Politeísmo na base da História, Um estudo Histórico e Antropologico sobre a legitimidade das religiões.

Por Daniel Silvestre • 8 Fev, 2008 • Categoria: Juventude, Opinião

Nas culturas religiosas actuais das quais mais se fala, como o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo, normalmente estas estão assentes numa estrutura de figura mítica, uníca, criadora e observadora do mundo ao qual o “Homo Religiosus” deve prestar fé, dedicação e arrependimento. Esta é a estrutura de organização religiosa conhecida por Monoteísmo, ou simplesmente, por um só ser divino.

Acontece que desde a antiguidade, da génese do Homo Sapiens que a história nos mostra que nem sempre assim foi e desde que o homem começou a viver em comunidade embora que nómada que a sua crença em material do foro espiritual, estava ligado a várias formas de poder divino e não apenas a uma identidade divina Una, deuses com figura acente na natureza, eram normalmente aqueles em que os primeiros “homens” veneraram.

A história continua a avançar e já durante a época das grandes civilizações pré-clássicas, o mesmo vem a suceder, na Mesopotâmia, os Sumérios, aquela que é considerada a civilização mais antiga da história humana, via os seus habitantes adorarem a um numero impreciso mas alargado de deuses e que estavam sujeitos ao livre arbítrio destes.

Na época clássica, a Grécia antiga surge como o berço da cultura e da filosofia europeias, e continua a apresentar um sistema de adoração e crença acente num politeísmo hoje considerado mitológico mas aceite, enraizado e tão legitimo como qualquer religião monoteísta dos nosso dias.
A norte, nas zonas geladas da Europa surgia também a religião politeísta nórdica que há semelhança com a Grega, mantinha uma linhagem de deuses com laços de aliança, família e hostilidade.

Aquando do avanço do império Romano e as suas primeiras movimentações, a sua religião inicial atravessou uma fase de aculturação e aglutinação da religião Grega e dos seus deuses que por semântica ou interpretação ganharam outros nomes mas mantinham as suas funções sagradas

Do outro lado do Oceano, na zona da América central e sul, as grandes civilizações, Maias, Incas e Azteca haviam também já criado um sem numero de divindades as quais adoravam e prestavam vassalagem e crença tão legitimamente como uma pessoa faz em relação às suas actualmente.

Não querendo alargar-me para muito mais, não podia como é óbvio esquecer de referir também na religião Egípcia, que será certamente do conhecimento da maioria e onde a panóplia de divindades também atingia um numero superior aos que se podiam contar pelos dedos das mãos.

Mas não é só no passado que vive o politeísmo. Actualmente ainda podemos encontrar no mundo dezenas se não mesmo centenas de comunidades humanas a adorar um número variado de deuses na sua cultura religiosa.

A questão presa a este pensamento é a seguinte, tendo em conta que o politeísmo está muito mais propagado tanto a nível histórico como a nível de comunidades actuais, em que ponto não podemos considerar qualquer uma destas religiões politeístas actuais, ou mitologias extintas, a verdadeira interpretação do espiritual e do religioso?

Seguindo o conceito de respeito pela crença religiosa então podemos partir já de um principio e colocar a seguinte questão; sendo estas religiões validas (pois foram ou são praticadas) então merecem tanto respeito e aceitação como qualquer uma actual? A resposta para muitos seria não, pois das duas uma, ou são religiões extintas (mitos) ou são ideologias ultrapassadas que não fazem qualquer sentido perante a preponderância das religiões modernas. Eu digo errado. Uma religião passa a estar extinta a partir do ponto que deixa de ser praticada ou seguida. Suponhamos que um indivíduo decide venerar os deuses da antiga Grécia e tomar para si os ritos e actividades de adoração desta religião. A verdade é que não podemos por nada, supostamente, criticar este individuo, apesar de venerar uma religião extinta, ainda que suportada por bases ultrapassadas é do seu direito faze-lo e segundo a liberdade religiosa, ser tolerado e nunca criticado por essa decisão, logo isto prova que a religião desta pessoa é tão verdadeira e real como qualquer outra actual.
Assim sendo, este homem pode acreditar nestes deuses da mitologia grega, e deve ser aceitável; que tal avançarmos com a seguinte teoria.

Um grupo de pessoas começava a adorar uma religião monoteísta ou politeísta de uma qualquer série de aventuras literárias, tomemos por nome de exemplo a série Dungeons & Dragons.

Qual seria a vossa posição agora, ao ver um grupo de pessoas agarrar numa figura inventada para criar histórias de fantasia e transforma-la num deus, e anuncia-lo um deus tão legitimo como o deus Cristão ou Islâmico, era sem duvida um acto estranho mas no fundo tolerável pois parte do foro de cada um ter a liberdade religiosa de escolher uma religião e deus à sua escolha. Mas agora imaginemos que este deus fictício inventado para este mundo de fantasia é um deus que exige aos seus súbditos que tenham o instinto homicida de matar crianças até aos dez anos de idade. Aqui sim o caso já mudará de figura, até há pouco seria apenas uma escolha pessoal ao adorar um deus fictício e diferente do da religião de muitas pessoas e mundialmente aceites, para passar a ser um caso claro de julgamento de uma religião perigosa e acima de tudo criada com bases acentes num deus irreal e que todos iam saber criado para livros de aventuras de fantasia.

Mas quem pode dizer que esta nova religião está errada? É em parte (excluindo a parte do homicídio infantil) bastante semelhante a grande parte das religiões existentes, acentes num deus, em normas religiosas e escritas em livro. Coincidência?

Deixando para trás este exemplo mas indo buscar o seu fundamento, então que diriam hoje os Sumérios? Os Gregos? Se partilhassem o mundo connosco, certamente diriam que as religiões actuais dominantes estão erradas e a deles correcta. E neste caso não se apoiariam num livro de aventuras, mas sim numa história e cultura enraizadas e até mais antigas que a própria existência das religiões monoteístas que asseguram a supremacia de apenas um deus dos dias de hoje, estes sobreviviam e veneravam não um mas vários deuses sem sequer pensar nos deuses actuais e mesmo assim viam a sua religião funcionar tal como hoje os crentes acreditam que a sua funcione.

Qual destas poderia ser a legitima, aquela que corresponde à verdadeira essência religiosa e mostra o ente ou entes divinos reais?

E eu respondo, nenhuma delas. Todas as religiões, é certo e sabido que nascem da incompreensão do homem pelo mundo que o rodeia e pela imposição de instituições religiosas de forma a impor a ordem no homem fazendo-o sentir-se impotente perante a cólera de um deus ou mesmo por reciprocidade, ou seja por esperar receber algo em troca pela sua vassalagem religiosa. E se pensarmos nisso, a crença é quase como que um contrato feito entre o homem e deus para garantir uma espécie de moeda de troca, a troca de vassalagem e adoração, por vários motivos, desde sorte nas caçadas da tribo do homem das cavernas até ao acesso ao paraíso por comportamento exemplar nas religiões monoteístas mais actuais. Claro que estas vantagens possuem contrapartidas severas do deus caso o devoto por alguma razão falhe com a sua obrigação religiosa.

Chegado a este ponto termino respondendo a uma última questão que se possa ter surgido sobre este estudo; se de facto a religião é um fenómeno que se revela ao longo da história e pode ser observado em locais até divididos por grandes fronteiras geográficas como um oceano, então é esperado que o homem acreditando em deuses mostre a existência de um ente supremo.

A resposta a esta questão não é de todo simples mas tem um princípio Antropo-Cultural bastante acessível.

Falem com um indígena que tenha pouco ou nenhum contacto com a ciência do mundo ocidental e perguntem; de onde vem a chuva ou a trovoada? Rapidamente este respondera que é um acto divino. E um terramoto? Um acto de cólera de deus que pretenderá punir o homem. Aqui pode constatar-se a condição da lei de menor esforço do homem que quando ainda não têm capacidade para explicar qualquer acontecimento, da natureza ou teoricamente sobrenatural, recorre à explicação da intervenção divina. No entanto sabemos claramente que qualquer um dos fenómenos mencionados nada de divino possuem, mas esta sempre foi a forma encontrada pelo homem para disfarçar a sua ignorância perante aquilo que desconhece ou lhe foge ao controlo. Atribuir a um deus a responsabilidade pelo mesmo, pelo menos até perceber a ordem natural da circulação da água e da sua condensação e o movimento das placas tectónicas que provocam os terramotos, nessa altura, este indivíduo ira certamente recuar nas afirmações e dizer; não é, sem margem para dúvidas, uma vontade ou qualquer demonstração da cólera de um deus.

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Uma Resposta »

  1. A escuridão assusta, o ser humano sempre teve medo do desconhecido, o eco do grito do nascimento perdura até à sua morte. Basta sentir-se ameaçado e sem a protecção da sua mãe para pedir a presença protectora de qualquer deus que o acuda. Há animais que tem qualidades que os humanos desejam para eles seguem o que julgam bom e rejeitam o que os possa prejudicar. Só com as sociedades patriarcais iniciadas em Almendres há VII milénios pelos cónios responsáveis pela cultura megalítica e pela palavra DeEUs, é que se deu o inicio á civilização, foi esse marcador genético R1b herdado do Cro-Magnon.

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