Ser ateu é não estar calado. Certo?

Por Carlos Moura • 21 Jan, 2008 • Categoria: Ciência & Educação, Cultura, Opinião

Uma das questões que alguns amigos me colocam, assim que sabem que faço parte deste portal, é “Porquê?”, e a pergunta faz todo o sentido.

Porquê fazer parte de um portal ateísta? Porquê ter que dizer ao mundo “Não acredito em Deus”? Porquê arriscar o nome em praça pública com uma discussão que ainda é tabú? E porquê entrar nessa batalha do activismo, porquê perder tempo e esforço nessa cruzada contra a religião?

Porque sim. Porque é necessário.

Até hoje em dia, os ateus sempre passaram por minoria pelo simples facto de que, normalmente, não se expôem. Não se mostram. Não se assumem. E é natural: para alguém que não acredita em Deus, ir para a rua dizê-lo em alta voz faz aparentemente tanto sentido como andar no passeio com cartazes a dizer “Eu não acredito no Abominável Homem das Neves” ou “Os rios correm para o mar”. Para um ateu, não acreditar em Deus é tão óbvio como não conseguir respirar debaixo de água. E é por isso que todos nós, os hereges deste mundo, temos andado desligados e isolados, ocupados com as nossas vidas e sem perder grande tempo a explicar aos outros que coisas como deuses, unicórnios e gnomos pura e simplesmente não existem. Mas também é por isso que passamos por uma minoria e que temos pouca expressão social.

Lá diz o povo que unido jamais será vencido e o certo é que o ateísmo tem vindo a sofrer algumas derrotas por não estar unido o suficiente, enquanto que os crentes (deístas, teístas e até politeístas) vão continuando a espalhar os seus credos e mitologias pelo nosso planeta. Se há coisa que todas as religiões têm em comum é o apelo à união e nisso eles sabem o que estão a fazer.

E não nos podemos dar ao luxo de continuar a perder terreno, não só por uma questão de bom-senso mas sobretudo por uma questão de evolução.

Em pleno século XXI, vivemos num planeta onde pessoas matam pessoas por acreditarem em diferentes amigos imaginários; onde bilhões de euros são afogados e desviados por cultos, crenças e credos; onde se subjugam, torturam e culpabilizam seres humanos em nome da fé; onde se negam evidências científicas básicas, como a teoria da evolução; onde se impede o estudo e o combate a doenças com a desculpa de dogmas; onde humanos escravizam humanos em nome de entidades mitológicas. Se você acha isto normal, talvez seja altura de recorrer a ajuda profissional.

A maioria das pessoas dirá “Pois, a culpa é da religião”, mas a dita cuja nunca morre solteira.
Grande parte da culpa é também dos ateus.

Pode custar a admitir, mas perante o presente cenário mundial, um ateu calado é um ateu permissivo, que fecha os olhos à realidade e tenta sacudir a água do capote. Um ateu que não se manifesta, que não tenta contribuir para a mudança da maré e para a progressão da humanidade é um cúmplice no crime. É como tentar manter-se de costas para a vala comum da humanidade, na esperança que ela desapareça.

Por isso, se ser ateu é ser alguém clarificado, então tem que ser também alguém com voz. Se ser ateu é ser alguém com um superior nível de consciência (não me batam mas é verdade, reclamem com o Dawkins se quiserem), então é também ser alguém que contribui para a mudança.

E para mudarmos as coisas, não podemos continuar calados. Certo?

Certo.

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10 Respostas »

  1. Carlos Moura

    Tenho de elogiar a sua modéstia quando fala em nível superior de consciência. É óbvio que um ateu é naturalmente mais inteligente do que um crente. Enquanto um crente vê as telenovelas da SIC e da TVI, um ateu observa a radiação cosmológica de fundo. isto diz tudo.

    Qual será a causa desta superioridade intelectual? Provavelmente o decaimento radioactivo do carbono beneficiou mais os ateus do que os crentes. Nem quero supor que existe uma tripla correlação não casual entre calvície –> ateísmo –> superior inteligência. Todos os esforços que eu tenho feito, como crente, para conservar este cabelo semi-grisalho teriam sido debalde. Seria uma grande desilusão.

  2. Caro António Parente:

    É espantosa a coincidência, tenho que lhe contar.
    Ainda ontem à noite, estava eu entretido a observar as radiaçõezitas cosmológicas na minha varanda, quando um vizinho meu me disse mais ou menos a mesma coisa. Este meu vizinho, que é seguidor de Baal, o antigo deus Fenício, aproveitou um intervalo entre um sacrifício de cordeiros para fazer uma visita ao Portal Ateu e ficou bastante aborrecido com este meu artigo.
    Eu compreendo. Mesmo quando eu lhe tentei explicar que termos como “clarificado” ou “consciência” não eram sinónimos de “superioridade intelectual” ele manteve a sua indignação. Olhou para mim com tom grave e disse: “-Anda para aí muito selvagem, é certo, mas não é razão para te armares ao pingarelho”. E ofereceu-me o livro Zend-Avesta, escrito por Zoroastro, que relata a luta entre o bom Ormuz contra o malvado Arimã, que será somente derrotado no dia do juízo final onde todos seremos julgados pelos nossos actos e artigos publicados.

    Ora, este grandioso livro, que nos orienta para a verdade dos deuses Baal, Astartéia e Dagon foi escrito alguns milhares de anos antes de Cristo, o que só garante ainda mais a sua veracidade, além de ter instruções precisas para técnicas de limpeza da alma que envolvem sodomia, bestialidade, prostituição cerimonial, além de sacrifícios de crianças; uma das quais eu estou a fazer neste preciso momento para garantir a minha purificação.
    Hoje à noite, se ele não estiver ocupado a autoflagelar-se, tenho que pedir desculpas a este meu vizinho. Afinal de contas, estamos os dois no mesmo nível de consciência, e a arrogância dos meus escritos foi deselegante e desnecessária.
    Tenho que lhe pedir desculpa e convidá-lo para um serão familiar, onde poderemos contar anedotas sobre os outros infelizes que acreditam em enviados celestiais que caminham sobre o mar e transformam água em bebidas alcóolicas e isso.

  3. Estimado Carlos Moura

    Penso que deveria ter informado a ASAE de que esse seu vizinho estava a sacrificar animais em casa sem condições para tal. É um crime económico e como tal deveria ser punido.

    Lamento o aborrecimento do seu vizinho. Eu, um católico fundamentalista, li prazenteiramente o que escreveu. Não considero que tenha feito qualquer confusão entre “consciência” e “superioridade intelectual”. Fui eu que fiz essa inferência. Considero-a legítima. Para se atingir um nível superior de consciência é preciso uma elevada meditação e concentração. Isso só se atinge de forma inteligente. Repare que não confundo inteligência com curriculo académico. São coisas diferentes. Tenho conhecido doutorados pouco inteligentes e analfabetos muito inteligentes.

    Em relação ao que conta é muito curioso: está de acordo com a teoria de uma autora cujo nome me escapa mas que poderá pesquisar na wikipedia que diz ser o fenómeno religioso uma constante na história da humanidade e que Deus se revelará de diversas formas. Kirshna, Buda, Jesus Cristo, Maomé, seriam manifestações diversas do mesmo ente divino. Até o ateísmo. Porque se Deus não existisse, não existiram ateus. Mas os crentes continuariam a existir. Já pensou nisso?

    Agradeço imenso o seu convite mas preferia ser convidado pelo seu vizinho. Não por causa da auto-flagelação mas pelo carneiro. Com efeito, em dias de carneiro em nenhuma religião existe auto-flagelação, é dia de festa. E um bom carneiro, mesmo não cumprindo as normas da ASAE, não é de desperdiçar.

    Parece-me que o seu vizinho tem uma vida mais alegre do que a sua dada a monotonia da radiação cosmológica de fundo. Não me parece que anedotas sobre infelizes sejam para rir. Pelo menos eu não rio, sou um palerma e choro. Por outro lado, parece-me que existe aí uma excitaçãozinha por causa da auto-flagelação. Eu nunca experimentei mas até podia ser interessante ver o seu vizinho a ensinar-lhe a arte. Quem sabe se o Carlos não ia gostar? ;-)

  4. Caro António

    É com um sorriso de orelha a orelha que encontro esta sua resposta e aproveito só para deixar um par de observações que me parecem importantes neste nosso inesperado mas divertido diálogo.

    Não vou informar a ASAE porque não quero atentar contra a liberdade de expressão religiosa do meu vizinho, além de que ele tem uma banca em alumínio muito jeitosa que mandou fazer por encomenda para o efeito.

    Quanto à questão de inteligência versus currículo académico, subscrevo inteiramente.

    Quanto à questão da manifestação do mesmo ente divino, não vejo razões para ter que ser um só ser, solitário e macambúzio… A acreditar, preferiria ir pela versão de vários deuses com grau de parentesco - porque assim responderia à questão “Quem criou deus?” com “Este outro deus” e por aí fora.
    Essa do “se Deus não existisse, não existiram ateus. Mas os crentes continuariam a existir” parece-me tão verdadeira como afirmar que se as fadas não existissem, não existiriam pessoas que não acreditam nelas.

    Quanto ao convite, no anterior comentário expressei-me mal - queria dizer que ia convidar o meu vizinho para o tal serão e não o António; mas posso sempre dar uma palavrinha sobre a questão de vir lá provar o cordeiro, que é de facto uma excelente aposta gastronómica.

    O meu vizinho tem, de facto, uma vida mais alegre que a minha, embora não se deva menosprezar o potencial entretenimento da radiação cosmológica e fenómenos afins.

    Quanto às anedotas, é um problema - não existem piadas sobre coisas boas, têm sempre que envolver infelizes, idiotas ou azarados.

    A questão da auto-flagelação, também já ouvi rumores sobre os eventuais prazeres que daí advêem. Vou comprar uma corda de sizel, tiras de cabedal e betadine. E uma câmera de vídeo. E depois digo qualquer coisa.

  5. Caro Carlos Moura

    Bom, vejo que está mais perto da religião do que eu pensava. Parafraseando um grande Amstrong: “Aquilo que escreveu pode ser um pequeno passo para um agnóstico mais é um grande passo para o Carlos Moura”.

    Vamos aos factos:

    1) Santíssima Trindade - tem aí um bom começo para se aproximar da religiosidade, em termos familiares.

    2) Convite - há por aí uma vaga hipótese de celebrar a Páscoa juntos

    3) Alegria - reconhecer que a fé dá alegria e que esperar eternamente por uma aurora boreal que nunca virá é despedício é uma maneira de nos dizer, a mim e ao meu vizinho, “venham-me buscar e façam de mim o que quiserem”; não o faremos monge, apenas o iniciaremos nas artes da devoção.

    4) Anedotas - na página da rádio renascença procure a rubrica “figo seco”: encontrará anedotas que não envolvem infelizes, idiotas ou azarados. Um exemplo:

    O casal está a ver uma casa e o senhorio pergunta-lhes:
    - Filhos?
    - Dois.
    - Animais?
    - Não, não, são bem comportados.

    Puro humor cristão católico, sem ser ofensivo para ninguém. O ateísmo terá de percorrer um longo caminho até atingir este grau de sofisticação.

    5) Auto-flagelação - Comece por coisas mais simples: vc e um chicote. Os dois solitariamente num quarto. Esqueça o betadine, o seu vizinho de certeza não usa, é coisa de “mariquinhas” (palavra sem conotação homofóbicas). Nunca viu o Stalone ou o Chuck Norris pararem um combate, completamente ensaguentados, para porem betadine. Ficariam completamente desacreditados. Mais tarde pode acrescentar um espelho (lembra-se do Stalone a coser um ferimento de bala num braço com agulha e linha?). Sei que vcs, ateus, têm uma tendência inata para a ciência mas treine antes sózinho. Depois, mais tarde, vem a câmara de vídeo. Um passo de cada vez.

    Um abraço

  6. Caro António:

    Ah, ah, ah, ah.
    Boa tentativa.

    Só uma coisa: a fé dá alegria da mesma forma e num processo semelhante ao vinho tinto.
    Mas isso, assim como a questão do Chuck Norris, já são assuntos merecedores de artigo próprio nos próximos tempos.

    Eu sei que isto já não deve ser novidade para si, mas gostaria de lhe sugerir dois livros:
    - “Decompondo o arco-íris” de Richard Dawkings, para perceber que a tal alegria e a beleza das coisas existem mesmo quando se percebe a realidade;
    - “Quando é que Jesus traz as costoletas?”, de George Carlin, para humor como deve ser.

    Até à próxima

  7. Caro Carlos Moura

    Bom, parece que decidiu ir-se embora. Tínhamos muito para conversar.

    Em relação aos gurus ateus - Cris Atchim, Dani Dá ao Neto, Rick Daqui e Sem Érres - já li todos os livros. Serão bons temas para futuros artigos no meu blogue, quando eu tiver tempo.

    Penso que não vai haver próxima. Foi só um pequeno teste de mercado para ver como se portava a concorrência… ;-)

    Um grande abraço,

  8. Caro Carlos,
    É a primeira vez que entro no portal ateu. Considero-me deísta ou panteísta ou da religião natural, mas considero-me tão laico como os ateus. Aliás, no geral, revejo-me no ateísmo. Creio que embora ideologicamente possamos diferir a praxis é a mesma. Acredito que as religiões são criações humanas e não revelações divinas, acredito que temos de tomar o nosso destino - o da humanidade - nas nossas próprias mãos, acredito na ciência e no laicismo. Contudo, acredito que existe um ser que eu obviamente não sei nem nunca saberei definir, chamemos-lhe deus ou qualq

  9. Sou médico com algum conhecimento de biologia molecular, por consequência de meu interesse na área. Estou de posse de dois trabalhos, Deus um delírio e o Tratado de Ateologia, bem como da Bíblia Sagrada e inúmeros livros espiritualistas. Ainda não vou começar uma discussão em defesa deste ou daquele ponto de vista mas digo de antemão que em meu primeiro livro, ainda em processo de elaboração, tento cruzar as inúmeras informações contidas nas obras sobre o não crer em Deus, que estranhamente neste site e nos livros, frequentemente aparece com grafia maiúscula. Por quê? Acho, de antemão, que se confunde, ao menos na obra do renomado biólogo Dawkins, o crer em Deus e o enfoque macabro das religiões. É notadamente óbvio o prejuízo socio-econômico e cultural das religiões, sobretudo das com cofres cheios em detrimento da fé. Outra coisa é o fato de que o próprio Einstein admitiu nossa limitação sensória para entender o universo. Espero ter meu trabalho publicado para colaborar com a solução do impasse entre crentes e ateus. Que Deus me ajude. Me aguardem.

  10. «A maioria das pessoas dirá “Pois, a culpa é da religião”, mas a dita cuja nunca morre solteira.
    Grande parte da culpa é também dos ateus.»

    Efectivamente as religiões já deram o que tinham para dar, pelo menos nos moldes conservadores, há dois mil anos não existia internet, o alcance e intervenção das religiões era a oralidade cara a cara, via-se a convicção do mestre, hoje entende-se ou não o seu raciocínio, em directo, a partir do outro lado do mundo. Os Deus que as religiões nos oferecem estão velhos e cansados, mas a segurança social não lhes paga a reforma, nunca descontaram, e a crise económica atinge a todos.

    Os teólogos de todos os credos deveriam ouvir o poeta popular, António Aleixo, que a propósito comentava:
    Há luta por mil doutrinas.
    Se querem que o mundo ande,
    Façam das mil pequeninas
    Uma só doutrina grande.

    Acredito em Deus, mas é com os homens com quem vivo, e mais com os que não ficam calados, que é possível o entendimento, independentemente da opção religiosa, a indiferença mata. Bem hajam a todos os ateus, que ousam questionar, a viabilidade dos nossos descontos, para nossa segurança mental, servirem para a reforma dos ditos deuses.

    Cumprimentos

    Cirilo

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