Verdades, Popper e propaganda

Sem dúvida que está a ser muito interessante a discussão entre o Daniel Silvestre e o comentador Bernardo no artigo “O diálogo que deve ser promovido“.

Concordo plenamente que os diálogos devem ser sempre promovidos. No entanto, quero chamar aqui a atenção para a urgência que existe de , em circunstâncias deste tipo, se definirem os pressupostos antes de se desenvolverem teorias e se defenderem posições. Refiro-me, claro está, à definição de deus; de que adianta um diálogo se se debaterem conceitos diferentes ou se se utilizarem diferentes graus de especificidade sobre o objecto da discussão? Dessa forma, corre-se o risco de mantermos um diálogo sobre abstracções conceituais inválidas para o nosso interlocutor.

Por outro lado, gostaria de afirmar peremptoriamente que discordo do Bernardo na questão da falseabilidade de deus. Não discuto, obviamente, a sua infalseabilidade à data; discuto a presunção de que será sempre assim. Ou seja, afirmar que deus será sempre uma hipótese não falseável é, em si mesmo, uma afirmação não falseável! Em que ficamos, então?

O Bernardo recorre ainda ao racionalismo crítico de Karl Popper e às suas teses na área da filosofia da ciência. Muito resumidamente, o que Karl Popper propõe é que todas as teorias para serem consideradas científicas terão que ser refutáveis. Pergunto-me: onde está a refutabilidade desta afirmação? Uma vez mais, em que ficamos?

Finalmente, não resisto a comentar uma afirmação do Bernardo num dos comentários. Passo a citar:

Sabe o que sucede quando falamos sobre assuntos que não conhecemos em primeira mão? Sabe o que fazem todas as pessoas, como o Daniel (ou como eu mesmo, quando em tempos falei também assim sobre o caso Galileu), que falam sobre Galileu sem conhecerem os processos e os argumentos? Fazem PROPAGANDA.

É verdade: sempre que falamos sobre temas que não conhecemos em primeira mão (ou às vezes nem em segunda), estamos a veicular opiniões de outras pessoas. Isso é propaganda.

Aqui concordo inteiramente com o Bernardo! É exactamente pelos motivos que ele indica que considero as histórias do Novo Testamento um elaborado panfleto propagandista. O Bernardo, sem se dar conta, utilizou os argumentos que muitos usam para questionar a veracidade histórica de Jesus. Mas o Bernardo, nesse caso, já descarta a possibilidade da propaganda. A este estranho contra-senso chama-se fé.

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