João P. Cruz pode ser lido com regularidade no seu blog “Naturalmente, não sei“. É o convidado desta semana do nosso “Direito de Resposta”.
1. Tal como para o primeiro convidado deste espaço de “contraditório”, também foi com grande surpresa que recebi o convite do Helder Sanches, que apenas conheço da sua irreverente existência na internet, para escrever aqui algo. Também foi, confesso, na sequência do seu contacto que travei conhecimento com este portal para ateus em português. Confirma-se com este projecto que a presença dos não-crentes na internet portuguesa começa a entrar numa fase de maior expansão e isso é uma excelente notícia neste país eternamente anacrónico. Apreciei esta abertura “ecuménica” dos promotores do PA, ao estimular a reflexão e a divulgação de outras sensibilidades que não as ateístas. E o Helder convidou-me, a mim ilustre anónimo e simples curioso destas coisas de pensar na vida, porque tenho um blog onde me assumo como agnóstico e onde reflicto essa minha maneira existencial de estar.
Para breve e suficiente apresentação, tenho-me entretido ultimamente a ser livreiro e webmaster, o que para os leigos é uma espécie de mistura entre editor e empreendedor da Web; antes disto fui quinze anos jornalista e editor de informação em papel. Tenho ainda um livro publicado, cursei História na Universidade de Coimbra, sou casado e tenho dois filhos. Fiz e faço muitas outras coisas mais, mas resumidamente é isto que traduz a minha existência semi-pública e tal deve bastar como referência. Também como disse ao Helder, não tenho a menor pretensão de falar em nome “dos agnósticos”, não sei o que eles pensam nem onde estão, falo apenas por mim e às vezes demais…
O Helder fez questão de salientar a liberdade do tema, mas penso que o mais adequado será, neste ponto de encontro de sensibilidades metafísicas, reflectir então um pouco (muito livremente) acerca do meu agnosticismo e do que penso das religiões e do ateísmo.
E o que é que me distingue de um ateu? O dicionário aqui da estante ao lado diz-me que ateísmo é a “doutrina dos ateus”, a “descrença” e a “negação da existência de Deus”. O ateismo existe em função da religião e da noção de deus. Os ateus são aqueles que não são religiosos. Logo, não existindo religião, não faria sentido a existência de ateísmo, que existe apenas como oposto a qualquer coisa. Ora, no meu agnosticismo nem me quero envolver nessa guerra, nem sequer me oponho à religião e aos deuses que ela propõe. Sou agnóstico, em primeiríssima instância, porque quero simplesmente poder dizer “não sei”, porque é essa a minha verdade e porque é dessa forma que sou coerente e honesto comigo próprio. Sobre a origem, o sentido e a natureza das coisas: Não sei, é o melhor que consigo. Ao passo que os ateus, e os crentes, sabem. Ou estão convictos que sabem.
Por outro lado, a religião é “A” questão para os ateus (que meio por graça continuo a afirmar serem simplesmente agnósticos radicais), é a raiz de todo o mal, como diz Richard Dawkins. É o inimigo. Ora, para mim não é. Os meus inimigos são, à cabeça, o fanatismo e a intolerância. E para mim a religião é um instrumento como outro qualquer, pode ser bom, pode ser mau, depende, cada um saberá a intensidade com que vive a sua espiritualidade. Posso não concordar nem gostar, mas aceito.
Até posso acreditar (sim, também “acredito” em certas coisas e tenho convicções firmes no plano ético, por exemplo) que Deus, os trolls, as fadas, os gnomos e o Godzilla vêm todos da mesma linha de montagem, a prodigiosa mente humana, mas isso não invalida que algumas dessas propostas não sejam extremamente enriquecedoras, por exemplo nos planos do auto-conhecimento, da beleza, da moral ou da relação com os outros e com o mundo*. Não é de desprezar, de todo, a arte ou a poesia inspiradas por sentimentos religiosos, um património cultural fabuloso que nos cabe respeitar e acarinhar, assumindo-os como produtos de génios humanos convictos de uma inspiração divina. A minha composição clássica de estimação, por exemplo, é a Paixão de São Mateus, de Bach, uma obra sublime entre as sublimes, que… não teria existido sem religião.
Por essas e por outras, enfim, valorizo e respeito o universo da religiosidade.
A pluralidade espiritual da humanidade é tanta e tão rica que é, quanto a mim, um erro grave descartar a religiosidade sem mais apelo, como se fosse um tumor a extirpar para que a paz e a harmonia social se instalem finalmente num mundo sem deuses. Não, não acredito que a religião seja a raiz de todos os males. Acredito isso sim, que se as religiões não existissem, os homens (os homens, as mulheres são outra história diferente…) arranjariam outra forma qualquer de se matarem e odiarem uns aos outros. E mesmo sem religião, o povo também terá sempre muitos ópios com que se distrair, para desespero dos também eternos prosélitos da perfeição social.
É evidente que há cultos religiosos que não precisam da existência de facções radicais estridentes para serem perfeitamente imbecis, tal como há um sem número de outras filiações imbecis nos mais variados sectores de actividade, até nos partidos políticos, mas esta visão redutora e antagonista adoptada pela generalidade dos ateus, principalmente os mais mediáticos, em relação à religião espelha um radicalismo que não consigo partilhar e que me afasta do ateísmo “puro e duro”. Apesar de me considerar muito mais próximo de um ateu do que de um crente.
Em relação às religiões, partilho mais, por exemplo, da visão da ensaísta norte-americana, Camille Paglia, expressa em recente entrevista à Folha de São Paulo: «Essa é a segunda razão pela qual o neoconservadorismo aumentou seu poder. O humanismo secular, com o qual estou comprometida, tornou-se vazio. Eu sou atéia, mas reverencio as grandes religiões como formas espirituais de relacionar a humanidade e o cosmos. Os neoconservadores oferecem a sensação de tradição, estabilidade e propósito para quem repele o individualismo narcisista e hedonista do nosso tempo. Minha estratégia como escritora é oferecer a arte como uma alternativa à religião». A arte como alternativa à religião parece-me realmente um maravilhoso manifesto para quem não hostiliza mas aceita o “adversário” e o combate no mesmo plano de respeito.
Tal como ela, também eu aceito e reverencio as grandes religiões, enquanto manifestações da necessidade humana de “pertencer” a algo cosmologicamente maior, de fazer parte de um sentido mais vasto do que estes aparentes curtos horizontes. Preferia que optassem pela arte, naturalmente, é uma actividade com muito menos potencial para a desgraça, mas o facto é que nem as minhas preferências interessam nem isso é realista. Realista é aceitar a religiosidade como um traço humano, que não está nos genes nem toca a todos mas é incontornável e aprender a lidar construtivamente com isso.
Já agora, também simpatizo menos com Dawkins e mais com o ateísmo menos de trincheira de Sam Harris, com quem partilho a prática (ainda que irregular) da meditação Za Zen e a relativa abertura a uma dimensão espiritual da existência.
2. Como já referi noutro contexto, estou convencido que assim como África ainda não se libertou do tribalismo, também o problema do mundo islâmico é ainda não se ter libertado da religião – e é neste contexto que acho que o problema do Islão é comum à generalidade das religiões codificadas: o fanatismo. O caso islâmico é particularmente agudo, porque os radicais têm rédea solta, mas sem fanatismo o Islão já teria há muito iniciado seu processo de exegese e conciliação, adaptando os seus códigos ao tempo social e cultural do momento. Como fez por exemplo o cristianismo. Neste aspecto, quando são factores sociais predominantes, sou contra as religiões, naturalmente, assim como sou contra qualquer sistema que se imponha, impeça o florescimento de outros sistemas ou que de qualquer maneira limite as liberdades individuais. Incluindo a liberdade individual de acreditar no que quer que seja.
Mas, por norma, o pensamento religioso não me incomoda nem o tenho como ameaça. Pelo contrário, é um tema que me apaixona e que continuo a estudar com afinco. Falta-me, é claro “sentir”, ter a experiência religiosa de que falam os crentes (que têm sempre o confortável e enorme guarda-chuva do “mistério”…), mas não penso ser nem realista nem desejável erradicar o chamado sentimento religioso. Eu não quero seguir nenhum dogma, é uma opção minha em liberdade, mas admito pacificamente que outros o façam e compreendo que seja irresistível a esperança de eternidade e perdão.
Lamento ou condeno quando há um evidente elevado grau de alienação e extremismo, mas da mesma forma que o faço em relação ao futebol ou aos nacionalismos. Ou seja, aceito a inevitabilidade do desequilíbrio humano, mas não deixo de defender o equilíbrio.
O meu problema central não é a religião, mas a forma como ela é eventualmente praticada e, mais que isso, o mecanismo da crença, o fenómeno da convicção. O caso do Islão, por exemplo, preocupa-me mais porque, como já referi, é uma religião cristalizada e arcaica em grande expansão e porque as sociedades islâmicas ainda não deram o salto para a laicidade: a sua lei principal (a sharia), que rege o dia a dia da generalidade dos crentes muçulmanos e de que vemos aplicações mais rigorosas em países como a Arábia Saudita, o Irão ou a Nigéria, emana dos textos religiosos, dos guardiões do templo e do pensamento único; não emana do povo. E acontece ainda que fere alguns dos valores que no ocidente, no contexto da chamada sociedade das nações, temos como universalmente bons. É nesse sentido que não defendo a erradicação do islamismo, mas sim a sua modernização, bem como a emancipação da sua sociedade civil e política, que deve deixar de ser governada pelo clero para passar a governar-se a si própria.
Os povos ocidentais conseguiram-no e obrigaram as religiões dominantes a recuar do espaço público e a adaptarem-se à passada da história, mas o mundo islâmico ainda está na fase em que é a história a seguir a passada da religião. E como bem sabemos, as religiões são tendencialmente estáticas e conservadoras, quanto mais não seja porque é fundamental para manter a coerência doutrinal. Basicamente, a passada é curta. O resultado está à vista e reflecte-se em atavismos como o estrangulamento de coisas para nós tão essenciais quanto básicas como a produção artística e científica, a dignidade das mulheres ou das minorias, as liberdades individuais, a liberdade de expressão ou reunião, a liberdade de imprensa, o primado do Direito, etc.
É nessa medida que o islamismo ideológico deve ser combatido (como deve ser combatida qualquer tendência totalitária) e que os países seculares como os europeus não devem ceder em relação aos muçulmanos que residam na Europa, nomeadamente não permitindo que a sharia de forma alguma se sobreponha ou se equipare às leis seculares no território europeu. Se pretendem aqui viver e usufruir das benesses das democracias, defendo, claro, que se submetam às regras vigentes das democracias, tal como o fazem os outros emigrantes e as outras religiões, nem mais nem menos. Preocupa-me, por exemplo, que o líder da Igreja Anglicana tenha esta semana defendido, para certos casos, a implementação da Sharia na Grã-Bretanha a par com a lei geral atendendo à especificidade religiosa dos muçulmanos e em nome de uma maior “coesão social”. Isso preocupa-me, preocupa-me que o relativismo ocidental chegue a esses extremos – por outro lado conforta-me a resposta do governo inglês. Mas não me preocupa a religião em si mesma, a ideia de religião, não mais que outra convicção qualquer, já que todas podem degenerar em extremismo.
As coisas que eu não sei, por outro lado, são de outra ordem e transcendem as teorias vigentes de Deus. Não, não acredito nos deuses dos textos religiosos e sim, acho que são ilusões confortáveis (e úteis para quem neles encontrar paz e sentido). E concordo que os crentes, como percebeu e muito bem o filósofo medieval da crónica anterior, são todos ateus. Não em relação a Deus, mas em relação aos deuses dos outros. É o velho busílis da crença: acreditar e não acreditar. Um católico não acredita nos inúmeros deuses hindus, um hindu não acredita na trindade católica e por aí fora sem fim a vista.
Quanto ao resto, nomeadamente de onde vimos e para onde vamos, sou tão ignorante quanto qualquer ateu: não sei e eles também não.
* penso sobretudo nos cultos animistas ou xâmanicos, mais próximos da natureza e no quadro dos quais não passamos de mais uma peça na engrenagem do cosmos, e não nas grandes religiões do Livro, para as quais a espécie humana é a coqueluche predilecta do Criador com direito divino a uso e abuso do meio ambiente, como se isto fosse tudo nosso por obra e graça…
João P. Cruz
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“O meu problema central não é a religião, mas a forma como ela é eventualmente praticada e, mais que isso, o mecanismo da crença, o fenómeno da convicção”. Concordo inteiramente. Aliás, quando vamos a uma peça de teatro ou a um concerto, estamos de certa forma, a aderir a todas as componentes de um fenómeno religioso: alienação do eu, êxtase, emoção, envolvimento no acontecimento, etc.
Só que existe uma ligeira diferença entre aquilo que podemos chamar “ilusões consentidas” (ou seja, sabermos que estamos envolvidos numa ficção) e a “convicções ilusórias” (tomarmos a ficção como realidade). As formas de expressão artística envolvem-nos nas primeiras, enquanto a religião vive das segundas. Podemos de facto ser tolerantes com as “verdades” do discurso religioso, mas apenas na mesma medida que somos tolerantes com as “verdades” dos contos de Shakespeare ou da música de Bach. Aquilo que podemos retirar de interessante, é apenas a alegoria. Extrairmos daí um fundo de verdade histórica ou transcendente significa o empobrecimento da nossa faculdade crítica.
“Arte como alternativa a religião”? Nesse aspecto, saímos de uma falácia para cairmos noutra. Arte é arte e apenas isso. Arte como alternativa a religião já Hitler a aplicou. E que tal “Ser Humano” como alternativa a “Religião”?
Cumprimentos.
Certo. E a diferença não é ligeira, é profunda. Não concordo nada, no entanto, com a alusão ao nazismo. Desde logo porque, a ser verdade, foi uma “aplicação”, no mínimo, desastrada. Para não dizer desastrosa. Além disso nem eu nem Paglia propomos uma Solução. Muito menos para O Problema das “convicções ilusórias”, religiosas ou não. É quanto muito uma sugestão de caminho alternativo, mais no sentido das “ilusões consentidas”.
“Ser Humano” como alternativa a “Religião”, por outro lado, é algo que não concebo e mostra a que ponto somos diferentes na nossa mundivisão, porque pressupõe que a religião é algo exterior ao homem, algo que “não é humano”, que não o dignifica. E não, como efectivamente é, uma manifestação de profunda humanidade, que pode ser exaltante e enriquecedora, tal como a criação artística. É essa a medida do meu respeito pela dimensão religiosa do Ser Humano.
“Ao passo que os ateus, e os crentes, sabem. Ou estão convictos que sabem.”
Não posso concordar com a afirmação, coloca o ateísmo ao mesmo nível dogmático das certezas adquiridas de qualquer religião.
O ateísmo depende do teísmo do mesmo modo que o próprio agnosticismo, em relação ao que escreveu a definição de agnosticismo radical até se ajusta. A questão está efectivamente no “não sei”. Porque eu como ateu também não sei, no entanto não concebo a ideia de me ficar pelo “dizer simplesmente não sei”. Logo, é constante a procura pelo saber, a recusa em viver no engano, mesmo que seja espiritualmente enriquecedor. E é nessa procura que reside o principal motivo de ser ateu.
É nessa procura que se encontram inevitavelmente provas que lhe permitem afirmar, cada vez com menos incerteza a inexistência de um Deus e negar assim o tal conforto espiritual, encontrando-o naquilo que, cada vez com mais certeza, pode chamar verdade. Isto de uma forma sustentada e com o necessário espaço para a evolução, à medida que, como seres humanos, vamos percebendo melhor o que nos rodeia.
Cumprimentos
Caro jpc,
Só agora vi o teu comentário e peço desculpa pela resposta tardia.
Quando me referi a “Ser Humano” como alternativa à religião, não me referia obviamente a “Ser Humano” como religião (no sentido positivista e comtiano do termo), mas ser humano como objecto de introspecção e aperfeiçoamento. Quando te referes à religião como “algo que dignifica o humano”, terei de discordar: porque na própria etimologia da palavra, está subjacente o conceito de “unir”; ora, união neste sentido, eu entendo-a como fusão no colectivo (de outra forma não teríamos “religião” mas mera crença individual); essa fusão pressupõe necessariamente uma diluição da individualidade do “ser” (e a sua subsequente diminuição) na doutrina. Dir-me-ás que todos nós nos “diluímos” de alguma forma em qualquer coisa, quer seja num clube de futebol, no trabalho, na família, etc. É verdade. Por isso mesmo, sou daqueles que se encontra receptivo à ideia de poder discutir “religião” como um conceito onde Deus (pelo menos como o conhecemos) não esteja presente.
Cumprimentos.
Caro Miguel, desde logo só posso lamentar que repise a falácia dos agnósticos que se limitam ao “não sei” e por aí se ficam, como se fossem débeis mentais apáticos. Enfim, nem merece resposta. Quanto ao resto, está bem, pode ser.
Caro Lucas, também peço desculpa pela resposta tardia. Mas, desde logo, não escrevi em lado nenhum que a religião dignifica seja o que for. Pode dignificar, pode não dignificar. Depende. Quanto ao resto do teu raciocínio, partindo do princípio deste erro de base, confesso que se me afigura um pouco confuso. Mas sim, concordo perfeitamente que se possa discutir religião sem meter Deus ao barulho. Se discutirmos a religião hindu, por exemplo, metemos dezenas deles ao barulho, por exemplo… Outra coisa que também depende. Agora a sério: sim, claro, podemos e devemos discutir religião seja como for e seja onde for, com Deus ou sem ele. Sobretudo porque é algo que nos afecta no dia a dia, a todos nós, e é quase omnipresente na vida pública, com impactos práticos e profundos, amiúde nefastos (nem sempre, depende). Só é pena que seja (em Portugal, ainda), um tema tão pouco discutido. Mas enfim, valha-nos projectos como este portal.
Paz e Saúde!