Tenho tentado perceber esta coisa das acusações de satanismo a alguns dos colaboradores do Portal.
Tirando o Bruno Resende, que já explicou e defendeu no que acredita, mais ninguém neste sítio alguma vez que se afirmou ou se apresentou como um satânico.
Lá que nos queiram ver como “ervas daninhas plantadas por satanás” cada um sabe dos disparates que diz. Serviria pelo menos o propósito de me divertir, se este fosse sequer um assunto que tivesse piada.
Mas o que acho irónico é a associação de opiniões contrárias aos credos religiosos como “actos satânicos”: não são os crentes que “bebem o sangue do corpo de Jesus Cristo”? Não é isso um acto pagão e vampírico?
Invoca muito mais uma cultura sórdida, imoral e contra-natura andar a “comer o corpo e a beber o sangue” de um ser humano, como uma “festa da eucaristia e uma festa do corpo de Cristo, para dar um o maior relevo à adoração”.
Na verdade, é o que dá andar a roubar liturgias a outras culturas.
Eu, ao menos, não ando a beber o sangue de ninguém, seja em sentido literal ou figurativo…
Quanto a andar a “comer o corpo”, em sentido figurativo, apresento aqui a minha culpa, uma vez que a beleza de um belo corpo de mulher é, essa sim, razão para “adoração”.

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Interferência demente na liberdade individual de várias pessoas, desde quando é que pessoas externas e ignorantes é que definem os rótulos para outras pessoas que não lhes pediram opinião. Cada um escolhe o, ou os rótulos com que melhor se identifica, e que averigua se a sua linha de pensamento é relativamente similar às dos indivíduos que também se identificam com tais rótulos. Parece que muitos crentes trabalham em fábricas de rotulagem. Apóstata, infiel, herege, satânico, viva a demência dos carimbos e o culto à ignorância.
Quanto ao satanismo nem sei que dizer, apenas por não saber se o interpretarei como ofensa ou elogio. E os crentes que vomitam o termo às cegas também não devem fazer a mínima ideia do que estão a dizer. Talvez andem a fazer confusões com os seus imaginários cristãos… Mas basta ir ao dicionário!
Satanás ou Satã: do hebraico שָטָן, acusador
Por exemplo, o Tanakh utiliza a palavra שָטָן para se referir a adversários ou opositores no sentido geral assim como opositores espirituais.
Até a fé Bahá´i possui uma perspectiva relativamente correcta do termo, “This lower nature in man is symbolized as Satan – the evil ego within us, not an evil personality outside.”. Talvez alguns cristãos andem a fazer misturas esquisitas…
Cumprimentos.
Olá Bruno.
Estive a ler o teu texto “Ateísmo e Moral” e no cômputo geral, agradou-me a mensagem libertadora – excepto obviamente aquilo que já comentei contigo em relação à introdução de conceitos como satanismo. Aliás…como um crítico que aprecia é também um crítico que…critica!, faço apenas um pequeno aparte em relação a uma passagem: “Fazer sexo com alguém por quem nutre afecto numa praia paradisíaca e solitária enquanto o sol se põe”? “paradisíaca” de “paraíso”, Bruno? Esse “topoi” de onde saltou o renegado Satã miltoniano do Paradise Lost? Como fica a coerência de um texto moralmente libertador com esta referência castradora? Cuidado com os conceitos…olha que Freud já nos alertou para estes mecanismos subconscientes de imersão conceptual sócio-cultural.
Ainda em relação ao nosso “amigo” Satanás, não posso fazer a sua apologia (literária, claro está!) já que o seu papel de coadjuvância divina é tão ou mais legitimadora do conceito de Deus, do que aquele praticado por outras personagens bíblicas (como Moisés, por exemplo). Basta leres o livro de Job no Antigo Testamento para teres a prova disso: é Satã quem “obriga” Deus a praticar todo um conjunto de enfermidades a Job para confirmar toda a justeza da mensagem de…Deus! no fundo, Deus e Satã pautam-se pelo mesmo jogo arrogante, colocando o ser humano na inferior posição de juguete celestial. Portanto, o tal “acusador” do Tanakh, não é mais do que um advogado que se rege pelas mesmas regras iníquas de um tribunal onde preside Deus como juiz.
É óbvio que podemos falar de vários Satãs ao longo da história (porque tanto as suas características quanto as de Deus, foram sendo modificados pelos próprios contextos culturais); por exemplo, o Satã de Job não é o mesmo que assedia Jesus com todos os impérios do mundo (qual vendedor da Remax, anunciando o melhor produto imobiliário do mercado!), nem o mesmo Satã de Milton, nem o mesmo Satã de Goethe, nem o mesmo Satã das crenças populares, etc.
No final, apesar de também achar que os rótulos são castradores, confesso que são a única forma de sabermos que não devemos ingerir um veneno…
Abraços
Viva Lucas. Quase que me apanhavas, mas, especialmente se tivermos em mente o cristianismo, é difícil, muito mesmo, os conceitos, palavras, mitologias, tudo está literalmente roubado, metamorfoseado, plagiado. Também o paraíso obviamente. Umas centenas de anos antes de andar um tal de Cristo a chatear transeuntes, já pessoas como Xenofonte dissertavam sobre o paraíso, em termos metafóricos e em termos literais. A origem do termo deverá ter nascido em jardins persas. De qualquer forma a definição racional de tal palavra poderá ser a de um sítio aprazível. Mas este género de palavras tem uma variância enorme consoante o contexto onde estão embutidas.
Relativamente ao Satanás, este símbolo é para mim muito interessante por aparecer referenciado em inúmeras religiões, e claro está, não é definido racionalmente por nenhuma, mas não deixa de ter as características inactas e naturais do Homem, se bem que pode aparecer referenciado como o advogado do diabo, literalmente de deus na passagem de Jó na Bíblia. No islamismo também se encontram referências interessantes ao termo, basicamente o termo satanás enquadra-se nos Homens que se revoltam contra Allah. Mas sem dúvida que a perspectiva Bahá`i aparece mais… monoteísta, expressando que satanás não é uma personalidade externa ao Homem mas interna a si. Obviamente que muitas coisas interessantes se encontram pelas mitologias fora, especialmente quando a cristã é tão entediante.
Mas o imaginário cristão, monoteísta por deriva do judaísmo, mas politeísta por inclusão de tudo o que vem à rede, transformou o satanás, arquétipo, símbolo, característica, numa imagem oriunda do Satyr da mitologia Grega, ou do Pan, deuses com cargas eróticas enormes, para além de conotações de sapiência e outras. Estes símbolos, cargas mitológicas, emanações culturais e afins, estão expostas de forma sublime no filme Pan’s Labyrinth de Guillermo del Toro, podendo ver-se apenas um filme de entertenimento, ou averiguar todas essas simbologias e realismos durante a guerra civil espanhola, com anarquismo, surrealismo, ateísmo contra o fascismo, cristianismo, niilismo, futilidade, etc. E está lá o Pan, figura mitológica incrivelmente bem explorada e bastante fidedigna às suas concepções filosóficas.
http://youtube.com/watch?v=EqYiSlkvRuw
Abraço.
Esqueci-me de referir um exemplo bem actual do uso do termo “satanás” em racionalismo puro, Salman Rushdie usa essa palavra nos “Versículos Satânicos”, que não precisa de sub-título a dizer “Versículos de oposição”. Claro que o termo pode ser aquilo que se quiser, mediante a pessoa e as suas convicções, se por acaso uma pessoa cristã utilizar o termo provavelmente estarei à espera de asneira. Se introduzir as paranóias cristãs de galinhas pretas e outras palermices populares então é melhor começar a fugir que vai vai haver estupidez aos quilos!
Abraço.