O que se conhece
Por Ricardo Silvestre • 1 Mai, 2008 • Categoria: Cultura, Discriminação Religiosa, OpiniãoAinda no resquício da (agora infame) frase “as pessoas batem palmas porque não sabem mais nada do que esta conversa”, é minha convicção que qualquer pessoa, que se consiga distanciar um pouco do condicionamento emocional de ser Português e de ter de defender o “Portuguese way of life”, reagiria da mesma forma naquele momento e naquele local.
Quando uma “figura pública” religiosa diz que “(…) mais que a razão, é o coração, e as lágrimas que se derramam é do coração. A razão não enxagua uma lágrima” está a optar por um tipo de discurso que sabe que vai ser bem recebido por causa de uma linguagem comovente que as pessoas gostam (e muitas vezes precisam) de ouvir.
Não é surpresa que do púlpito, as mensagens para os crentes sejam na maior parte das vezes de apelo à emoção simples e à irracionalidade, uma vez que a fé tem de se basear principalmente nesses dois pilares.
A parte emocional, porque as pessoas têm de sentir um acompanhamento espiritual que cumpra certos requisitos: “significado para a vida”, “justiça e recompensa por ser crente” e principalmente, “vida depois da morte”, com a promessa de uma recompensa eterna.
Quanto à parte da irracionalidade, é a única maneira de fazer as pessoas se manterem no domínio da emotividade. Para impedir que as pessoas comecem a ver o absurdo de certas proposições religiosas têm de lhes ser dito que: deus é imaterial, deus é espiritual, deus está fora do mundo natural, deus não pode ser visto à luz da ciência. Isto ao mesmo tempo que se afirma que: deus é todo-poderoso, omnipresente, que ouve preces e que as responde se a pessoa for crente o suficiente.
Principalmente em Portugal, esta realidade tem sido parte da nossa cultura e ainda continua bem presente. Ao contrário de alguns países europeus onde as respectivas sociedades se conseguiram libertar um pouco deste paternalismo religioso, em Portugal ainda se continua a desejar por este “D. Sebastianismo” de “o melhor está sempre para vir”.
Basta ouvir uma conversa entre Portugueses: a vida terrena parece ser sempre um suplício, uma dificuldade, um calvário. Sempre à espera de receber uma qualquer recompensa que parece associada de uma forma linear à quantidade de “sofrimento” que as pessoas experimentam. Infelizmente, muitas das pessoas passam por estas poucas décadas de existência resignadas que essa “recompensa” virá quando “chegarem ao paraíso”.
Para um ateu, naturalista e racionalista, não se aceita que se continue a dar atenção apenas a um tipo do argumento, num debate cultural que se quer, pelo menos, plural. Daí, continuar a defender que, as pessoas batem palmas porque é esta é a única coisa que conhecem.
Acho que se os ateus fossem mais racionais este portal não existia, pois não se dariam ao trabalho de tentar apagar os sentimentos dos outros e lutar contra algo que convincentemente afirmam não existir. Este portal existe essencialmente devido ao sentimento forte (qualquer que seja) dos ateus pela religião e por Deus, e não pela racionalidade.
“irracionalidade, é a única maneira de fazer as pessoas se manterem no domínio da emotividade”. Não sei qual é a missa que frequenta, mas existem vários tipos de padres. Na homilia, alguns apelam mais à razão da mensagem presente nos textos, enquanto outros são mais sentimentalistas, o que não quer dizer que digam coisas erradas.
Bom fim-de-semana
Estava a ler o lidador e dei-me de contas com este comentário que lhe assenta que nem uma luva,
Ó Ricardo Sá, prometo que logo lhe respondo mais circunstanciadamente, até porque vejo que sabe pouco e tem uma genuína vontade de aprender.
Mas antes disso, em que fica?
Acreditar em deus é racional ou irracional?
É que se é irracional é porque não existe, e se existe não pode ser irracional.
Clarifique…se calhar não era bem isso que queria dizer e na excitação descuidou-se.
Acontece também aos cavalos quando tentam saltar um obstáculo…é natural, transferem força para os músculos das patas e relaxam momentaneamente os esfíncteres rectais.
A natureza manda!
Agora se me dá licença, vou desembrulhar a bandeira para ir saudar a tocha olímpica…
«A razão não enxagua uma lágrima»
Apenas senti falta de uns violinos em tons menores em som de fundo…
Desculpe-me o caro Carreira das Neves, mas esta é de nos mandarmos de nuca para o chão.
Pois a mim, a razão conforta-me, e muito!
Este tipo de xaropada de conversa é do tempo em que se pensava que o coração possui a alma e era o centro da vida – porque fazia tum-tum - e que o cérebro era apenas uma glândula gigantesca do ranho que saia pelo nariz.
E é com base nestas heranças culturais populares sobre o coração, alma, cérebro, razão que tivemos oportunidade de tomar o pulso de forma esclarecedora sobre o que uma amostra do nossa população – aquela cuja remuneração é complementada ao frequentar as assistências de programas televisivos – pensa sobre estas matérias com um aplauso tão generoso e espontâneo como o que vimos.
Subscrevo a observação sobre a acomodação quase endémica dos portugueses à situação de caos, de “à beira do abismo”, e de esperança Sebastianista em que estamos permanentemente – apesar de alguns indicadores subirem, embora vagarosamente - o que nos faz ter a oportunidade de ouvir todo um regaço de lamentações onde quer que vamos, assim como acreditar desesperadamente na capacidade de desenrascanço in extremis que nos caracteriza,… e, claro, com a inevitável ajuda de uma qualquer carolada divina para arrancar.
Lembro-me de uma piada sobre a constituição de uma dream-team numa empresa tecnológica multinacional onde, entre uma gestão holandesa, design françês, implementação alemã, etc, a equipa portuguesa aparecia como a equipa de Disaster & Recovery para qualquer assunto: A missão consistia em estar quieta durante a maior parte do tempo e só actuar quando todos os procedimentos falhassem!…
É bom? É mau?
E se andássemos exarcebados com um qualquer nacionalismo bacoco – tipo selecção de futebol – estaríamos melhor?
Talvez não…
Mas assim, também não estamos bem.
Excelente comentário Abrasivus. Obrigado pela participação.
“equipa de Disaster & Recovery”. That one made me laugh out loud
Xiquinho
Acreditar em Deus é irracional, visto que não se pode provar a Sua existência, o que não quer dizer que não exista. Este facto já é velho e espero que não seja preciso repetir.
Agora diga-me os seus argumentos racionais para dizer que Deus não existe e criticar o que não existe.
E não se descuide, para não dizer inutilidades. A minha vontade de aprender não me permite perder tempo.
Caro Ricardo Silvestre, a frase foi muito bem dita e é totalmente verdade, a conversa do padre é realmente ridicula e oca de sentido! As lágrimas do coração? Haja paciência!
Ricardo Sá , os argumentos devem ser apresentados por quem é crente e defende a existência de uma divindade ou de um sobrenatural! E nunca por quem, por nunca ter visto qq prova e basear-se na realidade observável e no senso comum, afirma que deus não existe! O ónus da prova está do lado dos crentes!
Por ex, o Ricardo qd come qq alimento não sabe se vai morrer pois esse alimento pode estar envenenado/estragado. Só come após testar se está tudo OK? Não me parece! Ou vai pelo senso comum e pelas evidências? A maioria das pessoas come e não lhes acontece nada! É lícito afirmar que é seguro comer estes artigos!
Conhece a história de Betrand Russell e do bule de chá?
As evidências apontam num determinado sentido e o que devemos provar são as excepções, que manifestamente é o caso da hipótese da existência de deus, uma excepção à regra!
Nuno
Nunca haverá forma de provar cientificamente a existência de Deus. Mesmo que haja um milagre gigante, testemunhado por milhares de pessoas, os cépticos dirão que se tratam de alucinações ou efeitos de algum químico, hormona ou coisa do género. Existem evidências expostas em vários livros, aparições designadas de embustes e o próprio Jesus Cristo, que a maioria dos ateus critica por razões absurdas e do qual se tenta desvalorizar o legado que perdurou durante séculos. Assim, posso dizer que acredito que existe um Deus representado por Jesus Cristo, pois acredito no próprio Jesus Cristo e acho que este Deus é a causa primordial de tudo o que existe. É uma questão de fé, que não precisa de interferir com as escolhas racionais do dia-a-dia.
Se os ateus são cépticos e acham que Jesus não existiu, ou que era um manipulador calculista, e que antes de tudo o que existe, não existia nada, não posso fazer nada. Mas quando dizem convictamente que Deus não existe, criticam algo que não existe e chamam estúpidas às pessoas que acreditam…. não se pode dizer que seja uma atitude muito racional, nem educada.
Cumprimentos
Eu admito, sou céptico! Não acredito em milagres, acho-os uma mentira descarada! As aparições que se celebrarão no dia 13 são no meu juízo uma fraude! Daí a chamar estúpido a quem acredita vai uma diferença gde! Embora me reserve no direito de gozar com as crenças das pessoas se elas me parecerem absurdas (e parecem!). Mas em geral prefiro apenas que não me chateiem e eu tb não chateio ninguém! Aliás é este o sentimento da maioria dos ateus e agnósticos!
Ao contrário do Ricardo negar a existência de uma divindade penso ser a única atitude racional a ter mediante o conhecimento que possuímos e o historial da humanidade! Se entretanto novos conhecimentos relevantes forem descobertos eu considerá-los-ei.
Recuso-me a acreditar apenas porque sim! Para eu acreditar necessito que deus, jesus, alá, zeus, algo, me apareça à frente, caso contrário ter fé, ou seja acreditar sem qq razão, apenas porque sim, não é para mim!
Cumprimentos
Carpe Diem