Longe de ninguém

Por Helder Sanches • 30 Jan, 2008 • Categoria: Direito de Resposta

O primeiro convidado do nosso espaço “Direito de Resposta” é o padre João António, autor do blog Theosfera, no ar desde Janeiro de 2005. Director e professor da Escola Diocesana de Ciências Religiosas, é licenciado em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica, tendo concluido em Março de 2006 o Doutoramento em Teologia com a defesa da tese “Finitude do Infinito: o itinerário teologal em Xavier Zubiri. Reitor do Seminário Maior de Lamego desde Setembro de 2005, viu diversos artigos seus publicados na revista Lumen, Didaskalia e Christus, entre outras, assim como nos semanários “Expresso” e “Sol”.

1. Pode parecer estranho que num espaço como o PORTAL ATEU haja lugar para um crente, ainda por cima padre.
Pela minha parte, só senti surpresa, não estranheza. É impossível ser crente sem estar atento aos desafios dos não crentes. Data já de 1965 um célebre texto do teólogo Joahannes Baptist Metz que tematiza precisamente as relações entre a fé e a descrença.
O próprio Concílio Vaticano II, terminado naquele mesmo ano, não passou ao lado da problemática do ateísmo. Os maiores teólogos e filósofos olham para ele com grande seriedade.
E dá-se até o caso de, já na antiguidade cristã, ter havido mártires que se declararam…ateus! Pensemos, por exemplo, em S. Justino (curiosamente, um filósofo), que, acusado de ateísmo por se recusar a adorar os deuses do império, não se fez rogado e declarou ser ateu, não em relação ao Deus em quem acreditava, mas em relação aos deuses em quem queriam que acreditasse.

2. Não me considero anti-ateu, desde logo porque Deus não autoriza a ser contra quem quer que seja. Recordo, a este propósito, um texto de Miguel Esteves Cardoso, publicado a 11 de Novembro de 1990 no INDEPENDENTE, que terminava mais ou menos assim (cito de cor): «Porque se Deus existe, não existe só para os acreditam. Existe também para os que não acreditam. Existirá até mais um bocadinho. Porque são os que não acreditam os que mais precisam d’Ele»!
Creio ser este o ponto de encontro que nos pode aproximar. É que, à partida, poder-se-á perguntar: será possível haver um ponto de encontro entre crentes e não crentes? Eu respondo claramente que sim. O ponto de encontro é o Homem. Ninguém, crente ou não crente, discordará da máxima de Séneca (ou de Cícero, segundo alguns): «Res sacra Homo» (O Homem é uma coisa sagrada).
A sacralidade do ser humano, para um crente, atesta à saciedade a sua proveniência divina. Sei que há quem pense o contrário. José Saramago, logo no primeiro dos seus CADERNOS DE LANZAROTE, verteu esta afirmação: «A existência do Homem é o que prova a inexistência de Deus».
Reconheço que, provavelmente, é nesta discordância que mais nos uniremos. Sim, porque não é só na concordância que a união vem. Já Miguel de Unamuno, em A AGONIA DO CRISTIANISMO, sublinhava que «nada nos une tanto como as nossas discordâncias».

3. Como Xavier Zubiri aprendi que acerca de Deus a mostração prevalece sobre a demonstração. Sucede que tal mostração não é linear nem unívoca. Muitas vezes, é acidentada. Lutero recorria muito à dialéctica do Deus revelatus e do Deus absconditus. Para ele, Deus quanto mais Se revela, mais Se esconde e quanto mais Se esconde, mais Se revela.
A prova tem mais que ver com a experiência do que com o puro conhecimento embora não o exclua. Será um conhecimento englobante. Mas Zubiri dizia que a experiência de Deus também pode ser adversativa. Será a experiência dos que negam a divindade. É uma negação, mas, mesmo assim, não deixa de ser uma experiência.
Tenho para mim que o ateísmo é sobretudo negação do teísmo. E não há dúvida de que Deus não é redutível à maioria dos discursos que falam d’Ele. Mas acaba por ser envolvido.

4. Gostaria de falar mais da fé do que do ateísmo. Num espaço como este, não faltará quem fale de ateísmo. Encontrando-nos no respeito pelo humano, sobrarão certamente pontos de convergência: a justiça, a paz, o desenvolvimento.
Agradeço o convite. Não me sinto longe de ninguém. Nem o Deus em quem acredito está longe de quem quer que seja.
Abraço amigo.

João António Pinheiro Teixeira
padre

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  1. A mim o que me parece estranho é que os comentários não alinhados com as teses do blog Theosfera, não sejam publicados. Compreendo perfeitamente a existência de moderação e de algum controlo aos comentários, pois qualquer blog deve ser um espaço de discussão de ideias e não de ataque pessoal. Mas, o que se passa é muito mais que isso, desde que o blog passou a ser moderado.

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