Ateísmo a prazo

Por Helder Sanches • 2 Abr, 2008 • Categoria: Discriminação Religiosa, Opinião

Parece-me óbvio que muito do alarido ateísta na cena actual se trata de uma reacção a uma série de factores que se conjugaram num curto período de tempo e que foram - e são - alvo de muito mediatismo internacional.

A Segunda Intifada, a eleição de George W. Bush e a consequente infiltração da religião no discurso político, o 11 de Setembro, a Guerra do Afeganistão, a Segunda Guerra do Iraque, o mediatismo dos movimentos criacionistas, entre outros menores acontecimentos, tudo isto contribuiu para uma maior visibilidade do fenómeno religioso na vida pública. Num curto intervalo de tempo, existiram uma série de razões para reagir e contestar a paranóia religiosa e a sua absurda relevância no domínio público neste virar do século.

Olhando as lições da História, sabemos que estas condições não serão eternas. Com o passar dos anos, algumas destas realidades serão ultrapassadas por outros acontecimentos que merecerão, por mérito próprio, as suas próprias contestações e reacções públicas.

Actualmente, preocupa-me que este fenómeno ateísta – sim, por enquanto considero-o apenas um fenómeno – se deixe utilizar por oportunistas que vejam nesta simpatia inesperada dos media e de grande parte da “classe” académica pelo ateísmo uma oportunidade de promover a sua agenda política, explorando, assim, “nichos de mercado” onde se incluem a intolerância, o racismo ou a xenofobia.

A maior virtude do ateísmo -  se é que a tem – é ser implicitamente equidistante de qualquer fenómeno religioso. Isso não deve significar a negação do direito à diferença ou das opções individuais de cada indivíduo ou povo em geral.

Ateísmo não se pode confundir com “bairrismo” cultural. Nem se deve, em última análise, misturar de ânimo leve com alguns outros conceitos como humanismo e secularismo. É certo que as linhas que definem cada um destes modelos muitas vezes se sobrepõem, mas isso não significa que se devam confundir. Quanto maior a confusão, maior a permeabilidade à utilização da popularidade que actualmente beneficia o ateísmo por “ateus de conveniência”.

A seriedade com que no presente abordamos o ateísmo será decisiva no impacto real que este terá na nossa sociedade a médio prazo depois de diluídas as ondas de choque dos acontecimentos dos últimos dez anos. Se permitirmos que o ateísmo seja usado pelos “ateus de conveniência” - ou se nós próprios formos embalados nas suas cantilenas xenófobas – não devemos esperar que daqui a cem anos alguém se lembre de nós.

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Uma Resposta »

  1. se bem que compartilhe desse receio, o qual tem sido alimentado por variados sinais recentes e menos recentes, discordo com contigo num ponto:

    “não devemos esperar que daqui a cem anos alguém se lembre de nós.”

    acho que, tal como o fenómeno religioso, o ateísmo está acima de nós. quero com isto dizer que o considero inevitável, apenas permeável em parte ao que hoje façamos em relação a ele - o que não retira importância ao presente, pois terá implicações, mesmo que a mais curto/médio prazo. estamos “a meio” da história da humanidade e a religião é uma coisa que já deu o que tinha a dar..já saiu do seu auge, e estamos na apenas na ressaca. Acho que o monoteísmo será daqui a uns anos (ou séculos) como o politeísmo é agora - mitologia, entretenimento, história..

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