Ser ateu é não estar calado. Certo?

Uma das questões que alguns amigos me colocam, assim que sabem que faço parte deste portal, é “Porquê?”, e a pergunta faz todo o sentido.

Porquê fazer parte de um portal ateísta? Porquê ter que dizer ao mundo “Não acredito em Deus”? Porquê arriscar o nome em praça pública com uma discussão que ainda é tabú? E porquê entrar nessa batalha do activismo, porquê perder tempo e esforço nessa cruzada contra a religião?

Porque sim. Porque é necessário.

Até hoje em dia, os ateus sempre passaram por minoria pelo simples facto de que, normalmente, não se expôem. Não se mostram. Não se assumem. E é natural: para alguém que não acredita em Deus, ir para a rua dizê-lo em alta voz faz aparentemente tanto sentido como andar no passeio com cartazes a dizer “Eu não acredito no Abominável Homem das Neves” ou “Os rios correm para o mar”. Para um ateu, não acreditar em Deus é tão óbvio como não conseguir respirar debaixo de água. E é por isso que todos nós, os hereges deste mundo, temos andado desligados e isolados, ocupados com as nossas vidas e sem perder grande tempo a explicar aos outros que coisas como deuses, unicórnios e gnomos pura e simplesmente não existem. Mas também é por isso que passamos por uma minoria e que temos pouca expressão social.

Lá diz o povo que unido jamais será vencido e o certo é que o ateísmo tem vindo a sofrer algumas derrotas por não estar unido o suficiente, enquanto que os crentes (deístas, teístas e até politeístas) vão continuando a espalhar os seus credos e mitologias pelo nosso planeta. Se há coisa que todas as religiões têm em comum é o apelo à união e nisso eles sabem o que estão a fazer.

E não nos podemos dar ao luxo de continuar a perder terreno, não só por uma questão de bom-senso mas sobretudo por uma questão de evolução.

Em pleno século XXI, vivemos num planeta onde pessoas matam pessoas por acreditarem em diferentes amigos imaginários; onde bilhões de euros são afogados e desviados por cultos, crenças e credos; onde se subjugam, torturam e culpabilizam seres humanos em nome da fé; onde se negam evidências científicas básicas, como a teoria da evolução; onde se impede o estudo e o combate a doenças com a desculpa de dogmas; onde humanos escravizam humanos em nome de entidades mitológicas. Se você acha isto normal, talvez seja altura de recorrer a ajuda profissional.

A maioria das pessoas dirá “Pois, a culpa é da religião”, mas a dita cuja nunca morre solteira.
Grande parte da culpa é também dos ateus.

Pode custar a admitir, mas perante o presente cenário mundial, um ateu calado é um ateu permissivo, que fecha os olhos à realidade e tenta sacudir a água do capote. Um ateu que não se manifesta, que não tenta contribuir para a mudança da maré e para a progressão da humanidade é um cúmplice no crime. É como tentar manter-se de costas para a vala comum da humanidade, na esperança que ela desapareça.

Por isso, se ser ateu é ser alguém clarificado, então tem que ser também alguém com voz. Se ser ateu é ser alguém com um superior nível de consciência (não me batam mas é verdade, reclamem com o Dawkins se quiserem), então é também ser alguém que contribui para a mudança.

E para mudarmos as coisas, não podemos continuar calados. Certo?

Certo.

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