A “face” do ateísmo em português

Por Manuel Lopes • 18 Jan, 2008 • Categoria: Editorial

Por séculos o tema da religião dominou a actualidade de cada época histórica. Fosse pelas crenças básicas da pré-história na mãe-terra, passando pela antiguidade grega com um politeísmo vincado e deveras imaginativo com épicos relatos sobre-humanos, seja pelo surgimento do fenómeno cristão e das quezílias que surgiram com os crentes muçulmanos e destes com os judeus e, em geral, entre adeptos das várias religiões monoteístas.

Ainda hoje, em sociedades que se deveriam afirmar como civilizadas e absolutamente laicas e isentas de qualquer influência religiosa, a religião serve como (falso) pretexto e como “norte” para o desenvolvimento de diversos conflitos em numerosas regiões do mundo, conflitos que directa ou indirectamente trazem graves repercussões ao nível social, económico, financeiro e político. Mais, servem de mote para a realização das maiores atrocidades de que a história tem memória. Falo aqui do terrorismo, do extermínio de populações, da violação flagrante dos mais importantes direitos fundamentais do Homem, da submissão de fanáticos a princípios incutidos neles próprios desde tenra idade e que informam e conformam os seus actos, desde os mais simples e despreocupados aos mais complexos e destrutivos.

No entanto, existem pessoas que a determinada altura da sua vida questionaram a existência de entidades divinas ou sobrenaturais bem como a necessidade de ter crenças ou de procurar sentido para a sua vida numa fé qualquer. Tais pessoas norteiam-se pela Razão e pela Ciência para procurar explicação para fenómenos que, aos olhos dos menos esclarecidos, parecem ter a sua causa e origem na intervenção de uma qualquer entidade divina. Essas pessoas são os ateus.
Apesar de existirem várias iniciativas na Internet relacionadas com o ateísmo, não existiu, até agora e verdadeiramente, uma iniciativa em grande escala que espelhasse de uma forma ampla as grandes linhas de orientação de um ateu e permitisse o esclarecimento em geral de um leque muito abrangente de temáticas. Isto porque a informação estará um pouco dispersa e, se me é permitido ousar dizer, um pouco desorganizada.

Eis, então, que três ateus resolveram apostar num projecto mais ambicioso, com objectivos bem demarcados e grandes perspectivas futuras, através da criação do Portal Ateu. Neste Portal haverá lugar à publicação de conteúdos com grande versatilidade e riqueza, seja através da participação de convidados especiais, seja com conceitos relativamente recentes, como a difusão de Podcasts, nos quais serão organizados debates e entrevistadas personalidades, públicas ou não, professantes de uma religião ou não, que possam de alguma forma contribuir de uma forma saudável para o esclarecimento das bases, fundamentos e aspectos vários do ateísmo.

Obviamente que o Portal deixa as portas abertas a todos que, professem uma religião ou crença ou não, queiram de alguma forma participar na discussão dos variados temas que serão lançados.

A intenção é clara: sempre de forma “open minded” e tolerante, com introdução de novos argumentos e perspectivas sempre com selecta qualidade, permitir que exista uma verdadeira “face” do ateísmo na Internet em Português. Nem sempre será fácil, mas com determinação e garra certamente chegaremos aos nossos objectivos, sempre com intenção de dinamizar progressivamente o Portal Ateu.

Bem hajam!

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8 Respostas »

  1. À pessoas que ainda pensam que os Ateus deveriam ser mandados para fogueira, excomungados ou serem torturados, como se fazia à uns séculos atrás. Mas podem desenganar-se porque agora já se pode ou deveria-se poder dizer bem alto: Eu penso pela minha cabeça, não preciso de ninguém a mandar na minha vontade, por isso sou ateu.
    Tenho a certeza que este Portal Ateu, vai ser um êxito, e uma lufada de ar fresco no mundo do Aterísmo, por isso deixo já os parabéns aos editores deste Portal.

    Um Abraço a todos.

  2. Obrigado, Alfredo!

  3. Parabéns pela iniciativa!!!
    Que o teclado não vos canse as mãos. Votos do maior sucesso.

  4. Interessante a forma como descreve a evolução humana. Apreciei especialmente o facto de considerar umas bestas todos os teístas por oposição aos iluminados que “resolveram” colocar em questão essas crendices medievais e arcaicas. Pra fogueira com todos esses defensores do obscurantismo.

  5. É com um imenso orgulho, de ateu brasileiro, que venho informar que as vozes do ateísmo português já estão sendo ecoadas pelo mundo ! Venho acompanhando diariamente os sábios argumentos do Diário Ateísta e de Helder Sanches em favor do simples, e mais que lógico, direito de não crer. E com admiração me deparei com o surgimento deste Portal, que provavelmente difundirá com maior intensidade a racionalidade inerte e obscurecida pelo abuso religioso. Sinceros desejos de sucesso no empenho em não se deixar calar as vozes que ecoam a além-mar, é o que espera um ateu brasileiro. Parabéns !

  6. Caros Alfredo, André, João e Alessandro, desde já peço desculpa por não ter respondido aos vossos comentários mais cedo.
    De qualquer forma, agradeço a vossa visita e espero que muitas mais se sucedam. O Portal terá, aliás, conforme referi no editorial, sempre as portas abertas, esperando eu que venham a ficar surpreendidos pela positiva com os conteúdos que serão aqui publicados.

    João,
    A evolução humana pode ser sempre descrita por vários prismas, e muitos deles podem co-existir ao mesmo tempo. Senão veja: grande parte dos conflitos que existem no mundo são causados por interesses económicos altíssimos de pelo menos uma das partes desses conflitos. Outros são causados por falta de tolerância religiosa. Por vezes, uma das partes dos conflitos luta por poder económico, a outra guerreia por motivações religiosas.
    Não defendo que os crentes são mais ou menos inteligentes que os ateus. Entendo, isso sim, que alguns crentes (provavelmente a maioria, pelo menos em Portugal) não tiveram simplesmente hipótese de, sequer, ter o direito a escolher algo de forma livre e esclarecida. É uma realidade no nosso país a falta de formação de grande parte da população. E a falta de formação pode, verdadeiramente, influir na consciência do que nos rodeia, logo, toldar a nossa liberdade de escolha.
    Se eu, desde pequeno, fosse ensinado no sentido de que só existiam iogurtes de aroma de morango e nunca tivesse visto ou provado um de ananás, provavelmente nunca iria acreditar que eles existem.
    Da mesma forma, é minha opinião que muita gente que sempre acreditou em deus nunca sequer se questionou (porque foram levados a assim pensar) sobre a possibilidade de ele não existir. Simplesmente partiram sempre do princípio de que tal entidade existiu.
    Se eu conseguir pôr um crente a questionar-se sobre algumas matérias, e a perguntar o porquê de certos princípios dados por adquiridos, então já ficarei muito contente por ter semeado a dúvida. :)

    De qualquer forma, sejam todos bem-vindos!

    Abraço

  7. Estimado Manuel Lopes

    Há um equívoco que pode matar, à nascença, este blogue. Quem lê o Portal Ateu ou é um ateu esclarecido e militante ou é um crente fanático que se entreterá a esgotar a paciência ao Hélder e amigos ou é um crente desocupado (como eu), de bem com a vida, e que vem para aqui desanuviar.

    Os crentes “toldados” não andam por blogues ateus. Conheço alguns que me criticaram por comentar neste e noutros espaços. “Devias rezar em vez de andares nessas palermices de blogues e comentários”, dizem-me. Talvez tenham razão mas prestar assistência espiritual aos meus primos ateus é um dever de qualquer crente sensato. Nunca, mas nunca, se deve que as minorias se organizem em guetos. Devemos dialogar, conversar serenamente, para nos conhecermos melhor uns aos outros.

    Cada vez que leio blogues como o seu e gurus como Richard Dawkins e Sam Harris vem-me à memória o sermão da montanha. Porque será que as pessoas simples entendem melhor Deus do que os brights? Seríamos tentados a afirmar que as pessoas simples são menos inteligentes e cultas do que os brights, que estão “toldadas” e sem liberdade de escolha, mas esse é o caminho mais fácil.

    Sendo o fenómeno religioso tão natural como comer ou dormir, quer para um ateu quer para um crente dado que sem Deus não existiram ateus nem crentes, não se podem encontrar explicações simplistas para o explicar. Grande mistério que eu espero que as cabeças brilhantes me ajudem a perceber.

    Tenha um excelente fim-de-semana e bons posts. Felicidades.

    Atentamente,

    António Parente

  8. Boa tarde, caro António

    Antes de mais, seja bem-vindo!

    Se não me engano muito, penso que já li algo da sua autoria no blog do Helder. Perdoe-me se estiver enganado. Realmente, os crentes “toldados” não têm o hábito de frequentar blogs ateus, excepto, por vezes, e como muito bem referiu, para andar a “boicotar” os blogs dos ateus.
    Quanto ao fanatismo, entendo que este tanto pode ser religioso como o contrário. Inclusive, já conheci ateus fanáticos e extremistas e digo-lhe que a minha forma de pensar e estar na vida não se identifica com tais atitudes ou condutas.
    Permita-me dizer que não me vou agora pronunciar sobre algumas das questões que apresenta, no meadamente na parte final do seu comentário. Não o faço por cobardia ou receio, mas antes porque no futuro serão publicados alguns artigos relacionados, uns por mim, outros por alguns dos meus colegas do portal. Acho que vai achar alguns deles bastante interessantes.
    De qualquer forma, fique desde já a saber que admiro a sua postura, uma vez que sou adepto absoluto do diálogo e das discussões produtivas e pelo que me apercebo, é uma pessoa que demonstra grande abertura para a discussão de temas sobre religião.

    Um óptimo fim-de-semana para si também!

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