois tais questões estão sujeitas a imensos relativismos. Mas no caso concreto que apresentei parece-me evidente a potencialidade enorme de crime pela profissão de clericalismo.

    Sobre a dificuldade de entender outros tipos de necessidades espirituais suponho que te refiras exclusivamente às dogmáticas e às irracionais. Mas o espectro é gigante dentro da espiritualidade. Sem existências de violação de leis naturais obviamente. A título de exemplo as alterações de consciência e exponenciação da percepção e dos sentidos através da mescalina, algo solidificado pelo racionalismo e pelas experiências de Aldous Huxley, no muito célebre ensaio “As portas da percepção” podem ser classificadas como espiritualidade. A consciência aumentada é uma das portas da espiritualidade, para além dos pormenores deliciosos do quotidiano.

    Cumprimentos.

  3. Caro Bruno,

    O seu texto representa o ateismo no seu melhor… ou no seu pior? Depois do interessante texto do Helder apanhamos com um balde de água fria para acordar! Bruno, você pensa que a racionalidade está toda do lado dos ateus e a irracionalidde do lado dos crentes? Obrigado pelo que me toca. Pensa que os católicos acreditam que se uma óstia consagrada cair ao chão Jesus arrisca-se a partir uma costela? Pensa que os católicoa acreditam, como convictamente afirma Dawkins, que durante o grande milagre do sol em Fátima o sol rodou mesmo sobre si mesmo e se aproximou perigosamente da terra? Ai, meu Deus! Valha-nos Nossa Senhora!

    Cordiais saudações,

    Alfredo Dinis

  4. Caro Alfredo Dinis, todas as deduções que fez estão erradas, para além de que não me parece minimamente lógico e racional tais perguntas respeitantes ao que expus.

    «Bruno, você pensa que a racionalidade está toda do lado dos ateus e a irracionalidde do lado dos crentes?»

    Não. E não vejo onde tal possa ser deduzido pelo que escrevi.

    «Pensa que os católicos acreditam que se uma óstia consagrada cair ao chão Jesus arrisca-se a partir uma costela?»

    Perscruta-se bem a minha alusão a ideias e não a pessoas, a convicções derivadas de ideologias religiosas e não a simplórios rótulos que ora dizem muito, ora nada. A grande maioria dos católicos nem sabe sequer o que é o catolicismo, assimilação individual pela opressão social, rotulagem por imposição e não emanação pessoal, assim sendo as críticas caem nas ideologias propagadas, irracionais, impostas, sectárias, e não nas pessoas, na maioria delas, católicas não praticantes, o rótulo bem interessante para a manutenção de poderes quando o que existe é niilismo puro.

    «Pensa que os católicos acreditam, como convictamente afirma Dawkins, que durante o grande milagre do sol em Fátima o sol rodou mesmo sobre si mesmo e se aproximou perigosamente da terra?»

    Isso teria de acarretar o conhecimento do que cada católico pensa, o que é desde logo estúpido, se Dawkins afirma ou deixa de afirmar não sei, nunca li nada escrito por ele, apenas conheço as suas palestras, documentários e alguns artigos, os livros dele estão em lista de espera, tenho outros mais interessantes do ponto de vista individual para ler primeiro.

    Meros espantalhos e estereótipos… Porque as deduções são erradas à partida, impossíveis de terem ponta de validade, algures no meu comentário reside uma crítica ao absolutismo e um elogio ao relativismo, logo, deduções que pressupõem “os católicos” estão erradas, completamente erradas.

    Reside a questão, foram os estereótipos e os espantalhos voluntários ou não?

    Cumprimentos.

  5. Caro Alfredo Dinis,

    Obrigado pelas suas palavras.
    Considero que a principal fraqueza do ateísmo em qualquer discussão é não ter a capacidade de adivinhar qual o conceito de deus para o interlocutor em cada ocasião. Isto significaria que sempre que iniciássemos uma discussão teríamos que perguntar ao nosso interlocutor qual a sua versão de deus. Como isso é uma tarefa algo complicada – até porque a maioria dos crentes tem alguma dificuldade em “compreender” o conceito de uma versão de deus diferente da sua – é natural que se conteste o deus do imaginário público da nossa sociedade e aquele que vem retratado no livro referência da doutrina dominante por estas bandas.

    Bruno,

    Como sabes, é minha opinião que se estivéssemos sempre de acordo isto seria muito aborrecido. Basicamente, não nos devemos esquecer que ser ateu é, no essencial, não acreditar em deus(es). Tudo o resto são formas pessoais do que isso implica em e para cada um de nós que, naturalmente, pode assumir formas nem sempre concordantes.

    Gostava, no entanto, que me indicasses que dados são esses que tu tens que te permitem assegurar que os índices de pedofilia nos EUA são maiores entre padres do que em qualquer outra classe profissional. Não conheço esses dados e acho que seria relevante a sua divulgação.

    Cumprimentos a ambos.

  6. Caro Bruno,
    Não entendi absolutamente nada da sua resposta, mas de qualquer modo agradeço a gentileza em me responder.

    Cordiais saudações,

    Alfredo Dinis

  7. “que dados são esses que tu tens que te permitem assegurar que os índices de pedofilia nos EUA são maiores entre padres do que em qualquer outra classe profissional”

    Oh sr. Helder Sanches! Então o meu amiguinho desconhece o facto que os padres católicos, são a única classe profissional que por aberrante imposição do patronato, está impedida de contrair o matrimónio? Se isto não é um bom indicador de que é propiciante para comportamentos desviantes, então não sei o que seja…

    Os próprios padres não parecem dar-se conta que acabam por também ser vítimas de uma doutrina que os impossibilita de desfrutar em pleno de uma das características mais belas que eles acreditam que deus dotou o ser humano: a sua sexualidade…

    Isto é tanto mais perverso, se atendermos que na Bíblia nada proíbe os clérigos de se casarem, S. Pedro era casado, JC muito provavelmente também foi, o único motivo que subsiste para esta aberração é que os Bispos casados podem ter herdeiros, o que não agrada nada ao Vaticano na hora das partilhas!

    Cumprimentos a todos do Xiquinho

  8. Xiquinho,

    Quanto mais velho, mais rezingão ficas!

    Mas, desde quando, é que se podem fazer afirmações sem as substanciarmos em algo de concreto? Não é apenas por nós acharmos que todos os padres pelo facto de lhes ser imposto a abstinência sexual que eles são de facto uma classe de tarados. Essa retórica a mim não me convence e deixa-me muito desiludido que quem defende o racionalismo possa basear este tipo de afirmações em meras suposições.

    Até me mostrarem dados concretos de algum estudo realizado nesse sentido, não vejo razões para acreditar que os padres sejam mais (ou menos) criminosos que qualquer outra classe da nossa sociedade.

    É a mesma coisa que me dizerem que como eu trabalho à noite e tenho bebidas à descrição sou um alcoólico! Não me faltava mais nada! Deixemos os dogmas para quem precisa deles para sobreviver. Enquanto ateu, dispenso-os.

    Abracinhos.

  9. Pois, mas vejo que a ti a idade já te afecta a vista… vê lá se marcas uma consulta de oftalmologia pois eu nunca afirmei que os padres eram TODOS tarados sexuais. Com certeza haverá excepções. Pelo contrário, disse sim, que eles próprios são vítimas da sua própria intolerância.

    Tão pouco afirmei que são abstinentes sexuais. Ainda bem me recordo nos tempos infelizes em que frequentava sacristias, de observar como amavelmente as paroquianas beatas se ofereciam ao sr. Prior. O que disse foi que estão impedidos de contrair matrimónio, situação que não encontras paralelo em nenhum outro credo, com fundamento de um dogma que só tem como explicação a avidez vaticanista pelo vil metal.

    Eu não me quero alongar neste tema pois é um assunto que me repugna por completo, mas não posso deixar de fazer referência à vergonhosa politica de encobrimento que o Vaticano pratica em relação aos casos de pedofilia, isto sim, acto tão grave ou mais do que aqueles que a praticaram. E não preciso de nenhum estudo para confirmar isso. Basta ler os jornais.

    Mesmo com a quantidade de bebidas alcoólicas que tens à disposição, estou convicto que se descobrires um pedófilo no teu bar com certeza que o denuncias, não o transferes para o bar do vizinho.

    Beijinhos

  10. Helder, irei procurar o estudo e os relatórios sociológicos feitos sobre o caso concreto, e aproveitando o interesse farei brevemente um artigo com os dados que me parecerem mais importantes e interessantes.

    Cumprimentos.

  11. Achei muitíssimo bonito a parte:

    “O meu ateísmo não é recente, sempre fui ateu, nunca tendo sentido qualquer necessidade de procurar estímulo espiritual no sobrenatural. Música, um bom livro, observar as minhas filhas a dormirem ou olhar o céu à noite sempre foram suficientes para me encher de prazer, satisfazer quaisquer necessidades de contemplação, imaginar e concluir que o mundo é, afinal, tão belo. Respeito (embora me custe a compreender) que outros tenham outro tipo de necessidades espirituais.”

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