O processo Galileu
Por Ricardo Silvestre • 26 Abr, 2008 • Categoria: Direito de RespostaO convite para escrever este texto de resposta, que agradeço ao Portal Ateu, surgiu de um comentário meu ao artigo do Ricardo Silvestre a propósito da recente decisão da Santa Sé em homenagear Galileu erigindo um busto seu.
Ricardo criticava essa decisão, e eu comecei por comentar que não via razão de ser para tais críticas, uma vez que o caso Galileu, sendo certamente uma página triste na história da Igreja, não devia ser interpretado como um exemplo de uma presumida incompatibilidade “institucional” entre Fé e Ciência, mas sim como um acontecimento historicamente complexo e carregado de motivações pessoais e erros humanos.
Como sincero crente católico, encarei este desafio do Ricardo como uma oportunidade para dedicar algum tempo ao estudo frontal do caso Galileu. Parti para esse estudo convencido de que, no pesar das responsabilidades, caberia a Galileu alguma culpa no desenrolar dos acontecimentos. Terminado este breve estudo, concluo que é complicado atribuir a Galileu qualquer culpa objectiva, mesmo considerando a sua legítima predisposição para debates apaixonados sobre temas polémicos, como era então o da interpretação das Sagradas Escrituras à luz das recentes descobertas científicas.
Seguindo o mote evangélico tão usado pelo Papa João Paulo II, “não tenhais medo”, e na linha da afirmação fundamental que encontramos no evangelista São João, “a verdade vos libertará”, encaro de frente todos os erros cometidos pelos responsáveis da Igreja da qual faço parte, seguro de que tais erros, manchando o currículo de alguns responsáveis católicos, deixam intacta a sacra doutrina que me orgulho de professar.
“No Evangelho que acabamos de escutar, Jesus diz a seus Apóstolos que acreditem nele, porque Ele é «o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). Cristo é o caminho que conduz ao Pai, a verdade que dá sentido à existência humana, e a fonte dessa vida que é alegria eterna com todos os Santos no Reino dos céus. Acolhamos estas palavras do Senhor. Renovemos a nossa fé nele e ponhamos nossa esperança em suas promessas.” - Papa Bento XVI, Homilia da Missa no Yankee Stadium, Nova Iorque, 20 de Abril de 2008.
A verdade trazida por Cristo liberta. Liberta a moral do ser humano, fazendo-o viver uma vida plena e com sentido, e liberta o intelecto do ser humano, fazendo-o aceder, dentro das suas capacidades, ao âmago das verdades científicas, filosóficas e teológicas. Um aprofundar do conhecimento nestas várias áreas do saber revelará, ao estudioso persistente e humilde, a existência de uma unidade explicativa fundamental que dá sentido a tudo. Os cristãos chamam a essa unidade explicativa o “logos”, que serve à vez como termo grego para “Palavra” (ou “Verbo”) e para “Razão”.
Um católico não deve ter medo de reconhecer nem os seus erros pessoais nem os erros dos seus irmãos na fé, uma vez que não existe católico (nem ser humano) que não cometa erros. É base fundamental do cristianismo o exame de consciência, o reconhecimento dos erros, a esperança do misericordioso perdão divino, dessa palavra de salvação que simultaneamente nos liberta e nos abre o intelecto. Que nos abre o caminho para a plena realização humana.
Em suma, terminada esta introdução pessoal, eis as ideias-chave que queria apresentar sobre o tema…
1. A maioria dos ateus partilha de uma opinião errada sobre o caso Galileu: segundo essa opinião, o processo contra Galileu representaria um choque inevitável entre uma concepção atrasada do mundo porque religiosa, e uma concepção avançada do mundo porque científica; a religião vista como o domínio das “trevas”, de um poder eclesiástico dominador e autoritário, que oprimia os cientistas.
2. Quase nenhuma das pessoas que partilha desta opinião alguma vez folheou os arquivos do processo; logo, tal opinião é, nada mais, nada menos do que, propaganda; alguma desta propaganda já tem mais de um século de idade.
3. Os arquivos do processo contra Galileu não estão completos: falta documentação; por exemplo, Napoleão mandou trazer os arquivos de Roma para Versalhes, e só várias décadas mais tarde é que eles foram recuperados; no entretanto, valiosos documentos, indispensáveis para reconstituir os acontecimentos, foram destruídos ou perdidos.
4. Os arquivos do processo contêm muito material em segunda mão: cópias de cartas, cópias de documentos oficiais, etc; logo, há que ter muito cuidado com a sua análise; nem sempre o que lá se lê deve ser tomado à letra.
5. Durante a vida de Copérnico, as suas ideias e obras não foram censuradas; a colocação da obra “De Revolutionibus” de Copérnico no Índex dos livros proibidos só ocorre no tempo do processo contra Galileu.
6. Galileu foi sempre um homem de fé; provavelmente, amou mais a Igrejae as verdades da Fé do que os seus adversários, mesmo os eclesiásticos.
7. O Cardeal Bellarmino, figura importante durante a primeira fase do processo (1615-1616), afirmou que estava disposto a rever a interpretação de certas passagens das Escrituras, caso surgissem provas definitivas do modelo heliocêntrico (provas que Galileu ainda não tinha), e que nessa situação, seria preciso agir com cautela, procurando corrigir os erros interpretativos do passado.
8. O caso Galileu não se compreende sem estudar primeiro dois importantes acontecimentos, o Concílio de Trento (1545-1563) e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Só se entende o contexto das atitudes tomadas pelo Santo Ofício e pelo Papa tomando em consideração o surgimento da Reforma protestante e o movimento católico de reacção da Contra-Reforma, vincado no Concílio de Trento. A Guerra dos Trinta Anos ajuda a compreender o complexo tecido político de alianças e guerras menores que marcavam o pano de fundo da Europa tempo de Galileu.
9. O processo contra Galileu está repleto de erros e fragilidades: as provas contra Galileu não são conclusivas e, no entanto, ele recebe em 1633 uma dura e injusta pena de prisão domiciliária até ao fim da sua vida.
10. O móbil do processo está fortemente ligado às variadas inimizades que Galileu foi coleccionando ao longo da vida; os seus inimigos não o conseguiram prejudicar em 1616 porque Galileu tinha amigos poderosos, e por isso, nessa primeira fase, ele não foi condenado; em 1632-33, os amigos importantes de Galileu tinham quase todos morrido, ou tinham sido arredados dos centros de poder e de decisão devido à sua incompatibilização com as posições defendidas pelo Papa relativamente à Guerra dos Trinta Anos e à guerra sucessória em Mântua (1627-1630). Galileu, em 1632-33, ficou à mercê das denúncias e das difamações que se montaram contra ele ao longo dos anos, e não havia ninguém com influência eclesiástica para o proteger de um processo comandado pelo Santo Ofício.
11. Para além dos erros processuais, um dos grandes equívocos da Igreja foi o de não reconhecer logo após a morte de Galileu que tinham sido cometidos erros graves; um “arrastar” nos séculos que se seguiram de uma atitude proteccionista em não reconhecer estes erros explica a enorme duração histórica desta polémica.
12. Para mais, o caso Galileu foi tomado e aproveitado ao longo dos séculos seguintes, e ainda o é hoje em dia, por pessoas vincadamente anticlericais e anticatólicas, como poderosa arma de propaganda. Foi assim que se propagou a ideia de que o caso Galileu mostraria que a Fé cristã seria incompatível com a Ciência. Este tipo de propaganda ainda é, nos nossos dias, eficazmente veiculada aos alunos do Ensino Secundário, que não recebem a preparação histórica, científica e filosófica para poderem lidar com as complexidades deste caso.
CONCLUSÃO:
a) a tradição cristã (p. ex., em São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho) consolidou a necessidade de ajustar as interpretações das Escrituras às verdades científicas; para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência, porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro;
b) o processo contra Galileu foi um grave erro disciplinar; como o Papa Urbano VIII não se pronunciou “ex cathedra”, porque o julgamento foi sobre matéria disciplinar e não doutrinária, não se aplica a infalibilidade papal; de modo análogo, a colocação de obras em defesa do heliocentrismo no Índex de livros proibidos não possui o carácter positivo de uma afirmação sobre doutrina de fé e moral cristãs, pelo que também não se enquadra no contexto da infalibilidade papal, e tratam-se assim de decisões que podem ser reformadas ou revogadas.
A Santa Sé reconheceu os erros e a injustiça do processo contra Galileu (Papa João Paulo II - 1992). Este reconhecimento, há muito necessário, não invalida a infalibilidade
do Papa em matéria de doutrina e moral. Papa Bento XVI segue a mesma leitura de João Paulo II: rejeitou, por exemplo, a opinião do ateu Feyerabend, que considerava que o julgamento de Galileu fora justo. Esta rejeição das ideias de Feyerabend foi entendida em sentido oposto pelos equivocados signatários da recente petição na Universidade de Roma, La Sapienza, contra a vinda do Papa àquela instituição.
O processo contra Galileu, bem como alguns acontecimentos contemporâneos ligados ao tema, estão expostos cronologicamente num texto disponível em
http://espectadores.blogspot.com
Bernardo Motta
Caro Bernardo!!
(quase) estragou tudo logo no início quando escreveu que:
“(…) um artigo do Ricardo Silvestre a propósito da recente decisão da Santa Sé em homenagear Galileu erigindo um busto seu. Ricardo criticava essa decisão (…)”
Não seja assim.
O que eu criticava era a decisão de “O Vaticano decidiu erguer uma estátua em honra de Galileu. E decidiram que o melhor sítio para a mesma seria perto da cela onde ele foi prisioneiro enquanto estava a ser julgado por heresia.”
De resto, parabéns pelo seu trabalho
Ricardo,
Tendo passado tanto tempo deste o artigo original, eu temia pela minha curta memória. Não encontrei o artigo em questão, e escrevi essas linhas de memória. Reconheço o erro… As minhas desculpas, pois de facto a crítica prendia-se com o local escolhido e não necessariamente com o acto em si.
Um abraço,
Bernardo
“Quase nenhuma das pessoas que partilha desta opinião alguma vez folheou os arquivos do processo; logo, tal opinião é, nada mais, nada menos do que, propaganda; alguma desta propaganda já tem mais de um século de idade.” não exagere.
Caro Leonardo Priori,
Em que sentido acha que estou a exagerar?
Cumprimentos,
Bernardo
Caro Bernardo,
Não vou fazer um comentário ao seu artigo mas sim um apontamento sobre o seu primeiro ponto nas conclusões. Nesse ponto você afirma que “para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência, porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro”.
Esta frase é extremamente falaciosa e não esperava uma argumentação tão descaradamente falaciosa da sua parte. Entendo pelas suas palavras que coloca, portanto, ao mesmo nível de fiabilidade a “verdade” de Fé e a verdade da ciência. Mais do que as colocar ao mesmo nível, o Bernardo atreve-se - desculpe o atrevimento - a compará-las, como se os processos misteriosos da “verdade” de Fé tivessem algum paralelismo com o método científico! É mais ou menos como comparar “A Guerra das Estrelas” com o Oxford Paperback Dictionary.
Dê-me, por favor, alguns exemplos de observação, experimentação e hipóteses em que baseia a tal “verdade” de Fé.
Não chega a lógica simplista de de dizer que “o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro”. Isso já todos sabemos. O que está em causa é se os verdadeiros de que fala são sequer verdadeiros.
Cumprimentos.
para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência, porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro”
Peço desculpa, mas… Se o verdadeiro nunca fosse capaz de contradizer o verdadeiro nada teria sido posto em causa, não haveria evolução do que quer que fosse e estaríamos todos presos a antigas e dogmáticas verdades.
Há efectivamente incompatibilidade a partir do momento em que uma verdade põe a outra em causa. E esse é o cerne de toda a questão, da discussão… e já agora, de toda a tradição.
Assumir que o verdadeiro é verdadeiro é meio caminho andado para não querer saber a verdade.
De qualquer das formas, muito bom texto e muito boa argumentação. Parabéns pelo trabalho.
Cumprimentos
Há várias maneiras de evitar o choque entre ciência e fé. Tem tudo a haver com o modo como interpretarmos cada uma, Newton, Mendel, Kepler etc.. não viram nenhuma incompatibilidade. A ciência surgiu de uma tradição religiosa, por isso o facto de terem havido tantos padres cientistas… e quem concorda com isto é o Richard Dawkins, foi mesmo ele que o disse, num debate recente com John Lennox. E por fim dizer que foi Deus que criou o homem, ou o Universo, NÃO significa cessar a investigação científica. A perspectiva de um religioso Cientista, é de descobrir como é que Deus criou o homem,
ou o Universo etc…
Caro Helder,
«Nesse ponto você afirma que “para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência, porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro”. Esta frase é extremamente falaciosa e não esperava uma argumentação tão descaradamente falaciosa da sua parte. Entendo pelas suas palavras que coloca, portanto, ao mesmo nível de fiabilidade a “verdade” de Fé e a verdade da ciência. Mais do que as colocar ao mesmo nível, o Bernardo atreve-se - desculpe o atrevimento - a compará-las, como se os processos misteriosos da “verdade” de Fé tivessem algum paralelismo com o método científico! É mais ou menos como comparar “A Guerra das Estrelas” com o Oxford Paperback Dictionary. Dê-me, por favor, alguns exemplos de observação, experimentação e hipóteses em que baseia a tal “verdade” de Fé. Não chega a lógica simplista de de dizer que “o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro”. Isso já todos sabemos. O que está em causa é se os verdadeiros de que fala são sequer verdadeiros.»
Não compreendo o uso do termo “falácia”, uma vez que a falácia é um erro argumentativo. Não podemos aplicar esse termo a todas as ideias das quais discordamos, porque senão não nos entendemos no uso das palavras. A expressão que usei é muito antiga, e um seu uso clássico pode ser encontrado na disputa que opôs São Tomás de Aquino ao escolástico Sigério de Brabante. Este último defendia que havia duas classes distintas de verdades, as de fé e as da natureza. Deste modo, Sigério afirmava que não havia problema em encontrar contradições entre proposições teológicas e proposições naturais.
Se o bom dominicano sempre mostrou, do que se sabe, um feitio reservado e uma candura de espírito, dessa vez, São Tomás reagiu de forma bastante exaltada, porque não conseguia encaixar no seu espírito límpido a asneira grossa de supor verdades contraditórias.
Será que São Tomás estava a cometer uma falácia quando combatia a ideia errada de dupla verdade?
Caro Helder, tenhamos a calma de espírito para lidar com um assunto espinhoso de forma cautelosa, para evitar cair em erro ou evitar hipersimplificações que só pioram a compreensão destes temas.
Depois, o seu comentário confunde, a meu ver, conceitos que não são comparáveis. Temos:
a) o conceito universal de verdade, que obriga a ver de forma global o problema epistemológico: o que é a verdade? parece-me que permanece válida a definição escolástica de verdade como adequação do intelecto à coisa real; esta definição tem sido muito contestada, a meu ver sem sucesso, pela filosofia iluminista e moderna; no entanto, é fácil ver que é a única definição que permite erradicar o risco do relativismo, que nega a verdade como tal;
b) a diferença nos domínios (as verdades de fé estão num domínio metafísico, e as de ciência num domínio físico); esta diferença acarreta uma diferença nos métodos epistemológicos: a determinação do verdadeiro em questões de fé não é feita do mesmo modo que a determinação do verdadeiro em questões de ciência;
c) a “fiabilidade”: este é outro patamar da questão, que o Helder misturou com os anteriores; esta prende-se com a eficácia (no que diz respeito à obtenção da verdade) dos métodos epistemológicos; necessariamente, tanto em questões de fé como em questões de ciência, a fiabilidade é medida do mesmo modo: algo é fiável (etimologicamente, “digno de fé”) se é conforme com a realidade.
Em termos do método epistemológico, há estas diferenças notórias:
a) as verdades científicas procuram-se pelo método científico, que é empírico (pois o domínio de trabalho também é empírico)
b) as verdades de fé procuram-se por métodos não empíricos (indutivos ou dedutivos), porque o seu domínio de trabalho não é empírico; as teses metafísicas não são testáveis: como se testa a ressurreição de Cristo? como se testa a teoria oriental da reencarnação? como se testam as teorias espíritas?
Note-se que eu não estou a colocar as teorias metafísicas no mesmo nível de fiabilidade, mas sim no mesmo domínio. Certamente que eu defendo que há uma argumentação lógica que procura refutar o espiritismo e a reencarnação, e sendo cristão, defendo que há uma argumentação lógica que procura confirmar o cristianismo. No entanto, há que reconhecer que todas as doutrinas de tipo religioso estão no mesmo domínio, o metafísico. Do mesmo modo que falsas doutrinas científicas, que o trabalho dos cientistas tem vindo a refutar, mesmo sendo falsas, prendem-se com o domínio científico.
A diferença no método é, também ela, enorme. O cristianismo apoia a sua teologia num método dedutivo, que procede das revelações crísticas. Já o hinduísmo e o budismo, por exemplo, trabalham a sua argumentação doutrinal pela via indutiva (da multiplicade do real físico para a unidade metafísica do divino).
Em suma, há doutrinas metafísicas e doutrinas científicas (físicas): isto reflecte a distinção entre o domínio físico e o domínio metafísico.
Há boas doutrinas metafísicas e más doutrinas metafísicas (boas=certas, más=erradas).
Há boas doutrinas científicas e más doutrinas científicas (idem).
Posto isto, podemos seguir em frente.
Eu apoio o meu método epistemológico no testemunho apostólico da figura de Cristo. Não tenho quaisquer dúvidas de que um ser que fez as coisas que Cristo fez é um ser divino, e mais do que isso, é o próprio Deus manifestado (ou seja, o Filho - o Deus não manifestado é o Pai). Pergunta-me o Helder: como se podem testar estas teses em laboratório? Não se podem, visto que não são teses sobre o mundo natural. Não há como pesar nem cheirar a divindade de Jesus, muito menos agora, que Ele já não está connosco em Corpo, e não O podemos levar para um laboratório. E mesmo que Ele ainda cá estivesse, seria tudo em vão, porque a divindade de Cristo, necessariamente, procede da realidade sobrenatural, e não da natural. Logo, não é uma realidade observável.
Pergunta ainda o Helder: porque razão confio nos apóstolos e no que eles disseram?
Porque sim, porque a sua mensagem me parece altamente credível. Porque razão confia o Helder nos físicos de partículas que apresentam as suas teses após longos trabalhos com aceleradores de partículas? Porque o Helder não terá espaço em sua casa para montar um acelerador de partículas. E por isso, confia neles.
Todos vivemos com maiores ou menores doses de fé. No entanto, é um salto grande em direcção à asneira supor que todos os actos de fé procedem da irracionalidade. Como é ainda uma asneira afirmar que a metafísica não existe. E como é também grossa asneira afirmar que a doutrina cristã está “certamente” errada, sem ter forma de o provar pela tal via empírica. Se a via empírica não serve para provar uma tese metafísica, então também não serve para a refutar. Será que isto é assim tão complicado de compreender? Por isso, o Helder não pode afirmar de forma categórica que uma dada doutrina é falsa, sem também exigir a si mesmo a apresentação das famosas provas empíricas.
Note que eu não estou contra as provas empíricas: só acho que elas são úteis no seu domínio, que é o empírico (necessariamente). Servem para o que servem, e não para mais.
Todos os dias, o Helder usa teses metafísicas, mesmo sem se calhar se dar conta disso. Quando, por exemplo, faz uso dos princípios da identidade e da não contradição, está a usar teses metafísicas, porque está a defender teses que não se podem demonstrar em laboratório. Este tema é muito complexo, e assumo a minha grande dificuldade em o expressar nesta curta caixa de comentários.
No entanto, é todo um mundo complexo que está por estudar de forma completa, este da metafísica. O Círculo de Viena tentou, no início do século XX, mandar às malvas a metafísica, sem grande sucesso. Os trabalhos do matemático Godel vieram estragar bastante esse objectivo. E as descobertas no campo da mecânica quântica deram a machadada final no sonho materialista e determinista de um mundo totalmente físico sem metafísica.
Quem fala em metafísica, fala, no ser humano, em livre arbítrio. Segundo a tese materialista, tudo o que fazemos está determinado de forma mecânica, e que basta apenas à ciência descobrir as leis deterministas que resolvem o problema e que são capazes de prever os resultados das nossas decisões.
A mecânica quântica veio estragar isto tudo. Enganam-se aqueles que pensam que a filosofia não tem lugar no conhecimento dos dias de hoje, como é prova cabal esse grande debate epistemológico do século XX, liderado por Niels Bohr e Werner Heisenberg, cujos resultados ficaram conhecidos pelo nome de interpretação de Copenhaga. E esta interpretação filosófica, profundamente epistemológica na sua essência, está longe de ser definitiva e coloca inúmeros problemas por si só.
É muito curioso constatar, para quem ainda tem espírito aberto, que as funções de onda probabilísticas da mecânica quântica correspondem à potencialidade aristotélica, e que o colapso dessas mesmas funções (a determinação, por exemplo, da coordenada temporal - que dá origem a uma função em ordem ao espaço, ou da coordenada espacial - que dá origem a uma função em ordem ao tempo) corresponde à actualidade aristotélica. Se soubermos que os conceitos de acto e potência estão no cerne da argumentação filosófica da teologia escolástica, entendemos que a humanidade tem andado a perder tempo numa guerra intestinal entre ciência e fé, passando ao lado do essencial.
Enganam-se os que afirmam categoricamente a inexistência da metafísica, como se enganam também os crentes que julgam que a religião só fala de coisas pessoais e subjectivas, sem ligação profunda como o domínio físico. A mecânica quântica oferece uma visão nova e arejada do problema da mente humana, que é no fundo a porta para o problema filosófico da alma humana indestrutível e metafísica.
Estou neste momento a preparar um trabalho cuidadoso e detalhado que irá abordar todas estas questões importantes, mas no quadro do grande debate entre as teorias evolucionistas e as teorias criacionistas.
O debate criação vs. evolução é a prova cabal de que andamos a combater em dicotomias, sem vermos a profundidade da questão e o que cada lado do debate tem de valioso para oferecer. O próprio “vs.” de “versus” é sinal evidente da asneira. Erram os que pensam que a explicação evolucionista resolve tudo, e os que pensam que a explicação criacionista resolve tudo.
A chave do problema está na associação entre um criacionismo filosófico e teológico (que explica o surgimento das formas, cuja causa primeira é necessariamente metafísica) e um evolucionismo científico (que explica as mudanças na matéria, que por sua vez também tem a sua causa primeira na metafísica).
O evolucionismo é uma teoria esplêndida para a explicação dos processos naturais que levam ao devir das espécies. Não explica, de forma alguma, o problema filosófico da finalidade e da forma, nem o problema do surgimento da vida. Apesar de poder explicar como é que, uma vez surgida a vida, se obtiveram as espécies que observamos hoje.
Se posso usar o neodarwinismo para explicar com sucesso as causas material e eficiente, preciso de um sistema filosófico bom para explicar as causas final e formal. E isto, mais uma vez, porque a metafísica faz falta: faz parte da explicação da realidade. E eu sugiro, como não podia deixar de ser, que se use a metafísica da filosofia escolástica, cujo nível de sofisticação intelectual e poder explicativo está longe de ter sido ultrapassado por qualquer modelo filosófico mais recente.
Isto já vai longo.
Só queria focar-me nestas conclusões:
a) a metafísica existe, e todos os ateus a usam, nem que seja ao nível dos primeiros conceitos (princípio da identidade e princípio da não-contradição);
b) o ser humano não conseguiria desenvolver qualquer actividade intelectual sem recurso a princípios axiomáticos não demonstráveis por via empírica; quem duvidar, que consulte os teoremas da incompletude de Godel, que apresentam este problema numa escala muito mais simples, a dos conjuntos de números naturais.
Um abraço,
Bernardo
Caro Miguel,
Obrigado pelo seu comentário e pelas suas simpáticas palavras de elogio!
Espero que me desculpe a indelicadeza de não lhe responder directamente, mas parece-me que consegui fazê-lo nas palavras que deixei em resposta ao Helder. Para evitar repetição enfadonha para quem nos lê, pedia-lhe o favor de consultar essa resposta.
Cá estarei para continuar o debate!
Um abraço,
Bernardo
Olá, Bernardo. Confesso que não li o artigo todo ainda, mas ao ler um comentário do Heder e depois uma sua resposta não pude deixar de dar o meu contributo nessa questão. Vejamos:
1) para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência
2) porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro
No caso do debate que referes, são dois teólogos que o participam. Assume-se à partida que a Fé é a Verdade. Na Ciência não há uma Verdade. Se as observações não correspondem às teorias (ou verdades): “c’est la vie. Back to the blackboard”. Pelo contrário, a Fé, desde que a Bíblia foi criada pelos Pais da Igreja, é suposto ser estática, começando por tentar força a realidade à crença, no entanto para sobreviver necessita da reinterpretação dos dogmas (apesar de isso parecer contraditório…).
A Ciência nem sequer tinha o mesmo sentido na Idade Média, e nem sequer no Renascimento. Era apenas conhecimento (é isso que significava “ciência”). E para ter conhecimento é necessário experiência, o que é oposta à Fé definida por Paulo (certeza daquilo que não se observou, esperando que aconteça; ou algo semelhante). A questão talvez seria, o que decidir se o conhecimento (derivado da experiência) contradiz as Escrituras? Através de retórica simplesmente assume-se previamente que a Fé é verdadeira, e assim assumindo que a verdade é única então “não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência”. Pois assim não há qualquer falácia formal. Mas se o problema é se há incompatibilidades entre Fé e Ciência, então a ideia de que sejam verdadeiras ou não devem ser questionada. Isso devia ser explorado? Pergunte-se o motivo de tal. Devido à tradição aristotélica. Bastava falar (dialéctica) para extrair verdades. Para nós haveria um pressuposição (”verdades de Fé”), para além de num debate a crença (a Fé é um tipo de crença) surge no final e não no início.
Eu, por exemplo, estudei Física (nesse caso na Faculdade), Biologia e Química em laboratórios (estudei também Geologia, mas não o fiz em laboratórios). Num ponto-de-vista pragmático: supostamente se a tecnologia funciona, então a Ciência funciona. A não ser que haja uma enorme conspiração no seio da comunidade científica, entre os técnicos e engenheiros, mas isso seria necessária contribuição para todos os que estudam Ciência. E haveria o risco de alguém descobrir tal conspiração por meio de observação e experiência. As hipóteses e experiências dos cientistas são analisadas. A comunidade ciêntifica é como um Open Source. Pode-se visitar o site da NASA e lá é explicado como foi desenvolvido e como funcionam os olhos biónicos. Muito arriscado se é tudo uma aldrabice. Não foi há muito tempo que um coreano foi descoberto ao ter colocado dados falsos para divulgar as suas clonagens. Bastou uma universidade *reproduzir as experiências*. Portanto, a analogia não é muito boa.
Noto que nem todos os metafísicos estudam a mesma metafísica. Por exemplo, quando falo de metafísica refiro-me, por exemplo, a problemas de semântica (o que chamaríamos de “a essência das coisas”), e não a algo espiritual. É um meio para entendermos os outros e ter um pensamento organizado, e o Universo não muda por causa disso, mas pode melhorar o nosso diálogo e afinar a representação do Universo com modelos mais precisos. Sou informático e estou consciente que a informação é uma mera abstração que pode ser representado em hardware (incluíndo uma folha de papel ou o cérebro). Não existem fantasmas, se é isso que entendem como metafísica. Aliás, se um fantasma fosse observado, deixava de ser sobrenatural para ser natural, por definição. Defendo que a metafísica deve aspirar passar a Ciência ou útil à Ciência, mas se isso inclui fantasmas, então para isso é necessário que os fantasmas existem. Ou nunca passará a ser conhecimento, sendo meras intuições ou fé. Lembro-lhe a imagem de Aristóteles - fundador da metafísica - no Stanza della Segnatura: com a mão a apontar para o chão. Pés assentes na terra. Infelizmente ele também pensava que os homens tinham mais dentes que os homens, que o mais pesado cai com maior velocidade do que o mais leve, que as coisas flutuam por terem uma base plana, etc. E a ideia de causa primeira, cujo argumento foi à vida com a Teoria Quântica. Assim o Zenão também fazia.
Sempre ouvi evolucionistas dizerem que a evolução não se preocupa com a origem da vida, mas sim com a origem das espécies. Quando se fala em criacionismo refere-se à ideia de que as espécies surgiram espontâneamente através de intervenção de um criador. Os cristãos que acreditam na evolução não são criacionistas. Para a origem da vida só existem hipóteses, mas este ano tem sido frutífero com a fabricação de DNA e células artificiais. Mas na verdade os cristãos bem informados recuam a intervenção criativa divina para a origem do cosmos que mexeu os cordelinhos para a origem da vida, e depois as espécies.
Estudei o Teorema de Gödel no primeiro ano do curso de Engenharia de Informática. O que diz é que não se pode provar um sistema usando o próprio sistema. Portanto, não posso fazer um programa com uma linguagem X para provar que a linguagem X é correcta. Sou ateu agnóstico, por isso não tenho problemas com isso. Devo notar que axiomas não são dogmas. O mundo e a Matemárica não caíram mesmo quando se descobriu que Euclides não estava sempre certo. Com isso ganhámos, por exemplo, com a Teoria dos Conjuntos e novas Geometrias. E por isso mesmo é que a Matemática é científica: também depende da observação, e com isso surgiram novos sistemas. O problema haveria se tivéssemos um sistema estático, mas nós estamos no Universo e o conhecimento depende do Universo e não de sistemas criados como instrumentos para o entendermos. Esses sistemas mudam, desaparecem ou são substituídos. Notar isso foi uma grande contribuição de Karl Popper.
Caro Pedro Amaral Couto,
Antes de mais, as minhas desculpas na demora da resposta. Não se responde de ânimo leve ao que aqui deixou escrito.
«1) para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência
2) porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro
No caso do debate que referes, são dois teólogos que o participam. Assume-se à partida que a Fé é a Verdade. Na Ciência não há uma Verdade.»
Não concordo (ou não entendo).
Atrás apresentei a definição de verdade que eu sigo: a verdade como adequação do intelecto à coisa real.
Felizmente, ainda muitos ateus partilham hoje desta definição, apesar de grande parte da filosofia moderna fugir desta definição, por razões que seria complicado puxar agora à conversa.
A verdade existe naquelas coisas de fé que são conformes à realidade. Não existirá nas coisas de fé que não são conformes à realidade. Por exemplo, se eu tiver fé na bruxa, em grande medida, terei fé em ideias não conformes com a realidade.
O mesmo para a ciência. Uma verdade científica está patente numa tese real, ou seja, conforme com a realidade. Se bem que esta afirmação seja epistemológica e não científica, uma vez que o conceito de verdade que apresentei é filosófico e não científico. A ciência pura, isolada de considerações filosóficas (o que é pouco salutar…), discute modelos mais ou menos adequados a observações empíricas.
Em suma, não concordo com aquilo que escreveu. Porque razão não haverá verdade em ciência, desde que uma tese científica seja conforme com a realidade?
«Se as observações não correspondem às teorias (ou verdades): “c’est la vie. Back to the blackboard”.»
Exacto.
«Pelo contrário, a Fé, desde que a Bíblia foi criada pelos Pais da Igreja, é suposto ser estática, começando por tentar força a realidade à crença, no entanto para sobreviver necessita da reinterpretação dos dogmas (apesar de isso parecer contraditório…).»
Há uma forte dose de contradição nas suas palavras. O que o Pedro refere corresponde à caricatura popular da religião cristã e não à dita. A palavra “dogma”, na sua origem, significa “decreto”. Parece-me de elementar bom senso aceitar que uma organização duas vezes milenar como a Igreja tenha tido necessidade de colocar alguns decretos por escrito. Muitas pessoas pensam que os dogmas são invenções autoritárias e isentas de debate, quando é precisamente o oposto: o dogma nasce de um consenso, quase sempre fortemente debatido entre quem tem competência.
Por exemplo, o Símbolo de Niceia (mais conhecido como o Credo) resultou da fixação por escrito de ideias que foram longa e largamente debatidas durante os primeiros séculos do cristianismo. Não se compreende Niceia, por exemplo, sem estudar primeiro o arianismo (do bispo Ário de Alexandria) e outras ideias que germinaram no proto-cristianismo.
Assim, o dogma é o cristalizar de ideias longamente debatidas. Note-se o tempo que passou até que o Papa Pio XII se sentiu em condições para proclamar o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu. Este dogma contém ideias centrais muito antigas, passadas de geração em geração, com tradição apostólica e fundamentação nos evangelhos. No entanto, só Pio XII codificou esta doutrina por escrito.
O que acabei de dizer contradiz obviamente a noção estática que o Pedro referiu. O corpo doutrinal da Igreja é dinâmico. O que não quer dizer que seja uma palhaçada, ou seja, que se possa fazer um dogma num dado século e negá-lo no século seguinte. Precisamente devido ao facto de que os dogmas cristalizam noções doutrinais cuja origem é tida como divina, trata-se de matéria que não passa de moda nem perde validade. Por essa razão, se diz que o conteúdo de tais dogmas é infalível. Se fossem de criação puramente humana, seria uma tontice falar em infalibilidade. Como é o caso das ciências humanas, que serão sempre falíveis.
«A Ciência nem sequer tinha o mesmo sentido na Idade Média, e nem sequer no Renascimento. Era apenas conhecimento (é isso que significava “ciência”). E para ter conhecimento é necessário experiência, o que é oposta à Fé definida por Paulo (certeza daquilo que não se observou, esperando que aconteça; ou algo semelhante).»
Como é que pode dizer tal coisa? E ainda por cima invocando o caso de Paulo! Tem alguma piada, sobretudo Paulo, cuja experiência pessoal profunda levou à sua conversão!
«A questão talvez seria, o que decidir se o conhecimento (derivado da experiência) contradiz as Escrituras?»
Nota: não “contradiz as Escrituras”. O conhecimento empírico válido poderá contradizer interpretações erradas das escrituras. Não há texto puro. Há sempre interpretação. Boa ou má interpretação.
«Através de retórica simplesmente assume-se previamente que a Fé é verdadeira, e assim assumindo que a verdade é única então “não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência”.»
Eu não fui talvez claro o suficiente: quando eu escrevi essa frase quis apenas dizer que, dado que o meu conceito de verdade tem a ver com a adequação do intelecto ao real, sempre que se verifica essa adequação, e visto que a realidade é sempre a realidade, não pode haver incompatibilidade.
Se o meu intelecto se adequa a uma realidade natural, então ele acedeu a uma verdade natural.
Se o meu intelecto se adequa a uma realidade sobrenatural, então ele acedeu a uma verdade sobrenatural.
Essa adequação, se (e quando) acontece, diz respeito a uma mesma realidade, mesmo que a domínios diferentes. A adequação é que marca a verdade, porque representa uma relação justa (adequada) à realidade. Não pode haver incompatibilidade. Sigério de Brabante estava errado.
«Pois assim não há qualquer falácia formal. Mas se o problema é se há incompatibilidades entre Fé e Ciência, então a ideia de que sejam verdadeiras ou não devem ser questionada. Isso devia ser explorado? Pergunte-se o motivo de tal. Devido à tradição aristotélica. Bastava falar (dialéctica) para extrair verdades. Para nós haveria um pressuposição (”verdades de Fé”), para além de num debate a crença (a Fé é um tipo de crença) surge no final e não no início.»
Não percebi bem este trecho, peço desculpa.
«Eu, por exemplo, estudei Física (nesse caso na Faculdade), Biologia e Química em laboratórios (estudei também Geologia, mas não o fiz em laboratórios). Num ponto-de-vista pragmático: supostamente se a tecnologia funciona, então a Ciência funciona.»
Penso que falamos de coisas diferentes. Que a ciência funciona ninguém nega, mas isso não chega para critério de verdade. Essa seria uma definição pragmática de verdade, que me parece desadequada. Um macaco poderia pegar numa arma, usá-la para matar um inimigo, e não saberia como funcionam os explosivos.
«A não ser que haja uma enorme conspiração no seio da comunidade científica, entre os técnicos e engenheiros, mas isso seria necessária contribuição para todos os que estudam Ciência.»
Claro que ninguém supõe tal coisa. Eu defendo que as ciências naturais possuem uma larga maioria de conhecimentos verdadeiros, isto é, adequados à realidade natural.
«E haveria o risco de alguém descobrir tal conspiração por meio de observação e experiência. As hipóteses e experiências dos cientistas são analisadas. A comunidade ciêntifica é como um Open Source. Pode-se visitar o site da NASA e lá é explicado como foi desenvolvido e como funcionam os olhos biónicos. Muito arriscado se é tudo uma aldrabice. Não foi há muito tempo que um coreano foi descoberto ao ter colocado dados falsos para divulgar as suas clonagens. Bastou uma universidade *reproduzir as experiências*. Portanto, a analogia não é muito boa.»
Sim. Fala de uma “peer review”. Mas tal ferramenta também existe noutros âmbitos, como em teologia. Quando um dado Concílio olhava para uma ideia nova e contraditória com o que eles tinham por certo, classificava-a como “heresia” (do grego “haereses”, “escolha”). Essa classificação era, de forma análoga, uma espécie de “peer review”, pois a ideia era analisada, comparada com o que se tinha por certo, e procurava-se montar uma argumentação lógica e racional de refutação.
Tudo isso existe, mesmo em áreas do saber não empírico, como é o caso da teologia.
«Noto que nem todos os metafísicos estudam a mesma metafísica. Por exemplo, quando falo de metafísica refiro-me, por exemplo, a problemas de semântica (o que chamaríamos de “a essência das coisas”), e não a algo espiritual.»
O que quer dizer com isto?
Qual é, então, a natureza dos problemas de semântica? O que é a semântica? O que é a essência das coisas? Reduz-se a matéria, na sua opinião?
Penso que o Pedro está a adoptar uma noção muito estreita do termo “espiritual”. Eu uso tal termo para significar o que não é material.
«É um meio para entendermos os outros e ter um pensamento organizado, e o Universo não muda por causa disso, mas pode melhorar o nosso diálogo e afinar a representação do Universo com modelos mais precisos.»
De acordo, mas para si é apenas uma convenção? Como explica, em termos filosóficos, que todos os seres humanos aceitem, sem provas, os princípios “a priori” da não contradição e da identidade?
«Sou informático e estou consciente que a informação é uma mera abstração que pode ser representado em hardware (incluíndo uma folha de papel ou o cérebro).»
Defina, por favor, “mera abstracção”. Quer isso dizer que um programa de software não existe? Que não é real? Um programa de software é material ou imaterial? É físico ou metafísico? Para mim, um programa de software é aquilo que os escolásticos chamariam de “forma substantialis”, ou seja, a forma imaterial que resulta da ordenação de informação binária materializada nas trocas de carga eléctrica em semicondutores.
Será que o programa de software que escrevo se reduz 100% à “fotografia” das cargas nos transístores de efeito de campo do meu CPU?
Ou será que essas cargas apenas servem de suporte material à “forma” imaterial do meu programa?
«Não existem fantasmas, se é isso que entendem como metafísica.»
Eu não acredito em fantasmas, e não defino a metafísica desse modo.
«Aliás, se um fantasma fosse observado, deixava de ser sobrenatural para ser natural, por definição.»
Por força!
«Defendo que a metafísica deve aspirar passar a Ciência ou útil à Ciência, mas se isso inclui fantasmas, então para isso é necessário que os fantasmas existem. Ou nunca passará a ser conhecimento, sendo meras intuições ou fé.»
Mas como é isso possível? Se a metafísica, por definição, tem como âmbito o supra-empírico, e a ciência moderna apenas reconhece métodos empíricos?
«Lembro-lhe a imagem de Aristóteles - fundador da metafísica - no Stanza della Segnatura: com a mão a apontar para o chão. Pés assentes na terra. Infelizmente ele também pensava que os homens tinham mais dentes que os homens, que o mais pesado cai com maior velocidade do que o mais leve, que as coisas flutuam por terem uma base plana, etc. E a ideia de causa primeira, cujo argumento foi à vida com a Teoria Quântica.»
Porque é que diz que foi à vida?
«Sempre ouvi evolucionistas dizerem que a evolução não se preocupa com a origem da vida, mas sim com a origem das espécies. Quando se fala em criacionismo refere-se à ideia de que as espécies surgiram espontâneamente através de intervenção de um criador.»
Há vários tipos de criacionismo. Se as espécies surgem de forma espontânea ou não, isso depende de cada corrente criacionista específica. O católico, grupo no qual me revejo, tem que reconhecer Deus como seu Criador. Não me parece que haja algum vínculo do católico ao mecanismo pelo qual surgiram as espécies…
«Os cristãos que acreditam na evolução não são criacionistas.»
Que frase mais arriscada!
“Acreditam na evolução” é uma expressão pouco clara, porque há inúmeras teses evolucionistas bem demonstradas, sobretudo no que diz respeito à genética e à selecção natural. Logo, não há como não acreditar.
Eu aceito todos os factos científicos relativos à evolução. No entanto, não aceito a interpretação filosófica materialista que diz, por exemplo, asneiras como a de que a mente é apenas um epifenómeno da matéria. Ou que a matéria se organizou sozinha de forma cada vez mais complexa, sem a intervenção de formas imateriais sofisticadas.
Se afirmar categoricamente que há Deus e que Ele é o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis é ser criacionista, então sou criacionista. Mas não vejo de que forma é que não se pode ser crente em Deus Criador e aceitar as verdades científicas sobre o evolucionismo (descartando as interpretações filosóficas materialistas).
«Para a origem da vida só existem hipóteses, mas este ano tem sido frutífero com a fabricação de DNA e células artificiais. Mas na verdade os cristãos bem informados recuam a intervenção criativa divina para a origem do cosmos que mexeu os cordelinhos para a origem da vida, e depois as espécies.»
De facto, ainda estamos muito no início da compreensão das origens da vida.
«Estudei o Teorema de Gödel no primeiro ano do curso de Engenharia de Informática. O que diz é que não se pode provar um sistema usando o próprio sistema.»
Exacto.
«Portanto, não posso fazer um programa com uma linguagem X para provar que a linguagem X é correcta.»
Exacto.
«Sou ateu agnóstico, por isso não tenho problemas com isso. Devo notar que axiomas não são dogmas.»
Sim, concordo com a sua definição. Há um sentido forte no termo dogma que não existe no termo axioma. O axioma, como é hoje entendido, é mais como uma convenção.
«O mundo e a Matemárica não caíram mesmo quando se descobriu que Euclides não estava sempre certo. Com isso ganhámos, por exemplo, com a Teoria dos Conjuntos e novas Geometrias.»
O cristianismo não caiu quando a escolástica suplantou, na Idade Média, o centro dos debates, em detrimento do pensamento agostiniano. O cristianismo saiu a ganhar, e ficámos com um património mais rico.
«E por isso mesmo é que a Matemática é científica: também depende da observação, e com isso surgiram novos sistemas. O problema haveria se tivéssemos um sistema estático, mas nós estamos no Universo e o conhecimento depende do Universo e não de sistemas criados como instrumentos para o entendermos. Esses sistemas mudam, desaparecem ou são substituídos. Notar isso foi uma grande contribuição de Karl Popper.»
Sim, concordo. No entanto, parece-me que a ideia de substituição de sistemas tem mais a ver com o conceito de “paradygm shift”, que se deve a Thomas Kuhn, na sua obra “Structure of Scientific Revolutions”, e não de forma imediata a Popper, que certamente teve uma enorme reacção à obra de Kuhn.
Um abraço, e muito obrigado pelos seus comentários!
Bernardo