Preocupação. Muita preocupação.
Por Ricardo Silvestre • 22 Fev, 2008 • Categoria: Ciência & Educação, OpiniãoEstive ontem na Universidade Católica (com a companhia do Hélder Sanches) para acompanhar os trabalhos do último dia da XXIX Semana de Estudos Teológicos da Faculdade de Teologia dessa mesma Universidade.
Neste último dia, o tema era “Criação e Evolução – um debate cultural e teológico”, e no programa tínhamos um Padre Doutorado em Teologia, Jaccques Arnould, com a comunicação. “De Teilhard de Chardin ao intelligent design”. A seguir foi realizada uma mesa redonda com o Padre Peter Stilwell da Direcção da Faculdade de Teologia, com o Padre D. Tomaz Nunes, Presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã, e com o Padre director dos Salesianos de Campo de Ourique, António Figueiras, mestre numa coisa qualquer que ficou por esclarecer., que discutiram o tema “A questão do ensino”.
Caros leitores do Portal. Estamos metidos num belo sarilho.
Se eu pensava que estratégias insidiosas para fazer fraquejar a separação necessária entre o sistema escola, e por consequente, o sistema educativo, e evangelização religiosa era uma coisa “à Americana”, estava muito enganado.
Em Portugal, no ano 2008, a Igreja Católica Apostólica Romana continua a apostar forte no regresso a valores, que no mínimo, têm de ser considerados de “reaccionários”.
Não estou a usar este termo levianamente. Para full disclaimer quero dizer desde já a quem me lê, que politicamente, me considero pertencente a uma área da “direita liberal”, e como tal, para esta “mesa redonda” me ter incomodado, podem imaginar o que foi dito.
Estamos a trabalhar num PODCAST, onde teremos as actuais gravações áudio, de algumas das coisas mais perturbantes que foram proferidas por estas pessoas, mas fica já aqui o alerta.
A missão de endoutrinação e de evangelização está bem definida nos centros de decisão da Igreja Católica. Não houve qualquer retrocesso ou compromisso neste seu objectivo. A estratégia é pública, e os ataques estão montados. Desde a Ministra da Educação, politicas governamentais, “consensos perversos”, “grupos de iluminados das ciências sociais”, todos estão sobre a mira destes grupos. Mais, o progresso civilizacional, tecnológico, ou cultural, é também considerado como um processo que deve ser revertido, para um desejado regresso a um tempo (e só me ocorre pensar que o modelo será o do sistema educativo a la “Estado Novo”) mais “simples e espiritual”.
E isto não é só em escolas de natureza Católica. Não, não ficam por aqui os ataques ao laicismo na escola.
A Comissão Episcopal da Educação Cristã, com o seu “cavalo de Tróia” na disciplina Educação Moral e Religiosa Católica”, tem como objectivo “O ensino da moral cristã, e a redefinição da orientação religiosa das crianças de pais não católicos, ou de pais não-crentes”!!
Temei, senhoras e senhores. Os Cristãos fundamentalistas Americanos podem vir aprender como se fazem as coisas em Portugal.
O maior erro de tudo é deixar as coisas nas mãos dos teólogos.
Educação só diz respeito a educadores, ninguém mais.
Desde que a educação “moral e religiosa”, ou lá o que é se mantenha como opcional nas escolas públicas, por mim tudo bem. Nas escolas privadas, pela sua natureza, que façam como entenderem - mas não será de esperar destas um grande alfobre de cientistas, especialmente das áreas da biologia e afins…
Eu estudei numa escola privada, até ao 9.º ano, onde a “disciplina” de “Religião e Moral” era obrigatória. Acreditem que foi a melhor das vacinas contra a crendice. O meu ateísmo formou-se nessas aulas, pela constatação da profunda hipocrisia da ICAR e dos seus prosélitos.
Já agora, professor, era um “diácono” sádico e, como muitos anos mais tarde se veio a descobrir, um pervertido sexual, felizmente “do tipo passivo”, isto é, não molestou ninguém sexualmente (mas para dar uns tabefes em cheio e uns “cascudos” na cabeça era com ele). Foi o melhor exemplo de homem “pio e religioso” que poderia ter…
E não fui só eu quem seguiu o caminho da apostasia;o ano passado juntamos-nos para celebrar os 25 anosdesde que a maioria de nós se conheceu, no então 1.º ano do ciclo preparatório. Conseguimos reunir quase toda a gente, foi uma festa bastante emocional e acima de tudo evocativa dos cinco anos que passámos juntos e claro que a o dito prof tinha de ser lembrado, pelas piores razões. E para minha surpresa, sensivelmente metade dos meus antigos colegas afirmou que não eram religiosos “por causa” desse belo exemplar de papa-hóstias!
Assim às tantas até pode ser produtivo que as crianças tenham as ditas aulas, quem sabe se o ateísmo não ganha mais gente (bolas assim pareço proselitista do ateísmo enquanto forma retorcida de religião, hahahahaha)
Em resposta ao Paulo Pinto: “Desde que a educação “moral e religiosa”, ou lá o que é se mantenha como opcional nas escolas públicas, por mim tudo bem. Nas escolas privadas, pela sua natureza, que façam como entenderem”.
Eu discordo desta postura pelo seguinte motivo. O Cavalo de Tróia, como muito bem o Ricardo Silvestre referiu, tem um nome e chama-se ECONOMIA. Através da privatização do ensino e da consequente delegação de conteúdos aos critérios de cada escola, o que se está a fazer, é a relativizar os objectos concretos de conhecimento (evolucionismo, física, medicina, etc.) e a permitir que esses conteúdos se tornem moldáveis e adaptáveis aos critérios éticos, religiosos e morais dos AGENTES PRIVADOS (Igreja?) que coordenam a transmissão desses conteúdos. Neste âmbito, a Igreja já percebeu que, se for detentora de poder económico, a sua estratégica pode assumir contornos diferentes daqueles que sempre tem aplicado: em vez de se insinuar junto do poder e influênciá-lo (Estado Novo), pode operar fora do poder e próximo das crianças, como agente educativo privado, para moldá-las aos seus desígnios: não chateará ninguém e os pais até vão agradecer o belo serviço de proselitismo.
E se o nosso caro amigo Paulo Pinto conseguiu imunizar-se contra a crendice nessas aulas através do seu inato espírito crítico, temo que milhares (ou milhões) de crianças não o conseguirão. É preciso actuar já!
PS: já agora…gostava de saber quando é se realizam actividades mais militantes do Portal Ateu: rebentar com explorações de milho transgénico é uma atitude cívica bastante louvável, mas…quando é que se faz o mesmo com o Museu Criacionista que está a ser montado em Mafra? E atenção: não estou a ser irónico:)
Cumprimentos
Caro Paulo Pinto,
«E para minha surpresa, sensivelmente metade dos meus antigos colegas afirmou que não eram religiosos “por causa” desse belo exemplar de papa-hóstias!»
Com todo o respeito, a sua história parece-me revelar uma tremenda imaturidade a vários níveis. Alguém ser religioso, ou deixar de ser religioso, por causa de uma experiência com uma pessoa em concreto parece-me totalmente redutor.
Vou dar um exemplo com outro tipo de vocação. Suponhamos que a figura em questão era um mau professor de português. E que a sua história nos falava de uma metade de uma turma que, desde então, nunca mais lera um livro, de tal forma estavam traumatizados com esse professor… Não seria isso absurdo?
Não faço ideia de quem seja o tal “diácono sádico”. Por mim, até poderia ser um violador e estrangulador de crianças, que não alteraria o que pretendo dizer. O que me parece absurdo, intelectualmente e humanamente falando, é que se rotule toda uma classe por causa desse caso em concreto, sem se saber se esse caso é ou não um caso “típico”. Como é que o Paulo Pinto sabe se essa pessoa é ou não “típico” de diácono? Conheceu outro? Conheceu, pelo menos, uma grande parte para poder fazer uma análise em condições?
Assim se abandona a realidade da visão católica do Mundo, ficando-se por uma visão limitada e pobre, tudo por causa de uma má experiência de juventude… Há algo mais triste?
A vantagem de crescermos, e de não ficarmos eternamente crianças, é a de que podemos sempre olhar para as coisas (e para as pessoas) de várias maneiras ao longo da vida. A vantagem de se crescer, e de se amadurecer, e de se viver a idade adulta de forma recompensadora, está em que se pode MUDAR. Podemos conhecer pessoas novas. Viver experiências novas. Dar novas oportunidades as más experiências velhas. Quem fica cristalizado, agarrado a uma má experiência de vida, nunca progredirá. Nunca amadurecerá. Eu pergunto-me: o que é que andou a metade da sua turma a fazer durante estes anos todos? Ficaram-se por aquela má experiência? Nunca mais conheceram nenhum cristão? Nunca mais leram uma obra sobre cristianismo ou história da Igreja? Nunca mais ouviram um padre falar?
É triste. Muito triste.
Cumprimentos,
Bernardo Motta
Ricardo Silvestre,
Eu não estive lá nesse dia.
Não há nem uma palavrinha para o tema da palestra? Este texto praticamente não diz nada. Insinua-se uma manipulação da educação, faz-se alguma demonização clássica da Igreja, alegações genéricas, teorias conspiratórias. Eu já esperava isso tudo, mas sendo que o texto começou por referir a palestra, eu esperava algo do género:
a) apresentação do conteúdo da palestra
b) comentário ou refutação a esse conteúdo
c) alguma conclusão final acerca da palestra, de um ponto de vista ateu
Não li nada disso neste texto.
Será que ainda vem algo deste tipo a caminho?
Posso passar por cá daqui a uns tempos?
Um abraço,
Bernardo
Para o Bernardo
Como prometido, para breve um PODCAST com todos esses detalhes que referiu
De facto, e uma vez que não há ainda muito a comentar sobre o tema em si, a história pessoal do Paulo Pinto é, no mínimo, intrigante.
Contudo, também sei de muito boa gente que tomou a religião de parte desde que foi educada em colégios de freiras ou instituições similares. Em parte também devido a exemplos menos edificantes, disciplina rígida, obrigações religiosas que nada lhes diziam ou interessavam, etc. Mas, como bem diz o Bernardo, isso é de facto uma prova de imaturidade emocional, e tem pouco de louvável por quem se pretende afirmar como espírito lógico e livre e não dogmático.
De resto, tudo isto comprova de que forma as emoções básicas têm um papel bem mais determinante na nossa evolução do que a mera doutrinação, ou ainda, os actos falam mais alto do que as palavras.