Aquelas “coisas” a que chamamos crenças – a necessidade de crer que o fim não existe
Por Ana Valente • 2 Fev, 2008 • Categoria: Opinião, Psicologia & SociologiaSabemos que nós, os seres humanos, temos dificuldade em gerir emocionalmente o fim quando este se mostra como desconhecido, como é o caso da morte.
Pensemos todos em torno desta temática tão violenta para cada um de nós. Comecemos a pensar mais uma vez a morte; e não precisamos de ponderar a nossa própria morte, basta pensar no que sentimos quando muitos dos nossos entes queridos chegaram ao fim.
Sentiram?
E o fim, a ser simplesmente um fim? Dá medo, angústia, até sofrimento. Naturalmente!
Mas, então, continuemos a pensar: e se eu conseguir acreditar que existe algo depois desse fim? E se eu conseguir construir uma nova verdade? Um novo príncipio?
Sentiram o alívio?
Não precisamos de provas de maior, qual lógica, qual certeza, qual razão… Queremos e precisamos acreditar, por mais subjectivas que sejam algumas das nossas crenças, é o de melhor que podemos ter, para nos confortar.
Como o ser humano é capaz de se enganar a si próprio - sabemos isso - basta olhar mais uma vez para dentro de nós e pensar nas nossas vivências.
Verdade?
Sentimos as nossas crenças como verdadeiras, precisamos disso, o caminho torna-se assim tão mais fácil… E quando sentimos, sabemos que é verdade!
Simples, não é?
Nós sabemos isto, e sabem também os “contadores de estórias”, que fizeram e fazem a história, baseados no que mais toca o ser humano, o medo do desconhecido, o medo de deixar de existir.
Eu acredito - e até vos digo acredito muito - no caminho antes de chegar o fim.
Há algo mais para além da simples crença, que é a vivência. Aceditamos naquilo que sabemos ser a verdade da nossa experiência concreta como Ser Humano, caso contrário a existência racional não seia possível.
O criador deste espaço tem um blog intitulado “Penso, logo sou ateu”. Mas pensar é sempre um acto secundário, enquanto só o sentir é imediato e primário. Por isso, é verdade que sentimos as nossas crenças como verdadeiras, mas apenas se elas deveras se apoiarem na nossa vivência pessoal. De outro modo, trata-se de mera fé intelectual e não real, e existe uma vastíssima diferença entre entre esse crer prático e o outro só teórico.
Há uma frase no sufismo muçulmano em que se diz: “Aquele que fala de Deus sem o experimentar é um impostor.” Ora aí está algo interessante para debate num espaço ateísta!
Quanto ao tema do morte como o fim, há pelo menos 2 aspectos a considerar. O 1º é meramente filosófico, tendo a ver com a concepção do Ser Humano. Obviamente que há a cessação da vida física e, mesmo assim, talvez nem isto seja inteiramente garantido, note-se! Não é que me interesse discutir esta questão, mas o criogenismo (cryonics, em inglês) de cadáveres recentes pressupõe a possibilidade da sua ressurreição, um tema que nem sequer é assim tão actual, já que uma tal hipótese remonta, no mínimo, ao séc. XVIII, e isto falando só do criogenismo científico, claro.
Logo, mesmo apenas sob o estrito ponto de vista da ciência material, a morte, como fim físico, é posta em dúvida, o que revela o fortíssimo apelo da imortalidade inata a que o Ser Humano aspira. Contudo, a especulação filosófica a que eu me referia tem a ver com a importantíssima noção da “consciência individual”, que se expressa em termos como “alma” ou “espírito” ou “atman” e outros, na linguagem religiosa tradicional. Ou seja, haverá uma componente imaterial e, por consequência, imortal que não é afectada pela cessação das funções orgânicas?! Dito de outro modo, a consciência sobrevive à morte física? Claro que tal pressupõe que ela não é um mero “subproduto da matéria altamente organizada”, não estando pois dependente do cérebro humano.
Esta não é, no presente, uma questão que possa ser solucionada pelo conhecimento científico actual, pelo que permanece num limbo filosófico ou metafísico ou religioso. Seja como for, tal noção consubstancia uma mera hipótese teórica, logo, pode sem dúvida apelidar-se de crença, o mesmo sucedendo aos defensores da criogenia que acreditam poderem ser ressuscitados muitos anos ou séculos mais tarde. Como tal ainda não sucedeu, teremos de ver para crer!
Ora falando nesse cepticismo prático que caracteriza a dúvida de São Tomé, há um 2º aspecto muitíssimo mais interessante na crença da imortalidade e que tem a ver com a vivência de algo que deste há meio século começou a ser amplamente divulgado. Falo das denominadas “experiência de quase morte” (NDE ou near-death experiences). O tema é altamente fascinante, como bem sabem aqueles que a ele se dedicam, e proporciona algo mais do que a simples crença intelectual a quem passou por esse transe. Obviamente, “quase morte” não é morte, como “quase golo” não é golo e aí por diante. Isto traz à recordação o famoso poema “Quase” de Mário Sá-Carneiro!
Sem me alargar mais, aquilo que aqui deixo pretende apenas realçar esse conceito de “crença”, não a limitando a um objecto de mera elucubração mental, mas alargando-a também à íntima vivência que a torna viva e actuante e não apenas esperança vã e distante.