O diálogo que deve ser promovido.
Por Daniel Silvestre • 15 Fev, 2008 • Categoria: Ciência & Educação, Juventude, OpiniãoSendo eu um grande defensor da liberdade de expressão e vendo este direito como um dos mais básicos e importantes que todos os seres humanos deveriam ter direito a usufruir. É com grande pena que eu vejo frequentemente vozes de religiosos ou crentes (como preferirem), a levantar-se em protesto defendendo a tão falada tolerância religiosa.
Mesmo tendo em conta a minha falta de crença em qualquer entidade divina, não é de facto a crença num ente divino que me incomoda, pois como todos tem presente a crença cega num ente divino é um dos maiores efeitos placebo que existem.
O que me incomoda é como estas mentes religiosas, com a sua fraca capacidade de argumentação se escondem regularmente atrás de dogmas religiosos e defendem as linhas “teóricas” dessas religiões afincadamente, mas, e com grande pena minha, não recorrendo ao dialogo inteligente e estruturado, mas sim ao boicote do dialogo, à protecção atrás da liberdade religiosa e direito de escolha de uma instituição religiosa e em alguns casos mais graves ao total ataque verbal sem nexo.
O que se nota normalmente é que esta desconstrução ou boicote do diálogo, prende-se normalmente ao simples facto de na maior parte das vezes as pessoas de fé, ligadas às instituições religiosas não estão em nada preparadas para argumentar sobre a sua fé nas guias da sua religião pois na realidade são desde cedo habituadas a pensar pelos outros e não por si, e por isso vemos muitas vezes autênticas pessoas de fé a criar discursos defensivos sem nexo algum baseados em escrituras desactualizadas ou em teorias de criação do Homem e do Universo nos dias de hoje já totalmente ultrapassadas pelas descobertas cientificas.
Tudo isto leva-me a crer que muito provavelmente esta incapacidade de ter um fio de discussão deve-se à entrega de pensamento individual às garras das instituições religiosas, aos seus ensinamentos e às suas escrituras que nada mais são do que literaturas alteradas por mão humana para manter os outros humanos debaixo do seu controlo.
E a verdade é esta no fundo, nota-se cada vez mais que nos dias de hoje, todas as pessoas que se encontram ligadas a sistemas religiosos encontram-se num obscurantismo de raciocínio individual lógico e de tal forma torna-se complicado argumentar com pessoas que renegam qualquer linha de pensamento antagónica, muito devido também aos medos relacionados pelos castigos reservados a quem não venerar um determinado deus.
Felizmente nem tudo é mau nesta parte pois finalmente começam a surgir vozes do outro lado da barricada que conseguem argumentar a possibilidade da existência de um deus e do universo ser obra deste ente divino. Facto curioso é que estas pessoas estão normalmente mais afastadas das instituições religiosas e sim mais perto da defesa apenas de um ente divino criador.
Poderá passar pelas mãos do próprio “homo religiosus”, a possibilidade de por fim aos cultos religiosos?
Sendo um facto que cada vez mais o diálogo lógico se debruça sobre a existência do deus universal criador por parte das pessoas de fé, isto mostra que existe cada vez mais um afastamento dos dogmas religiosos.
Tendo em conta esta evolução que se sente de alguns pólos de crentes poderá mostrar que cada vez mais as pessoas que se mostram abertas ao diálogo são também pessoas mais afastadas dos dogmas de uma religião.
Como conclusão deixo por fim um apelo às pessoas com crenças religiosas que tentem se possível fazer um esforço para acompanharem os tempos que correm e talvez as pessoas de fé que eu referi anteriormente, porque em relação às questões de crença das vossas religiões monoteístas, a única coisa que falta comprovar cientificamente é a falsidade da existência dos vossos deuses.
Caro Daniel Silvestre,
«Nota-se cada vez mais que nos dias de hoje, todas as pessoas que se encontram ligadas a sistemas religiosos encontram-se num obscurantismo de raciocínio individual lógico e de tal forma torna-se complicado argumentar com pessoas que renegam qualquer linha de pensamento antagónica.»
Já para não falar na errada generalização, “todas as pessoas”, fico sempre perplexo quando leio frases destas. De que é que o Daniel está a falar? Há cátedras de Teologia nas principais universidades, incluindo Oxford.
A que pessoas se refere?
Da parte que me toca, nunca tive qualquer problema em argumentar e explicar racionalmente a minha crença católica. Nem tal crença me bloqueou o estudo académico, nem tal crença me impede de exercer a minha actividade profissional no campo das tecnologias de informação. Nem tal crença me bloqueou aquando da escrita do meu único artigo científico, acerca de uma aplicação prática dos Algoritmos Genéticos. Nem tal crença me bloqueia quando, por razões profissionais, leio artigos científicos sobre processamento de imagem e visão estéreo.
Porquê esta generalização? Porquê esta insistência, nada documentada, nada científica, na ideia absurda de que todos os crentes são irracionais, detestam o conhecimento científico e odeiam argumentação?
Que discurso é este? Que fins serve, que pessoas pretende instrumentalizar com este tipo de linguagem absurda e sem sentido? Há bases empíricas para esta posição sua, Daniel? Há razões bem documentadas? Estudos científicos? Opiniões académicas?
De onde vem este tipo de linguagem e de discurso?
Não há qualquer incompatibilidade entre Ciência e Fé, e há pessoas como o Francis Collins para servir de belo exemplo de que tal convívio é, não só possível, como inspirador.
Cumprimentos,
Bernardo Motta
Só esta frase, Daniel:
“a única coisa que falta comprovar cientificamente é a falsidade da existência dos vossos deuses”
é uma frase assustadora, porque parece-me ser evidente que o Daniel não domina bem a filosofia da ciência, porque senão saberia que não é possível falsificar proposições existenciais universais. Posso sugerir Popper, “Conjecturas e Refutações”?
Antes de nos lançarmos a escrever sobre temas tão difíceis, parece-me muito importante fazer um estudo prévio. E a área da Filosofia da Ciência, na qual trabalharam nomes tão importantes como Karl Popper e Thomas Kuhn, é indispensável.
É perfeitamente impossível falsificar ou “provar cientificamente” a inexistência de Deus. Trata-se de uma proposição metafísica. Rudolf Carnap procurou refutar estas proposições através da sugestão de uma série de critérios de atribuição de sentido. O Círculo de Viena trabalhou durante anos nesta linha, procurando sustentar as bases do empirismo lógico. Popper não aceitou esses critérios, e propôs separar a Ciência da Metafísica através de critérios como o da falsificabilidade.
Teses falsificáveis são ciência, teses não falsificáveis são metafísica.
Sabe do que falo, Daniel?
Como é que tenta falar sobre estes temas sem conhecer o básico?
Não estou a negar o seu direito à liberdade de expressão: longe disso. Cada qual pode escrever o que entender. Só que acho isto confrangedor. Qualquer pessoa, ateia ou crente, que conheça bem a história do positivismo lógico e das suas tentativas de refutação, só pode ficar chocada com a forma simplista, e nada científica, pela qual o Daniel escolhe tratar este tema académico tão espinhoso, sem se referir a nenhuma fonte decente, nem sustentar empirica ou logicamente as suas afirmações.
Para onde foi o método científico?
Apesar de eu não colocar em questão nenhum dos dogmas da minha fé, porque os aceito e porque os considero bastante razoáveis, estou totalmente disposto para dialogar. Mas há ferramentas que ajudam ao diálogo construtivo: a lógica formal, o método científico, o rigor filosófico, as mais recentes teses epistemológicas. Porque razão haveríamos de ignorar, neste nosso debate de ideias, o que escreveram nos últimos anos os melhores pensadores académicos (ateus e crentes) sobre estes temas?
Cumprimentos
Boa Tarde (era de tarde quando escrevi isto) caro Bernardo.
Suponho que não terá lido com total atenção o que escrevi e percebo bem a sua indignação, pois também fiquei algo perplexo com o que referiu na minha primeira leitura o que me obrigou a reler novamente e perceber qual era o ponto onde queria chegar.
Respondendo desde já à questão mais recente lançada por si. Como deve reparar se ler novamente o meu texto, eu refiro claramente “a única coisa que falta comprovar cientificamente é a falsidade da existência dos vossos deuses”, e de facto não demovo esta ideia, mas não atribuo que este é o caminho a percorrer, eu refiro que é o que falta acontecer, mas repare bem que eu não refiro que é a altura de o provar. Como diz “É perfeitamente impossível falsificar ou “provar cientificamente” a inexistência de Deus.”, eu não serei da mesma opinião pois mais tarde ou mais cedo vai conseguir desvendar-se cada vez mais e mais mistérios que nos rodeiam e dar sentido a teorias invalidas criadas pelas várias religiões. De qualquer forma admito que de momento é improvável que haja quem possa falsificar TOTALMENTE a existência de um deus e como pode perceber pelo texto, não é isso que me preocupa por isso digo “só falta”.
E daí parto para a resposta da sua primeira parte:
“A que pessoas se refere?”
Acho que o meu texto é transparente o suficiente para responder a essa pergunta. Falo como é óbvio de todas as pessoas que se entregam a uma vida de servidão total a todas e quaisquer instituições religiosas e deixam-se ser controlados pela mesma. Pessoas que seguem de forma tão cega os ensinamentos dessas instituições que como refiro deixam de pensar por si próprias.
Repare bem o Bernardo que no fim eu faço uma separação clara de pessoas que considero mais abertas ao dialogo mesmo que crentes, dividindo então essas massas religiosas em duas. As ovelhas que seguem cegamente uma instituição; e as pessoas que crêem apenas na existência de um ser supremo (seja qual deus for) e normalmente e onde quero chegar é que estas ultimas são muito mais abertas ao dialogo e não tão fanáticas como os primeiros o que eu prezo bastante no fundo.
Quanto à questão da instrução académica, pois bem Bernardo acho óptimo que tenha seguido essa vida e os meus sinceros parabéns por esse percurso, mas infelizmente nem todos são como o Bernardo e não preciso de me alargar muito para mostrar que pessoas supostamente inteligentes, formadas noutros países a ter contacto com grandes mentes e linhas de pensamento, hoje são as cabeças por trás de células religiosas terroristas, ou mesmo a cometerem suicídios em prol das suas religiões.
Para finalizar, peço-lhe Bernardo que não volte a referir falta de conhecimentos da minha parte (ou de qualquer outra pessoa) pois ao contrario do que pensa eu estou a caminho de me formar em Antropologia e conheço bastante bem (alguns mais que outros como é óbvio) os grandes nomes das Ciências Sociais. Se houver erros a corrigir agradeço que o faça mas não acuse os outros de falta de conhecimento quando este nem está em causa.
Apesar de tudo, peço-lhe que volte a visitar o nosso site e a responder a todos e qualquer post que seja colocado, pois interessa é manter o dialogo com pessoas que consigam estruturar o mesmo sem serem ofensivos e acima de tudo sejam capazes de formar textos coerentes.
Obrigado pela sua opinião
Caro Daniel Silvestre,
Em primeiro lugar, obrigado pela sua resposta e pela forma simpática como me respondeu.
Começaria por dizer que eu não assumo a ignorância de ninguém. No entanto, pelo que pude ler (é só isso que posso usar para fazer as minhas deduções), fiquei um pouco perplexo com algumas das coisas que encontrei. E continuo a achar estranhas algumas das suas afirmações, que eu esperaria ver formuladas de modo diverso por uma pessoa com um bom domínio das problemáticas da filosofia da ciência. Não estou a negar que não tenha esse domínio: mas, do meu ponto de vista, daquilo que me é dado a ler, não o consigo ver.
Parece-me que a separação que faz aos crentes, em duas categorias, os crentes “ovelha” e os crentes que apenas se referem a um “ser supremo”, é uma separação muito má, ou seja, não faz jus à realidade complexa da questão.
Explico-me. Ninguém duvida da existência de crentes “seguidistas”, que são crentes de forma acrítica, e que aceitam sem questionar tudo o que lhes é dito. Esses crentes existem, e poderão até ser um grupo grande (não tenho dados estatísticos). No entanto, a sua separação não permite partir o conjunto dos crentes em dois conjuntos complementares. Há crentes que ficam de fora. Eu, por exemplo, fico de fora.
Vejamos:
Conjunto A: crentes “ovelhas”, que seguem uma instituição cegamente
Conjunto B: crentes que crêem apenas num genérico “ser supremo”
Eu, pessoalmente, não me revejo em nenhum destes conjuntos. Por um lado, sigo uma instituição, a Igreja Católica, mas não cegamente. Apesar de ter sido baptizado pelos meus pais com poucos meses de vida, tive muitas oportunidades para rejeitar a fé que me foi dada no baptismo. Já tive uma fase de quase ateísmo adolescente, durante a qual questionei tudo, e que foi ultrapassada com a opção clara pela crença, a partir do momento em que comecei a estudar racionalmente os fundamentos da doutrina católica. Logo, não serei daqueles que seguem algo sem questionar, uma vez que a minha decisão foi tomada à custa de muito questionar. E, todos os anos, revejo pressupostos e afino o meu sistema de ideias, porque nunca deixo de questionar as coisas nas quais acredito. Por isso, não faço parte do A.
Por outro lado, não posso fazer parte do B, porque eu não acredito “apenas” num “ser supremo”. Identifico esse “ser supremo” com o Deus cristão, uno em substância, trino em pessoas, como sendo o mesmo Deus revelado pelo Antigo Testamento dos hebreus e pela Boa Nova de Jesus Cristo. Professo a fé católica, fixada no Símbolo de Niceia, pelo que é bem clara a minha adesão à doutrina da Igreja Católica romana.
Pelo que, se não faço parte nem do A, nem do B, e se sou crente, então automaticamente, a sua separação dos crentes em duas partes está errada. Há algo que falta nessa tentativa de separação.
E, permita-me que insista, acho que entendi bem o seu texto, uma vez que a minha objecção central se mantém.
Nesta sua resposta, o Daniel escreve:
«mais tarde ou mais cedo vai conseguir desvendar-se cada vez mais e mais mistérios que nos rodeiam e dar sentido a teorias invalidas criadas pelas várias religiões»
Continua presente na sua prosa uma aparente (reforço “aparente”) confusão de domínios, uma vez que as pretensões da doutrina católica dizem respeito ao domínio da metafísica. E o Daniel parece falar de “mistérios desvendados” pela ciência, o que diz respeito ao domínio da física.
O problema é este:
a) o método científico diz respeito apenas ao domínio físico da realidade
b) a doutrina cristã diz respeito a toda a realidade, tanto física como metafísica; no entanto apenas advoga infalibilidade no domínio da metafísica
c) o método científico apenas pode estudar proposições físicas, porque são as únicas que pode testar e falsificar
A ciência, por definição própria, não tem ferramentas para lidar com proposições metafísicas. Não se trata de esperar o tempo suficiente para ver se a ciência progride: a ciência vai, com grande probabilidade, progredir, mas os domínios de cada área são diferentes. Não há forma de falsificar empiricamente uma proposição metafísica, que por definição não é empírica. Que tipo de testes científicos propõe o Daniel para testar a proposição metafísica: “Deus existe”? Como é que se constrói uma bateria de testes para tentar falsificar o conceito de Trindade?
Vejo também que o seu discurso denota um certo optimismo, a meu ver injustificado, não só na expectativa de a ciência um dia vir a explicar tudo no domínio da natureza, como também de vir a explicar (ou refutar) os sistemas metafísicos de crença em Deus.
Já vimos que a ciência não pode demonstrar (nem refutar) nada fora do domínio físico ou empírico.
E a coisa também não parece fácil sequer no domínio físico… A Teoria Unificada, o “santo graal” dos físicos da modernidade, está cada vez mais fragilizada (o próprio Hawking o reconheceu recentemente) visto que, como demonstrou Godel com os seus teoremoas da incompletude, nem sequer parece possível obter um sistema formal coerente e auto-demonstrável em conjuntos de números naturais, que são os mais simples que podemos conceber em matemática.
É curioso que foi em 1931 que o matemático Godel publicou o seu “On formally undecidable propositions of Principia Mathematica and related systems”, mas a comunidade científica demorou várias décadas a dar-se conta do impacto revolucionário destas demonstrações de Godel. Stanley Jaki exemplifica neste importante artigo o ponto actual de situação, visto que ele mesmo tem feito um trabalho de décadas para alertar os cientistas para os resultados de Godel, o que tem permitido travar o entusiasmo relativamente a uma Teoria Unificada:
http://pirate.shu.edu/~jakistan/JakiGodel.pdf
Caríssimo Daniel, poderemos manter este debate aberto, se assim o entender. O meu objectivo era só o de afirmar que não é científico, de acordo com o que se sabe em filosofia da ciência, afirmar que a metafísica é totalmente desprovida de sentido. Não duvido que existam metafísicas sem sentido, basta que apresentem contradições. No entanto, há metafísicas com sentido, e a cristã é uma delas. Não o obrigo a reconhecer isto, longe de mim, mas queria levá-lo a aceitar estas conclusões necessárias:
a) a Ciência não pode testar nem falsificar teses metafísicas
b) não se pode afirmar que toda a metafísica é desprovida de sentido ou irreal
c) é possível ser-se crente católico, aceitar TODOS os dogmas do catolicismo, e no entanto, aceitar todas as verdades científicas; não existe qualquer incompatibilidade
Cumprimentos,
Bernardo Motta
Caro Bernardo
Esta é a minha resposta possível ao seu posta anterior. Espero poder esclarece-lo ou talvez mesmo proporcionar mais argumentação o que será óptimo.
Começo por colocar esta questão. Porque insistem as pessoas em dizer, leia este ou aquele senhor? Não percebo, mas explico porque acho isso desnecessário.
É bonito e mostra o grau de cultura de uma pessoa referir vários nomes de Filósofos ou Cientistas sociais. Mas a verdade é que apesar de terem sido lidos por milhares, que credito tem estas pessoas para opinar quando são tão humanas como eu ou o Bernardo, repare que eu n recorro (salvo raros casos) à utilização de referencias pois os meus textos são originais e totalmente saídos das minhas opiniões e exposições filosóficas. Mas se quer nomes então posso dar-lhe vários nomes que criticaram a igreja como Nietzsche, John Locke, Auguste Comte, Durkheim ect, e nomes de pessoas que foram contra os ensinamentos da doutrina como Galileu por dizerem coisas tão simples como o a terra move-se à volta do Sol. Mas a verdade é que eu sinto-me no direito de questionar todas e quaisquer pessoas que atirem opiniões sobre qualquer tema sem provas concretas, da mesma forma que aceito que o Bernardo ponha em causa aquilo que escrevo e o mesmo sucede com estas religiões inventadas pela mão do Homo Religiosus.
Outro ponto a ter em conta é a modernização da igreja, neste caso católica ser quase anedótica. Como é que se fecha os olhos às constantes renovações que a igreja atravessa quase que diariamente a adaptar-se aos dias que correm, quando supostamente os ensinamentos vindos da palavra de deus deviam manter-se actuais e indiscutíveis sendo frases de orientação “perfeitas”?
Dizem que o mal das Instituições é o homem? Mas a verdade é que sem os homens não haveria instituições e sem o homem muito menos existiria deus pois o Bernardo não vê um macaco a ler a bíblia ou um golfinho a rezar uma qualquer prece, e não vale a pena a defesa de não serem seres inteligentes pois esta provado que o são e não se mostram muito interessados em quem fez o mundo onde habitam, pois só dependem do ciclo da natureza desde que o ser feito à imagem de deus não meta as suas mãos nos seus ecossistemas.
Natureza, sim esse sistema de quase perfeição, quase semelhante a um, deus. Pois, algo que esta debaixo dos nossos narizes todos dias e ela própria quase explica por si só a falta da necessidade de haver um deus, pois a natureza faz e desfaz a seu bel prazer, mata milhares sem qualquer problema moral e na outra face dá-nos os recursos naturais que precisamos para sobreviver. Esta força não é deus nem sua subordinada mas consegue rasgar bocados do planeta e eliminar populações inteiras com catástrofes naturais. E para quem defenda que esta é a obra de deus, então deus tem uma visão muito mórbida de diversão e direito à vida e não parece que é essa a mensagem que a igreja católica tende a passar do seu deus.
A questão de associar o que não se percebe ao metafísico é um acto de cobardia já repetido por muitos durante vários séculos. O Inteligent Design é uma das vertentes dessa preguiça da procura de explicações plausíveis para explicações difusas acentes num ser divino que como já mostrei nem tem fundamento de existir pois não há necessidade para ele existir de facto, a não ser para alguns que continuam a dedicar a os seus erros, vitorias e derrotas a esse ser invisível.
Não querendo afastar-me mais. Bernardo, o tema deste tópico é a incrementação do dialogo entre crentes e não crentes de forma aberta. Se o Bernardo acha que se enquadra num outro grupo de crença divina é da sua liberdade faze-lo, eu apenas referi estes dois de forma alargada e pouco pormenorizada, por vezes os leitores parecem esquecer-se da realidade da diferença entre um Post e uma Tese, desta forma surgem questões por coisas na realidade generalizadas.
Cumprimentos
Caro Daniel,
«Esta é a minha resposta possível ao seu posta anterior. Espero poder esclarece-lo ou talvez mesmo proporcionar mais argumentação o que será óptimo.»
Mais uma vez, obrigado pela disponibilidade.
«Começo por colocar esta questão. Porque insistem as pessoas em dizer, leia este ou aquele senhor?»
Quando o faço é quando acho que tal autor, ou o seu trabalho, ajudam ao esclarecimento da questão. Trata-se também de humildade. Quando sei que alguém explicou um tema muito melhor do que eu seria capaz, refiro-me a esse autor.
«É bonito e mostra o grau de cultura de uma pessoa referir vários nomes de Filósofos ou Cientistas sociais.»
O Daniel não está a entender as minhas razões. Não é a vaidade que me move! Quero lá saber da minha pessoa. Quero é debater ideias. Se alguém pode ajudar, com o seu trabalho, a esse debate, esse alguém deve ser invocado.
«Mas a verdade é que apesar de terem sido lidos por milhares, que credito tem estas pessoas para opinar quando são tão humanas como eu ou o Bernardo»
São, de facto, humanas. E não são, obviamente, imunes ao erro. Mas têm crédito. O crédito de terem passado anos, ou mesmo décadas, a debater estas questões ao mais alto nível intelectual. O Daniel parece propor uma abordagem de partida sempre “do zero”, de não aproveitamento do trabalho feito por outros antes de nós. Dou-lhe um exemplo que talvez seja mais do seu gosto. Faria sentido eu discutir o neodarwinismo, nos dias de hoje, sem referir Dawkins? Seria justo? Eu não concordo com o que Dawkins escreve sobre religião, mas vejo-o como uma autoridade valiosa em matéria de neodarwinismo científico. Porque partiria eu do zero, tentando aprender neodarwinismo sem a ajuda das valiosas obras dos grandes neodarwinistas dos nossos tempos?
«repare que eu n recorro (salvo raros casos) à utilização de referencias pois os meus textos são originais e totalmente saídos das minhas opiniões e exposições filosóficas.»
Ainda bem. Acho que deve existir sempre originalidade, senão papagueamos o que outros disseram.
Mas, ao mesmo tempo, se me perguntarem se prefiro repetir uma verdade que alguém disse, ou ser original numa asneira, prefiro repetir a verdade. É que eu quero mesmo chegar à verdade das coisas. E se tiver que sacrificar a minha originalidade, se eu não puder aparecer no pódio da glória humana com a minha genial originalidade, prefiro repetir as boas verdades que os homens e mulheres de génio, do meu tempo ou de outros tempos, disseram que me ajudaram a ver a verdade das coisas.
«Mas se quer nomes então posso dar-lhe vários nomes que criticaram a igreja como Nietzsche, John Locke, Auguste Comte, Durkheim»
Mas porque razão não haveria de o fazer? Daria solidez filosófica ao seu ateísmo. E haveria sempre espaço para a sua originalidade, para o Daniel dar o seu contributo, a sua opinião sobre as obras destes grandes pensadores.
«como Galileu por dizerem coisas tão simples como o a terra move-se à volta do Sol»
Por exemplo, se o Daniel for consultar o “Structure of Scientific Revolutions” do Thomas Kuhn, encontrará uma visão mais científica do caso Galileu, em vez de ter uma opinião superficial e ditada pelas modas mediáticas. Hoje em dia, toda a gente fala sobre o caso Galileu, mas ninguém sabe coisas básicas: sabe identificar os processos movidos contra Galileu, indicando as suas datas, motivos e promotores?
Repare que eu não estou a fazer juízos de moral sobre os processos, mas como os processos contra Galileu são diferentes, muito diferentes, nas suas motivações, é preciso saber de qual estamos a falar.
Sabe o que sucede quando falamos sobre assuntos que não conhecemos em primeira mão? Sabe o que fazem todas as pessoas, como o Daniel (ou como eu mesmo, quando em tempos falei também assim sobre o caso Galileu), que falam sobre Galileu sem conhecerem os processos e os argumentos? Fazem PROPAGANDA.
É verdade: sempre que falamos sobre temas que não conhecemos em primeira mão (ou às vezes nem em segunda), estamos a veicular opiniões de outras pessoas. Isso é propaganda.
«Mas a verdade é que eu sinto-me no direito de questionar todas e quaisquer pessoas que atirem opiniões sobre qualquer tema sem provas concretas, da mesma forma que aceito que o Bernardo ponha em causa aquilo que escrevo e o mesmo sucede com estas religiões inventadas pela mão do Homo Religiosus.»
O Daniel também não tem provas concretas para esta frase final, alegando que as religiões foram inventadas pelo Homem.
«Outro ponto a ter em conta é a modernização da igreja, neste caso católica ser quase anedótica. Como é que se fecha os olhos às constantes renovações que a igreja atravessa quase que diariamente a adaptar-se aos dias que correm, quando supostamente os ensinamentos vindos da palavra de deus deviam manter-se actuais e indiscutíveis sendo frases de orientação “perfeitas”?»
Pode dar um exemplo em concreto?
É complicado comentar uma frase destas. O que é que, para si, deveria ser objecto de uma modernização, e porquê?
Entenderá que eu vou esperar de si uma argumentação baseada nalgum conhecimento elementar de doutrina.
Fará sentido que o Daniel conteste aspectos concretos da doutrina católica sem a conhecer bem?
«Dizem que o mal das Instituições é o homem? Mas a verdade é que sem os homens não haveria instituições e sem o homem muito menos existiria deus pois o Bernardo não vê um macaco a ler a bíblia ou um golfinho a rezar uma qualquer prece, e não vale a pena a defesa de não serem seres inteligentes pois esta provado que o são e não se mostram muito interessados em quem fez o mundo onde habitam, pois só dependem do ciclo da natureza desde que o ser feito à imagem de deus não meta as suas mãos nos seus ecossistemas.»
Não tenho bem a certeza de ter compreendido este seu trecho.
Vou tentar apontar as coisas das quais discordo.
De acordo com a visão católica, Deus não depende do Homem. A criação é acto livre de Deus. A criação é contingente, e não necessária. Por isso, Deus poderia existir sem o Homem. O Homem é um ser finito, com as suas limitações. Por essa razão, as instituições humanas, mesmo quando buscam servir a Deus (caso da Igreja Católica), têm os seus limites, que advêm dos limites dos seus membros.
«Natureza, sim esse sistema de quase perfeição, quase semelhante a um, deus.»
Bom, mas a Natureza não pode ser confundida com Deus. Para mais, a natureza tem os seus próprios processos eficientes, e não é necessário invocar Deus para os explicar. A teologia distingue isto deixando claro que os processos naturais têm as suas próprias causas eficientes, também chamadas de “causas segundas” porque não dependem de Deus na sua eficiência, apesar de dependerem de Deus na sua existência.
A lei da gravidade não depende de Deus para exercer o seu efeito, mas se Deus não tivesse criado corpos com massa que se atraem, então a lei da gravidade não existiria.
«Pois, algo que esta debaixo dos nossos narizes todos dias e ela própria quase explica por si só a falta da necessidade de haver um deus»
Parece-me existir uma confusão entre, por um lado, as causas material e eficiciente, que são o objecto de estudo das ciências modernas, e por outro lado, as causas formal e final, que são causas que a ciência moderna não usa nem estuda, uma vez que não podem ser testadas por via empírica. Deus não é necessário, como referi, para se estudarem as causas material e eficiente. No entanto, Deus é a resposta óbvia quando olhamos filosoficamente para a natureza à procura de forma e de finalidade. As causas material e eficiente são matéria de Ciência, as causas final e formal são matéria de Filosofia.
Deste modo, a Ciência, incapaz de dar respostas para a forma e para a finalidade, poderá receber a ajuda da Filosofia, que esta sim, pode dar essas tentativas de resposta.
«pois a natureza faz e desfaz a seu bel prazer, mata milhares sem qualquer problema moral e na outra face dá-nos os recursos naturais que precisamos para sobreviver.»
Mas parece que o Daniel fala da natureza como se fosse um sujeito. A natureza não é um sujeito. Não se lhe aplicam normas ou preceitos morais. Um tsunami é um tsunami, e a moral não tem nada a ver com isso.
«Esta força não é deus nem sua subordinada mas consegue rasgar bocados do planeta e eliminar populações inteiras com catástrofes naturais. E para quem defenda que esta é a obra de deus, então deus tem uma visão muito mórbida de diversão e direito à vida e não parece que é essa a mensagem que a igreja católica tende a passar do seu deus.»
As forças da natureza não são Deus nem são divinas. São forças naturais. As suas acções não têm âmbito moral. Não se pode “julgar” moralmente a natureza por aquilo que são as consequências das suas leis. As catástrofes não são “obra” de Deus, uma vez que Deus não intervém nas causas material e eficiente da natureza. Deus fez o mundo com leis e regras concretas, gravidade, densidade, campo electromagnético, decaimento radioactivo, etc. E o mundo age como age.
Este argumento que o Daniel invoca é muito popular, mas está errado. Deus intervém nas causas primeiras, na existência das coisas, nas leis naturais. A natureza tem as suas próprias leis, que são causas segundas, nas quais Deus não entra nem opina.
Um mundo sem a “liberdade” das leis da natureza seria um mundo determinista, em que tudo estaria decidido. Um mundo sem liberdade. É o eterno problema do Mal: queremos um mundo sem Mal, e culpamos Deus, mas isso é um erro flosófico. Como podemos querer um mundo de leis naturais livres sem catástrofes? Como podemos querer uma consciência humana livre sem Mal? O mal é a consequência da liberdade que Deus deu ao Homem.
«A questão de associar o que não se percebe ao metafísico é um acto de cobardia já repetido por muitos durante vários séculos»
Ao que “não se percebe”? O que quer dizer com isso?
Eu considero que os teólogos cristãos se preocupam seriamente em perceber as coisas que dizem. A teologia, ou mesmo a metafísica, são áreas de estudo racional. Frases como esta deixam-me perplexo. Eu repito: há uma Faculdade de Teologia em Oxford, só para ir buscar uma das mais conhecidas. Porque razão existe ela, Daniel?
«O Inteligent Design é uma das vertentes dessa preguiça da procura de explicações plausíveis para explicações difusas acentes num ser divino que como já mostrei nem tem fundamento de existir pois não há necessidade para ele existir de facto, a não ser para alguns que continuam a dedicar a os seus erros, vitorias e derrotas a esse ser invisível»
Sinceramente, Daniel: onde é que o Intelligent Design invoca um Deus?
Eu não sou especialista, mas não me parece que a palavra “god” venha explicitada nos argumentos dos defensores dessa tese. É uma tese que procura demonstrar, cientificamente, que existe finalidade na natureza. Pessoalmente, eu duvido que tal seja possível, e por isso, não apoio esse movimento. Mas considero que é um movimento que traz novo fôlego para o debate. E esse debate deve ser científico. Sinceramente, nunca ouvi falar de o Intelligent Design invocar Deus… Pode dar-me um exemplo de um artigo científico escrito pelos proponentes do Intelligent Design onde se use Deus para explicar um fenómeno natural?
«Não querendo afastar-me mais. Bernardo, o tema deste tópico é a incrementação do dialogo entre crentes e não crentes de forma aberta.»
Bom, algum afastamento acontece sempre!
«Se o Bernardo acha que se enquadra num outro grupo de crença divina é da sua liberdade faze-lo, eu apenas referi estes dois de forma alargada e pouco pormenorizada, por vezes os leitores parecem esquecer-se da realidade da diferença entre um Post e uma Tese, desta forma surgem questões por coisas na realidade generalizadas.»
Claro que sim, não quero exigir do seu texto o rigor que se exige de uma tese. Como também espero que olhe para as minhas palavras como curtos argumentos que, por falta de espaço, não estão adequadamente sustentados.
Neste momento, estou a terminar um trabalho sobre Criação e Evolução. Penso que no final de Abril poderei colocá-lo online no meu blogue. E depois gostaria de ter a sua opinião.
Cumprimentos,
Bernardo
Caro Bernardo,
Certamente aceito esse convite relativamente à leitura do seu trabalho e com muito gosto que o farei.
Algo que não quero deixar de comentar é que de facto a cada resposta que me deu em certo aspecto aproximou-se muito do que eu refiro no meu post inicial, o Bernardo afasta-se frequentemente da doutrina da sua religião para se aproximar mais da defesa do seu deus divino, muito a meu ver semelhante ao tipo de pessoas que eu refiro capazes de argumentar e de defender as suas teorias religiosas, e como já referi acho isso um ponto a favor, embora reconheça que o Bernardo está a nível pessoal entre esse limbo, isto na minha visão claro.
Relatando algumas questões.
Quando falo por exemplo em Inteligent Design, falo-o como “uma das vertentes” da capacidade que o homem desenvolve preguiçosamente de atribuir a um ente criador a origem de algo quando este não percebe mais do que sabe e sim isto é ID, se estiver atento a algumas das palestras de Neil deGrass Tyson um astrofísico de renome. Verá que numa destas ele refere várias mentes brilhantes do passado e acusa-os claramente de reféns do ID ao afirmarem que a partir de certo ponto quando o “seguinte” era inexplicável era obra de Deus. Pode ver, basta procurar no Youtube o vídeo por exemplo.
Quanto à questão da criação com poderes mórbidos então, neste caso suponho que o Bernardo acredita então que deus criou tudo, mas agora é apenas um espectador ou mesmo um deus ausente, se assim o é então estamos perante um deus realmente cruel pois adora meter os seres que criou por provações e agonia, parece-me bem vindo de uma identidade paternal. No entanto se há casos que afirmam que ainda tem mão em nós (porque razão é que ele ajuda milagrosamente as pessoas?) (algumas como é sabido) ou o simples facto de lhe rezar por intervenção, o fazem presente, então volta a ser um deus com gosto por sangue, nada de novo tendo em conta certas histórias presentes da bíblia que conhecerá melhor eu as quais maltratam e muito certos personagens que em tudo, foram devotos a ele. De qualquer forma é um deus que se mostra-se também insensível à selecção natural da natureza, mas no entanto acode a uma pessoa à beira da morte. Belo amigo, logo por aqui não o quero como meu.
Por fim Bernardo, convido-o a ler um outro post meu referente ao Politeísmo onde ponho em causa a legitimidade das religiões monoteístas como a sua, face a religiões milenares bem mais antigas e com a mesma legitimidade ou maior que a sua.
Penso que será um bom motivo para desenvolver a conversa.
Mais uma vez muito obrigado pelos seus posts, é sempre agradável saber que há pessoas desse lado da barricada que conseguem desenvolver o tal dialogo que refiro no meu post o que para mim já mostra a importância do mesmo e a pertinência deste pois conseguiu suscitar o dialogo sobre o mesmo o que para mim já é uma vitória, e penso que neste ponto concordara comigo.
Cumprimentos
Caro Daniel,
Em primeiro lugar, as minhas desculpas se não deixo passar mais tempo entre comentários, mas sucede que neste momento tenho tempo para lhe responder, e amanhã o dia poderá ser mais complicado!
«Certamente aceito esse convite relativamente à leitura do seu trabalho e com muito gosto que o farei.»
Muito obrigado!
«Algo que não quero deixar de comentar é que de facto a cada resposta que me deu em certo aspecto aproximou-se muito do que eu refiro no meu post inicial, o Bernardo afasta-se frequentemente da doutrina da sua religião para se aproximar mais da defesa do seu deus divino, muito a meu ver semelhante ao tipo de pessoas que eu refiro capazes de argumentar e de defender as suas teorias religiosas, e como já referi acho isso um ponto a favor, embora reconheça que o Bernardo está a nível pessoal entre esse limbo, isto na minha visão claro.»
Não compreendo. Acha que estou a afastar-me da doutrina católica, e a adoptar uma visão mais pessoal? Mas a forma como concebo a relação entre metafísica e ciência, afinal de contas, é a mesma que a Igreja Católica adopta desde os tempos de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino, que em questões intelectuais, continuam a ser os meus grandes mestres.
«Quando falo por exemplo em Inteligent Design, falo-o como “uma das vertentes” da capacidade que o homem desenvolve preguiçosamente de atribuir a um ente criador a origem de algo quando este não percebe mais do que sabe»
Mas isso seria abdicar da ciência. E isso não faz qualquer sentido. Eu acho que algumas das sugestões do ID são interessantes, nomeadamente no que diz respeito à procura empírica de um teste de irredutibilidade. Mas nâo me parece, de forma alguma, que o objectivo do ID seja impedir a ciência de avançar. Antes pelo contrário.
Eu só não vejo o ID com grande entusiasmo, porque me parece mais filosofia do que ciência. O que não quer dizer que tenha valor. Eu acho que tem valor.
«e sim isto é ID, se estiver atento a algumas das palestras de Neil deGrass Tyson um astrofísico de renome. Verá que numa destas ele refere várias mentes brilhantes do passado e acusa-os claramente de reféns do ID ao afirmarem que a partir de certo ponto quando o “seguinte” era inexplicável era obra de Deus. Pode ver, basta procurar no Youtube o vídeo por exemplo.»
O Daniel tem toda a razão do mundo quando afirma que um excessivo interesse pelas causas formal e final, e isso aconteceu imenso no passado (veja-se o caso emblemático do britânico Paley, tão criticado por Darwin), atrasou o desenvolvimento científico. O filósofo cristão Étienne Gilson, num livro fenomenal que recomendo (”D’Aristote a Darwin et retour”, 1971), faz um estudo filosófico das várias teorias acerca das origens da vida, e ele sublinha isto mesmo que o Daniel aqui escreveu: que um interesse excessivo pelas causas final e formal atrasou, durante vários séculos, o estudo e o conhecimento das causas material e eficiente, o que atrasou o progresso científico.
É inegável que as paixões metafísicas da Escolástica medieval tiveram um peso negativo no desenvolvimento da Ciência, mas APENAS no sentido em que durante tantos séculos, a “nata da nata” da intelectualidade cristã estava demasiado focada na metafísica. Isto não quer dizer que a metafísica era má ou não prestava para nada. Só que havia um desequilíbrio em termos do interesse intelectual: a balança pendia demasiado para o lado metafísico. Após Descartes, a intelectualidade europeia procurou, em grande medida, recuperar o tempo perdido. Mas agora a balança pende para o lado físico. Estamos de novo em desequilíbrio, e há que procurar esse “meio” no qual está a virtude intelectual. Quando cientistas, trabalhando já fora do âmbito da ciência, dizem que a metafísica não faz sentido (caso de Carnap), torna-se necessário questionar os seus critérios de sentido e de falta de sentido, porque essa afirmação, a de Carnap, é que não faz sentido! Há que conhecer os limites da ciência. E a filosofia é uma boa forma de conhecer esses limites.
Mas o autor Gilson que referi atrás escreveu nessa obra uma coisa que me parece central: porquê, agora que já apanhámos o comboio do progresso científico, deitar fora a metafísica? Desprezar a filosofia? Descartar tudo o que tem a ver com trabalho racional acerca das coisas últimas, que não apenas as materiais e as empíricas?
Eu defendo que está na altura de recuperar o que há de bom na metafísica e o que há de bom em ciência.
Uma visão intelectual integral exige as duas áreas.
Vamos agora pegar na questão de Deus e do mal, outra vez…
«Quanto à questão da criação com poderes mórbidos então, neste caso suponho que o Bernardo acredita então que deus criou tudo, mas agora é apenas um espectador ou mesmo um deus ausente, se assim o é então estamos perante um deus realmente cruel pois adora meter os seres que criou por provações e agonia, parece-me bem vindo de uma identidade paternal.»
Hesitei em expandir mais a questão, para não tornar o comentário anterior demasiado extenso.
Eu não expliquei tudo o que penso. Certamente que o Deus que os cristãos concebem é um Deus que intervém neste mundo. Por exemplo, o estudo científico e teológico dos milagres diz respeito a acontecimentos extraordinários, pelos quais fenómenos físicos são causados por causas metafísicas. Normalmente, o ser humano não anda sobre as águas, porque temos um corpo mais denso que a água. Mas Cristo, sendo Deus, ao andar sobre as águas do Tiberíades, efectuou um verdadeiro milagre, ao alterar localmente o comportamento da natureza.
Entenda isto, Daniel, para que veja a visão cristã dos milagres de forma correcta: normalmente, podemos e devemos confiar nas leis físicas, e estudá-las, e compreendê-las. Mas Deus, omnipotente e libérrimo, pode intervir quando entender neste mundo. A ressurreição de Cristo é outro exemplo.
E sobre a hipotética “crueldade” de um Deus que não salva as vítimas de uma catástrofe, resta-me dizer, caro Daniel, que não temos todos os dados. Se não conhecemos o destino que nos espera após esta existência física, como podemos fazer juízos, dizendo que Deus é justo ou injusto? Eu acho mais sensato pensar que Deus é justo, do que procurar me indignar com as decisões de Deus.
Quando o meu pai morreu de cancro dos pulmões, em 2004, eu achei uma tremenda injustiça. Mas rapidamente entendi que estava a ver as coisas de uma forma muito emotiva, muito pessoal. É certo que a partida das pessoas de quem gostamos nos custa muito, e tais pessoas fazem-nos muita falta. Mas todos nós temos uma certa duração de vida, finita, e todos temos que morrer, de uma maneira ou de outra. Pensar que esta vida é tudo não faz grande sentido. Não é que eu aceite esta ideia de imortalidade da alma porque me consola. É certo que consola. Mas aceito-a porque a considero verdadeira. E porque a considero verdadeira, então consola-me.
A lógica não é esta:
A imortalidade consola =>
=> Acredito na imortalidade =>
=> Digo que a imortalidade é verdadeira
É mais uma lógica assim:
A imortalidade é verdadeira =>
=> O meu intelecto aceita essa imortalidade porque Cristo falou dela e experimentou-a ao ressuscitar
=> Mesmo sem provas, confio no testemunho cristão, porque o acho razoável (não é contraditório nem choca com as evidências) =>
=> Sinto-me consolado pela verdade da imortalidade
«No entanto se há casos que afirmam que ainda tem mão em nós (porque razão é que ele ajuda milagrosamente as pessoas?) (algumas como é sabido) ou o simples facto de lhe rezar por intervenção, o fazem presente, então volta a ser um deus com gosto por sangue, nada de novo tendo em conta certas histórias presentes da bíblia que conhecerá melhor eu as quais maltratam e muito certos personagens que em tudo, foram devotos a ele.»
O relato do Antigo Testamento mostra-nos a aventura do povo hebreu, num percurso sinuoso que passa por momentos de maior proximidade com Deus e maior confiança n’Ele, e por momentos de desobediência às leis divinas, que no fundo, são em grande parte as leis morais universais: não matar, não roubar, etc.
Quando o escriba hebreu, inspirado por Deus, escreve que um certo inimigo do povo hebreu foi derrotado, tende a ver nessa derrota uma recompensa de um Deus justo, que intervém na História sempre que deseja repor a justiça neste mundo. Mas insisto que estamos apenas a ver uma parte da realidade. Deus terá um projecto de justiça global, que considere cada pessoa individualmente. Deus terá um projecto de justiça que tenha em conta as recompensas e os castigos que são necessários à verdadeira justiça. Por vezes encontro ateus ou agnósticos (às vezes, mesmo católicos, pasme-se!) que ficam muito espantados quando lhes digo que acredito no Céu, no Inferno e no Purgatório.
É que parece-me absolutamente lógico, num Deus justo, que este Deus, ao dar a liberdade ao Homem, deixa-o, se quiser, optar pelo mal para toda a eternidade. Um assassino em série, frio, calculista, racional, opta pelo mal, e é lógico que viva esse mal quando um dia morrer, e a sua alma deixar de estar ligada a um corpo. É lógico que, nessa altura, ele experimente um estado existencial de grande angústia e desespero, pois ele optou pela negação da sua ontologia: a rejeição do Deus Criador é um acto livre que se pode comparar a uma espécie de “suicídio espiritual”. Mas com uma diferença grande: as almas não são destruídas, nunca.
A imortalidade serve tanto para o Céu como para o Inferno. Somos quem somos para sempre, eternamente. Podemos usar da nossa liberdade para procurar Deus como fonte suprema do Bem e da felicidade. Ou podemos usar a nossa liberdade para, tanto quanto é possível a uma criatura, “fugir” de Deus. Essa “fuga”, sempre limitada porque somos criaturas, leva-nos a uma situação que a teologia decidiu apelidar de “Inferno”. A palavra evoca a noção de “inferioridade”, porque essa situação é, de facto, a mais reles e baixa que uma criatura pode assumir.
«De qualquer forma é um deus que se mostra-se também insensível à selecção natural da natureza, mas no entanto acode a uma pessoa à beira da morte. Belo amigo, logo por aqui não o quero como meu.»
Parece-me que o Daniel dá demasiada importância a esta vida. Cristo disse que quem ama (demasiado) esta vida, perdê-la-á e que quem procede de modo contrário ganhá-la-á para toda a eternidade. Este ensinamento mostra que vivemos num estado transitório. Estamos sempre em agitação e em movimento. Não há uma só parte do nosso ser que esteja verdadeiramente quieta, sem se mexer, desde que nascemos até que morremos. Há sempre movimento, que o nosso caro Aristóteles chamaria do processo que corresponde à passagem de algo em potência para algo em acto.
Ora, se tudo o que existe neste mundo material está sempre em transição de potência para acto, porque tudo se move, é lógico pensar que haverá um ser permanentemente em acto, no qual nada exista em potência, porque tudo existirá como é, para sempre. Esse ser é Deus. No pólo oposto, podemos pensar numa coisa totalmente potencial, na qual nada é acto. Tal coisa é a “matéria-prima” de que falávam os filósofos escolásticos. Essa “matéria-prima” pode bem ser o limite material de investigação quântica à matéria física. Isto levar-nos-ia muito longe, mas deixo para o meu trabalho, que abordará a relação entrea “matéria-prima” dos escolásticos e a física quântica moderna.
«Por fim Bernardo, convido-o a ler um outro post meu referente ao Politeísmo onde ponho em causa a legitimidade das religiões monoteístas como a sua, face a religiões milenares bem mais antigas e com a mesma legitimidade ou maior que a sua.»
Vou ler com antenção, e comentar lá, mas desde já lhe deixo o que penso em geral sobre o tema: o polteísmo é um absurdo. Porque é um contrasenso. Se algo é Deus, é uno. Prova-se isto pelo absurdo:
Definição 1: Diz-se que algo é o Ser, perfeito e infinito, se a essência desse algo consiste em “ser”, ou seja, em existir de forma independente de outros seres (”Ser necessário”)
Definição 2: Diz-se que algo é um ser, imperfeito e finito, se esse algo, tendo necessariamente existência, existir sob certa forma (finita), dependendo de outro ser para apoiar a sua existência (”ser contingente”)
Axioma 1: Deus, como os cristãos o concebem, é o Ser (ver Definição 1)
Axioma 2: Todos os seres, excepto Deus, são seres contingentes (ver Definição 2)
Proposição 1: Há um ente A que tem os atributos de Deus (ver o Axioma 1 e a Definição 1)
Proposição 2: Há um ente B, tal que B é diferente de A, e que também tem os atributos de Deus (ver o Axioma 1 e a Definição 1)
Se reparar, o raciocínio lógico morre já aqui: a Proposição 2 é contraditória. Se A fosse diferente de B, então nem A nem B poderíam ser, na totalidade, o “Ser”, porque qualquer um dos dois, A ou B, teria a sua (suposta) existência total e independente limitada pela (suposta) existência total e independente do outro. Logo, só há um ser cuja essência é existir. Todos os outros seres têm essências diversas, e existem por participação no Ser.
Estas coisas são estudadas num ramo específico da metafísica, chamado Ontologia.
A minha exposição é fraca. Se quiser, vou procurar um trecho específico de Tomás de Aquino que explica isto melhor.
A ideia-chave é esta: o conceito de Infinito força-nos ao atributo de Uno. Só há um verdadeiro Infinito ontológico. É disso que falamos quando falamos de Deus.
Os politeísmos são sistemas cuja ontologia é deficitária, incompleta e contraditória.
«Penso que será um bom motivo para desenvolver a conversa.»
Sem dúvida!
«Mais uma vez muito obrigado pelos seus posts, é sempre agradável saber que há pessoas desse lado da barricada que conseguem desenvolver o tal dialogo que refiro no meu post o que para mim já mostra a importância do mesmo e a pertinência deste pois conseguiu suscitar o dialogo sobre o mesmo o que para mim já é uma vitória, e penso que neste ponto concordara comigo.»
Como poderia discordar?
Um abraço,
Bernardo
[...] Sem dúvida que está a ser muito interessante a discussão entre o Daniel Silvestre e o comentador Bernardo no artigo “O diálogo que deve ser promovido“. [...]
[...] Verdades, Popper e propaganda 19 Fevereiro, 2008 Sem dúvida que está a ser muito interessante a discussão entre o Daniel Silvestre e o comentador Bernardo no artigo “O diálogo que deve ser promovido“. [...]
Acho que o Sr. Bernardo colocou o Sr Daniel Silvestre no seu devido lugar! Cheguei a me sentir constrangido a ponto de sentir pena do Daniel. Da próxima vez, quem sabe ele fundamenta melhor a sua opinião e pensa duas vezes antes de preciptadamente e preconceituosamente formular opiniões pejorativas a respeito das bases que sustentam a opção de muitos crentes. É uma boa oportunidade de aprender a fazer menos uso de generalizações para provar suas teses. Quem sabe depois dessa ele aprende a ser menos arrogante.
Daniel
Concordo que: «a única coisa que falta comprovar cientificamente é a falsidade da existência dos vossos deuses.» pois, só acredita no que vê?
Mas quanto a «mais tarde ou mais cedo vai conseguir desvendar-se cada vez mais e mais mistérios que nos rodeiam e dar sentido a teorias invalidas criadas pelas várias religiões.», está completamente errado, visto que, por cada nova descoberta que os humanos alcançam, também descobrem quanto maior é a dimensão do desconhecido. Vivemos numa sociedade electromagnética, aquilo que conhecemos não passa de uma gota de água no oceano. Não sá a religião terá que corrigir as posições como também a ciência.
Cirilo
Caro Sr Bernardo,
Embora quase concordemos com o essencial, pois, creio na existência de Deus. No entanto, divergimos na altura em que coloca Deus, não atinjo um Deus tão erudito, pois não possuo tão elevada cultura teológica. Além disso, emprestaram me um escadote com falta de, pelo menos, dois degraus.
Creio que, chegar a Deus só pela lógica é muito pouco, não saímos do mesmo lugar, a teologia nada acrescenta ao entendimento de Deus, apenas serve para alimentar dogmas que não resistem à acção corrosiva do tempo. Para chegar ao entendimento de Deus, melhor seria aplicar a lógica da batata-doce. É lógico que sabe bem, pois é doce. E, ir um pouco mais além, só pelo raciocínio é insuficiente, também teria que sentir, aqui, agora e para toda a eternidade, a Sua presença (sabe bem porque é doce; a-té-é-lógico, nisto se fundamenta a te-o-lógia, não?).
A interpretação erudita que faz dos milagres de Cristo, se bem entendi; alteração das características físicas da matéria numa região limitada no espaço e no tempo, só me faz recuar alguns anos quando, ainda criança, os adultos, pretendendo fazer algo próprio dos adultos, retinham a minha idade desviando o meu entendimento dizendo: Zeca, vai ali atrás, para ver se chove e depois diz-me? Essa ingenuidade de criança foi enganada pelo menos duas vezes, porque queria acreditar em tudo o que os entendidos diziam. Mas, não é bem assim, meu caro; tal como o discernimento chega com a idade, a civilização também evolui na mesma medida em que os dogmas da infância são assimilados, porque fazem parte desse mesmo crescimento. Posso garantir-lhe que, se não partiu o vidro da sua escola enquanto ainda era criança, nem sabe o que perdeu, não pode ter crescido como eu. Agora, já não é tempo de fazer e dizer o que é próprio das crianças, Por esse caminho chega sempre ao ponto de partida, esta feito num oito com o valor de um zero.
Deus é Deus da criação e não da repetição, provavelmente esses livros, da prateleira, lá do alto, já têm bolor. Mas, não é por ai, não é pelo bolor, as leituras até podem ser boas mas, as interpretações fora de contexto, parecem uma repetição infantil. Por amor de Deus, não à repetição, a palavra de ordem é - inove.
Cumprimentos
Cirilo
Caro amigo Alexandre desculpe o atraso na resposta mas tenho andado algo ausente.
Só para dizer que de facto o Bernardo não me arrumou por apenas não ter sido respondido e não tenha pena de mim, não preciso da sua pena, se for necessário tenho pessoas de quem gosto e sei que essas sentirão pena (caso se justifique) de forma carinhosa e não jocosa, obrigado.
Quanto a ser arrogante? Não me considero ser, talvez o seja, mas desafiava-o talvez a conhecer-me pessoalmente, garanto que iria perder essa opinião rapidamente.
Cumprimentos